O Grau 17 do Rito Escocês Antigo e Aceito – “Cavaleiro do Oriente e do Ocidente”

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Avental do Grau 17 do Rito Escocês Antigo e Aceito

História do Grau 17

Algumas versões mais antigas deste Grau, que aparecem por volta de 1760, trazem o nome de “Cavaleiro do Ocidente”, como por exemplo, o Ritual do Marquês de Gage, datado de 1763. A primeira versão com o título “Cavaleiro do Oriente e do Ocidente” é de 1762 e se encontra na Biblioteca Nacional da França. Apesar da diferença do título do Grau, o ritual é essencialmente o mesmo.

O Grau 17 aparece no Manuscrito Francken (uma fonte primária do Rito de Heredom) como um ritual autónomo com um fundo cavalheiresco, retirando algumas passagens do livro bíblico do Apocalipse.

A influência das Cruzadas devia fazer-se sentir, não só entre os artífices mas ainda entre os nobres que também conheceram na Palestina, formas de associações novas e, uma vez de volta a Europa constituíram Ordens, semelhantes às do Oriente, nas quais admitiram logo outros iniciados. É assim que em 1196, se fundou na Escócia a “Ordem dos Cavaleiros do Oriente“, cujos membros tinham como ornamento uma cruz entrelaçada por quatro rosas.

Esta Ordem foi trazida da Terra Santa no ano de 1188 da Era Cristã, da qual o rei Eduardo I da Inglaterra, (1239-1307), veio a fazer parte dela. Um século após a fundação da Ordem dos Cavaleiros do Oriente, ou seja pelo ano de 1300, em seguida a última Cruzada em que também tomara parte o rei de uma Ordem estabelecida no Monte Mória, na Palestina (lugar escolhido por Salomão para a construção do seu Templo), fundaram um Capítulo desta mesma Ordem, fixando-lhe a sede dos Hébridas, e mais tarde em Kilwinning, denominando essa Ordem de “Ordem de Heredom” (lembramos que a palavra “Heredom” e composta de “hieros”- santo e “domos”- casa, portanto Casa Santa ou Templo).

Alguns anos mais tarde, no começo do século XIV, o papa Clemente V e o rei da França, Felipe o Belo, iniciaram a sua nefasta obra de perseguição contra os Templários.

Para se compreender o papel que a Ordem do Templo desempenhou na Maçonaria Escocesa é necessário resumir a sua história.

A Ordem do Templo foi fundada após a primeira Cruzada, por Godofredo de Bouillon, Hugues de Payens e Godofredo de Saint-Omar, com o fito de proteger os peregrinos que de Jerusalém se dirigiam ao lago de Tiberíade.

Associados em 1118, a outras sete Cavaleiros, os Templários fizeram o seu quartel numa casa vizinha ao terreno do Templo de Jerusalém. Dez anos mais tarde receberam do papa, os estatutos que os constituíram em Ordem, ao mesmo tempo Religiosa e Militar.

Em breve esta Ordem tomou um desenvolvimento considerável, que no século XII, possuía nove mil residências na Europa. No século XIV, contava com mais de vinte mil membros. Apesar do seu poder e da sua riqueza, o mistério que os Templários cercavam as reuniões do seu Capítulo e das suas iniciações , prestava-se às acusações de impiedade e de crueldade que o vulgo em todos os tempos proferiu contra as associações secretas.

Consciente de uma impopularidade crescente o Grão-Mestre Jacques de Molay pediu ao papa Clemente V, em 1306, a abertura de um inquérito, mas este contentou-se com convidar Molay a ir a Avignon, em França, onde, por força de circunstâncias adversas estava, provisoriamente instalado o papado.

Por outro lado o rei de França tinha mais do que nunca necessidade de dinheiro, e para resolver esta dificuldade valia-se dos Templários que lhe emprestavam elevadas somas. Ora, naquele tempo, quando alguém se queria desembaraçar de uma dívida, o meio mais simples era desembaraçar-se do credor. Foi por isso que em Setembro de 1307, todos os oficiais do rei receberam instruções mais que misteriosas, sendo que a 12 de Setembro do mesmo ano Molay era preso no Templo, ao mesmo tempo que outros membros da Ordem também o eram, em todos os pontos da França. No mesmo dia todos foram levados perante inquisidores, que os acusaram dos mais abomináveis crimes, e como não podiam confessar um crime que não cometeram, foram levados a tortura. Disse um deles aos seus juízes: – Fui de tal modo torturado, atormentado, exposto a força que as carnes dos meus calcanhares foram consumidas, que os ossos caíram poucos dias depois.

