“Ah, você também por aqui!”
A exclamação acima foi ouvida durante a apresentação de uma palestra, quando dois amigos se reencontraram depois de longo tempo e se descobriram obreiros da Ordem. Porque é que isto acontece? Porque é que surpresas como estas ocorrem?
Sabemos que no universo empresarial, o Capital Social é representado pelo investimento dos sócios ou accionistas de uma empresa, baseado num plano de negócios previamente elaborado, que permite movimentar o caixa e adquirir os seus activos para a geração de recursos que a sustente e produza o lucro estimado. Neste contexto o capital é um valor mensurável e os fins são claramente identificados.
Nas situações do dia a dia, outra forma de capital pode ser construída com base nas interacções entre as pessoas, como resultado da criação de vínculos que melhorem as relações de amizade, cooperação mútua e satisfaçam necessidades de um modo geral, com benefícios individuais e para toda a comunidade. Para comprovar, nesta era da internet, estão aí os modernos meios de comunicação, com as redes de relacionamentos online repercutindo com uma força avassaladora e que, bem utilizadas, constituem instrumentos valiosos de aproximação, participação, mobilização e transformação social. Dados recentes da União Internacional das Telecomunicações, órgão vinculado à ONU, informam que já são 3,2 bilhões de internautas no mundo.
Ao Professor e escritor americano Lyda Judson Hanifan (1879-1932), da área de educação rural e apologista da importância do envolvimento da comunidade para as escolas de sucesso, é atribuída a introdução do conceito de capital social, entendido como as variáveis intangíveis que são importantes para o quotidiano das pessoas, como a boa vontade, o companheirismo, a simpatia e as relações sociais entre os indivíduos e as famílias que compõem uma unidade social. Segundo ele, o indivíduo é impotente socialmente se entregue a si mesmo, porém, quando entra em contacto com o(s) seu(s) vizinho(s) haverá uma acumulação de capital (Publicado em freemason.pt) social que pode imediatamente satisfazer as suas necessidades sociais e ainda ostentar uma potencialidade social suficiente para a melhoria substancial das condições de vida de toda a comunidade. Enquanto o indivíduo vai encontrar nas suas associações as vantagens da ajuda, da simpatia e da comunhão dos seus vizinhos, a comunidade como um todo beneficiar-se-á pela cooperação de todas as suas partes.
Para o antropólogo organizacional Ignácio Garcia, da Universidade de Buenos Aires, o termo Capital Social envolve as redes de relacionamentos baseadas na confiança, cooperação e inovação que são desenvolvidas pelos indivíduos dentro e fora da organização, facilitando o acesso à informação e ao conhecimento.
O capital social tem sido utilizado como referência de pesquisa promovida pela ONU para elaboração do “Relatório Mundial da Felicidade”, que classifica os países em mais ou menos felizes. O ranking leva em consideração, além do Produto Interno Bruto (PIB) e da expectativa de vida, valores como o apoio mútuo entre os indivíduos, a boa governança, a preservação da cultura e do meio ambiente, o desenvolvimento económico sustentável, a confiança, a liberdade de fazer escolhas, a ausência de corrupção, dentre outros. Um pequeno país que fica no Himalaia, conhecido como Butão, foi o pioneiro e tem sido tomado como modelo, onde há mais de três décadas é medido o índice de Felicidade Interna Bruta (FIB).
Neste cenário, a Maçonaria Universal como uma escola de aperfeiçoamento moral, intelectual e espiritual, impõe-se como um celeiro de construtores e articuladores sociais, que se caracteriza por um rico capital humano. Os seus valorizados membros, portanto, gozam de reconhecimento e diferenciação pelos bons princípios perseguidos.
Grandes nomes da Maçonaria são vinculados a momentos decisivos da história e à fundação de entidades de ajuda humanitária, que funcionam em todo o mundo, e congregam pessoas de todos os matizes. São notórias as acções de manutenção de hospitais, asilos e entidades filantrópicas ao redor do mundo, prestando serviço desinteressado e minorando o sofrimento daqueles menos favorecidos pela sorte. Sabe-se que em alguns países a Ordem mantém instituições que acolhem Maçons em idade provecta e que demandam por amparo qualificado.
