Palestra Prestoniana de 1925 (Parte II de II)
Uma consideração da fraseologia usada por Anderson no Regulamento XIII, e pela Grande Loja dois anos mais tarde, quando revogaram a regra aí estabelecida quanto à Parte do Mestre, torna certo que quando Anderson redigiu os Regulamentos de 1723 havia apenas dois graus.
Havia a admissão ou aceitação, que tornava o candidato um Aprendiz, ou como a frase agora se tornou, Aprendiz Entrado. Havia um outro grau, a Parte do Mestre, que conferia ao candidato o grau de Companheiro e Mestre. Para se qualificar para ser Mestre de uma Loja, o irmão tinha de estar “entre os Companheiros do Ofício”.
Sobre a natureza deste grau adicional em 1723 não temos qualquer prova; a divulgação que foi impressa no Flying Post nesse ano apenas se refere ao grau adicional, com o título “Companheiro entrado”, e diz que as duas perguntas de teste são: para um Aprendiz Entrado, “Estiveste na Cozinha?” e para o Fellow Entrado, “Estiveste no Salão?” Estas perguntas não se enquadram como perguntas de teste, uma vez que uma simples resposta afirmativa é suficiente para qualquer uma delas, nem se pode dizer que nos dão muita informação.
É igualmente certo que, em Fevereiro de 1725, já se trabalhavam três graus. Temos o registo definitivo de que uma Associação que se intitulava Philo-Musicae et Architecturae Societas foi fundada em Fevereiro de 1725, por oito pessoas, pedreiros, quatro dos quais estão registados no livro de actas como tendo sido regularmente aprovados como Mestres na Loja da Queen’s Head em Hollis Street. E o registo continua: “Antes de fundarmos esta Sociedade, foi realizada uma Loja, constituída por Mestres suficientes para o efeito, a fim de passar Charles Cotton, Esqr., Mr. Papillon Ball, e Mr. Thomas Marshall, Companheiros” Aqui estão claramente indicados três graus. Qual é, então, a história do período em que esta importante mudança ocorreu? A parte que interessa à nossa investigação pode ser reconstruída com algum grau de certeza.
Em 1721, o Grão-Mestre Payne leu na Grande Loja um novo conjunto de Artigos a serem observados. O texto destes não chegou até nós; o que temos em seu lugar são os Regulamentos propostos por Anderson em 1723, que são reconhecidamente uma revisão deles e também contêm matéria adicional. Mas podemos ter uma ideia bastante clara do problema para o qual Payne estava a legislar.
Sabemos que, após um período sem qualquer distinção particular e sem grande aumento de números, o Ofício deu um salto súbito de popularidade e o resultado inevitável foi que as Quatro Lojas que, nesta altura, com um número indeterminado de irmãos não ligados (Maçons de S. João, como eram chamados), constituíam sozinhas a Grande Loja, não podiam absorver as pessoas que agora clamavam por admissão.
Colocou-se então a questão de saber se era possível formar novas Lojas. Para nós, isto não constitui qualquer problema; vemo-lo fazer todas as semanas. Mas, em 1721, era uma realidade inteiramente nova por parte da Grande Loja; devemos reconhecer que era definitivamente uma questão discutível, com muito a ser dito do lado das Lojas Antigas. É, no entanto, bastante claro que a partir da reunião de Junho de 1721, a Grande Loja reconheceu a necessidade de novas Lojas e legislou sobre elas.
Conhecemos as datas da maioria das que foram então constituídas. Mas o poder de formar novas Lojas era muito restrito. Era uma prerrogativa exclusiva da Grande Loja, e cada uma tinha de ser constituída pelo Grão-Mestre, se não em pessoa, então por um Adjunto formalmente autorizado. O facto de ter sido constituída era notificado a todas as outras lojas, tendo o seu primeiro Mestre sido aprovado pelo Grande Mestre e instalado por ele por ocasião da constituição.