O Rei, Felipe o Belo, apressou-se a se apoderar do tesouro da Ordem, depositado no Templo de Paris. O concílio que deveria julgar os Templários reuniu-se em Viena, no Delfinado à 13 de Outubro de 1311, onde ninguém foi citado para defender-se. Porém diante da resistência do concílio em julgar tal iniquidade, o papa, Clemente V, cassou a autoridade da Ordem do Templo em 12 de Abril de 1312, quando os concílios de Ravena, Salamanca e Moguncia tinham absolvido os Templários, sendo estes levados à sua presença.

A supressão da Ordem dos Templários teve o seu epílogo em 1313. O papa reservara para si o julgamento do Grão-Mestre e dos dignitários presos à sete anos, nas masmorras de Felipe o Belo. A 18 de Março de 1313 todos se retractaram e na noite daquele mesmo dia todos pereceram nas fogueiras, que com antecedência tinham sido preparadas. Prevaleceu a força e o interesse sobre a justiça.

É muito provável que os sobreviventes da Ordem dos Templários, anatematizados pela igreja, tenham então procurado agrupar-se de novo noutras associações, em especial a Ordem Cavalheiresca de Heredom, ou ao Grande Capítulo de Kilwinning. Entretanto desde que começaram as perseguições na França, vários templários escaparam, fugindo para a Escócia, e alistaram-se sob a bandeira do Rei Roberto I, que criou a 24 de Junho de 1334, a “Ordem do Cardo”, em favor dos maçons e dos Templários que tinham contribuído para o sucesso das suas armas em Bannock­Bum, na qual as recepções eram semelhantes às da Ordem do Templo.

Parece pois que, o rei da Inglaterra quis recompensar os Templários, restabelecendo a sua Ordem, com as suas formas, mas com outra designação. Há outro facto mais importante ainda, um ano depois, Roberto I, fez a fusão da Ordem do Cardo com a Ordem de Heredom e elevou a Loja Mãe de Kilwinning a categoria de Loja Real e, estabeleceu junto a ela o Grande Capítulo da Ordem Real de Heredom de Kilwinning e dos Cavaleiros Rosa-Cruz. Este nome de Cavaleiro Rosa Cruz aparece aqui pela primeira vez, no século XVI (antes, portanto, dos “Manifestos Rosacruzes” na Europa) fazendo, tudo supor, que não é senão outra designação da Ordem dos Cavaleiros do Oriente, cujo emblema era uma cruz enlaçada por quatro rosas.

Estes factos históricos são de importância capital para o Escocismo e pedem mais atenção para o assunto. Verificamos em primeiro lugar, que nos séculos XII e XIII, a Maçonaria Operativa viu abrigarem-se nas suas Lojas, Ordens de Cavalaria que nenhuma relação tinham com aquela associação de ofício, e cujas iniciações, praticas, cerimónias e graus eram diferentes dos seus. Algumas dessas Ordens, refugiavam-se na nova Ordem estabelecida pelo rei Roberto I, por si próprias, outras pelo beneplácito dos reis da Inglaterra, que acumulavam dos mesmos favores, à maçons e cavaleiros, em recompensa aos serviços prestados à coroa, e agrupava-os numa fraternidade, sobre a qual se podiam apoiar, em caso de necessidade.

Uma outra constatação importante para o Escocismo, é que os Templários, desde 1307, penetravam nas Lojas da Escócia, que estavam sob a égide da Ordem do Cardo, levando não obstante as cerimónias Templárias e seus graus. Estes graus junto aos outros da Ordem da Cavalaria eram conferidos pelo Grande Capítulo Real de Heredom de Kilwinning, e formavam o sistema escocês, conhecido pelo nome de Rito de Heredom ou de Perfeição.

