Sendo o fogo energia criadora de outras energias, como a humano comunicação à volta da fogueira, ambos, fogo e comunicação, nos deram a capacidade de transformar a realidade presente e futura. Tal como o fogo, assim a comunicação humana é também uma realidade objectiva, mas igualmente subjectiva. Objectiva porque se materializa num sistema linguístico, o qual ganha forma e se expressa na fala e nos discursos escritos; subjectiva porque a fala e os discursos sobre a realidade concreta implicam a percepção de diferentes realidades de acordo com os comunicantes. Por isso, há não uma realidade mas muitas realidades a considerar.
Por efeito de retroacção, o desenvolvimento do conhecimento anda a par e passo com o desenvolvimento da comunicação que, ambos, por sua vez, são causa e efeito do desenvolvimento social e humano. O homem e as sociedades desenvolvem-se, enriquecem-se pelo seu grau de comunicação e de conhecimento relativamente ao mundo físico e ao mundo não físico, a que podemos chamar mundo do espírito.
A comunicação é geneticamente conhecimento em si e consigo transporta conhecimento sobre a realidade física ou do espírito, mas o conhecimento não é por natureza único, nem próprio para ser aprisionado ou imposto; antes, é multifacetado graças à pluralidade perceptiva que emana do processo de comunicação, mas também das idiossincrasias dos indivíduos, dos grupos, das organizações, das comunidades e das sociedades.
Se a comunicação serve para reduzir as distâncias entre as pessoas pela partilha de algo, a verdade é que a comunicação serve igualmente para as afastar, sobretudo quando se usam subterfúgios, paradoxos e desinformação que levam à confusão. A incerteza que decorre deste tipo de processos pode provocar espanto ou ansiedade e por vezes angústia nos sujeitos. Para reduzir estes estados emocionais, os indivíduos procuram nas situações ou na comunicação a ordem e o sentido das coisas. Ao aparecer uma explicação que lhes pareça plausível os indivíduos imediatamente a aceitam e se disponibilizam a estabelecer relações causais com base nos pressupostos da explicação de imediato oferecida.
E é por esta razão que, quando se adopta uma explicação, mesmo com fundamento frágil, ou sem ele, a mesma passa a dominar as nossas mentes, sendo que toda a informação contrária à teoria instalada é contestada por uma miríade de argumentos e justificações, elaborados a partir de uma teoria que não pode nem deve ser posta em causa. Nestes casos, ao contrário de se procurar corrigir a explicação inicial, reforça-se a explicação errada, mas auto-suficiente e auto- justificadora.
Perante a desinformação, a incerteza, a desordem ou a imprevisibilidade, o ser humano procura a ordem, um sentido – um rumo. Visto que o homem não está filogeneticamente preparado para lidar com a complexidade, a desordem e o caos, a sua tendência é para que, quando a comunicação lhe oferece um caminho, a ansiedade e o desejo de segurança encarregam-se de impeli-lo a aceitar aquilo que vier. E se a oferta for apaziguadora e geradora de certezas, a ordem encontrada encarregar-se-á de impor rituais para legitimação e institucionalização da teoria entretanto posta em pé.
Tendo em conta que uma histeria colectiva, um boato ou uma superstição obedecem a premissas absurdas, a sua aceitação e partilha podem tornar-se fogo que alastra, devastando sofregamente o pensar, o sentir e o agir das pessoas impreparadas ou desatentas às suas consequências devastadoras. É que, uma histeria colectiva leva a ter de determinado fenómeno a mesma percepção (pensamento único irracional); o boato, ao pegar rastilho, queima a verdade do que quer que seja por toda a parte onde as chamas alastrarem (afirmação de uma falsidade expandida); e uma superstição suficientemente firme e forte vale por si mesma e não necessita de provas ou de justificação (a racionalidade bem fundamentada de nada serve contra uma pedra granítica, incólume a qualquer vento de prova ou de contestação).
Mas para que um sistema humano subsista de modo equilibrado e adaptativo necessita de gerir com eficácia o processo dialéctico entre ordem e complexidade. Toda a comunicação no interior de um sistema, seja ele dual, familiar, grupal, organizacional ou social verá sempre os seus pés sobre o fio da navalha entre, por um lado, a ordem e, por outro, a complexidade ou a desordem, ou seja: entre a previsibilidade e a imprevisibilidade.
A ordem corresponde à codificação das coisas ou das pessoas, a uma certa arrumação, se quisermos, a uma certa objectividade, enquanto a complexidade corresponde a uma aleatoriedade, a uma incerteza, que não permitem a compreensão da forma como as coisas ou as pessoas estão organizadas. Uma e outra situação, de ordem e complexidade, aplicam-se à comunicação; ela pode conter em si ou transmitir tanto uma como outra, dependendo dos ingredientes que entram nas formas ou nas estratégias de relação social.
Correspondendo a ordem, agora não no sentido individual mas colectivo, a uma objectividade, esta só é possível pelos processos de racionalização, a qual por sua vez encontramos, mediante a comunicação, pelo diálogo. Sendo a comunicação um processo dinâmico, interactivo e adaptativo nele é sempre possível encontrar a racionalidade e a objectividade do mundo e da vida, assim os agentes da interacção o queiram.
A racionalidade e a objectividade nascem na comunicação pela argumentação, pelo contraditório das diferentes definições que cada participante tem da realidade. Mas a racionalidade pressupõe a aceitação do outro, ainda que ele conteste as definições contrárias às suas, pois é graças à alteridade da posição de cada parte que surge o consenso no turbilhão das diferenças.
A definição das sequências da comunicação é então a definição das regras, ou seja, da ordem que adoptamos – uma espécie de teoria na forma como vemos o mundo e os outros. Esta ordem acaba por determinar o futuro dos acontecimentos, nossos e dos outros.
O racismo, a exclusão, a xenofobia e outros predicados semelhantes, são definições humanas e sociais, uma ordem que uns quantos adoptam, por diferentes razões, mas que são reveladoras da forma como uns vêem os outros, constituindo estas por vezes entraves a um são desenvolvimento social e humano.
Caberá pois a cada ser humano, a cada actor social no desempenho dos seus papéis no palco da vida, usar os talentos que a vida lhe confiou, por forma a que, no final da sua jornada, possa testemunhar quão justa e perfeita foi a sua obra na arte de bem comunicar. E se os seus iguais lhe houverem de reconhecer o bom uso das ferramentas confiadas na construção da sua humanidade, o mundo ficará mais rico e as estrelas do céu azul resplandecerão pelo regresso a casa dos incansáveis obreiros da paz e da esperança num mundo melhor, através da arte da comunicação: desde as conversas à volta da fogueira até ao desenvolvimento social e humano!
F. N. Dias

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Acho bastante providencial a publicação dos artigos em questão. A leitura exige a abertura para certa complexidade, sobretudo de natureza histórica e filosófica, O que é muito bom!
Também, provoca- nos no sentido de “olhar para dentro de nós ” e então, ver o mundo de outra maneira, mais humanizado e /ou espiritualizado,com um certo misticismo filosófico. Gratidão!