Proferido em 3 de Setembro de 1789
O discurso de Schröder quando foi eleito pela segunda vez Venerável Mestre da Loja “Emanuel zur Maienblume” [1], é de fundamental importância para a compreensão dos conceitos que ele tinha em mente quando propôs a reforma da Maçonaria e deu inicio à confecção dos Rituais.
A vossa escolha, meus respeitáveis irmãos, ao me confiar o malhete desta Loja mais uma vez me honra. Nada, mais lisonjeiro do que gozar da confiança de homens livres, que sacrificam voluntariamente parte do seu tempo em função do presente evento! Contudo, permaneço indeciso. Eu previ que o descontentamento de alguns irmãos contagiaria outros. Eu pressagiei que o clima de união e de concórdia, que reinou durante aquele um ano e meio em que tive a honra de conduzir o malhete desta oficina, tinha chegado ao fim [2]. Sendo assim, nada mais me resta a fazer do que tentar contribuir para o restabelecimento da harmonia que outrora aqui havia. Para a realização deste objectivo, peço-vos que analisem meus conceitos sobre a Franco-maçonaria e submeta-os à prova.
Com profunda convicção considero a Franco-maçonaria uma irmandade verdadeira e benemérita. Com mais convicção ainda creio que ela encerra coisas que na época do seu surgimento exigiam um véu misterioso, às vezes símbolos perdidos, os quais com o passar dos anos sofreram modificações.
A Franco-maçonaria, com a moral pura, primorosa, voltada às grandes finalidades; ela, que possui todas as virtudes para tornar o homem melhor; ela, inimiga declarada de todos os preconceitos; ela, que derrubou as barreiras divisórias existentes entre os homens impostas pelas religiões, pelas pátrias e pela posição social; ela, que unificou homens de todas as nações como verdadeiros irmãos; ela, quem primeiro ensinou a todos a virtude da tolerância; pode ela ser uma obra hierárquica? [3] Podem os seus costumes ser uma farsa? Ela não merece ser despida dos seus compromissos solenes, a pretexto da sua conservação e propagação [4].
Por estes motivos não posso permanecer indiferente face à maneira como a estão conduzindo. Em mais de uma palestra protestei contra o acto de admitir candidatos sem submetê-los ao escrutínio e às provas de iniciação, como amiúde vem sendo feito; contra o fanatismo de qualquer natureza, tenha ele o nome de Rosacrucionismo, de Asiatismo ou de Africanismo [5]; contra as eternas palavras de fraternidade que nunca se traduzem em factos; contra trabalhos conduzidos em loja que afugentam homens sérios e causam tédio nos jovens. Eu tentei, até onde me foi possível, cumprir com o meu dever, conversar com os irmãos de forma instrutiva, entretê-los, sem deixar que caíssem no marasmo. Estou certo de que não errei e isto me enche de alegria.
Mas a minha palavra, o meu compromisso, a minha convicção, impedem-me de dar aprovação a qualquer coisa que possa abalar os alicerces da Maçonaria. Daí o caso em questão ser demasiadamente estranho. Como é possível que irmãos maçons, os quais homenageio e considero de todo o coração, votem num Mestre que não deseja ser Mestre, que afirma que irá destruir a Franco-maçonaria, visto que suprimir os seus símbolos é o mesmo que destruí-la! [6]
É certo que a Franco-maçonaria no nosso país é diferente em relação a outras e, com respeito às épocas passadas, pode-se dizer que fraudes e aleivosias a deturparam. É lícito afirmar que ela necessita de algumas modificações, mas devemos por este motivo repudiá-la? É justo incorrermos modificações, mas devemos fazê-lo por causa de uma conclusão preconceituosa? É preciso que aqueles que consideram os símbolos da Maçonaria uma farsa nos convençam da sua inconsistência. Meditai meus Irmãos sobre os ensinamentos simples contidos no Grau de Aprendiz! Analisai os vários modos como são inculcadas nas nossas mentes a firmeza, a serenidade, a inteligência e a discrição. Notai a insistência com que os mesmos nos recomendam o aprimoramento intelectual e o estudo das ciências [7]. Meditai sobre os importantes ensinamentos presentes nestes quadros! Podem eles estar fundados numa farsa? E o estudo sobre a origem dos seus costumes e tradições, seria também acto indigno de um homem pensante?