Pode-se assim explicar como, após a suspensão da Ordem do Templo, certas Ordens de Cavalaria, que tinham mantido a sua influência sobre a maçonaria operativa da Escócia, acharem o meio de desenvolverem o cerimonial das iniciações dos pedreiros, num ritual completo e susceptível de incutir nos seus iniciados mais do que a simples comunicação dos segredos da arte de construir.

É também por esta época, ou seja mais de quatrocentos anos antes da constituição da Grande Loja da Inglaterra, que se viu nascer na Escócia o nome de Maçom Adoptado, pelo qual entenderam os membros das Lojas que não pertenciam a profissão de pedreiros. Insistamos em que esta fusão da Maçonaria operativa com as Ordens da Cavalaria, se operou somente na Escócia, mas não na Inglaterra. Isto explica portanto, a origem escocesa dos graus, outros, que não eram conferidos pela corporação dos pedreiros de outros países – aprendiz, companheiro e mestre.

Enfim, realcemos o papel político das Ordens da Cavalaria e das Lojas da Escócia, inteiramente devotados ao rei da Inglaterra, compreenderemos então a fidelidade que a Maçonaria Escocesa defendia a causa dos destronados.

Para terminar esta parte deste trabalho, é interessante notar quais os graus que a Loja Real de Kilwinning e o seu Grande Capítulo de Heredom conferiam desde o seu estabelecimento. A própria Loja trabalhava com os graus da Maçonaria operativa, ou sejam Aprendiz, Companheiro e Mestre de ofício, mas convém notar que o Grau de Mestre não existia naquela época em que os mestres não eram senão os dirigentes das Oficinas, isto é das construções, cada qual na sua profissão.

Os demais graus inspirados pelos Rosa-Cruz, foram criados no começo do século XVIII, quando o Capítulo de Heredom, conferia aos membros da Ordem dos Cavaleiros do Oriente ou Ordem dos Cavaleiros Rosa-Cruz, e a Ordem do Cardo, ou do Templo, todos os graus dessas duas Ordens.

Depois de ter assim, brevemente resumido as tradições da confraria dos pedreiros e estabelecido, em consequência de circunstâncias, as Ordens da Cavalaria a elas se ligaram.

Convém deter-nos um instante na Ordem da Rosa-Cruz, que exerceu uma influência preponderante na transformação da Maçonaria Operativa na sua forma Simbólica, como a conhecemos hoje. Poucos historiadores se ocuparam da real origem da Rosa-Cruz, que entretanto desempenhou papel considerável nos séculos XVI e XVII. O motivo dessa abstenção, se explica pela ausência da necessária documentação história que os Rosa-Cruz não se preocuparam em guardar, pois viveram espalhados pelo mundo, conhecido então, reunindo-se uma vez por ano para transmitir, uns aos outros, os conhecimentos adquiridos, porem estes conhecimentos sempre foram transmitidos verbalmente.

A Conferência Internacional dos Cavaleiros Rosa-Cruz, realizada em Bruxelas em 1880, felizmente lançou uma nova luz sobre a história dessa Ordem.

A princípio a conjuração dos Rosa-Cruz, não foi mais do que uma afirmação da liberdade de pensar. Uma obra de apaziguamento e de tolerância. O que os Templários tinham querido fazer no seio da Igreja Romana, os Rosa-Cruz também tentaram realizar, porém ficando cautelosamente fora de qualquer afirmação confessional.

Passados quase quinhentos anos, desde que os Templários remanescentes do massacre ordenado por Clemente V, estabeleceram-se na Escócia, durante os quais o Escocismo se consolidou e se espalhou pela Europa, é que vamos encontrar nos novos registros das mudanças estabelecidas no Escocismo, tal qual o conhecemos hoje. É conveniente lembrar, que o poder directivo da Ordem não mais estava na Escócia nem na França, mas sim na Prússia, onde Frederico II, seu rei, tinha efectivado profundas modificações no Escocismo, fazendo vigorar a primeira Constituição, Regulamentos e Leis normalizando o Escocismo. Uma destas mudanças foi a de dar ao Escocismo os actuais trinta e três graus, pois até então somente tinha vinte e cinco.