Por seu turno, a Ordem Maçónica oferece uma rede de protecção bem discreta aos seus associados, em face da possibilidade de ajuda entre os irmãos, quando enfrentam dificuldades momentâneas como, por exemplo, algum tipo de assistência financeira proporcionado pelos membros da sua Loja, inclusive em caso de falecimento de um dos cônjuges, este com recursos administrados por um Fundo de Assistência Maçónica, além de solução de conflitos familiares, por intermédio do aconselhamento entre os irmãos de cada Loja, dentre outros.
Para a Maçonaria, a família é a célula da humanidade e, portanto um património muito especial, pois é através dela que se edificam os valores morais e humanitários e onde os laços de solidariedade se tornam fortes. Por isso, as esposas dos Maçons são muito valorizadas e têm papel de destaque no fortalecimento e consolidação da estrutura familiar, dignificando, enobrecendo e edificando os princípios e valores que fundamentam a cidadania. São motivo de orgulho os trabalhos realizados pela Fraternidade Feminina das Lojas a que pertencem os seus esposos e, no nosso caso particular, pela Fraternidade Feminina da Grande Loja Maçónica de Minas Gerais, tendo bastante repercussão as actividades do GFEM – Grupo Feminino Esposas de Maçons “Arco-Íris”.
É tradição na Maçonaria as cerimónias de reconhecimento conjugal, onde o Obreiro após se ter casado devidamente segundo as leis civis, pode apresentar a sua esposa aos demais irmãos de forma solene ou em comemoração de bodas. Outro costume é a adopção de Lowtons, onde filhos, enteados (Publicado em freemason.pt) e netos (de ambos os sexos) de Maçons, que tenham idade entre 7 e 14 anos, são adoptados por uma Loja Maçónica que contrai para com eles a obrigação de lhe servir de tutor e guia na vida social. Prestando o último tributo e marcando a passagem do Maçom para o oriente eterno e quando autorizado pelos familiares, causa grande comoção o ritual fúnebre maçónico.
No campo familiar, merecem destaque, também, as quase centenárias entidades Para maçónicas, como a Ordem DeMolay, para jovens do sexo masculino entre 12 e 21 anos, e a Ordem Internacional das Filhas de Jó, para jovens do sexo feminino entre 10 e 20 anos, que orientam para os princípios fraternais, filosóficos e filantrópicos. Vale o registo de que meninos entre 9 e 11 anos, e meninas entre 6 e 9 anos, têm também a oportunidade de participar dos projectos “Ordem dos Escudeiros ” e “Abelhinhas”, respectivamente, como etapa preparatória antes que possam ingressar como membros dessas entidades para maçónicas.
A Ordem da Estrela do Oriente, com mais de 150 anos de existência, e que chegou ao Brasil em 1997, é outra organização fraternal e para maçónica constituída por homens Maçons e mulheres acima dos 18 anos com parentesco maçónico, que tem como um dos seus objectivos congregar a família maçónica e dar suporte à Ordem Internacional do Arco-Íris para Meninas e a Ordem Internacional das Filhas de Jó, tendo-se destacado por inúmeras obras assistenciais.
Ainda pouco conhecida, inclusive entre os Maçons, vale registar a fraternidade Shriners International, que se identifica como uma organização compostas exclusivamente por Mestres Maçons regulares, com a participação das esposas e que cuida do atendimento gratuito na área de saúde para crianças com até 18 anos, por intermédio dos Hospitais Shriners para Crianças®. Trata-se de uma entidade filantrópica reconhecida pela ONU e actuante em vários Países.
No nosso meio, destaca-se, ainda, a Academia Mineira Maçónica de Letras – A Casa de Tiradentes, que reúne os pensadores da Maçonaria, com a finalidade de promover e estimular o cultivo e divulgação das artes, das ciências e das letras, e o estudo da filosofia maçónica, bem como a conservação e o desenvolvimento da Cultura em geral. No seu mais recente trabalho de pesquisa divulgado, consubstanciado na obra “A Verdade dos Inconfidentes”, são apresentados detalhes intrigantes da vida dos personagens que bem ilustram o movimento libertário nascido em Minas Gerais.
