“A ambição universal dos homens é viver colhendo o que nunca plantaram”
Adam Smith (1723-1790)
Introdução
Para introduzir o tema, peço permissão para ler um poema. Um poema do escritor e poeta niteroiense Jacy Pacheco, que ilustra a constante angústia que nos produzem os sentimentos ambíguos.
O título é: “Ambição do Pingo d’Água” e diz assim:
“A noite esqueceu no côncavo de uma folha vizinha de um riacho um pingo d’água.
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Veio o sol como uma rosa grande ardendo em febre e envolveu a pequenina gota num punhado de cores.
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Pingo d’água acordou, olhou para baixo… gostou do riacho…
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Sonhou ser assim, ser riacho também…
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E correr, e crescer, ir além…
Ser um rio bem grande maior que ninguém.
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Veio o vento de repente e desgarrou da folha o pingo d’água.
Pingo d’água morreu.
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Pingo d’água perdeu-se no riacho…
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Pingo d’água sou eu”.
Francis Bacon [1], no seu ensaio “Da Ambição”, diz: “A Ambição é como a bílis, humor que torna os homens activos ardentes, cheios de alacridade, e movimentados, se não for obstruída. Mas, se for obstruída e não tiver curso livre, começa a ser adusta e, portanto, maligna e venenosa. Assim, também os homens ambiciosos se encontram caminhos abertos para a sua ascensão e continuam a progredir, são mais negociosos do que perigosos; mas, se forem contrariados nos seus desejos, tornam-se secretamente descontentes e projectam mau-olhado sobre os outros homens e sobre coisas; alegram-se apenas quando as coisas correm mal, o que é a pior condição no servidor de um príncipe ou de uma república”.
Seguindo o rastro da palavra Ambição, nos tempos da antiga Roma, dizer em bom latim que alguém era “ambitiosi”, significava dizer que estes viviam mendigando favores em busca de um cargo. De uma derivação desta palavra (ambitio-onis) é que veio o termo ambição, que significa, enfim, ansiar, pretender. Ambição, seria, pois, o desejo forte de fortuna, de glória, de honrarias, de poder ou de outra coisa qualquer, dependendo do contexto.
Ainda nesta linha, poderia haver, como querem alguns, diferenças entre os vocábulos aspirar/aspiração e ambicionar/ambição.
Aspirar significa desejar profundamente; almejar, pretender, querer; ambicionar, por sua vez, é desejar ardentemente, ter ambição de; cobiçar. Existiriam mesmo diferenças entre elas ou somente visões diferentes de um mesmo tema?
Se olharmos as definições das suas derivações, talvez possamos entender um pouco melhor. Vejamos, pois: Aspiração seria um desejo profundo de atingir uma meta material ou espiritual, enfim, um sonho; ambição, um forte desejo de poder ou riquezas, honras ou glórias, de cobiça ou cupidez.
Façamos a nossa interpretação destas diferenças: aspiração seria uma “boa” ambição; e ambição uma “má” aspiração. Confuso? É possível, pois, na filosofia interpretativa, cada qual escolhe o caminho que mais lhe interessa.
Seguramente, o que não podemos ou não devemos, é separar ambição da ética, da solidariedade e da honestidade.
Para o Budismo [3], vencer o apego é vencer a dor. Buda pregava que o apego à matéria causaria sofrimento porque o mundo físico não é permanente. O materialismo, o desejo, a luxúria e a ambição — seguidos da desilusão — são as causas da dor. Livrar-se deles é livrar-se do sofrimento.
Por outro lado, segundo Allan Kardec [2], “com a fraternidade, filha da caridade, os homens viverão em paz, poupando-se aos males inumeráveis que nascem da discórdia, filha, a seu turno, do orgulho, do egoísmo, da ambição, do ciúme e de todas as imperfeições da Humanidade”.
Não nos confundamos, pois, jamais.
