Não conhece o Due Guard? Então não é Maçom! Ou será?

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O trabalho aqui apresentado é de autoria do Irmão Nelson King da Grande Loja do Canadá e trata-se de um monólogo representando um diálogo tido entre um irmão canadense sendo telhado por um irmão americano. O texto busca destacar as principais diferenças entre o Rito de York (americano) e o trabalho de Emulação (ritual inglês muito praticado no Canadá) bem como a diversidade de ritos na maçonaria universal e a importância de se ter conhecimento, respeito e curiosidade sobre os demais ritos. Os trechos em negrito constituem o trabalho do Irmão King e os trechos em itálico são comentários para evidenciar as diferenças mencionadas para aqueles que não conhecem o Rito de York, já que por parte do Ritual de Emulação tudo é muito bem destacado pelo trabalho em questão.

 – Eu sou um Mestre Maçon. Podeis pôr-me à prova. Não, eu não tenho um Due Guard. O que é um Due Guard? Eu tenho é um Due Card (Cartão de Identificação Maçónica)!

Due Guard é um antigo sinal da Maçonaria que actualmente só é utilizado no Rito de York Americano. Ele alude à posição das mãos do candidato no momento em que este assume a sua Obrigação (juramento). Existe um Due Guard para cada um dos três graus simbólicos e eles são dados imediatamente antes de se dar o Sinal Penal do grau.

– Eu não entendo o que você quer dizer com Blue Lodge. Eu pertenço a uma Craft Lodge.

Um detalhe importante: somente no Brasil designamos os rituais simbólicos americanos como Rito de York, pois mesmo nos EUA eles são chamados de Monitor de Webb ou de Craft e são praticados nas Lojas simbólicas que lá são chamadas de Blue Lodges. O Rito de York para os americanos é a versão dos Altos Graus que se inicia no 4° grau chamado de Mestre de Marca (Mark Master Mason) e vai até o 13° que é o grau de Cavaleiro Templário (Knight Templar). Portanto não é correcto chamarmos o Rito Americano de Rito de York, mas é um costume e convenhamos que este é o menor dos problemas que envolvem este termo em solo brasileiro, já que pelo mesmo nome, por muito tempo, assim também foi erroneamente conhecido o Ritual de Emulação no nosso país.

– Você está a dizer que os meus sinais em todos os graus parecem estranhos para si? Os seus sinais é que são confusos para mim.

Fora a ausência do Due Guard, em todos os graus existem pequenas diferenças nos sinais entre os dois ritos.

– Landmarks? Não, a minha Grande Loja não tem nenhum Landmark. Ferramentas de trabalho? Sim, nós temos ferramentas de trabalho. Quais são elas? No 1° Grau elas são a régua de 24 polegadas, o martelo e o cinzel. No 2° Grau são o Esquadro, o Nível e o Prumo. No 3° Grau são o Skirret, o lápis e o compasso. O que é um Skirret? Bem, um Skirret é um instrumento que age sobre um pino central a partir do qual uma linha é desenrolada para marcar o terreno fazendo algo muito parecido com uma linha de giz. Não, não tem nenhuma trolha em lugar nenhum na minha Loja.

No Rito de York as ferramentas no 1° Grau são o Malho (maço ou martelo de corte) e a Régua de 24 polegadas. No 2° Grau são o Esquadro, o Nível e o Prumo. No 3° Grau são todos os demais e a Trolha.

– Sim, nós temos um volume das Sagradas Escrituras (Bíblia). Em que passagens é aberto? Bem, no 1° Grau é aberto em Ruth, Capítulo IV, Versículo 7. No 2° Grau é aberto em Juízes, Capítulo XII, Versículo 6. No 3° Grau, o volume das Sagradas Escrituras é aberto em Eclesiastes XII, você sabe a passagem.

No Rito de York o livro das Sagradas Escrituras é aberto no 1° Grau no Salmo 133. No 2° Grau em Amós, Capítulo 7, Versículo 7. E no 3° Grau também é aberto em Eclesiastes XII.

