O galo e a ampulheta – símbolos maçónicos

ampulheta

O Galo

O galo é um símbolo arquetípico que aparece nas tradições religiosas dos mais diferentes povos da terra. Em todas as culturas antigas ele surge como uma espécie de criatura celestial e votiva que anuncia a ressurreição solar. Daí o simbolismo que liga o seu canto com a renovação espiritual, que as escolas esotéricas desenvolveram nas suas doutrinas, e as religiões oficiais adoptaram nos seus cultos como elementos rituais.

Na verdade, o simbolismo do Galo tem inspiração nos cultos solares da Antiguidade. No Japão, a mitologia xintoísta divulgava a crença de que se devia ao galo o Sol que brilhava no reino de Yamato, ou seja, o antigo Japão. Se o galo não cantasse, o Sol não nasceria. O culto xintoísta é um culto solar por excelência. Daí o Sol, símbolo da Divindade, se tornar o ícone principal do país, ornamentando, até hoje, a bandeira japonesa. E sendo o galo o seu arauto, essa ave tem, até hoje, um festival a ela dedicado. Esta festa, ainda muito tradicional no interior do país, ocorre no mês de Novembro e dura três dias.

Na tradição do Xintoísmo o canto do galo também está associado à chamada para a oração. Por isso, nos templos e altares dos cultos xintoístas, é comum encontrar essas aves a passear livremente por eles.

O Galo na Tradição Cristã

Os cristãos também adoptaram o Galo como símbolo do arauto anunciador de novidades. Este é um indicativo de que o Cristianismo foi muito influenciado pelos cultos solares da antiguidade. Segundo uma tradição divulgada pelos cultos mitraístas, um galo cantou no momento do nascimento de Mitra. Esse mito viria a ser incorporada pelos bispos de Roma, dando origem à conhecida Missa do Galo, rezada na passagem do dia 24 para 25 de Dezembro, data comemorada pelos cristãos como sendo o do nascimento de Jesus.

Não há prova histórica de que Jesus tenha nascido realmente nesse dia. Segundo alguns historiadores, essa data era também comemorado pelos mitraístas como sendo o dia do nascimento de Mitra, e foi adoptada por Roma em consonância com culto mitraísta, para fundir os dois cultos, já que o culto a esse deus persa era muito forte entre os romanos.

Na verdade, estas datas correspondiam ao período em que se iniciava, no hemisfério norte, o surgimento da estrela polar, prenúncio do início de uma nova era, segundo o calendário persa. Era nesse período (entre 22/23 de Dezembro, início do solstício de Inverno) que eles costumavam celebrar o culto ao Deus Sol. Esta tradição tinha correspondências rituais na religião de quase todos os povos que praticavam religiões solares [1].

A simbologia mitraísta serviu bem para os propósitos cristãos, já que o nascimento de Jesus Cristo significava, para a nova religião adoptada pelos romanos, o surgir de uma nova luz para o mundo. Isto representava um renascimento para a humanidade sofredora, prisioneira da morte e da ignorância espiritual. Assim, na simbologia cristã o galo passou a ser o arauto anunciador da nova luz do mundo. Por isso é a que a Missa do Galo, também é conhecida como a missa da luz [2].

O Galo noutras tradições

Na cultura dos povos africanos, o Galo é tido como um colaborador do deus Olurum. Ele foi mandado à Terra junto com o seu filho Obotala para organizar o Caos primordial que nela havia [3].

Os ciganos o viam como anunciador do dia e da luz. Um lindo poema desse povo diz: “eu sou aquele que canta o raiar de um novo dia, de uma nova vida e de uma nova esperança”.

Para os gregos, o galo simbolizava Alectrion, o sentinela celeste que avisava a chegada do sol. Por isso era considerado um símbolo do tempo, além de encerrar em si o princípio solar, energia masculina, que representa a altivez. Dai algumas escolas psicológicas considerarem que sonhos constantes com essas aves estão conectados com sentimentos de opressão e a vontade de se libertar.

Alguns países adoptaram o galo como símbolos nacionais. Os mais conhecidos são a França e Portugal. Para os franceses ele representa a luz e a inteligência, pois anuncia a hora de acordar. A própria palavra Gália, antigo nome da França, segundo alguns autores, seria derivada de gallus, palavra latina que significa galo. Esse era o nome pelo qual os romanos denominavam os habitantes da região, por causa do intenso culto que os gauleses prestavam ao Pássaro da Manhã.

Em Portugal, esta tradição está associada com a lenda do Galo de Barcelos. Conta essa lenda que um habitante do burgo de Barcelos, sendo acusado de um crime, alegava inocência. Todos os indícios eram contra ele e o infeliz não tinha como se defender. Então ele viu um galo morto dentro de um cesto e disse ao juiz: “se este galo cantar, significa que eu sou inocente.” O galo cantou e ele foi absolvido. A lenda do Galo de Barcelos ganhou tal popularidade que a ave milagrosa se tornou um dos símbolos de Portugal.

O galo na tradição esotérica

Nas tradições esotéricas o galo é o símbolo da vigilância e da mente sempre desperta. Em alquimia era utilizado para representar o mercúrio filosófico, ou seja, o princípio segundo o qual a “alma da obra” despertava, possibilitando a sua transmutação. Na tradição maçónica, o galo canta ao nascer de cada nova manhã, anunciando o alvorecer. Nesse sentido, ele é o arauto da esperança, do renascimento, da “nova vida” que desponta no horizonte. Na Câmara de Reflexões, onde o iniciado se prepara para ser submetido ao ritual de Iniciação, ele significa o alvorecer da sua nova existência, visto que simbolicamente o iniciando vai morrer para a vida profana e renascer para a vida maçónica. Por isso ele está ali, naquele ambiente de morte, como arauto anunciador da transformação que está se operando no psiquismo do recipiendário.

Como se vê, é um símbolo bastante apropriado às tradições iniciáticas, e como tal não poderia faltar entre os símbolos maçónicos .

A Ampulheta

Ampulheta é um antigo instrumento para medir o tempo. Na Maçonaria é um símbolo que representa o lento e inexorável escoamento do tempo, recordando concomitantemente a necessidade de agir e a brevidade da existência humana. Os nossos dias na terra são como a areia que escorrem pelo filtro de uma ampulheta. A quantidade de areia posta nos recipientes é a medida dos nossos dias de vida. Nem mais nem menos. É como disse Jesus: “todos os fios de cabelo da vossa cabeça estão contados. Não podeis fazê-los brancos ou pretos, pois mais que penses”. A ampulheta que o iniciando encontra na Câmara de Reflexões tem justamente essa finalidade: mostrar a inexorabilidade do tempo que avança, consumindo os nossos dias e nos colocando cada vez mais próximos do evento da morte. E que nesse sentido, toda arrogância é desnecessária, toda vaidade é inútil, toda riqueza é supérflua, todo poder é enganoso. Nada que possamos fazer pode prolongar a nossa existência além do tempo que o Grande Arquitecto do Universo nos concedeu para a realização da nossa missão na terra. E a ampulheta está ali para nos lembrar disso.

João Anatolino Rodrigues

Bibliografia

  • Do livro Lendas da Arte Real – no prelo

Notas

[1] Especialmente os celtas e os egípcios.

[2] Admite-se, geralmente, que a tradição da Missa do Galo foi instituída na Igreja de Roma no Século VI.

[3] Este mito ainda é cultuado no candomblé brasileiro.

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