Experimentemos parar um pouco para imaginar quais características individuais aumentam a possibilidade de sucesso profissional. Não ficaríamos longe, segundo os consultores de mercado, de capacidade para gerar resultados, coragem para assumir riscos, persistência, determinação, disposição para aprender, competitividade e liderança. Isto seria diferente de ter AMBIÇÃO?
A ambição [4][5] está implícita em todas estas individualidades. Para termos sucesso devemos, por outras palavras, exercitar a nossa ambição. Ela pressupõe motivação, pró-actividade e vontade de crescer – atitudes que as empresas procuram e valorizam. O segredo para vencer, portanto, é se destacar, inovar, fazer a diferença. No mundo profissional de hoje a ambição é mais do que um simples diferencial – é uma vantagem competitiva essencial. Mas, convenhamos: exercer a ambição nem sempre é algo que se possa fazer com muita cautela e diplomacia. Geralmente, pressupõe demanda de energia, contestação, gosto pelo poder, agressividade e inovação, atitudes que podem desagradar muita gente. As pessoas ambiciosas são impelidas por um poderoso desejo de mudar as coisas à sua volta e o seu próprio destino durante o processo. Ou seja, onde os outros enxergam um obstáculo, elas vêem uma oportunidade. Ignoram o velho e têm coragem de explorar o novo. Pensam grande e se empolgam com inovações e maneiras diferentes e melhores de fazer as coisas.
Aí, é que entra a solidariedade e a ética como contrabalanços da ganância, da cobiça, do chegar a qualquer preço.
Movamos montanhas, mas, sem grandes estragos.
Todo bom ambicioso deve calcular com cuidado cada etapa do seu caminho. É preciso reconhecer que o excesso é sempre perigoso e a moderação é sinónimo de inteligência.
A mitologia grega já deixava isto claro na história de Dédalo e seu filho Ícaro. Dédalo sonhava em voar como um pássaro. Não apenas sonhou como produziu asas feitas de cera e cobertas por penas. Com elas, ele e o filho ganharam os céus. O que aconteceu em seguida é a parte mais conhecida da história: Ícaro, exultante com o voo e querendo subir cada vez mais alto, ignorou a recomendação do pai para não se afastar. Voou para muito perto do sol e encontrou a morte quando as suas asas derreteram por causa do calor. O mito de Ícaro é uma metáfora de como a sua ambição pode levar você ao fracasso. No entanto, assim como no mito, se você souber dosá-la, a sua ambição pode levá-lo aos céus.
Ambição, não por acaso, tem a mesma raiz da palavra ambiente. As duas vêem de ‘ambire’, que significa ‘mover-se livremente’. Traduzido literalmente e, principalmente, se usada correctamente, a palavra ambição significa criar o seu próprio caminho na vida. É simplesmente você saber o que quer para a sua vida, e tentar chegar lá. Ambição, assim, não é uma neurose obsessiva, ganância exagerada ou o desejo de subir na vida pisando os que nos ousam desafiar.
E na Maçonaria?
“La Ambición tiene sólo una recompensa, un poco de poder y un poco de fama, una tumba para descansar y un nombre olvidado para siempre”
(William Winter)
Diante da ambição desenfreada, deve surgir a solidariedade e a fraternidade.
Há um texto de psicologia (em espanhol) intitulado “Os Escaladores de Pirâmides”, que tive acesso, porém, não consegui identificar a autoria e nem a fonte, onde é explicado o que cada um deveria fazer para alcançar o pico desta pirâmide social que está, obviamente, longe de ser uma Escada de Jacob. Este texto ensina aos indivíduos que querem ascender, como devem passar por ou retirar todos os obstáculos: “retirando os que estão na frente e dando “coices” nos que estão atrás, para que não os alcancem”. Esta é a antítese da solidariedade, do amor fraterno.
A palavra ambição pode ter, portanto, duplo sentido. Por um lado está o seu significado profano e por outro, a sua interpretação Maçônica. A primeira é indeterminada e ambígua. A segunda, clara e precisa. Infelizmente, muitas vezes, os maçons se deixam envolver pela obscuridade. Se por um lado a Maçonaria nos seus princípios combate a ambição, busca cultivar nos seus iniciados a boa aspiração.
