O Século XXI e a Maçonaria

“O motor da mudança não é tecnológico, mas humano. Assim, a organização do futuro deverá ser coerente com a aspiração das pessoas por auto-respeito e auto-realização”.

William O’Brien

Porquê a evasão de maçons das Lojas?

Entre muitos factores temos: grupelhos de dominação, reuniões má elaboradas; criando uma rotina monótona, os palradores permanentes sem qualquer mensagem, a falta de um objectivo para a Loja, ou para o potência, ou para a Ordem; de um modo geral: a falta de uma administração efectiva e programada.

Se a Maçonaria fosse uma empresa, ela estaria falida, porquanto o seu regime de Governo está mais para a monarquia absoluta, do que para uma república democrática; pois os dirigentes, desde as lojas até os grão-mestres, são de um modo geral prepotentes e incompetentes em matéria de planeamento administrativo. São mais ditadores, do que os companheiros fraternais desta romagem terrestre.

Outro aspecto a ser abordado é o ponto de vista dos clientes maçónicos.

O que é que eles buscam nas Lojas e na Fraternidade?

Será somente o auto-respeito e a auto-realização? Ou haverá outras causas?

Analisando a sociedade, no momento, notamos de um lado a busca do hedonismo animalizado pela sensualidade, pela glutonaria, pela evasão dos lugares de vivência para lugares exóticos; num falso prazer óptico, é a busca incessante de sensações e emoções a fim de satisfazer o nosso primitivo cérebro reptiliano. D’outro lado a procura da religião, também, dentro do primarismo de satisfazer as necessidades materiais, e não as espirituais.

Infelizmente, as religiões abastardam-se num comércio de benesses arrancadas de Deus a custa de pagamentos pecuniários, de magia evocativa ou gestual, através da interferência de um representante celeste na Terra, e, sobretudo, a resignação de viver na miséria e na dor, para poder ganhar o céu e ficar estático pela eternidade, olhando e adorando o criador.

Logicamente, os clientes da Maçonaria não pertencem aos epicuristas materialistas, mas ao grupo que procura uma nova perspectiva para as suas aspirações espirituais. Possivelmente, passaram pelo misticismo animista e moralista, estão investigando uma outra forma de crença, para lhes satisfazer a racionalidade: um misticismo racional.

Num século de profundo egoísmo, gerando um individualismo selvagem; onde não tem lugar para os afectos humanos.

Há somente o interesse em explorar o outro para o próprio benefício económico. Neste ambiente social de guerras de todos os tipos, os homens vão atrás de uma paz, de compreensão, de comunhão com todos aqueles que têm as mesmas aspirações.

Chegando as lojas, após a bela dramatização da iniciação; depois a elevação; mais tarde a exaltação; se ele não for bastante desembaraçado e curioso, passará a ser simples espectador de cenas que se repetem monotonamente, sessões após sessões, sem qualquer organização, motivação, ou uma acção global para todos os participantes; levando-os as situações inquietantes geradoras de:

  1. desinteresse pelos conteúdos e actividades propostas pelas lojas; e
  2. insatisfação em relação ao que fazem e como fazem.

Nada encontrando de útil para si, o cliente deixa de comprar o produto supérfluo, mal embalado, e às vezes caro, não lhe restando outra solução: o abandono.

Modernamente, considerando algumas ideias profanas numa visão mais actualizada da administração de uma empresa vencedora, teríamos os métodos dos sistemas, de uma Organização de Alto Desempenho, ou uma das mais em moda: Gerência para a Qualidade Total, cujos princípios básicos seria criar uma organização capaz de se adaptar às novas tecnologias, às novas condições ambientais geradas pelos nossos valores humanos, além de ser flexível, e ainda em relação à Maçonaria, haveria, de entre outros, os seguintes propósitos:

  1. desenvolver lideranças efectivas;
  2. investir em tecnologia de informação para obter respostas rápidas;
  3. adoptar um sistema eficaz de comunicação; e
  4. fazer o planeamento estratégico em todos os níveis com metas bem definidas, objectivos bem operacionais.