– Jóias? Sim, nós temos jóias. Nós temos jóias móveis e fixas. Quais são elas? As minhas jóias móveis são: o Esquadro, o Nível e o Prumo, e as minhas jóias fixas são a Pedra Bruta, a Pedra Polida e a Tábua de Traçar. Sim! Eu tenho certeza! As jóias móveis são móveis porque elas são usadas pelo Mestre e pelos seus Vigilantes e são transferíveis para os seus sucessores na Instalação. As jóias fixas são fixas porque elas estão expostas na Loja em todos os graus para que os irmãos interpretem moralmente os seus significados. Eu entendo que costumava ser o inverso para vocês, isto é, até a Convenção de Baltimore de 1843. E também temos a Tábua de Delinear para que o Venerável Mestre possa traçar linhas e desenhar os projectos. Não, eu nunca ouvi falar sobre nenhuma Prancheta de traçar sobre cavaletes.

Como enunciado, no Rito Americano as jóias são trocadas. As fixas são o Esquadro, o Nível e o Prumo e as móveis são a Pedra Bruta, a Pedra Polida e a Prancheta de Traçar.

– Quem usa chapéu na minha Loja? Ninguém, é claro! As únicas coberturas para cabeça que são permitidas são aquelas que algumas religiões propõem, como um kipá. Sim, está correcto o meu Mestre não usar um chapéu. Porque as nossas Lojas foram consagradas com vinho, milho, óleo e orações ao Todo-Poderoso, consagradas à Irmandade do Homem sob a paternidade de Deus, e você não deve cobrir a sua cabeça num solo consagrado, a menos que seja parte da sua religião. É como estar numa Igreja.

Em Blue Lodge, o Venerável Mestre cobre-se, geralmente com uma cartola. Apenas ele se pode cobrir.

– Sim, na minha Loja eu posso andar na frente do Mestre, entre ele e o Altar também, a propósito, sempre andando da esquerda para direita, virando em ângulos rectos a cada canto. Isto chama-se esquadrar a Loja e remonta ao tempo em que sabemos que os paramentos eram desenhados no chão com giz. Você esquadrava a Loja para não apagar os desenhos de giz.

Em Blue Lodge, a circulação em Loja é livre contanto que não seja cruzada a linha imaginária que liga o Venerável Mestre no Oriente ao Altar (Livro das Sagradas Escrituras). Esta linha só pode ser cruzada nas circunvoluções nas sessões magnas quando expressamente autorizado no ritual. Em algumas Lojas americanas também se esquadra a Loja.

– Sim, nós temos colunas na minha Loja. Não, elas não tem globos celestial ou terrestre. Elas são adornadas com capitéis, e estes capitéis são adornados com redes, lírios e romãs. A rede a partir da conexão das suas malhas denota união. Os lírios a partir da sua brancura denotam a pureza. E da exuberância das sementes das romãs denotam a sua abundância.

No Rito Americano, temos duas colunas sustentando uma o globo celestial e outra o globo terrestre. Estas colunas orlam a porta interna da Loja, por onde os candidatos entram nas sessões magnas. A propósito, no Rito de York, temos duas portas no ocidente: a porta interna, à esquerda do 1° Vigilante, já explicada, e a porta externa, à direita do 1° Vigilante por onde os Irmãos entram normalmente.

– Sim, nós temos a Letra G. Não, ela não está suspensa no Oriente. A letra G, denotando God (Deus), está suspensa no centro da Loja. Porquê? Porque é o que é dito numa parte da Cerimónia de Encerramento no 2° Grau.

No Rito Americano, a Letra G fica suspensa no Oriente, em cima do Venerável Mestre. Denota Geometria.