No sentido filosófico, ambição é uma inclinação obsessiva e enferma de buscar, de qualquer forma e jeito, o predomínio sobre os demais. As suas manifestações são a sede ardente de dominação, de grandeza, de honras ou de riqueza material, para cujo alcance, o ambicioso força, atropela ou aniquila tudo o que encontre pela frente. Um exemplo próximo, é a própria lenda de Hiram Abiff, onde, por ambição, três obreiros decidem obter pela força as palavras, toques e sinais, com o consequente assassinato do mítico arquitecto do Templo de Salomão.
Com este simbolismo a Maçonaria diz-nos que a ambição desmedida descansa num desenfreado egoísmo que induz a busca do poder pessoal a qualquer meio. Por outras palavras, a ambição gera uma forma hostil de triunfar.
Conclusão
Afinal e por fim, existe uma ambição boa? Ou quão ambicioso pode (ou deve?) ser um Maçom?
Assim como a crítica, a ambição não é boa ou má. Assim como a crítica, não é destrutiva ou construtiva. Existe como forma de aspirar um mundo melhor para si e para outrens. Toda forma de progresso que a humanidade tem experimentado, o tem por que o homem género é ambicioso no sentido solidário. Todas as mazelas que sofre a humanidade as sofrem porque este mesmo ser é ambicioso no sentido mais terrível da cobiça, da avareza, da busca do poder a qualquer custo, do sentimento patético da intangível e inatingível perenidade.
A Maçonaria tem grande responsabilidade nisto. Deve ensinar a forma racional e inteligente de administrar este sentimento, fazendo com que os seus membros possam servir de exemplo na transformação desta ambição, quase sempre desmedida, numa aspiração justa de desenvolvimento espiritual e mesmo material.
Graças à ambição, a existência do homem indivíduo e da humanidade colectiva está sempre em risco.
O homem é um predador nato!
A Maçonaria, como instituição, também, por ela (a ambição), corre risco. Ela (a ambição) divide, enfraquece, embrutece o ser humano e o seu entorno. Já temos, infelizmente, “várias maçonarias” (ou seriam apenas formas diferentes de exercer ambições pessoais?). E não basta! Sob a influência do paralogismo justificamos ritos diferentes e, especialmente nos tempos actuais, sem atentarmos para o que acontece à nossa volta, argumentamos que novas lojas promoveriam o crescimento da Instituição. Aí salta o alerta: dividir o que é demais é bom, mas o que é de menos é temerário. Só produzimos frutos dos desejos e ambições pessoais!
A busca de objectivos, metas e progresso é justa. Deveríamos ensinar, isto sim, que esta busca não dispensa a ética, a fraternidade, a solidariedade e o sentimento de que todos somos um só, seres interdependentes entre si e em relação à própria natureza.
Reconhecer, praticar e ensinar este equilíbrio entre sentimentos tão ambíguos, é exercer em sua plenitude preceitos maçónicos, honrando, por consequência, a instituição que pertencemos. Não só a instituição maçónica, mas, também e especialmente, a instituição “género humano”.
Walter Roque Teixeira – ARBLS Palmeira da Paz nº. 2121 – Oriente de Blumenau – GOB/SC – GOB – CIM 184.372
Bibliografia
- Wikipédia, a enciclopédia livre: https://pt.wikipedia.org/wiki/Francis_Bacon
- Discurso de abertura pelo Sr. Allan Kardec: https://www.ipeak.net/pt/6250
- Introdução ao Budismo/Fundamentos do Budismo: https://pt.wikiversity.org/wiki/Introdu%C3%A7%C3%A3o_ao_Budismo/Fundamentos_do_Budismo
- Pinheiro, Daniela: “A descoberta da ambição”, Revista Veja, Edição 1945, 1º de Março de 2006: http://arquivoetc.blogspot.com/2006/02/descoberta-da-ambio.html
- ABATE A LOS AMBICIOSOS | Pensamiento Masonico (blogia.com)

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