E parece que esta não era a única forma de a Grande Loja manter o controlo sobre as novas adesões. O Venerável Mestre tinha de estar entre os Companheiros. A Grande Loja agora determinava que o grau de Companheiro e Mestre poderia ser conferido apenas na Grande Loja. Isto talvez não tivesse importância no que dizia respeito às novas Lojas. Na prática, significava que a Grande Loja retinha nas suas próprias mãos todo o patrocínio, uma vez que podia, se quisesse, impedir que um determinado irmão de uma nova Loja se tornasse qualificado para a Cadeira. Mas mesmo que o Grau em si só agora fosse inventado, a regra funcionava para infringir os privilégios das antigas Lojas. E foi a lei do Ofício durante, pelo menos, quatro anos. Não temos registo de que a Grande Loja tenha efectivamente conferido o grau; mas isso não prova nada.
Mas podemos, penso eu, compreender que, em qualquer caso, as antigas Lojas não estariam de modo algum em sintonia com esta peça de legislação. Ora, é exactamente enquanto a lei se mantém assim que encontramos um novo grau que passa a existir, e que vem entre a Aceitação ou Admissão e a Parte do Mestre. Além disso, como uma consideração sobre ele hoje nos mostra imediatamente, não está de forma alguma ligado ao Terceiro Grau de uma data posterior, mas é em todos os sentidos complementar ao Primeiro Grau, a Admissão original. Na exposição de 1723, o candidato é obrigado a dizer: “An entered mason I have been, – and – I have seen”, enquanto o Grande Mistério dos Maçons Descoberto, de 1724, fala do primeiro dos dois nomes como a Palavra Universal. O relato de Prichard sobre estes nomes já foi referido. Tubal Kain repete-o em 1777. Assim, parece que o novo grau se apropriou de uma palavra de duas, ambas originalmente dadas ao candidato na cerimónia de admissão, e que este uso persistiu durante meio século ou mais.
A regra de a nova Loja ser constituída pelo Grão-Mestre ou pelo seu Adjunto foi rapidamente considerada impraticável. O Ofício expandiu-se de uma forma que os seus governantes não tinham previsto, e quando surgiram Lojas em Bath, Bristol, Norwich, Chichester, Carmarthen, Portsmouth, e Congleton em Cheshire, como foi o caso de em 1724, as regras quanto à Constituição tiveram necessariamente de ser modificadas. A decisão de constituir novas Lojas era agora confiado a deputações e os Irmãos seleccionados eram normalmente membros locais da Grande Loja.
Mas no que diz respeito à regra que restringia a atribuição da Parte do Mestre, a Grande Loja tomou um rumo totalmente diferente. Em vez de delegar os seus poderes também a este respeito, que é o que seria de esperar, revogou a legislação de forma absoluta a 27 de Novembro de 1725. Ao fazê-lo, pretendia restaurar a todas as Lojas, tanto as novas como as antigas, o privilégio que tinha sido a regra antes de 1721, isto é, o de seleccionar os seus próprios Mestres. Mas a concessão era vazia, pois embora a lei ainda determinasse que o Mestre devia estar entre os Companheiros de Ofício, isso era agora cumprido pelo facto de ele ter feito o novo grau intermédio que tinha esse nome.
O Terceiro Grau, como pode agora ser denominado, era de facto quase supérfluo. Conferia alguma dignidade, sem dúvida, mas embora não fosse agora necessário para a maestria da Loja, não era ainda um pré-requisito para qualquer cargo na Grande Loja, e de facto corria o risco de desaparecer completamente. Em 1730 lemos: “Não há um Maçom em cem que se dê ao trabalho de passar a Parte do Mestre.” Temos aqui, eu sugiro, a chave para a razão da introdução do Grau de Companheiro.
Numa data posterior, encontramos um grau construtivo, introduzido para dar aos irmãos a qualificação então exigida para o Arco Real, exactamente da mesma forma que, segundo creio, a génese do grau de Companheiro de Ofício foi um grau construtivo, introduzido para permitir que as Lojas Privadas dessem aos seus próprios membros a qualificação necessária para a sua Cadeira de Mestre, sem envolver um recurso à Grande Loja.