Com esta vitrine e por outras acções é que a Ordem exerce um grande atractivo por parte de homens livres e de bons costumes que comungam dos mesmos valores, e estes, quando convidados a aderir ao movimento e aceitos, criam profundos vínculos de amizade baseados no companheirismo e como fruto de sadia, fraterna e ecuménica convivência.
Não é segredo que a condição para o convite de adesão tem como referência a honra ilibada e a probidade inconteste do candidato, pois a força da Maçonaria reside na selecção rigorosa dos seus integrantes. Uma recomendação sempre presente é a de que “o candidato seja sincero perante a sua própria consciência, quando do preenchimento da proposta de admissão”, considerando-se que todas as informações serão objecto de sindicância.
Ao incorporar-se na Maçonaria o iniciado vê descortinar-se à sua frente uma série de desafios e oportunidades de crescimento pessoal, voltados para a ampliação de conhecimentos, desenvolvimentos de habilidades para lidar com situações da vida quotidiana e conscientização acerca (Publicado em freemason.pt) de atitudes decisivas e transformadoras para fazer a efectiva diferença no seu meio social, em benefício da Família, da Pátria e da Humanidade. Neste particular, a formação de lideres ganha novos contornos, vez que embasados em ideais maçónicos de melhor servir e sempre de forma desinteressada, sem vislumbrar ganhos pessoais.
Em face dos estudos e discussões proporcionados pelas reuniões de trabalho, o Maçom nunca se vê deslocado em qualquer evento social onde tenha que emitir uma opinião acerca de qualquer assunto de interesse geral, vez que nas Lojas são debatidos temas envolvendo valores familiares, ética e filosofia, arte, história, políticas sociais, economia, liderança e gestão, filantropia, autodesenvolvimento, dentre outros. Por isso, sempre que a situação assim o exigir, sem abrir mão da discrição e do respeito ao contraditório e às opiniões, o Maçom tem condições de demonstrar conhecimento e argumentação consistentes.
É por estes e outros motivos que um Maçom sempre reconhece um irmão em eventos sociais ou no campo profissional, com base em alguns gestos, termos ou expressões que são agregados ao seu modo de se expressar e agir e que por vezes despertam alguma curiosidade, por alguns interpretados como uma vantagem competitiva ou um dividendo do capital social e intelectual patrocinado pela Ordem.
Assim, a condição de Maçom implica responsabilidades e cuidados adicionais que demandam vigilância diuturna, não permitindo deslizes rotineiros verificados no dia-a-dia de um cidadão comum. Apenas para citar um exemplo, imaginem a situação de um irmão orgulhoso da sua condição, que ostente no seu veículo de uso permanente uma identificação maçónica, e que reage a uma provocação no agito diário ao fazer um gesto obsceno ou proferir uma palavra impublicável a um motorista emocionalmente desequilibrado e apressado forçando uma ultrapassagem. Basta ligar lé com cré para concluir que o conceito da Ordem Maçónica fica maculado para aqueles que testemunham tal situação. Certamente, no mínimo com um quê de ironia vão pensar: “esta é a tal Maçonaria?”.
Na mesma toada, denigre a imagem da Maçonaria aquele que maneja ser aceito para tirar proveito pessoal, servir de meio para atingir interesses na área profissional ou imagina participar de um clube social ou apenas e tão-somente conquistar novas amizades, desfrutar do seu status ou conquistar algum cargo de relevo. Estes, quando identificados, representam o joio que precisa ser expurgado por se caracterizar em erro de selecção pelos respectivos padrinhos e falha do processo de sindicância.
Conscientes desta realidade é que os obreiros vez por outra se surpreendem aos encontrar velhos conhecidos ou amigos em eventos ligados à Maçonaria e proferem a expressão de alegria (ou de espanto!) cotada na abertura desta prancha. O processo de selecção dos membros é bastante discreto. Sempre há vagas na Maçonaria, mas o critério implícito é de qualidade do capital humano e não de quantidade de membros, por isso não existe um guiché de inscrições. Os Mestres espalhados pelo mundo estão sempre observando possíveis candidatos. O ambiente de trabalho na Maçonaria é agradável e o salário oferecido é compensador, apesar de não se traduzir em números. O maior orgulho é reforçar um capital social e transformador inestimável.