Quem deseja suprimir ou modificar algo deve primeiro demonstrar que tem outra coisa melhor para colocar no lugar daquilo que pretende substituir ou abolir. Por acaso existe alguma virtude social que já não faça parte integrante dos ensinamentos da Franco-maçonaria? [8] Poderá alguém fornecer-nos algo de novo e de melhor? O que há de errado com os seus símbolos? Sobretudo o que esperar da sua existência? A supressão dos seus símbolos e tradições visa atingir um objectivo de alcance maior, que consiste em substituir algo insubstituível? Ou seja, a destruição de uma cadeia que une 1.000 irmãos, uma cadeia a qual muitos devem o seu bem estar, a alegria das suas vidas e as suas próprias vidas. Pode-se esperar que membros de uma sociedade como esta venham a se reconhecer mutuamente como irmãos? [9]
Eu tenho apreço por todo o objectivo que é nobre, mesmo que ele seja impraticável. Mas o cargo que o vosso voto me outorga força-me, com toda a sinceridade, a alertá-los sobre a impraticabilidade de algumas ideias e sobre certos inconvenientes que antevejo. Confesso fracamente que nenhum interesse tenho pelos trabalhos que se pretende realizar, nesta ou noutra oficina qualquer. Possui alguma loja uma instituição de caridade? Será que não existe noutro lugar homem de cabeça com capacidade para conduzir o malhete e enobrecer o tempo dos irmãos? [10]
Os sábios Börne e Gemmingem [11] de Viena não precisaram abolir os símbolos e os rituais da Maçonaria para actuarem maravilhosamente nos corações e nas mentes dos irmãos das suas lojas. Por conseguinte, o problema da futilidade e do tédio dos trabalhos reside não na coisa em si, mas em quem os dirige. E quem é que elege o dirigente? [12] Meus Irmãos! Deixai que tradições como as das Guildas dos artesãos percam o seu valor [13], deixai que a interpretação dos seus símbolos – responsáveis pela formação de uma grande cadeia de irmãos – tornem-se algo totalmente inútil para nós, e verão onde tudo irá terminar.
É preciso admitir a necessidade de uma reforma consciente. É preciso que orientemo-nos pelo sistema inglês, aquele da época em que os irmãos eram admitidos nas lojas por meio da palavra e da assinatura (sic). É preciso estar atentos quanto à presença de místicos, iluminados e outros sonhadores nas nossas reuniões [14]. Só assim poderemos realizar os verdadeiros objectivos da Maçonaria. No futuro darei uma explicação extensiva sobre a natureza e acção dos iluminados [15].
Já vos descrevi meus Veneráveis Irmãos o que foi a Maçonaria [16], o que ela deve ser, e o que para nós ela realmente é. Estão os senhores em condições de condenar profanações feitas contra um ensinamento puro, qualquer que seja ele? Acabar com tais abusos, eis a nossa preocupação. Cumpramos estes grandes objectivos, morais e físicos, que se apresentam perante os nossos olhos. Fizemos o montante das nossas economias e estipulemos o que de bom construir com elas. Meus Irmãos, trata-se de um objectivo que demanda rigoroso exame. Persistamos nele, firmes, resolutos! Caridade no sentido mais amplo é a característica, é o espírito da Franco-maçonaria. Disto resulta que bondade no coração seja a principal condição exigida pela nossa sociedade, tal como nos velhos tempos [17]. Este espírito esteve presente nas suas deliberações e nos seus trabalhos desde tempos imemoriais; até mesmo nos seus banquetes fraternais, onde irmãos hesitavam comer em abundância caso não tivessem contribuído para secar algumas lagrimas produzidas pela pobreza. É verdade que a Franco-maçonaria colocou na cabeça os objectivos mais excêntricos, dividiu-se em varias seitas [18], porém nunca cessou de difundir – e, sobretudo de praticar – a virtude da caridade. Trata-se de um mandamento fundamental da Fraternidade, cuja implementação cumpre que seja feita com toda a determinação e sabedoria.