A qualificação era que ele deveria estar entre os Companheiros de Ofício; esta é a frase de Anderson em 1723, numa data em que tal grau não existia. A lei da época era que a Parte do Mestre só podia ser conferida na Grande Loja. A solução da dificuldade é facilmente encontrada. Nas nossas Lojas, conferiremos um grau de Cadeira e chamar-lhe-emos Companheiro de Ofício e, para evitar qualquer sugestão de invasão da província da Grande Loja, construi-lo-emos exclusivamente a partir do material disponível para nós na Aceitação existente, ou associado a ela.
O grau em si está absolutamente de acordo com esta descrição do que era necessário para que servisse o seu objectivo. Não parece que originalmente tivesse um Juramento próprio separado. Era simplesmente um grau de cadeira obtido através da repetição do grau de Aprendiz Entrado e enfatizando uma das duas palavras já associadas a ele, de modo que, inevitavelmente, num curto espaço de tempo, cada grau tomou posse exclusiva de uma das duas palavras.
Outras diferenças foram introduzidas com o passar do tempo, mas no que diz respeito aos nomes, continuamos a falar do seu significado conjunto; continuamos a reunir os emblemas que em 1725 foram desfeitos para se adequarem aos objectivos das Lojas Privadas da época. E podemos, penso eu, assumir que não houve, nesta fase, nem no Companheiro nem na Parte do Mestre, agora tornada o Terceiro Grau, qualquer introdução de material inteiramente novo.
Se tivesse havido qualquer inovação desse tipo, podemos estar certos de que não só os antigos maçons se teriam revoltado, mas que a Grande Loja teria feito disso um pretexto para condenar a nova estrutura. Aparentemente, houve algum descontentamento e podemos ver as razões para isso, mas ainda não havia sugestão de qualquer desunião, nem conhecemos qualquer acusação de afastamento dos velhos costumes até que a própria Grande Loja altere a ordem das palavras nos dois primeiros graus após 1730.
Com o passar do tempo, o Segundo Grau ganhou em carácter e em relevância. Mas foi muito antes que o Terceiro Grau chegasse à posição que actualmente ocupa no sistema.
Ainda em 1752 não era exigido como passo para qualquer posto ou promoção, pois encontramos nesse ano a instalação do primeiro Prov. G.M. da Cornualha, e o Irmão que presidiu à ocasião era apenas um Companheiro. Actualmente, não existe em parte alguma do Livro de Constituições qualquer indicação de que o Mestre de uma Loja ou qualquer detentor do Grande Posto, excepto o Guarda Externo e dois outros oficiais, deva ser um Mestre Maçom. Durante anos, portanto, foi apenas um luxo, mas felizmente um luxo que gradualmente se tornou cada vez mais popular. O que aconteceu foi que o grau só era conferido por razões especiais em Lojas especiais de Mestres convocadas pelo Venerável Mestre.
Uma Loja normal tinha todo o direito de conferir o grau, mas só o faria muito ocasionalmente. Nem todos os membros tomavam o grau. E, como consequência necessária, em algumas Lojas não podiam realizar a cerimónia, e encontramos, já em 1738, onze Lojas em Londres especificamente descritas como Lojas de Mestres.
Isto não significa que só eles podiam trabalhar o grau; mas implica que eles se especializaram nele e aparentemente o conferiram para o benefício de outras Lojas que não estavam familiarizadas com o trabalho do mesmo (Hughan, Origin of the English Rite, página 53). Não é até 1738 que encontramos a distinção feita ao falar da admissão à Parte do Mestre como elevação. Mas, com o passar do tempo, as Lojas geralmente assumiram o grau e, por um processo natural, tornou-se regra seleccionar o Mestre entre os irmãos com maior qualificação. Preston diz: “Desta classe da Ordem são seleccionados os Governantes do Ofício”, e as exposições dos anos imediatamente anteriores à União dizem em termos que a primeira qualificação para o cargo de Mestre é que ele seja regular e legalmente elevado. Isto ainda sugere que ele só foi elevado quando se tornou uma questão de ter a qualificação, porque Preston também observa que “A Terceira Classe (i.e., Mestre Maçom) é restrita a uns poucos seleccionados”, mas podemos, penso eu, assumir que até à União era prática habitual receber o grau.