As grandes Constituições de 1786 não chegaram a realizar imediatamente o fim a que se tinham proposto, e é fácil determinar a causa. Três meses depois de serem publicadas em 17 de Agosto de 1786, Frederico II, seu autor, morreu. Todos que, com Frederico II, compuseram o primeiro Conselho da Ordem, reestruturada, foram obrigados a se dispersar, premidos pelo novo rei Frederico Guilherme II, que só queria a Ordem Rosa-Cruz e passou a não tolerar outra forma de Maçonaria.

Deste modo a reforma foi levada para a França, por um dos colaboradores de Frederico II, o conde D’Esterno, embaixador da França em Berlim, e um dos signatários das Grandes Constituições. D’Esterno, tentou introduzir, desde o seu regresso, o Rito Escocês Antigo e Aceito no seu país, fundando para isso um Supremo Conselho, em Paris, em cuja presidência ficou o duque de Orleans e do qual tomaram parte Chaítlon de Joinville, o Conde de Clermont-Tonnerre e o Marquês de Bercy. Este Supremo Conselho teve vida efémera, sendo obrigado a desaparecer pelas circunstâncias revolucionárias que se estabeleceram na Franca.

Há um facto curioso a ser registado. O Escocismo, tinha sido fundado na Europa, onde adormeceu, e voltou a funcionar mais tarde, voltando da América de uma forma mais vigorosa e mais envolvente, pelas seguintes razões.

A 27 de Agosto de 1761, o Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente tinha entregue ao Irmão Estevão Morin cujos negócios o chamavam à América, uma Patente de Grão-Mestre Inspector, autorizando-o a “Trabalhar regularmente pelo próprio proveito e adiantamento da Arte Real e constituir Irmãos nos Sublimes Graus de Perfeição”. Morin, saindo de Paris, chegou a São Domingos onde instalou o seu gabinete, espécie de Grande Oriente para os Altos Graus no

Novo Mundo. Em 1770, fundou o Conselho dos Príncipes do Real Segredo de Kingston, na Jamaica, criou muitos Inspectores Gerais, entre eles, Francken, De Grasse-Tilly, De la Hogue e Hacquest.

Ora, estes Maçons da América, pertenciam ao Rito de Perfeição, mantinham assíduas relações com o Grande Consistório de Bordeaux. Mas, como já foi dito este adormece em 1781. Desde então os novos Corpos de São Domingos e da Jamaica passam a manter relações com Berlim até a morte de Frederico II, que era tido como o Grão- Mestre Universal. É provável entretanto que não podendo mais usarem-se de Actos Constitucionais emanados de uma autoridade desaparecida, aqueles maçons se dirigiram a Berlim tendo em vista agruparem-se sob outro sistema, e ligaram-se em definitivo ao Rito constituído pelas Grandes Constituições.

A 29 de Novembro de 1785, Salomão Bush, Grão-Mestre de todas as Lojas e Capítulos da América do Norte, dirige-se a Frederico II na sua qualidade de chefe supremo da Maçonaria para lhe dar a conhecer a criação, em presença de uma grande assembleia de Irmãos, de uma “Sublime Loja” em Philadelphia, que “se submeteria as Leis e Constituições que a Ordem deve ao seu Chefe Soberano”, e exprime o desejo de que a “Grande Luz de Berlim condescenderá em iluminar a nova Loja“. Não obstante, os maçons da América trabalham até 1801 com o Rito de Perfeição, pois até aquela data o mais alto grau conhecido na América era o de Príncipe do Real Segredo, ou seja o Grau 25, na escala do Escocismo, antes da reforma estabelecido por Frederico II, que lhe acrescentou mais sete graus.

A 31 de Maio do mesmo ano, foi constituída em Charleston uma nova Potência dirigente que adopta as Grandes Constituições de 1786 e os trinta e três Graus nelas estabelecidas. Esta Potência que tomou o nome de “Supremo Conselho dos Grande Inspectores Gerais para os Estados Unidos da América“, foi realmente o primeiro a realizar de modo definitivo o objectivo das Grandes Constituições de Frederico II, ou seja, a primeira a praticar o Escocismo como é hoje conhecido. De Grasse-Tilly, era membro do Supremo Conselho de Charleston. Em 1802 voltou à Jamaica e fundou com De La Houge naquela cidade, um Supremo Conselho de qual foi o Mui Poderoso Soberano Grande Comendador. Em 1803, De Grasse-Tilly regressou à França onde instalou em 22 de Setembro de 1804 um Supremo Conselho em Paris, com jurisdição internacional.

