Entre Abril e Junho de 2024, será celebrado o bicentenário da fundação e instalação em Caracas da Grande Loja da Colômbia, sob o Grão-Mestrado de Diego Bautista Urbaneja, com jurisdição sobre as actuais repúblicas da Venezuela, Colômbia, Equador, Panamá e parte do Brasil, que, apesar da sua efémera existência de apenas quatro anos até 1828, ano em que desapareceu para sempre por ordem do General Simón Bolívar, ficou na história como a primeira Grande Loja da América Latina.
A primeira coisa que deve ficar clara é que, ao contrário dos clichés em voga desde meados do século XX, a Maçonaria latino-americana é um fenómeno pós-independência que não participou nos esforços de emancipação do início do século XIX com um pensamento ou acção que cooperasse com a criação de novas nações após o colapso do império espanhol.
E embora estas tenham surgido sob a liderança militar do movimento pró-independência, aquilo a que poderíamos chamar pensamento maçónico começou na região de mãos dadas com a sociedade civil no mundo das ideias republicanas e evoluiu no sentido de ser um interlocutor ou concorrente do Estado ao longo dos anos 1800.
Os maçons do século XIX eram membros da pequena, média e alta burguesia que se afastavam do liberalismo espanhol e do militarismo pró-independência em direcção ao humanismo francês e ao comércio livre inglês. Sob a égide de um discurso utópico, reuniam-se para discutir propostas de educação laica para todos os estratos sociais, sufrágio universal, redução do Estado, organização dos trabalhadores e artesãos, criação de escolas e universidades gratuitas, transferência do poder da Igreja para o Estado e fundação de partidos com um programa liberal. A proliferação de redes intelectuais, manifestos, jornais e revistas criados pelos maçons foi notória para a disseminação desta ideologia.
As actas e os escritos que sobreviveram das Tenidas do final do século XIX e dos alvores do século XX mostram que estas tratavam sobretudo de questões como a liberdade de culto, as constituições liberais, o casamento civil, a secularização dos hospitais e dos cemitérios, a nacionalização dos bens da Igreja e a soberania nacional.
Se procurássemos referências para exemplificar o pensamento maçónico em uso, poderíamos mencionar Benito Juárez no México, José Martí em Cuba e o Arielismo no Uruguai, Peru, Chile, Argentina e Equador com um “sermão laico” que privilegiava a herança da cultura greco-latina em detrimento do materialismo anglo-saxónico. O “Manifiesto Liminar” sobre uma reforma universitária proposta em 1918 pelos estudantes da Universidade de Córdoba, na Argentina, viria a ser adoptado pela Maçonaria na sua tarefa de fundar instituições de ensino superior que democratizassem os seus órgãos directivos através da incorporação de estudantes, em harmonia com a sua ideologia liberal até que, entre 1947 e 1958, a recém-criada Confederação Maçónica Interamericana (CMI) impôs a subjugação da região à supremacia anglo-saxónica e o distanciamento do debate político.
Consequentemente, quando em meados do século o multilateralismo maçónico abandonou as suas bandeiras e se rendeu sistematicamente aos ditames da Grande Loja Unida de Inglaterra, das Grandes Lojas brancas estaduais dos Estados Unidos da América e do Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceite para a Jurisdição do Sul dos EUA, a proibição que lhe foi imposta de não falar de política ou de religião, de não pôr em causa as políticas estatais e eclesiásticas, produziu um vazio de funcionamento que impregnou uma miscelânea de bonomia, filantropia e sincretismos quase religiosos que tornaram a voz da Maçonaria irrelevante na vida dos povos da região.
Ao mesmo tempo, a partir da quarta década do século XX, as Lojas começaram a aceitar correntes ideológicas que combinavam hinduísmo, orientalismo e práticas espiritualistas. A este respeito, o trabalho frutuoso do Maçom C. Jinarajadasa, o quarto presidente da Loja. Jinarajadasa, quarto presidente da Sociedade Teosófica (de 1945 até à sua morte em 1953 nos EUA), que fez duas viagens pela América Latina e Caraíbas (em 1929 a 17 países e em 1938 a 22) e escreveu vários livros com uma narrativa imaginativa da Maçonaria impregnada de predicados teosóficos.
No meio desta metamorfose, provocada pelas novidades metafísicas e pela geopolítica maçónica, um italiano radicado no México, Aldo Lavagnini (Magister), e um libanês radicado no Equador, Jorge Adoum (Mago-Mor), dos quais não há provas de que fossem maçons, escreveram os conteúdos dos rituais do Rito Escocês Antigo e Aceite repletos de ciências ocultas, magia, alquimia, adivinhação, numerologia, tarot, magnetismo e cabala. Os textos difundiram-se rapidamente, colonizaram os espaços maçónicos e iniciaram uma onda de choque de crenças que, por vezes, acabaram por substituir o método construtivo, o pensamento e a filosofia da Ordem.
Assim, a versão espanhola chegou às costas da América Latina, acusando a Maçonaria de ser responsável pela perda das colónias americanas no início do século XIX e em 1898. Um assunto levou a outro, o embuste foi adoptado com orgulho patriótico como verdadeiro e criou-se o mito de que a Maçonaria estava por detrás da independência, que os heróis eram maçons e que as Sociedades Patrióticas eram Lojas Maçónicas.
Desta forma, entronizou-se uma mitologia independentista sem suporte histórico e mutou-se a natureza e o conteúdo das Tenidas para as mais variadas escolas metafísicas, criando um campo propício para que a mistura New Age aterrasse nas décadas de 70 e 80, o que aprofundou a perda de visibilidade social e política da Maçonaria como pólo de difusão de ideias liberais, e começou, entrando no século XXI, a reproduzir paixões partidárias no seu seio, apesar dos contínuos apelos a que não se fale de política, invocados, desta vez, para salvaguardar a fraternidade entre maçons. Aprofundou-se, assim, a perda de visibilidade social e política da Maçonaria como centro de difusão de ideias liberais, e começou, já no século XXI, a reproduzir-se no seu seio paixões partidárias, apesar dos contínuos apelos para não se falar de política, invocados, desta vez, para salvaguardar a fraternidade entre maçons.
No entanto, um olhar renovado sobre o dever ser da Maçonaria, sobre o Maçom e sobre o próprio método construtivo da Ordem, ligado ao mundo da Internet como fonte bibliográfica, à maior preparação académica dos Maçons, às novas sensibilidades humanitárias e ao trabalho em conjunto com os Maçons, está a engendrar um estilo mais pós-moderno e inclusivo e menos mágico que tem vindo a ser introduzido pelos novos irmãos.
Ao mesmo tempo, a perda de influência da Grande Loja Unida de Inglaterra e da Maçonaria Branca nos Estados Unidos (em dificuldades económicas e de adesão) está a permitir um ecossistema revisionista de Landmarks, de relações diplomáticas e de redes internacionais numa Maçonaria que parou de crescer e que deseja actualizar os seus conceitos simbólicos para repensar a contemporaneidade e a realidade maçónica.
Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:- R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)
- Ex Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)
- Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)
Fonte

- O porquê da corda de 81 nós?
- Regulamento sobre Redes Sociais – Grande Loja Unida de Inglaterra
- A câmara de reflexões
- Grão-Mestre do Texas decide sobre a questão de membros “transgénero”
- A Maçonaria é herdeira dos Templários?