Tudo isto como um começo para, segundo o filósofo colombiano Bernardo Toro, as principais competências pessoais para o próximo século serão:

  1. alta competência em leitura e escrita;
  2. alta competência em cálculo matemático e resolução de problemas;
  3. alta competência em expressão escrita: precisão para descrever, precisão para analisar e comparar, precisão para expressar o próprio pensamento;
  4. capacidade para descrever, analisar e criticar o ambiente social;
  5. capacidade para recepção crítica dos meios de comunicação de massas;
  6. capacidade para criar, trabalhar e decidir em grupo: aprendizagem cooperativa; e
  7. capacidade para localizar, ter acesso e usar informações acumuladas (guardados em bancos de dados).

Estas são algumas proposições sobre as qualidades do homem para o século XXI, e não nos podemos esquecer que a Maçonaria é herdeira do Humanismo medieval, centrado no indivíduo, o qual para o futuro deveria não só saber usar a tecnologia, mais em especial a de informação, e poderíamos desde já pensarmos numa rede de computadores de cada potência, reunidas numa rede geral de todas elas.

Para chegarmos ao milénio que se avizinha, torna-se evidente a necessidade de abandonarmos dogmas e preconceitos de um passado obscuro, e iniciarmos a viver o aqui e agora, analisando e criticando as arcaicas estruturas maçónicas legais, organizacionais, filosóficas, de usos e costumes, e mesmo ritualísticas.

O tempo não espera. Ele passa rápido destruindo as estruturas de alto gasto energético, e construindo composições mais económicas e eficazes. Ou se evolui ou se perece, não há terceira opção.

Breno Trautwein

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One thought on “O Século XXI e a Maçonaria

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    Prezado Irmão Breno, compactuo com vossas preocupações e concordo com vossas afirmações; se não houverem mudanças profundas na condução desta magnífica e centenária Instituição, também temo por seu futuro; realmente, se fosse uma empresa, nos moldes atuais, já teria falido.
    Hoje parece-me muito mais um clube de serviço, com todo respeito que nos merecem; apenas comparo porque os objetivos deveriam ser muito diferentes.
    Como bem dissestes, o tempo não espera; atropela; e a ação do tempo já se vê; uma maçonaria envelhecida (e estou entre estes), sem um objetivo, com dirigentes ainda preocupados com trajes empapados de honrarias e medalhas, mergulhados em disputas pessoais e políticas deprimentes, delegando ao destino de seus interesses o próprio destino da Instituição que comandam.
    Pelo menos até onde alcança meu conhecimento, poucos estão fazendo esforço para preparar a Instituição para um futuro absolutamente imprevisível e, seguramente, completamente às avessas do que conhecemos.
    Que preparo está sendo feito para a 3ª revolução digital? Muito será exigido dos jovens de hoje, comandantes do amanhã: aprendizado rápido (muito longe deste que é fornecido em nossas Lojas), inteligência social (não esta que é aparentemente se realiza com o simples depósito de um óbulo e o esfregar das mãos como se sua parte feita estivesse), flexibilidade cognitiva (não esta que não permite discussões sem lateralizações), pensamento em rede (não este cultivado nas redes sociais maçônicas atuais), colaboração global e virtual, etc. Se isto é um pouco sofisticado, complexo e circunspecto demais, coisas teoricamente mais simples também serão exigidas ao ser humano (e especialmente ao maçom) do futuro: conhecimento e valorização da história, participação efetiva na comunidade (não esta de editar manifestos inócuos), pensar criticamente e respeitar igualmente (não este de compartilhamento de críticas e vídeos mentirosos sem qualquer cuidado), estar aberto às mudanças contínuas e inexoráveis, defender ideias e não paixões ou crenças individuais, enfim, ajudar a criar o futuro; um futuro que hoje já não é tão futuro; já é muito presente!
    Assim, os jovens que deveríamos estar trazendo para nossas hostes, com todas estas perspectivas à sua frente, terão mesmo interesse nesta maçonaria que conhecemos?
    Penso que, a continuar neste marasmo, acreditando que a maçonaria secular tem bases inquebrantáveis e que, pois, suas “… (…) estruturas maçónicas legais, organizacionais, filosóficas, de usos e costumes, e mesmo ritualísticas (…)” são suficientes para enfrentar este incógnito futuro, permanecendo fechada em seu comodismo, apenas acirraremos a velocidade da tétrade: despertar interesse – despertar emoção – despertar desilusão – provocar evasão.

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