O curso do desenvolvimento, então, além de quaisquer razões para isso, é que em 1721 a Grande Loja reconheceu dois graus, uma Aceitação e uma Parte do Mestre, e que a partir de 1725 havia três, um novo grau sendo encaixado. A Parte do Mestre é o verdadeiro predecessor do Terceiro Grau actual. A exposição de 1723 tem a frase: “Eu conheço a Parte do Mestre muito bem, como o honesto Maughbin vos dirá”. A alusão é uma que ainda podemos apreciar, e envolve a inferência de que a Parte do Mestre estava preocupada com a Lenda Hirâmica. Muitas vezes nos é dito que tanto a lenda quanto o grau foram construídos nos primeiros anos da Grande Loja, presumivelmente em ou antes de 1721.
Mas é para mim, em todo o caso, difícil de aceitar que uma inovação tão drástica – pois tal teria sido certamente – não só foi permitida como foi endossada pelos Antigos quando, em 1751, eles vieram restaurar os sistemas antigos e remover as alterações introduzidas pela Primeira Grande Loja. Não só as actas de Haughfoot e Kelso, de 1702, indicam inequivocamente dois graus, como temos os registos da Admissão de Londres que mostram que, em 1635, os membros pagavam pela admissão e faziam um segundo pagamento para se tornarem mestres. Penso que podemos afirmar sem hesitação que a Parte do Mestre e, portanto, a Lenda Hirâmica, é anterior à era da Grande Loja.
Recuemos, pois, mais uma etapa na investigação e tentemos averiguar o que se pode dizer sobre o Ofício quando a Loja era ainda a sala de trabalho de um grémio de pedreiros, empenhados nalguma grande catedral ou abadia da Inglaterra medieval, e através de que processo reuniu esta maravilhosa acumulação de lendas, moralidade simbólica e filosofia que certamente já fazia parte do sistema quando a primeira Grande Loja se reuniu na Apple Tree em Charles Street, Covent Garden.
O Grémio que, desde o início da arquitectura gótica, manteve como seu monopólio os segredos da construção dessa arte, deve ter-se distinguido sempre de qualquer outro Grémio de Ofício em três pontos materiais.
Em primeiro lugar, o sistema usual era que em cada grande cidade houvesse para cada Ofício um Grémio local permanente, um Grémio independente de quaisquer outros Grémios do mesmo Ofício existentes noutros locais do país. Mas o trabalho dos maçons situava-se fora das cidades e, além disso, eles nunca estavam numa dada localidade mais do que os poucos anos necessários para construir o trabalho particular que os tinha reunido ali. A sua organização deve, portanto, ter assumido, desde muito cedo, a forma de uma única Fraternidade para todo o Reino, com associações locais em cada localidade em que a construção gótica estava em curso, e estes corpos reuniam-se na sala de trabalho que, desde a sua primeira aparição nos registos, é sempre denominada Loja. E entre Loja e Loja os irmãos viajavam, provando-se a si próprios por meios secretos de reconhecimento; também convocavam reuniões periódicas de todo o ofício em grandes áreas para os assuntos da Fraternidade. Toda esta organização é completamente desconhecida em qualquer outro ofício no país.
Em segundo lugar, os Maçons, os únicos entre os Grémios de Ofício, não tinham apenas a consciência da sua própria antiguidade, que se seguiria necessariamente do próprio facto de as catedrais e abadias construídas pelos seus predecessores séculos antes ainda estarem lá para todos os homens verem, mas tinham dado forma concreta a esse sentimento e possuíam uma história regular da Ordem. Esta, quando a encontramos pela primeira vez, é a de que a maçonaria foi fundada no Egipto por Euclides, o digno escrivão, que chegou a Inglaterra e que aí, após muitos anos, Athelstan a reformou. Exactamente da mesma forma, a associação correspondente dos ofícios da construção em França, a Compagnonnage, tinha a sua lenda de que Salomão fundou o seu ofício no Templo, que um certo Maitre Jacques trouxe para França e que uma personagem conhecida como Pere Soubise organizou nesse país.
