O Maçom João Pedro Soares Luna

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O Maçom João Pedro Soares Luna
Avental de João Pedro Soares Luna

Portugal viveu, durante grande parte do século XIX, um dos períodos mais conturbados da sua história. A Europa da época vivenciava tempos pautados por drásticas mudanças, com a afirmação de grandes potências no panorama internacional e com inúmeros avanços ideológicos que viriam a abalar os antigos poderes seculares.

Na primeira metade do século XIX, Portugal enfrentou as Invasões Francesas, uma tenebrosa Guerra Civil que viria a modificar profundamente a sociedade portuguesa e, por fim, uma feroz epidemia.

Todos estes acontecimentos tiveram como protagonistas valorosos homens, muitos deles maçons, que embebidos no espírito de um pensamento progressista, e livres das amarras teológicas impostas pela Igreja, dariam o seu contributo para que Portugal pudesse recuperar o atraso que tinha face à realidade europeia.

Alexandre Herculano afirmou um dia que

“debaixo dos pés de cada geração que passa na terra dormem as cinzas de muitas gerações que a precederam”.

É precisamente sobre as cinzas dessas gerações, nomeadamente as cinzas de um grandioso Maçom, que me irei debruçar, dando-vos a conhecer João Pedro Soares Luna.

Nascido em Elvas em 1792, no seio da família de um grande militar, Luna acabou por seguir o exemplo paterno e desde a sua tenra idade dedicou a sua vida a servir Portugal, lutando por todas as causas que lhe pareceram justas e dignas de merecerem o seu sangue e a sua extrema dedicação.

Com 14 anos, tornou-se cadete no regimento de Artilharia n°3 e em 6 de Junho de 1808, com 16 anos, rumou a Espanha para servir na Guerra Peninsular, deslocando- se de Elvas para a Juromenha e de seguida para Badajoz, às ordens do Exército Anglo-Luso.

Participou no cerco a Olivença e voluntariou-se na luta pela tomada de Badajoz, feito que lhe valeu uma promoção ao cargo de alferes.

Nos anos seguintes, foi ainda promovido várias vezes, mas é somente em 1820 que João Pedro Soares Luna se transforma profundamente, passando de um militar de carreira a um ideólogo progressista e liberal.

Após a revolução liberal do Porto de 1820, foi mobilizado e enviado para o Brasil, onde permaneceu durante todo o processo de independência do país.

Prosseguiu a sua carreira militar chegando a major em 1825, sendo consequentemente nomeado comandante das companhias pagas na Ilha do Faial, nos Açores.

Quando D. Miguel I foi aclamado rei absoluto em Lisboa, Luna seria, por força das circunstâncias, exilado em Londres, tendo conseguido regressar apenas em 1830.

João Pedro Soares Luna viria ainda a ser nomeado para comandar o Corpo Académico, um corpo militar formado por estudantes da Universidade de Coimbra, que manobrava uma bateria de artilharia.

O Corpo Académico, sob o seu comando, conseguiu feitos notáveis, participando nas conquistas de São Jorge e do Pico, sendo elogiado por D. Pedro IV, dada a sua forte bravura.

Em Julho de 1832, Luna participou na ocupação e na defesa da cidade do Porto, sendo um dos oficiais que mais se destacou, em especial na batalha de Ponte Ferreira.

Em 1833, acompanhou o Corpo Académico ao Algarve, onde foi nomeado governador militar de Faro, destacando-se novamente pelas suas habilidades no campo de batalha.

O ataque mais violento pelas tropas miguelistas ocorreu no dia 23 de Fevereiro de 1834, seguido de uma investida quatro dias depois, data essa que João Pedro Soares Luna considerou ter sido o dia mais glorioso de toda a sua vida, face a um ataque em que dispunha apenas de 14 soldados de cavalaria junto do reduto Duque de Bragança.

Tamanho feito militar valeu-lhe a honra de ter mandado cunhar uma medalha comemorativa, com a devida permissão de ser usada no seu uniforme.

João Pedro Soares Luna, após estes episódios, foi novamente promovido e a sua passagem pelo Algarve garantiu-lhe ainda a distinção para que fosse eleito deputado pelo círculo eleitoral de Faro.

João Pedro Soares Luna era aquilo a que chamamos hoje “um homem de esquerda”, digamos assim, e teria na sua forma de estar o ímpeto revolucionário da luta contra as classes, em busca dos privilégios inerentes às mesmas, o que consequentemente o levaria a abraçar, de corpo e alma, o Setembrismo, um movimento ideologicamente revolucionário, inspirado no “Vintismo”, e do qual faziam parte vários maçons, caracterizado pela oposição à Carta Constitucional.

Com esta posição, a sua carreira militar foi amplamente prejudicada pelos Cartistas que o viam como um hábil militar, capaz de grandes feitos no campo de batalha e, dessa forma, uma consequente e poderosa ameaça.

Os anos seguintes da sua vida foram ainda mais atribulados, estando constantemente envolvido nos movimentos revolucionários mais radicais que abalaram os novos poderes instituídos e que defendiam o poder absoluto do povo.

João Pedro Soares Luna – um Maçom progressista, um liberal revolucionário – viria a falecer em Lisboa no dia 19 de Agosto de 1848.

Desconhece-se com rigor o seu percurso maçónico. Sabe-se, no entanto, que o era e que via na Maçonaria uma fonte inigualável de luz, num mundo onde a escuridão clerical imperava sobre Portugal.

João Pedro Soares Luna lutou contra o Absolutismo. Lutou pelos direitos dos mais fracos, dos pobres e dos oprimidos. Lutou por um Portugal mais livre, mais progressista, com melhores condições de vida; um Portugal mais justo e, enquanto o fazia, meus queridos irmãos, fazia-o também em loja, junto dos seus irmãos, melhorando-se a si mesmo e ao mundo que o rodeava; e quando o fazia, meus queridos irmãos, fazia-o usando precisamente este Avental.

É desta forma, diante de vós, e na condição de humilde aprendiz, que remexo orgulhosamente nas cinzas de João Pedro Soares Luna, na sua história, na nossa história, na história de um Maçom…

C. Ramos – A. M. – R:. L:. Conde de Paraty, nº 155 (GLLP / GLRP)

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