O fio da Navalha de Ockham na construção de Templos com Pedras Brutas…

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Navalha de Ockham

Assim como no erigir de um alicerce, de um muro, ou de uma muralha, com o esquadro, o nível e o prumo, verificando-se sempre se tudo “está justo e perfeito…”, assim como em qualquer construção de um templo, ponte ou fortaleza de pedras quando de um período da Maçonaria Operativa, assim também o é na Maçonaria Especulativa, em que é preciso o uso de métodos próprios da Sublime Arte da Verdadeira Construção, com os seus usos e costumes de carácter simples, directo, objectivo e prático-filosófico-científico, mas, também o é, de bom alvitre, o passar da Navalha de Ockham [1]….

Guilherme de Ockham, em inglês William of Ockham (existem várias grafias para o nome deste franciscano: Ockham, Occam, Auquam, Hotham e Olram; Ockham, 1285 – Munique, 9 de Abril de 1347), foi um frade franciscano, filósofo, lógico e teólogo escolástico inglês, considerado como o representante mais eminente da escola nominalista, principal corrente oriunda do pensamento de Roscelino de Compiègne (1050-1120). Guilherme de Ockham, também conhecido como o “doutor invencível” (Doctor Invincibilis) e o “iniciador venerável” (Venerabilis Inceptor), nasceu na vila de Ockham, nos arredores de Londres, na Inglaterra, em 1285, e dedicou os seus últimos anos ao estudo e à meditação num convento de Munique, onde morreu em 9 de Abril de 1347, possivelmente vítima da peste negra.

Guilherme de Ockham, ou William of Ockham (1285 - 1347)
Guilherme de Ockham, ou William of Ockham (1285 – 1347)

Por seu pensamento filosófico considerado “herético”, Guilherme de Ockham foi excomungado pelo Papa João XXII e reabilitado posteriormente pelo Papa Inocêncio VI. “É vão fazer com mais o que se pode fazer com menos…”. Defendia que não devemos multiplicar os problemas e chegar ao mínimo necessário, o simples, reduzir as coisas para uma resolução eficaz… Ockham busca pelos princípios gerais e procura o simples no complexo. Se há um modo simples para se resolver com economia de tempo e de recursos, por que o complexo?

“A preferência pela explicação mais simples remonta a Aristóteles (Estagira, 384 a.C. – Atenas, 322 a.C.). Ela era frequentemente justificada pelo facto de a natureza sempre escolher o caminho mais simples. Ockham negou, porém, essa justificativa, afirmando que ela limitaria a omnipotência de Deus. Tal restrição da vontade divina não era aceita por ele. Na concepção de Ockham, Deus poderia escolher igualmente bem o caminho mais complexo ou o caminho mais simples. Entretanto, as teorias devem satisfazer o princípio da economia. Na construção destas, elementos supérfluos devem ser eliminados e a mais simples de duas teorias possíveis explicando um mesmo fenómeno deve ser escolhida. Em Ockham, uma lei, ontológica na sua origem, torna-se então uma regra prática para a teoria do conhecimento.”

Num mundo cada vez mais objectivo, prático, pragmático-científico, racional, reducionista e economicista, é preciso passar a Navalha de Ockham diante de tantas “multiplicidades inócuas de grãos de areia”, é preciso concentrar-se na verdadeira construção com os “grandes blocos de cantaria”; as “Grandes Colunas”. É preciso não se perder nas coisas amiudadas; nos “FE-BE-A-MAs” [2]…; e partir para o uso da simplicidade directa e resolutiva; do delinear das pedras; de lojas, ateliês, aprendizagens, liturgias, sistemas de trabalho e ritos, prospectivamente.

Talvez, o melhor da parcimónia e eficiência seja a análise, o estudo ou a aprendizagem partindo de um caminho mais simples para o mais complexo, ou do método indutivo, do particular para o geral, de uma simples passagem de um Ritual para uma busca filosófica maior de um sistema de trabalho maçónico, ou caminho inverso, do geral para o particular, mas sempre dentro da lógica do simples para o mais complexo na economicidade e harmonia. Não é à toa que o Trivium e o Quadrivium [3] foram as bases da formação dos homens medievos livres e forte contribuição para a formação integral do homem da maçonaria operativa, além da aprendizagem do seu ofício, partindo do mais simples, do nível ou grau de um simples aprendiz, a de um companheiro de ofício, a um mestre hábil na arte da construção…

Estas reflexões, ou puras digressões em 5 pontos, chegaram-me a mim, metaforicamente, como de uma lasca de pedra desprendida em alta velocidade, por consequência de um golpe de cinzel no trabalhar na pedra bruta do meu pensamento, engendradas entre

  1. “A Filosofia Política de Guilherme de Ockham”;
  2. A teoria da “Navalha de Ockham”,
  3. As leituras aplicadas às Maçonaria Operativa e Especulativa com forte influência do simples no Trivium e Quadrivium, além das aprendizagens dos seus ofícios em guildas;
  4. dos seus métodos próprios de tratar o sistema de trabalho maçónico especulativo actual; e,
  5. O futuro da Sublime Arte sem complexidades inócuas.

Diante da fenomenologia contemporânea das complexas superfluidades e a perda do verdadeiro foco alveneiro, das perdas do fazer maçónico prospectivo, é preciso, também, nas nossas vidas maçónicas, evoluir, aplicar a teoria do fio da Navalha de Ockham…

Alexandre Fortes, 33º – CIM 285969 – ARLS Cícero Veloso n° 4543 – GOB-PI

Notas

[1] Navalha de Ockham – Princípio de Guilherme de Ockham, também chamado de Princípio da Economicidade ou Parcimónia.

[2] “FE-BE-A-MA” – “Festival de Besteiras que Assolam a Maçonaria”, neologismo por mim criado, baseado no Febeapá – O Festival de Besteira que Assola o País, de título do primeiro livro de uma série de três do autor brasileiro Sérgio Porto, cujo primeiro volume foi publicado originalmente em 1966 e que reúne os textos que ele publicara com o heterónimo de Stanislaw Ponte Preta.

[3] Trivium (lógica, gramática, retórica) e Quadrivium (aritmética, música, geometria, astronomia). Referem-se aos ofícios, disciplinas académicas ou profissões (“artes”) desempenhadas pelos homens livres.

Referências

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1 thought on “O fio da Navalha de Ockham na construção de Templos com Pedras Brutas…”

  1. Marcelo Gonçalves Ribeiro

    Muito esclarecedor. Conceitos ideais, que fundamentam o mundo real, melhor: isentos, puros, esclarecedores, norteadores e acima de tudo benéficos ao homem.

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