Assim o Rito Escocês Antigo e Aceito e o Escocismo, renasciam das suas cinzas no solo francês, de onde não mais saiu, e achava-se definitivamente constituídos sobre as bases das Grandes Constituições. Sucessivamente foram fundados outros Supremos Conselhos em muitos países da Europa e na maior parte dos da América. Estes Supremos Conselhos formam hoje o Escocismo e o Rito Escocês Antigo e Aceito, que é o Rito maçónico mais praticado no mundo (@MDD em 1923… hoje pode-se dizer que o rito de Emulação é o mais praticado no Mundo, mas o REAA ainda é o mais praticado na América do Sul/Brasil).

O 1° Ritual do Grau 17, propriamente do R.’. E.’. A.’. A.’. (fundado em 1801 nos E.U.A.), foi aprovado pelo Supremo Conselho da Jurisdição Sul em 1870 e já comportava algumas modificações importantes em relação ao seu ascendente do Rito de Heredom. Nessa versão (1870) o Grau 17 aparece como um prelúdio para o Grau 18, onde se buscava a palavra perdida do Mestre.

No ano de 1939 uma alegoria dramática, repleta de pompa e que necessitava de um largo elenco para sua execução, foi proposto como substituto para o Ritual do Grau 28 e aprovado como tentativa do que se tornaria o ritual do Grau 28 de 1940. O autor desse ritual foi o Irmão Harry K. Eversull, 32°, um clérigo e presidente do Colégio Marietta em Ohio. A configuração da alegoria era o Templo de Jerusalém construído pelo Rei Herodes, que teria suplantado o segundo Templo, construído por Zorobabel no primeiro século da Era Comum.

A ideia foi bem acolhida pelo Soberano Grande Comandante Melvin Johnson, entre outros, mas acharam que a alegoria caberia melhor como sendo do Grau 17, pois poderia ser o “Grau de Transição” entre o Antigo e o Novo Testamento, ou seja, o prelúdio para o Grau 18, tendo em vista que o Templo de Herodes foi o que foi visitado por Jesus que o comparou com seu próprio corpo (Jo. 2,19­22), orou nele e, inclusive, previu sua destruição, assim como de toda Jerusalém (Lc. 19, 44). Essa mudança foi efectuada em 1942, quando o ritual do Grau 17, utilizado desde 1870, foi substituído por aquele que foi a tentativa do Ritual do Grau 28.

O ritual novo não foi universalmente aceito. Um estudo realizado em 1954 revelou que muitos Capítulos nem o tinham adoptado e nem tinham a intenção de fazê-lo, tendo em vista as dificuldades apresentadas pelo novo ritual, como cenário ritualístico e o grande número de Irmãos requeridos para sua execução. Sendo assim, em 1957, o Supremo Conselho suspendeu a utilização do ritual aprovado em 1942 e restaurou a utilização da versão de 1870.

Nos EUA, outras reformas se fizeram necessárias e outras modificações foram e voltaram. Os rituais do Grau 17 foram revistos em 1989, 1994, 2002 e 2007 (até onde se conhece).

A Mitologia do Grau

A mitologia do Grau remete-nos ao ano de 1118, quando os Cruzados do Ocidente teriam se unido aos Maçons do Oriente sob a condução de Garimont (outra interpretação da letra G da Estrela Flamejante), Patriarca de Jerusalém. O objectivo do Grau seria de velar pela segurança dos peregrinos.

O ano de 1118 não foi escolhido ao acaso. Neste ano foi fundada a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Jerusalém por Hugues de Payns, ou seja, a Ordem dos Templários.