Em terceiro lugar, uma vez que toda a vida artística da comunidade se centrava em torno da sua igreja, e toda a aprendizagem estava confinada ao eclesiástico e ao monge, a arte do construtor do gótico era o único ofício da época que oferecia aos homens intelectuais algo digno de investigação. Assim, desde muito cedo, lemos sobre pessoas que, tendo adquirido alguns conhecimentos teóricos sobre o assunto, se dirigiam aos pedreiros para estudar as suas aplicações práticas, e estas pessoas são já no século XV chamadas especulativas. Não sabemos dizer quando é que foram admitidos como membros do ofício, mas parece que foram sugeridos no século XIII, e podemos compreender que apareceriam muito cedo na história do Grémio. A própria existência da nossa Maçonaria actual depende da circunstância de o Grémio, desde os seus primórdios, ter estendido os seus privilégios e comunicado os seus segredos a homens que não eram maçons de profissão. A história do Ofício é a história de um corpo no qual um número cada vez maior destes membros especulativos foi admitido. Temos, portanto, do século XIII ao século XVII, um grémio de trabalho com as suas próprias lendas e cerimónias, mas nele é introduzido um elemento que o mantém em contacto com cada novo desenvolvimento do pensamento, cada acesso ao conhecimento no país, à medida que este surge. E podemos apreciar como o cerimonial, nas mãos deste elemento especulativo, tenderia a assumir um carácter simbólico, moral e filosófico cada vez mais profundo, e tenderia a perder a sua ligação directa original com os assuntos de uma fraternidade puramente operativa.
Temos em seguida, a partir do tempo de James I, uma profissão moribunda, mas uma sociedade que se mantém viva graças aos seus membros não-operativos, cujos objectivos são agora francamente filosóficos e éticos, e qualquer vestígio de contacto real com a profissão de construtor está a desaparecer rapidamente. É esta sociedade que, em 1716, forma a Grande Loja e nos diz que a Maçonaria, apesar da sua aparência externa e da sua terminologia, já não é uma organização comercial, mas pura e simplesmente um sistema de moralidade.
Ora, as várias influências a que esta Fraternidade foi sujeita ao longo da sua carreira, através dos seus membros especulativos, só têm de ser enunciadas, e será imediatamente óbvio que deve ter havido constantemente um impulso irresistível para o acréscimo, a incorporação de mais símbolos, a elaboração adicional das cerimónias, a enfatização do que viria a tornar-se a principal função da Fraternidade, o ensino de deveres e verdades morais, com total desprezo pelo conhecimento técnico ou habilidade. Podemos rever estas influências muito rapidamente.
Começamos com as Cruzadas, e sabemos que os arquitectos da Europa Ocidental trabalharam efectivamente na Palestina, e o conhecimento local que adquiriram teve uma influência marcante no gótico contemporâneo. Em seguida, temos o desenvolvimento do estudo do hebraico e da literatura hebraica, que anuncia o Renascimento; temos, durante um período que termina em 1453, uma relação constante com a França e com as fraternidades de construção francesas; temos, durante os dias da Liga Hanseática, uma relação bastante constante com a Flandres e a Baixa Alemanha, onde as Vehmgerichte ainda floresciam no século XVI; temos, em seguida, a primeira aparição da Bíblia em inglês, que teve lugar em 1535; temos, a partir de cerca de 1614, os filósofos individuais que se intitulavam Rosacruzes e Hermetistas, que ainda estavam na vanguarda no século seguinte e alguns dos quais eram definitivamente Maçons; temos, a partir de 1685, a data da Revogação do Édito de Nantes, refugiados Huguenotes de França; e, finalmente, temos, até aos dias da própria Grande Loja, as dissensões políticas e civis entre os Jacobitas e os Hanoverianos. Ao longo dos séculos, há também influências menores em constante acção, trazendo-nos aprendizagens de um tipo ou de outro de Espanha, Itália ou Oriente; não é de admirar que no nosso sistema actual os entusiastas tenham encontrado analogias e reivindicado identidades com todas as filosofias ou religiões jamais conhecidas pela civilização ou antes dela.