Meus caros Irmãos, espero ter explicado correctamente meus conceitos básicos sobre a Franco-maçonaria. Em resumo, é prudente precavermo-nos contra tais absurdos e preocuparmo-nos com a formação do homem. É necessário ainda acrescentar o bem estar do ser humano a esta nobre finalidade. É preciso que cuidemos para que na nossa Constituição e nos nossos rituais não haja mudanças substanciais, muito menos supressões, para não comprometermos toda a Franco-maçonaria e os nossos solenes e voluntários compromissos. Que as minhas palavras sejam abençoadas e que a harmonia e o amor fraternal reinem para sempre nas nossas reuniões.
Friedrich Ulrich Ludwig Schroder, 3 de Setembro de 1789.
Tradução e notas pelo Irmão Ricardo Vidal. Revisto e acrescido de notas pelo Irmão Rui Badaró em 29 de Junho de 2021
Notas
[1] A Loja Emanuel segue activa nos seus trabalhos até os dias de hoje, sob nº 85, no oriente de Hamburgo. Fundada em 1774, a Loja maçónica “Emanuel zur Maienblume” conta com quase 250 anos de história na tradição do Iluminismo e do humanismo. Muitas personalidades importantes de Hamburgo eram membros da loja, cujo perfil e padrões adoptados ainda são particularmente moldados pela pessoa do grande reformador da Maçonaria hamburguesa, Friedrich Ludwig Schröder, que era membro da loja “Emanuel zum Maienblume”. A Loja Emanuel continua em pleno funcionamento e está regularmente integrada às estruturas organizacionais de Hamburgo, da Maçonaria Alemã e da Fraternidade Mundial. Vide https://www.ezm-hamburg.de/
[2] Schröder exerce o cargo de Venerável Mestre na Emanuel no período entre 1787-1799.
[3] Schröder afirma que a Maçonaria é uma “fraternidade”, nunca uma “ordem”. E em fraternidades não existem superiores hierárquicos, chefes ou subordinados, mandantes e mandados, mas sim pessoas que assumem compromissos de forma voluntária, em absoluta igualdade de condições.
[4] Depositados sobre os graus simbólicos, com o tempo os “altos graus” passaram a sobrepujá-los em importância. O resultado foi que, na visão de alguns, todos os graus, sem distinção, passaram a ser considerados uma farsa.
[5] Schröder está-se a referir às ordens dos Arquitectos ou Construtores Africanos e dos Irmãos Asiáticos. A primeira foi fundada em 1756 em Berlim por C.F. Köppen (Waite, Enciclopédia Vol. I, pag.9) e a segunda pelo Barão von Ecker und Eckhoff por volta 1756 (Waite, op. cit, Vol. I, pag.393). Os rosacrucianos introduziram na Maçonaria um misticismo que jamais teve parentesco com ela, desfigurando-a completamente.
[6] Está-se referindo ao comerciante e senador de Hamburgo Georg Heinrich Sieveking (1751-1799). Iniciado também na Loja Emanuel zur Maienblume (1774), Sieveking propôs a supressão de todos os símbolos da Maçonaria, quando eleito Venerável Mestre da Loja Saint George, afirmando que os mesmos não passavam de uma farsa.
[7] O irmão de uma Loja do Rito Schroder é estimulado a estudar a Maçonaria e os problemas da sociedade em que vive, para melhor poder trabalhar na sua construção e aprimoramento. Meia hora após os trabalhos normais é reservada para palestras ou exposição de trabalhos.
[8] Os graus simbólicos (1-2-3) são completos. Adendas, supressões e modificações ritualísticas geraram um caos sem precedentes na história da Maçonaria.
[9] Reflicta o leitor Maçom nesta sábia observação. Como seriam as nossas reuniões no interior de uma sala despida dos símbolos que lembram os nossos compromissos? Como seria a nossa vida maçónica sem eles?