Um dos rituais franceses utilizados actualmente traz o seguinte texto:

“Quando os Cavaleiros do Oriente e os Príncipes de Jerusalém reuniram-se para conquistar a Terra Santa, levavam uma cruz para distinguirem-se, como uma marca dos que iriam combater sob a mesma bandeira. Ao mesmo tempo, fizeram um juramento de que derramariam até a última gota de sangue para restabelecer a verdadeira religião.
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A paz tendo sido alcançada, eles não puderam realizar seu desejo (pelo martírio) e retornaram a seus países. Sendo assim, resolveram unir a teoria e a prática e, juntando-se à Ordem de Malta, que naquele momento era relativamente ligada à Maçonaria, não admitiam em suas cerimónias senão quem tivesse dado provas de sua amizade, zelo e discrição.
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Eles adoptaram o nome de Cavaleiros do Oriente porque o sentimento que os guiava era tão grandioso, que embelezava àqueles que o possuíam e juntaram a este o “e do Ocidente” para fazer conhecer à posteridade as partes do mundo onde esta Ordem tinha surgido. Eles não mudaram nada de sua recepção que permaneceu a mesma que a de hoje.
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Foi em 1118 que os onze primeiros Mestres Maçons fizeram seus votos entre as mãos de Garinum, Patriarca e Príncipe de Jerusalém, mas eles contavam mais de cinco séculos desde a origem de seu estabelecimento no Ocidente.”

Tema do Grau

Este Grau ensina a necessidade de partir em luta contra os danos causados pela intolerância, os juízos temerários, o fanatismo, destruidores da humanidade assim como contra a ignorância que engendra os erros e o obscurantismo. Em resumo, fala da luta contra tudo que é obstáculo para o surgimento de uma consciência clara e luminosa.

Símbolos e Alegorias do Grau

O Peregrino: Vestidos como peregrinos, os Príncipes de Jerusalém ingressam na Câmara. O peregrino simboliza o estado do homem sobre a Terra, o qual cumpre seu tempo de provações rumo a um estado superior. O termo designa alguém que se sente estrangeiro no meio em que vive. Sendo o mundo profano cercado pelas trevas da ignorância, da superstição, do fanatismo, o maçom virtuoso é sempre um “estrangeiro” em meio à escuridão que o cerca. Os príncipes, que poderiam estar vestidos com o luxo e a distinção de sua condição de nobres, são revestidos com as pobres vestes do peregrino. O término da viagem, um objectivo superior, é sua recompensa.

Os Essénios e o lago Méris: O Essenismo é transcrito pela primeira vez por Fílon e Flávio Josefo, onde citavam uma ordem que havia se afastado do judaísmo tradicional por motivos desconhecidos, pois seus costumes se diferenciam em determinados pontos.

Dos hábitos comuns do grupo, pode-se dizer que se alimentavam basicamente de frutas e legumes (eram vegetarianos) e que banhavam-se em águas como forma de ritual para a purificação espiritual. As toalhas submersas em água do nosso Ritual do Grau 17 são referência a isso.

Durante o domínio da Dinastia Hasmonéa (140 – 37 a.E.C.), os essénios foram perseguidos. Retiraram-se por isso para áreas desérticas, vivendo em comunidade e em estrito cumprimento da Torá de Moisés, bem como do estudo e das práticas virtuosas descritas nos livros dos Profetas.

Méris é o nome dado pelos antigos escritores gregos a um grande lago da actual região de El Fayum, no Egipto. Actualmente, é um lago salgado de tamanho bem reduzido, chamado de Birket Qarun. O faraó Amenemhat III erigiu perto de Méris um imenso complexo de edifícios e uma grande Necrópolis.

O lago simboliza o “olho da terra” por onde os habitantes do mundo subterrâneo podem ver os homens, os animais, as plantas, etc. Numa analogia, simboliza a revelação de camadas mais profundas da consciência e o voltar-se para dentro de si.

O lago de Méris era visto pelos Teólogos do Antigo Egipto como uma manifestação real e terrestre da Vaca do Céu, um céu liquido onde o sol se escondera misteriosamente um afloramento do Oceano Primordial, mãe de todos os deuses, dando vida aos humanos, a garantia da existência e da fecundidade.

