O salmo 133

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A primeira referência que um Maçon encontra ao participar de uma sessão em Loja Simbólica é o salmo 133 [1]. Este salmo, que é chamado “cântico de romagem de Davi” supostamente teria sido composto pelo famoso rei de Israel, quando se encontrava sitiado por tropas inimigas e precisava dar aos seus comandados uma âncora que os mantivesse unidos e lhes proporcionasse a confiança necessária para lutar pela sua pátria e a sua crença.

O facto de os maçons terem adoptado esta oração para ancorar a abertura dos seus trabalhos em Loja de Aprendizes explica-se pelo facto de a Maçonaria estar centrada em três fundamentos básicos que lhe dão suporte e fundamento. O primeiro é a ideia que está no núcleo central da sua própria existência como instituto cultural. Esta ideia é a de que uma ordem social perfeita só pode alcançada quando há pessoas com espíritos adequadamente preparados para implantá-la e, principalmente, para defendê-la e preservá-la.

Esta ideia só pode ser realizada através da união entre as pessoas mais preparadas e comprometidas com a ordem social. É uma união que se faz “interpares” e que se realiza através da estratégia da Confraria. E neste sentido que a invocação ao Salmo 133 realiza este propósito:

“Como é bom e agradável viverem Irmãos em harmonia. E como o óleo precioso, que unge a cabeça de Aarão, do qual escorrem gotas para a sua barba, e dai para as suas vestes. E como o orvalho do Hermon, que vem cair sobre as montanhas do Tsión, como bênçãos ordenadas pelo Eterno. Sejam elas perpetuadas na sua vida” [2].

Isto quer dizer que todos os maçons são iguais e entre eles deve reinar a harmonia. Por isso, a virtude da Confraria, que se traduz na congregação dos Irmãos reunidos em Loja se realiza no simbolismo desse salmo, que consagra a união fraternal.

Na luta por um ideal, no respeito por uma crença, na confiança da realização de um objectivo.

A cadeia da União

O segundo fundamento é a prática que resulta da aplicação da Cadeia da União. Esta prática concita os membros da Confraria maçónica a unir-se para servir a sociedade, como se esta fosse a sua própria família. Aqui está implícita a virtude da Fraternidade, que é outra divisa consagrada pela Ordem. E este espírito fraterno, simbolizado no próprio ambiente gerado pela Loja que resulta numa egrégora, captando e distribuindo entre os Irmãos a energia que ali circula. Daí a oração final, de encerramento das seções, fechando a Loja Simbólica [3].

– Ó G∴ A∴ d∴ U∴ , fonte fecunda de Luz, de Felicidade e Virtude, os OObr∴ da Arte Real, congregados neste Augusto Templo, cedendo aos movimentos dos seus corações, Te rendem mil graças e reconhecem que a Ti é devido todo bem que fizeram.

– Continua a prodigalizar-nos os Teus benefícios e a aumentar a nossa força, enriquecendo as nossas Colunas com OObrúteis e dedicados.

– Concede-nos o auxilio das Tuas Luzes e dirige os nossos trabalhos à perfeição. Concede que a Paz, a Harmonia e a Concordia sejam a tríplice argamassa com que se ligam as nossas obras [4].

E por fim a instituição, que é a própria organização conhecida como Maçonaria, pessoa jurídica organizada a nível internacional, que congrega milhões de cidadãos em todas as partes do mundo, irmanados por uma promessa, um código de conduta, uma tradição mística e um ideal comum, que é a defesa da Liberdade, da Igualdade entre as pessoas e a Fraternidade entre os povos do mundo. Esta proposta está consagrada nas palavras finais de encerramento dos trabalhos da Loja Simbólica do Aprendiz, através da pergunta feita pelo Venerável Mestre ao Primeiro Vigilante e da consequente resposta deste:

– V∴ M∴ – Para que nos reunimos aqui?

– 1º VigPara combater o despotismo, a ignorância, os preconceitos e os erros. Para glorificar a Verdade e a Justiça. Para promover o bem-estar da Pátria e da Humanidade, levantando templos à virtude e cavando masmorras ao vício [5].

Esta tradição está fundamentada na Bíblia. Em Êxodo, 28, 1:2, encontramos a informação de que Moisés consagrou o Tabernáculo na forma como o Grande Arquitecto do Universo lhe tinha ordenado, santificando depois a Aarão e os seus filhos como primeiros Sumos Sacerdotes de Israel. Depois espargiu sobre a cabeça de Aarão o óleo precioso, que escorreu para as suas vestes, descendo ate às orlas do seu vestido. Assim, na sagração do Tabernáculo e na unção do seu sacerdote, consumou-se a União que doravante deveria existir entre Jeová e o seu povo, União essa que seria sacramentada toda vez que o povo eleito se reunisse em Assembleia. Nesse cerimonial, presidido por Moisés no deserto, aconteceu, pois, a instituição da Loja israelita, com todo o sentido simbólico que ela representa. Os maçons, no simbolismo do seu ritual, nada mais fazem do que evocar a mística dessa cerimónia para consagrar a reunião da sua própria Loja.

A força da egrégora

Esta é a disposição que também encontramos no estudo e na prática da Cabala. Como diz M. MacGregor Mathers, no preâmbulo da Kabbalah Revelada, de Von Rosenroth: “Grande importância é dada ao ideal de fraternidade. A potencia da fraternidade sempre foi um facto essencial numa ordem oculta, separada do seu ideal altruísta; há também o espiritual e o físico. Qualquer quebra na harmonia de um círculo permitirá a entrada de uma força oposta. Um espiritualista experiente testemunhará a favor da verdade desta afirmação” [6]. Quer dizer: tanto na Cabala, quanto na Maçonaria, é a força da egrégora que leva o grupo à consecução do seu objectivo. O processo assim o exige, pois como já anteriormente declarado, a lei que rege a formação do universo é a Lei da União [7].