– Não, nós não temos reuniões administrativas. Sim, nós tratamos dos assuntos administrativos da Loja. Isto é feito durante as nossas Sessões Ordinárias. Não, como eu disse, nós não temos reuniões administrativas, nós temos apenas reuniões ordinárias e emergenciais. O que é uma reunião emergencial? É uma reunião de emergência é qualquer sessão convocada pelo Venerável Mestre que não estava prevista como uma reunião ordinária. Não, nós também não tratamos dos assuntos da Loja no 3° Grau. Nós fazemos todos os trabalhos da Loja no grau de Aprendiz Admitido, e a única razão para irmos aos graus de Companheiro de Ofício ou Mestre Maçon é para conferir estes graus. A Loja é sempre aberta e fechada no 1° Grau. Se você acabou de elevar um candidato ao sublime grau de Mestre Maçon, você deverá fechar a Loja no 3° Grau, depois no 2° Grau e finalmente no 1° Grau.

– Os nossos Aprendizes podem participar de todas as votações, participam de comités, aprendem a realizar os trabalhos ritualísticos no Grau que eles possuem e são considerados maçons completos inclusive com direito a Funerais Maçónicos. E sim, você também costumava fazer todo o seu trabalho de Loja em 1° Grau. Mais uma vez, esta mudança deveu-se à Convenção de Baltimore em 1843.

Nas Lojas Americanas, não se trata de assuntos administrativos e financeiros em Loja aberta. Tem-se reuniões administrativas para tal. Além disso, quase todas as sessões são no 3° Grau. Só são abertas no 1° ou 2° graus para conferir estes graus aos candidatos ou dar as instruções preparatórias para aumento de salário. Nos EUA pode-se chegar a Mestre em cerca de 1 mês após iniciado, após o que o Irmão é considerado um Maçon completo e pode tomar parte de todos os assuntos e sessões da oficina.

– Não, eu nunca ouvi falar na Câmara do Meio, mas nós temos uma cerimónia, que não é um grau. É aberta apenas depois do 3° Grau ou na noite da Instalação. Chama-se O Conselho de Mestres Instalados, onde apenas os Mestres Instalados e o Past Master são permitidos, com excepção do Mestre Eleito. Aqui o Mestre Eleito toma mais uma Obrigação sobre guardar os segredos da cadeira do Mestre. Aqui ele recebe o toque e a palavra de um Mestre Instalado e o sinal e saudação de um Mestre das Artes e das Ciências. Ele então é instalado na cadeira do Rei Salomão. Então o Conselho é fechado. Todos os Mestres Maçons são convidados a voltar para dentro da Loja. O novo Mestre da Loja é então apresentado para os demais mestres maçons e o Mestre faz uma explanação sobre as ferramentas de trabalho no 3o grau. A Loja é fechada no 3o grau e todos os Companheiros são convidados a voltar e são apresentados ao novo Mestre da Loja que faz uma explanação sobre as ferramentas de trabalho do 2o grau. A Loja é fechada no 2o grau e todos os maçons são convidados a entrar, são apresentados ao novo Mestre que apresenta as ferramentas de trabalho do 1o grau. Então todos os outros oficiais são investidos como oficiais da Loja. Investidos, pois o Venerável Mestre é o único que é instalado.

Este costume de Conselho de Mestres Instalados narrado a cima, nós brasileiros herdamos dos ingleses na época da cisão de 1927 e levamos para os demais ritos, entretanto nos EUA a cerimónia de instalação não segue este procedimento, sendo uma cerimónia simples e pública aos familiares dos Irmãos e demais convidados.

– Se eu te posso dar a palavra de um mestre Maçon? Sim, eu posso, mas são duas palavras que só podem ser dadas com os Cinco Pontos da Fraternidade e sussurradas. Sim sussurradas, não em voz baixa, e sim são duas palavras.

– Se sou um mestre Maçon? Podeis pôr-me à prova.

– Eu faço parte de um grupo mundial de maçons cujo ritual se chama Ritual de Emulação. Na Grande Loja do Canadá, na província de Ontário, o nosso ritual é chamado de “O Trabalho” e é um dos modelos do Ritual de Emulação.