O Arco-Íris: O arco-íris é símbolo do caminho e mediação entre a terra e o céu. É a ponte, de que se servem os deuses e heróis, entre o Outro Mundo e o nosso. Na Grécia, o arco-íris é Íris, a mensageira rápida dos deuses. Simboliza também, de modo geral, as relações entre o céu e a terra, entre os homens e os deuses: é uma linguagem divina. Na China, a união das cinco cores atribuídas ao arco-íris é aquela do yin e do yang, o signo da harmonia do universo e de sua fecundidade.

No contexto do Grau 17, o arco-íris é símbolo da união de contrários e também a reunião das metades separadas, a resolução. O arco-íris, ao aparecer por cima da arca de Noé, reúne as águas inferiores e as águas superiores, metades do “ovo” do mundo, como sinal de restauração da ordem cósmica e da gestação de um ciclo novo. O arco-íris é símbolo anunciador de felizes acontecimentos ligados à renovação cíclica.

Através de virtudes superiores é possível ligar o homem ao céu e aos seus Irmãos.

A Lua manchada de sangue: A Lua é símbolo de dependência (do sol, por não ter luz própria) e de periodicidade e de renovação. Também é símbolo de inconstância. Simboliza ainda os ritmos biológicos, o tempo vivo. É também o primeiro morto. Durante três noites, em cada mês lunar, ela está como morta, ela desapareceu…Depois, reaparece e cresce em brilho. Da mesma forma, considera-se que os mortos adquirem uma nova modalidade de existência. A Lua é para o homem o símbolo desta passagem da vida à morte e da morte à vida.

O sangue está relacionado com o simbolismo da vida. Em diversas escrituras antigas é visto como veículo e princípio da vida. Simboliza todos os valores solidários com o fogo, o calor e a vida que tenham relação com o sol. A esses valores associa-se tudo o que é belo, nobre, generoso, elevado. Também participa da simbologia geral do vermelho.

No contexto do Grau 17, representa que, enquanto para o supersticioso a Lua representa anúncios de catástrofes e de desgraças, para o verdadeiro Iniciado ela é símbolo de renovação, assim como o sangue derramado pela Verdade não é motivo de terror, mas sim de nobreza, de beleza, de generosidade e de elevação.

O heptágono: O heptágono está ligado ao simbolismo do número 7. Sete é a união do ternário e do quaternário. “Hepta” quer dizer “sete”, e “gonia” quer dizer “ângulo”. O número 7 é símbolo de integridade, totalidade, de plenitude e perfeição.

A marcha pelo “heptágono” está ligada à abertura dos sete selos do livro do Apocalipse, que só o Cordeiro pode abrir (Apocalipse Cap. 5 a 8).

Cada abertura de um dos selos é seguida por um evento ou uma série de eventos. Apocalipse 6:1:”E, havendo o Cordeiro aberto um dos selos, olhei, e ouvi um dos quatro animais, que dizia como em voz de trovão: Vem, e vê“. A visão do Livro dos Sete Selos foi referida por João, em Apocalipse. Quando cada um dos quatro primeiros selos é aberto, um cavalo e seu cavaleiro aparecem. Estes são geralmente referidos como Cavaleiros do Apocalipse.

Na abertura do primeiro selo surge um cavalo branco, que representa o Anticristo, com sua falsa inocência e paz, que governa o mundo (Apocalipse 6:2).

Na segunda abertura do livro, surge outro cavalo, desta vez vermelho, ao qual foi dada a ordem de que tirasse a paz da terra, e que se matassem uns aos outros (Apocalipse 6:4).

Ao abrir do terceiro selo, João vê um cavalo preto, que segurando uma balança faz ofertas exorbitantes; o que significaria a escassez dos produtos e seus preços exorbitantes. Este cavalo representa a fome, a penúria, as trocas injustas (Apocalipse 6:4).

Na abertura do quarto selo surge o último dos quatro cavaleiros, que é a representação da fome, da peste e da destruição, do qual o que estava assentado sobre ele havia a palavra Morte, e o Inferno o seguia (Apocalipse 6:7-8).

A abertura do quinto selo é seguida por uma visão daqueles que foram “mortos por causa da palavra de Deus” (Apocalipse 6:9).

Quando o sexto selo é aberto, há um grande terramoto, e os sinais aparecem no céu. (Apocalipse 6:12,14) Além disso, 144.000 servos de Deus são “selados” nas suas testas, em Apocalipse 7.

