O sexto grau do Rito Escocês (Secretário Íntimo) evoca uma tradição atribuída a um servidor do Rei Salomão, que teria sido o seu fiel secretário durante os tratados que o sábio rei hebreu celebrou com o Rei de Tiro. Este servidor seria uma espécie de primeiro secretário do Rei Salomão que velava pela manutenção da sua intimidade, filtrando os assuntos e seleccionando os visitantes que procuravam o rei. Por isso o titulo de Secretário Intimo, e o consequente trolhamento do grau:
P: – Sois vós secretário Intimo?
R: – O meu zelo foi tomado como curiosidade.
P: – O que vos aconteceu?
R: – A minha vida correu grande perigo.
P: – Onde fostes recebido?
R: – Na presença e a pedido do Rei de Tiro.
P: – O que aprendestes?
R: – A ser zeloso, fiel, desinteressado e bondoso.
P: – De onde vindes?
R:- De qualquer parte.
P: – Onde ides?
R: – A qualquer parte.
Este trolhamento resulta de uma tradição, segundo a qual Salomão teria enviado ao rei Hiram de Tiro, uma embaixada com o fim de negociar o envio de técnicos e materiais de construção para a edificação do templo de Jerusalém. Esta embaixada era comandada por Joaben, uma espécie de secretário particular de Salomão. Ele interrogou o rei de Tiro sobre diversos aspectos da economia e da política fenícia, como naturalmente o faria qualquer embaixador que estivesse negociando uma aliança. Hiram não gostou das atitudes dele, tomando-as como uma tentativa de espionagem ou interferência na sua soberania. Em consequência, mandou colocá-lo na prisão, ameaçando-o de morte. Só após Salomão ter interferido pessoalmente junto ao rei fenício, este concordou em libertar Joaben e negociar com ele o fornecimento dos materiais necessários à construção do templo e o envio de técnicos especializados em edificações, entre eles Hiram Abiff.
Em principio, Joaben negociou com o rei fenício a entrega de vinte cidades na região da Galileia, proposta que foi aceita. Todavia, depois que o rei Hiram visitou tais cidades, acusou Joaben de tê-lo enganado, pois as mesmas não passavam de meras ruínas no deserto. Furioso, Hiram de Tiro foi pessoalmente ao palácio de Salomão, e quis invadi-lo sem cumprir o devido cerimonial. Nisso foi impedido pelo zeloso secretário. Após ser recebido por Salomão, Hiram queixou-se do tratamento desrespeitoso que entendia ter recebido por parte do seu secretário, exigindo que o mesmo fosse castigado. Salomão, entretanto, com a sua proverbial sabedoria, conseguiu convencer o rei fenício que as atitudes de Joaben decorriam da lealdade e do zelo que o seu fiel servidor tinha para com ele.
Neste diálogo, que encerra toda a filosofia do grau, está explicito o ensinamento que se deseja passar ao elevando. O iniciado não deve querer subir a Escada de Jacó por simples curiosidade, mas sim por desejo de aperfeiçoamento. Isso significa zelo pelo ensinamento que irá adquirir e pelos assuntos da Fraternidade. O curioso fica pelo caminho, quando não é destruído pela má interpretação (e utilização) dos conhecimentos que adquiriu. Zelo não se confunde com curiosidade. O zelo é útil e produtivo para quem quer realmente aprender; a curiosidade é perigosa, e pode ser mortal. O Maçom compartilha do segredo maçónico e da intimidade dos demais irmãos. Neste sentido a sua responsabilidade é maior e cresce à medida que vai avançando nessa escalada. Como tem que ir a toda e qualquer parte, pois o Maçom é o homem universal, sempre será submetido a provas que desafiarão o seu zelo pelos interesses da Irmandade, pondo à prova a sua cupidez e as próprias crenças que ele adquiriu na prática maçónica. A sua fidelidade será testada, a sua bondade será negada, a sua sabedoria será desafiada. Sempre lhe cobrarão a revelação dos segredos que compartilha com os irmãos. Se ele for mais curioso que zeloso não conseguirá resistir às pressões. Por isso é que entendemos ser esse grau, um verdadeiro libelo à fidelidade.
É bom não esquecer, outrossim, que a Maçonaria enquanto instituição, tem sido constantemente perseguida e difamada por pessoas que teimam em confundi-la com seitas religiosas ou organizações formadas com propósitos inconfessáveis. Na sua própria origem, os seus membros foram perseguidos, encarcerados, torturados, tudo porque teimavam em defender ideias libertárias, igualitárias e fraternas. Esta situação sempre será passível de ocorrer em qualquer tempo e lugar, pois a tirania, a intolerância, o preconceito e a maldade ainda não foram extirpados do seio da sociedade. Sempre haverá um tirano de plantão para exigir que o zelo pela virtude, o amor pela liberdade, a disposição de lutar pelas boas causas, seja renegada em nome da segurança física ou de vantagens de cunho pessoal. Em todos os tempos e em toda parte, o Maçom terá que ser firme, fiel, zeloso e constante para merecer o título que recebe no grau seis, de Secretário Íntimo.
A alegoria segundo a qual o Maçom é o “ homem de todos os lugares”, que vem de qualquer parte e vai a qualquer parte, é uma evocação aos Rosas-cruzes, que eram “cidadãos do universo”, segundo a lenda daquela Fraternidade. Esta lenda tem origem no mito de Cristhian Rosencreutz, que segundo a tradição, viajou pelo mundo todo aprendendo os grandes segredos da natureza. No começo do século XVII os alquimistas Sheton e Sendivogius desenvolveram o conteúdo desta lenda num interessante trabalho chamado Tratado da Natureza, na qual eles chamavam-se a si mesmos de Cosmopolitas.
A alegoria refere-se também aos maçons operativos, que tinham o direito de trabalhar em várias localidades e cidades, formando grupos itinerantes, fechados no seu silêncio e nos seus segredos. Daí a mística que sempre envolveu os Obreiros da Arte Real, tidos como cidadãos de todos os lugares. Neste sentido, a estória de Joaben veio integrar uma tradição bíblica com alegorias de cunho hermético e temas relacionados com a Maçonaria operativa.
É preciso, entretanto, sempre ver nestas alegorias um ensinamento de cunho moral, de fundo exotérico, e uma lição iniciática, de carácter esotérico. Desta forma integram-se as duas faces da Maçonaria: a espiritualista e a histórica. A primeira que remonta as suas origens aos próprios fundamentos da sociedade, e a segunda que cuida da Arte Real a partir do nascimento desta prática dentro das guildas dos construtores medievais. Assim se vai penetrando pela senda das virtudes maçónicas, que vão sendo adquiridas à medida que o iniciado avança na “escalada da perfeição”. O Mestre Perfeito, constante, discreto, zeloso e fiel, estará então, em condições de aprender o que é a verdadeira justiça. Este será o objectivo do ensinamento dos graus sete a nove.
Do livro “Conhecendo a Arte Real” – Madras, S. Paulo, 2007

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