– O Ritual de Emulação é um dos mais antigos rituais do período “pós-união”. Provavelmente ele é o mais antigo, mas dadas as reivindicações rivais e na ausência de provas concretas, esta questão não pode ser respondida com certeza. Há dois pontos sobre Emulação que parecem colocá-lo numa classe única:

  1. Foi uma Loja de Instrução, isto remete a 1823, e continua a existir desde então até aos dias de hoje;
  2. É hoje o mais organizado de todos os rituais conhecidos, tendo um governo para protegê-lo através da história, e nesse sentido, eu acredito que ele supere todos os demais rituais conhecidos.

– O Irmão C. F. W. Dyer, no seu “Emulation Ritual to Remember”, que é uma história padrão da Emulation Lodge of Improvement (Loja Emulação de Aperfeiçoamento), publicada em conexão com o sesquicentenário em 1973, mostra que os fundadores tiveram dificuldades na sua formação, porque as Lojas de Instruções naquele tempo tinham que ser patrocinadas por uma Loja. Os fundadores do Emulação decidiram que aquela Loja de Instruções deveria ser apenas para Mestres Maçons (assim como é hoje), e as Lojas que foram convidadas para a patrocinar ainda não estavam prontas para aceitar esta restrição. Eventualmente, a Loja Emulação de Aperfeiçoamento foi patrocinada, em 27 de Novembro de 1823, pela Lodge of Hope (Loja da Esperança) naquela época n° 7, cujo Mestre, Joseph Dennis, era um dos membros originais da Emulação.

– Se o Emulação é o original ou mais antigo ritual praticado hoje em Inglaterra? É com certeza um dos mais antigos, mas é impossível dizer se é o original. Como o Irmão Dyer explica: “Nenhum registo oficial jamais foi encontrado sobre o ritual da Lodge of Reconciliation que foi aprovado pela Grande Loja.

– Emulação é provavelmente o ritual mais próximo, dos conhecidos até então, dentre todos os rituais que sobreviveram aquele período. O seu maior mérito é que teve uma continuidade adequada no que diz respeito ao controle e preservação do seu ritual desde a sua fundação.

– Em Inglaterra, em 1813, as duas Grandes Lojas rivais, os Antigos e os Modernos, uniram-se após sessenta anos de hostilidade selvagem, e formaram a United Grand Lodge of England (Grande Loja Unida de Inglaterra). Após a união, que é chamado de pós-união, o ritual foi totalmente revisado para ser aceito por ambas as partes. Foi aí que muitas porções distintas dos rituais do período pré-união foram abandonadas. Foi aí que as duas palavras substitutas começaram a ser utilizadas; uma pertencia aos Antigos e outra aos Modernos, e eles não conseguiam concordar em qual era a correcta, então preservaram as duas. A propósito, os Antigos eram o grupo mais moderno e os Modernos eram o grupo mais antigo, mas esta é uma outra história. E é por isto que o meu ritual difere tanto do seu. Por isto e também pela Convenção de Baltimore em 1843 quando vocês decidiram fazer todo o trabalho no 3° grau, e mudaram as jóias móveis para fixas, para que vocês pudessem afastar os profanos e os bisbilhoteiros. Esta Convenção Maçónica Nacional também mudou o Due Guard nos 1° e 3° Graus. Due Guards, que eu não tenho.

– O ritual de mais da metade das Lojas sob a jurisdição inglesa e os rituais de grande parte das jurisdições no exterior, incluindo a Grande Loja do Canadá na província de Ontário, é baseado no Ritual de Emulação.

– Não, eu não tenho um Due Guard. Mas eu sou um Mestre Maçon. Podeis pôr-me à prova.

– Por qual instrumentos de arquitectura eu serei provado? Pelo Esquadro e pelo Compasso, os mais conhecidos símbolos da Maçonaria, que transmitem os significados abstractos e as finalidades científicas da maneira mais clara e abrangente, Venerável Senhor.

Nelson King
Tradução e comentários de Guilherme Cândido

Fonte

  • KING, Nelson. No Due Guard! He Can’t be a Mason. Can He?

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1 thought on “Não conhece o Due Guard? Então não é Maçom! Ou será?”

  1. Ladislau Rodrigues de Moura

    Muito esclarecedor tais conhecimentos. Sabiamente a cada dia me torno um aprendiz.·.

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