E, no entanto, enquanto os resultados do processo estão agora diante de nós em nossas Lojas, e a verdadeira explicação histórica dele parece ser bastante clara, não podemos de facto datar a nossa primeira adopção de qualquer símbolo ou interpretação única. Nós não sabemos em detalhes o que foi trazido para a Grande Loja pelas Quatro Lojas Antigas e os velhos maçons de 1717, e as duas exposições que precedem Prichard são tão obviamente fragmentárias que nada pode ser baseado nelas. Mas o carácter geral da Admissão ou Aceitação é bastante claro, e está preservado nos nossos Primeiro e Segundo Graus de hoje. Eles se ocupam das coisas deste mundo; os meios secretos de reconhecimento são uma parte essencial deles, assim como o Juramento assumido em Loja aberta; eles ensinam sigilo, obediência, lealdade e o dever de se educar a si mesmo. Moralizam os instrumentos de trabalho ordinários; os seus símbolos são os dois pilares, o pórtico ou entrada, a escada sinuosa, a câmara intermédia, a corrente de água, as pedras ásperas e perfeitas e a admissão à luz. Alguns destes elementos sugerem ideias rosacruzes, mas em alguns deles parece que vemos uma reminiscência da mais antiga sala de trabalho de uma loja de maçons operativos. Mas tudo isto está disponível, se não na própria sala da loja, pelo menos numa ou noutra das fontes de possível influência que descrevi em pormenor.
Há, no entanto, uma característica das cerimónias que dificilmente pode ter encontrado lugar nas observâncias originais do Grémio, e que são as penas. Estas têm a sua contrapartida na traição real e nos castigos do Tribunal do Almirantado dos dias dos Tudors e anteriores; e os Vehmgerichte eram um tribunal secreto que, de facto, enforcava e apunhalava as suas vítimas.
O curso dos acontecimentos parece ser que o costume operativo do Grémio era admitir o aprendiz através de um simples juramento, mas fazer do aprendiz, após os seus juramentos, um homem livre e um membro de pleno direito do Grémio através de uma cerimónia que incluía a transmissão dos importantíssimos meios secretos de reconhecimento, a atribuição da marca e uma palestra moral, e a conclusão com um banquete. Os Especulativos transformaram estas duas ocasiões numa só; procediam de uma só vez aquando da admissão como membro de pleno direito. Eles também elaboraram consideravelmente a cerimónia actual, mas é inútil tentar agora dissecar o que é de facto um acréscimo devido à influência especulativa e o que é uma sobrevivência genuína dos dias dos primeiros construtores de catedrais.
Mas na Parte do Mestre somos confrontados com uma cerimónia de um carácter completamente diferente. Temos, em primeiro lugar, uma narrativa, a história do assassinato do construtor; em segundo lugar, o ensinamento de uma grande verdade religiosa, não uma, contudo, que tenha sido, em qualquer época, uma propriedade especial dos construtores; e temos também uma forma inteiramente distinta de saudação, os cinco pontos da irmandade.
Parece ser o caso que as lendas do assassinato de um construtor, que estão difundidas no folclore, devem ser explicadas como sobrevivências ou reminiscências de sacrifícios originais de conclusão, sacrifícios de um ser humano com o objectivo de dar ao edifício recém-concluído uma alma ou um demónio protector; e um indivíduo tão intimamente ligado ao edifício como o seu arquitecto seria provavelmente escolhido como peculiarmente apropriado para tal sacrifício.
É provável que as comunidades de construção tenham tido, em geral, histórias deste tipo e, de facto, verificamos que, em França, uma delas se cristalizou, muito cedo, na narrativa do assassinato do Mestre Jacques, o mestre que trouxe o ofício da Palestina para França. A existência de lendas semelhantes no nosso país é atestada por histórias como a do Pilar de Roslyn. A Palestina e o Templo do Rei Salomão não faziam parte da nossa lenda original. Mas já tinham sido adoptados no século XV e parece que, durante os séculos XVI e XVII, os escribas que copiaram as várias versões das nossas Old Charges tiveram escrúpulos em escrever o nome de Hiram, o construtor, e substituíram-no por Anon ou Amon ou algo semelhante.