A Cabala explica este simbolismo da seguinte forma: a barba do Macroprosopo (Deus manifestado como realidade física) simboliza o fluxo de energia que nasce na primeira sefírá e percorre toda a Arvore da Vida (símbolo do universo), unificando a totalidade das realidades existentes no mundo [8]. Como se sabe, a Arvore Sefirótica, desenho mágico-filosófico com a qual os cabalistas explicam a formação do mundo é uma representação simbólica do universo como realidade macro e projecta o seu reflexo no homem como realidade micro. Por outro lado, sabemos que a palavra barba, em hebraico escreve-se Hachad. Por aplicação da técnica chamada guematria, esta palavra, quando decomposta nas suas letras, tem um valor numérico igual a 13 – (A=l, CH=8, d=4 = 13). Estes valores correspondem às partes da barba do Macroprosopo, também chamado de Andrógino Superior, Vasto Semblante e Adam Kadmon, imagem usada pelos mestres cabalistas para designar a Energia Divina que se espalha pelo espaço cósmico, gerando a realidade que nós conhecemos como Universo. Na Siphra Dtzeniovtha, (O Livro do Mistério Oculto, parte do Sefer há Zhoar, Bíblia cabalista), diz-se que

“da barba, menciona-se que não é feita nem criada. Esta é o ornamento do todo. Ela procede dos ouvidos e tem o aspecto de uma circunferência que se expande constantemente pelo espaço aberto, enquanto os seus caracóis sobem e descem. Está dividida em treze partes que pendem com treze adornos[9].

bliblia 8765erdfgNeste estranho e enigmático texto os mestres cabalistas querem dizer que a barba do Macroprosopo é a energia que unifica o total existente no Cosmo, fazendo dessa totalidade dispersa uma unidade, ou seja, um Universo. Ela procede do ouvido porque o universo é feito através das combinações das letras do alfabeto sagrado (o hebraico) e o Nome Inefável de Deus. Tem o aspecto de uma circunferência porque esta é a forma geométrica que o Grande Arquitecto do Universo escolheu para dar formato ao universo físico. Esta é uma das razões para a Maçonaria ter na Geometria um dos objectos do seu culto. É circunferência que se expande pelo espaço aberto, exactamente como faz o universo físico na sua expansão. Caracóis que sobem e descem são as ondas e partículas, formas de energia com a qual a matéria universal é produzida. As treze partes são os doze signos do Zodíaco, pelos quais a ciência antiga dividia o universo, mais a parte subtil, o Pleroma, o espaço divino, de onde tudo emerge.

Sendo a energia que unifica ela (a barba do Macroprosopo) é a argamassa que dá liga ao mundo para que ele se torne um organismo único. E o símbolo da União. Para os antigos israelitas a invocação desse salmo designava o espírito de unidade e a fraternidade que devia imperar entre o povo de Deus. Esta Irmandade era simbolizada pela barba de Aarão, cujo corpo era tido como uma imagem da Arvore da Vida, na qual o fluxo da energia divina percorria desde a cabeça (a sefirá Kether) até a orla dos seus vestidos, ou seja, os pés, representados pela sefirá Malkuth ( o universo físico).

Assim, o Salmo 133, na verdade, é um simbolismo que está centrado num segredo arcano de extraordinário significado e a Maçonaria, ao adoptá-lo na abertura das suas Lojas não está apenas contemplando a ideia da Fraternidade pura e simples, mas realizando o objectivo cósmico de integração total de todas as emanações da energia divina. Trata-se, na verdade, de um mantra poderoso, uma âncora fundamental para o aliciar da energia cósmica necessária para a formação da egrégora maçónica.

Que os Irmãos, ao ouvirem o Orador pronunciá-lo na abertura das suas reuniões tenham em mente esta informação, para melhor aproveitamento espiritual dessa invocação.

João Anatalino Rodrigues

Notas

[1] A Loja Simbólica refere-se às sessões previstas para os três primeiros graus, ou seja, os graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre.

[2] Texto conforme a Bíblia Hebraica, traduzida Por David Gorodovits e Jairo Fridlin – Editora e Livraria Sefer Ltda. São Paulo, 2015. Para uma interpretação mais pormenorizada do simbolismo do salmo 133, ver a nossa obra “ O Tesouro Arcano”, publicada pela Editora Madras, 2013.

[3] Egrégoros, do grego “egrêgorein” são esferas de energia, emanadas dos pensamentos emitidos pelos indivíduos agrupados e ligados mentalmente por um objectivo comum. Aqui o termo é usado como símbolo de corrente energética.

[4] Cf. o Ritual do Aprendiz. As abreviaturas seguidas de três pontos referem-se a Deus (O Grande Arquitecto do Universo) e às Colunas e Obreiros, que se referem à Maçonaria e aos seus membros, no jargão maçónico.

[5] Idem, Ritual do Aprendiz.

[6] A Kabbalah Revelada- Ed. Madras, 2004

[7] Por isto o simbolismo da “Cadeia da União” que é renovada a cada seis meses, através da transmissão da palavra semestral.

[8] As sefírots (no singular sefirá) são esferas de energia segundo a qual Deus se manifesta para formar o universo físico. São em número de dez e constituem o que, na Cabala, se chama a Árvore Sefirótica, ou Árvore da Vida. São várias as formas de escrever esta palavra em português. Neste trabalho usamos a forma adoptada no livro” Cabala e o seu Simbolismo”, de Gerson G. Shollen, traduzido por Hans Borger e J. Guinbusrg, publicado pela Ed. Perspectiva, São Paulo 2015.

[9] A Kabbalah Revelada, citado, pg. 89.

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