[10] Parece que não havia mesmo. Não é normal um homem, por melhores que sejam os seus atributos, permanecer no cargo de Venerável durante 12 anos consecutivos, ainda contra a sua vontade.
[11] Börne e Gemmingem. O Barão Otto Heinrich von Gemmingen (1755-1836) foi um pouco conhecido teatrólogo e escritor do Iluminismo. Em 1782 ele muda-se para a Áustria e contribui para a difusão do Iluminismo no país, durante o reinado do Imperador Francisco José. Ludwig Börne foi um famoso escritor e político alemão, também iluminista.
[12] Atenção Venerável Mestre, Schröder está falando consigo!
[13] Era exactamente o que estava acontecendo com os graus simbólicos. Cavalos, espadas reluzentes e veneras de todo o género estavam substituindo o maço, o cinzel e o avental.
[14] Cavaleiros, místicos, visionários, charlatães, jesuítas, rosa cruzes, alquimistas, escroques, todos contribuíram para deformar a Maçonaria.
[15] Iluminados da Baviera. Organização de cunho maçónico, fundada por Adam Weishaupt, reitor da Universidade da Ingolstadt, que tinha ramificações em vários países, inclusive no Brasil.
[16] A habilidade de Schröder em lidar com pessoas que se encontravam em situações precárias era bem conhecida. Assim, as duas lojas de Hildesheim pediram que ele resolvesse a sua disputa de antiguidade e estavam então preparadas para se submeter ao seu veredicto. Logo após a sua admissão, Schröder começou a pensar numa reforma da Maçonaria. Ele escreveu sobre isso: “Uma vez entusiasmado com a Maçonaria após a minha eleição como Mestre de Loja, não poupei esforço ou dinheiro para me familiarizar com os chamados sistemas e todas as palhaçadas que foram perpetradas sob o nome de Maçonaria.” E avançou: “Não me esforcei menos para formular as minhas ideias sobre o. Para poder confirmar o surgimento da Maçonaria, que já tinha comunicado a Bode em 1787 , por meio de vários documentos que foram apresentados ao Maçom desde 1723. Vários destes são divulgados pela imprensa; mas felizmente encontrei no nosso arquivo uma cópia do antigo ritual, usado em apenas uma loja alemã, que baniu toda névoa de meus olhos… Agora eu tinha documentos para preparar.” Há extractos noutros lugares em que Schröder afirma: “A Maçonaria não é uma ordem – o Livro Inglês das Constituições e os nossos irmãos na Inglaterra nunca usam esta expressão – mas uma guilda. Fraternidade, estas chamadas todas de guildas alemãs, ou seja, sindicatos – guildas de conexões válidas por estatutos: daí o nome irmão na maçonaria, porque a sociedade é uma fraternidade – irmandade.”, como tal, e tendo assumido os símbolos do ofício de pedreiro, não pode ter mais de três graus, Aprendiz, Companheiro e Mestre. É o mesmo em todos os países onde existem guildas. O círculo fecha-se com o Mestre: Quem pede algo a mais dela não é um mestre – isto é: ele não entende! não que o seu dever e habilidade de mestre exijam maestria real = o mais alto, e apenas um tolo pode imaginar um cavaleiro, religioso ou adepto além do mestre. Mas a natureza lúdica, vaga e insatisfatória dos rituais falsificados, onde quer que permaneçam lacunas, deu razão (entre outras causas malignas) para buscar na teosofia, ordens de cavalaria, alquimia e magia por trás da Maçonaria. Nada foi mais vergonhoso para ela do que ser confundida com medalhas; é uma confraternização a um trabalho, uma árvore com estatutos associados, provas, competências até à virtude mestra. Este é o mais alto que a natureza humana pode alcançar.
[17] Afirmou certa vez Schröder: Se a nossa fraternidade não é uma organização religiosa nem política só nos resta trabalhar em prol da Humanidade.
[18] Nada menos do que 70 Ritos compreendendo 300 graus de cavalaria. Algo simplesmente inimaginável, para não dizer absurdo e monstruoso.

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