Não obstante todo o respeito que a história da Maçonaria inspira e é sobejamente decantado pelos seus obreiros mais dedicados e orgulhosos do status conferido pelo sentimento de pertencimento, ainda é difícil explicar a postura de alguns que preferem omitir a condição de Maçons e preferem a discrição a ponto de reagirem quando questionados a respeito, devolvendo a pergunta sobre o porquê da curiosidade da outra parte, demonstrando certo constrangimento. Permitimo-nos vislumbrar muita insegurança desse irmão, para não ser mais indelicado com os que assim se comportam. Por que não assumir? Talvez o comportamento reflicta o desconhecimento da grandeza da Ordem, por falta de estudos e medo de demonstrar ignorância ou negligência nos estudos, e quem sabe seja o resultado da falta de frequência aos trabalhos em Loja. Esta constatação responde, em parte, a pergunta formulada no primeiro parágrafo acima.
É cediço que a Maçonaria face ao seu grande potencial transformador não pode ficar restrita às Lojas ou Oficinas. Por isso o Maçom precisa de se impor e não apenas a Maçonaria. Esta prepara os seus obreiros e espera que actuem a serviço da humanidade. Urge que esteja nas ruas, praças (Publicado em freemason.pt) e na sociedade civil, ensinando pelos seus valores morais, histórico de obras, não somente em discurso, mas em acções concretas. Muitos ainda, na condição de saudosistas, ficam a relembrar as glórias do passado, para não dizer que ainda vivem lá, descurando do presente e do que precisa ser feito, do capital social que precisa ser fortalecido constantemente para a construção das pontes que unam as pessoas e as demais forças da sociedade.
Um grande exemplo do que pode ser feito pela Maçonaria está representado no projecto de lei de iniciativa popular denominado “Corrupção Nunca Mais”, lançado na Assembleia Geral Plenária da Grande Loja Maçónica de Minas Gerais, realizada em 21.03.2015, acolhido e aprovada pelas 27 Grandes Lojas que compõem a Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil. O projecto visa a estabelecer procedimentos e punições mais severas para os crimes da espécie e ora se encontra na fase de colecta de assinaturas, para posterior encaminhamento ao presidente da Câmara Federal, para os trâmites legais.
Todas estas iniciativas promovem a coesão e a credibilidade da Ordem, e se constituem em ingredientes indispensáveis na formação do capital social e, estamos conscientes de que este capital quanto mais se usa mais ele aumenta e proporciona frutos inestimáveis em valor e em benefícios para toda a Sociedade.
Nestes termos, para que os dividendos deste capital social sejam sempre positivos e perenes, e se traduzam em ganhos para a sociedade, a fraternidade não pode ser utilizada em proveito próprio, devendo todos tratar-se em condições de igualdade, reconhecendo no outro um irmão, sem espaço para privilégios e excepções, unidos pelos sentimentos mais nobres e respaldados na confiança mútua que é o fruto mais saboroso da liberdade, que se consubstanciam nos pilares do edifício social, moral e ético representado pela Maçonaria Universal.
“Aprendemos a voar como os pássaros, a nadar como os peixes, mas não sabemos a simples arte de viver juntos como irmãos”
(Martin Luther King)
Márcio dos Santos Gomes

- Princípios e Ética Maçónica
- Juramento e compromisso maçónicos
- Rito e a arte da conversação em Loja
- A moral é a pedra angular que sustenta o templo maçónico?


Projetos como o “Corrupção Nunca Mais” deveriam estar disponíveis nos site de abaixo-assinado para que o publico em geral, interno e externo à Maçonaria possa assina-lo, mostrando integração sociedade-maçonaria. Por outro lado cabe a Maçonaria dar exemplo chamando às falas e até suspendendo Irmão que na vida publica dão mau exemplo; é comum políticos se deixarem fotografar paramentados e em loja e depois serem vistos nas barras dos tribunais por atitudes pouco ou nada maçônicas.