Como foi assinalado pelo Irmão Morris Rosenbaum, o duplo nome Hiram Abiff foi encontrado nas três primeiras Bíblias inglesas de 1535 e dos anos seguintes, mas desapareceu da Grande Bíblia que as substituiu em 1539. Em 1723, o nome Hiram Abiff seria, normalmente, conhecido apenas pelos estudiosos do hebraico. No entanto, é claro que o ofício estava familiarizado com ela nesse ano, e isso parece implicar que ela tinha sido transmitida como uma tradição nas Lojas.
Mais uma vez, a explicação que damos de MACH (inglês) é uma explicação que não pode ser justificada filologicamente; nenhum estudioso de hebraico chegaria a tal interpretação de forma independente. Mas a palavra ocorre de facto na Bíblia como o nome de um capitão das hostes. Ora, à Bíblia de Genebra de 1580 foi anexada uma concordância na qual os nomes hebraicos eram explicados, e nela lemos que esta palavra significa, entre outras coisas, “o golpear do construtor”.
A única interpretação plausível deste facto parece ser a de que o compilador encontrou este significado nalgum círculo a que pertencia, e inseriu-o nessa base, independentemente da questão filológica. Estas várias considerações tornam difícil evitar a conclusão de que não existia apenas uma lenda de assassínio entre o Ofício neste país desde uma data muito antiga, mas que durante dois séculos, pelo menos, tinha sido definitivamente uma Lenda Hirâmica. E como tal era propriedade peculiar dos Mestres; e as cerimónias relacionadas com ela, quaisquer que fossem, estavam no âmbito do Mestre.
Ora, o ponto culminante dos cinco pontos da irmandade é o sussurro de certas palavras que se referem à narrativa. Mas elas são hoje explicadas de uma forma que é evidentemente insatisfatória. Levantamos o Candidato de um túmulo figurativo por seu intermédio, o que está muito bem; mas o que recitamos como narrativa é uma incongruência manifesta. No entanto, está em Prichard, de modo que o erro, como suponho que lhe podemos chamar, é de longa data.
Ora, os Compagnonnage têm duas formas elaboradas de saudação muito semelhantes entre si e aos nossos cinco pontos de irmandade e, em cada uma delas, as palavras são sussurradas. Uma delas é utilizada entre os compagnons nos funerais. A verdadeira situação parece-me ser que, tal como os Mestres tinham uma cerimónia especial de um tipo distinto, também tinham uma forma elaborada de saudação e saudação, com a qual o novo Mestre era recebido.
O Companheiro tinha o seu simples aperto de mão, parte dos meios de reconhecimento, e podemos ter a certeza de que as várias formas com que nos deparamos hoje, à medida que avançamos na Ordem, são apenas variações de uma introdução tardia. Mas os Mestres usavam os cinco pontos de irmandade, uma parte essencial dos quais era a comunicação de certas palavras.
Mas qual era a função desta cerimónia especial nos dias anteriores à Grande Loja? No Grémio, estava sem dúvida associada ao Mestre da Obra; e os Mestres do Grémio eram homens de posição e autoridade definidas. Mas a Arte especulativa no século XVII estava numa posição diferente. A linguagem de Ashmole sugere que ele nunca foi mais do que um Companheiro e que recebeu apenas um grau. Mas a fraseologia do Tripos de Dublin de 1688, com a sua referência a ser “maçonizado” à nova maneira, é muito sugestiva de uma cerimónia especulativa especial, e esta pode ter sido a Parte de um Mestre.
Parece que antes de 1721 havia muito poucas ocasiões para a cerimónia e pouco uso se fazia dela. Stukeley escreve: “Tivemos grande dificuldade em encontrar membros suficientes para realizar a cerimónia”; e isto foi em Londres, a 6 de Janeiro de 1721. Ele dificilmente pode estar a referir-se à iniciação comum. Além disso, é de notar que, a partir de uma alusão num MS. de 1714, sabemos que certas características da cerimónia estavam relacionadas com o que é hoje a nossa Instalação. O que parece ter acontecido é que, em 1721, com a introdução da característica até então inimaginável de novas Lojas, os Mestres eram necessariamente requeridos para elas.