Quando o sétimo e último selo é aberto, sete anjos com suas trombetas começam a soar, um por um. Os acontecimentos do Sétimo Selo são subdivididos pelos eventos seguintes, ao soar de cada trombeta. Este selo é aberto em Apocalipse 7, e a sétimo trombeta não soa até Apocalipse 11.

Em resumo:

  • Primeiro Selo – Conquista mundial, Cavalo branco;
  • Segundo Selo – Conflito e guerra, Cavalo vermelho;
  • Terceiro Selo – Fome e escassez, Cavalo preto;
  • Quarto Selo – Morte, Cavalo Amarelo;
  • Quinto Selo – Visão do martírio, ou mártires;
  • Sexto Selo – Perturbações “cósmicas” ou sinais do céu, e a marcação dos 144 mil;
  • Sétimo Selo – Soar das sete trombetas dos sete anjos e o Juízo Final.

Estudiosos bíblicos associam os sete selos com os sete Espíritos de Deus, e outros termos bíblicos referidos ao número sete. Os selos podem conter símbolos comumente interpretados como a morte, a fome, as guerras mundiais, o martírio, terramotos e o Anticristo. O livro também afirma que haverá “sete trombetas” anunciando os aspectos do “Fim dos Tempos”: a humanidade a ser julgada, os mares se voltando para o sangue, feridas no corpo das pessoas, epidemias, infertilidade, e a introdução das “sete taças”. Essas bacias são um terço do mar, a humanidade, a água, a vida animal, os navios, as culturas, e a terra, todos sendo tragados por um abismo infinito.

A Balança e as espadas cruzadas: A balança é símbolo do equilíbrio, da medida, da prudência e da justiça. Associada à espada, é também a justiça, mas duplicada pela VERDADE. A espada é, assim como a balança, um símbolo axial e polar, a arma do centro. As espadas cruzadas são a defesa da justiça e da verdade, personificadas pelo princípio transcendental CENTRAL ou AXIAL.

O Arco, as flechas, o crânio, a coroa e o incenso: o Arco, as flechas, o crânio, a coroa e o incenso fazem parte do simbolismo do Grau.

Segundo as instruções de um ritual do final do século XIX, eles têm a seguinte significação:

“O arco, as flechas e a coroa significam que a palavra do Venerável e as decisões da Loja devem ser executadas com a rapidez do vôo das flechas e com a submissão que se deve ter diante das testas coroadas… a caveira simboliza um Irmão exilado de nossas Lojas…o incenso é aqui figurado para nos lembrar que a Maçonaria está espalhada por toda a terra e que sua honra é como o perfume do incenso.”

A flecha identifica-se ao relâmpago. O relâmpago é o traço de luz que traspassa as trevas da ignorância: portanto é um símbolo do conhecimento. O arco significa a tensão de onde brotam nossos desejos. Ou seja, a vontade que direcciona o conhecimento para vencer as trevas.

A coroa, além de símbolo do poder do coroado, é símbolo de ligação entre o que está em baixo (o coroado) e o que está em cima (o Princípio Superior, representado pelo Céu).

Dentre diversas possíveis interpretações positivas, a que é dada no Grau 17 ao crânio é negativa. Simboliza a ausência de vida espiritual quando o maçom se afasta dos princípios cultuados nas Lojas.

As cores branca, preta, dourada e vermelha: O branco, além de figuração de pureza, também representa a entrada no invisível, na plenitude de novas possibilidades, na transição, nos aspectos celestiais.

O negro representa a coexistência de contrários que se fundem, o ponto de partida da Grande Obra, a Nigredo, de superação dos aspectos sombrios.

O ouro é visto como o metal perfeito, símbolo solar, reflexo da luz celeste. Figura a nobreza de acção e de pensamento, conclusão da Grande Obra Alquímica.

O vermelho também está ligado com o simbolismo alquímico, a fase final da Grande Obra, a Rubedo, Obra em Vermelho. Simboliza a vida, a acção, o sangue derramado em defesa da Verdade.

M. Chaudiére

Fontes

  • Estudo e resumo de vários textos

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