A Parte do Mestre tornou-se assim de grande importância. O Mestre Instalado recebia certas partes do trabalho, mas a Parte em si continuava a ser o pré-requisito para o exercício do cargo. Há, sem dúvida, uma confusão contemporânea na terminologia que não é fácil de desvendar, mas quando em 1723 Anderson fala de fazer Mestres e Companheiros apenas na Grande Loja, ele está, como já vimos, a referir-se não a dois graus, mas apenas à Parte do Mestre.
Estamos agora em condições de avaliar, em todo o caso de forma aproximada, o material apresentado à Grande Loja, que constituiu a base de tudo o que está contido nas nossas cerimónias de hoje.
Em primeiro lugar: Um corpo de simbolismo e ensinamentos baseados em arquitectura, ferramentas de trabalho e outros emblemas materiais; representando a admissão de um aprendiz e a admissão do companheiro dos artesãos operativos, muito elaborados, mas fundidos numa cerimónia de iniciação ou Aceitação no período especulativo que precedeu a Grande Loja. Esta foi dividida em 1725 para formar os nossos actuais Primeiro e Segundo Graus, e a sua história e desenvolvimento subsequentes já foram descritos. Partes do material operativo, como a atribuição da marca, foram preservadas na Escócia, mas deixadas de lado na Inglaterra.
Em segundo lugar: Uma lenda de assassinato de grande antiguidade associada, em alguma data indeterminada, ao Templo do Rei Salomão e a Hiram Abiff; e uma forma peculiar de saudação que inclui o sussurro de palavras referentes à lenda. Ambas são restritas aos Mestres e foram apresentadas como a Parte do Mestre, mas um pequeno pormenor pode ter sido retirado da cerimónia em 1721 para cumprir os requisitos do novo cargo de Mestre Instalado. Esta Parte do Mestre é o nosso Terceiro Grau actual. Mas não é possível saber quando tomou a forma actual em que a temos hoje; passou por um processo de modificação a que já aludi, que continuou até à época da Loja de Reconciliação.
Nesta análise do nosso maravilhoso sistema, procedi, necessariamente, do conhecido para o desconhecido, e muito terá inevitavelmente de ser, e permanecer, matéria de hipótese e opinião. Tenho plena consciência de que as minhas várias sugestões hipotéticas convidam à crítica; se não sobreviverem, será porque não o merecem. Mas estarei de acordo com os meus críticos se concluir com as palavras daquele velho e digno Mestre, a cuja generosa provisão, há mais de um século, se deve a própria realização desta palestra:
“Aquele que estudou os nossos ensinamentos num progresso regular desde o início do Primeiro até à conclusão do Terceiro grau deve ter acumulado uma ampla reserva de conhecimento, e reflectirá com prazer sobre os bons efeitos da sua diligência e atenção passadas.”
Lionel Vibert [1], P.A.G.D.C. (Antigo Assistente do Grande Director de Cerimónias)
Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:- R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)
- Ex Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)
- Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)
Notas
[1] Arthur Lionel Vibert – Conferencista Prestoniano. Nascido em São Petersburgo em 1872, era filho de John Este Vibert, um professor de Inglês na Universidade de São Petersburgo, e de sua esposa Fanny. Venerável Mestre de várias lojas maçónicas e desempenhou um papel significativo na Sociedade Maçónica de Bristol em 1927-1928. Produziu uma série de trabalhos maçónicos notáveis, como “Freemasonry before the Existence of Grand Lodges” (1913), “The Story of the Craft” (1921) e “The Rare Books of Freemasonry” (1927). Fonte: https://www.myfraternity.org/

- História das Palestras Prestonianas
- Encadeamento lógico dos graus do Rito Escocês Antigo e Aceite
- Símbolos, Graus e Ritos
- Graus Filosóficos
- A criticidade dos nossos graus e catecismos individuais

