Procedo, então, a uma investigação sobre a origem histórica da Maçonaria, como uma introdução necessária a qualquer investigação sobre o carácter do seu simbolismo. Para fazer isto, com qualquer expectativa de fazer justiça ao assunto, é evidente que terei de tomar o meu ponto de partida numa era muito remota. No entanto, vou rever a história inicial e antecedente da instituição com tanta brevidade quanto uma compreensão distinta do assunto permitir.
Passando por cima de tudo o que está dentro da história antediluviana do mundo, como algo que não exerceu, no que diz respeito ao nosso assunto, nenhuma influência sobre o novo mundo que surgiu das ruínas do antigo, encontramos, logo após o cataclismo, os descendentes imediatos de Noé na posse de pelo menos duas verdades religiosas, que eles receberam de seu pai comum, e que ele deve ter derivado da linha de patriarcas que o precedeu. Essas verdades eram a doutrina da existência de uma Inteligência Suprema, o Criador, Preservador e Governante do Universo, e, como corolário necessário, a crença na imortalidade da alma [1] que, como emanação dessa causa primordial, devia distinguir-se, por uma vida futura e eterna, do pó vil e perecível que forma o seu tabernáculo terrestre.
A afirmação de que essas doutrinas eram conhecidas e reconhecidas por Noé não parecerá uma suposição para o crente na revelação divina. Mas qualquer mente filosófica deve, eu concebo, chegar à mesma conclusão, independentemente de qualquer outra autoridade que não seja a da razão.
O sentimento religioso, pelo menos no que se refere à crença na existência de Deus, parece ser, de certa forma, inato ou instintivo e, consequentemente, universal na mente humana [2]. Não há registo de nenhuma nação, por mais intelectual e moralmente degradada que seja, que não tenha dado alguma evidência de uma tendência para essa crença. O sentimento pode estar pervertido, a ideia pode estar grosseiramente corrompida, mas ainda assim está lá, e mostra a fonte de onde surgiu [3].
Mesmo nas formas mais degradadas de fetichismo, onde o negro se ajoelha em reverência diante do santuário de algum ídolo inculto e deformado, que as suas próprias mãos, talvez, tenham feito, o acto de adoração, por mais degradante que o objecto possa ser, é, no entanto, um reconhecimento da necessidade ansiosa do adorador de se lançar sobre o apoio de algum poder desconhecido mais elevado do que a sua própria esfera. E esse poder desconhecido, seja ele qual for, é para ele um Deus [4].
Mas igualmente universal tem sido a crença na imortalidade da alma. Isso surge do mesmo anseio do homem pelo infinito; e embora, como a doutrina anterior, tenha sido pervertida e corrompida, existe entre todas as nações uma tendência ao seu reconhecimento. Todos os povos, desde os tempos mais remotos, têm vagueado involuntariamente pelo ideal de um outro mundo e procurado encontrar um lugar para os seus espíritos que partiram. A deificação dos mortos, a adoração do homem ou dos heróis, o desenvolvimento seguinte da ideia religiosa depois do fetichismo, foi simplesmente um reconhecimento da crença numa vida futura; pois os mortos não poderiam ter sido deificados a menos que, depois da morte, tivessem continuado a viver. A adoração de uma carcaça pútrida teria sido uma forma de fetichismo mais baixa e mais degradante do que qualquer outra que tenha sido descoberta.
Mas a adoração do homem veio depois do fetichismo. Era um desenvolvimento mais elevado do sentimento religioso e incluía uma possível esperança, se não uma crença positiva, numa vida futura.
A razão, portanto, assim como a revelação, leva-nos irresistivelmente à conclusão de que essas duas doutrinas prevaleceram entre os descendentes de Noé, imediatamente após o dilúvio. Acreditava-se nelas, também, em toda a sua pureza e integridade, porque eram derivadas da mais alta e mais pura fonte.
Estas são as doutrinas que ainda constituem o credo da Maçonaria; e por isso um dos nomes dados aos Maçons desde os primeiros tempos foi o de “Noachidae” ou “Noachites“, isto é, os descendentes de Noé e os transmissores dos seus dogmas religiosos.
Albert G. Mackey, M.D.
Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:- R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)
- Ex Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)
- Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)
Fonte
Notas
[1] “A doutrina da imortalidade da alma, se é uma vantagem real, decorre inevitavelmente da ideia de Deus. O melhor Ser, ele deve querer a melhor das coisas boas; o mais sábio, ele deve conceber planos para esse efeito; o mais poderoso, ele deve realizá-lo. Ninguém pode negar isso. Ninguém pode negar isto.”-THEO. PARKER, Discourse of Matters pertaining to Religion, b. ii. ch. viii. p. 205.
[2] “Esta instituição da religião, como a sociedade, a amizade e o casamento, surge de um princípio profundo e permanente no coração: assim como as instituições humildes, transitórias e parciais surgem de necessidades humildes, transitórias e parciais, e devem ser atribuídas aos sentidos e aos fenómenos da vida, assim esta instituição sublime, permanente e útil surgiu de necessidades sublimes, permanentes e universais, e deve ser referida à alma e às realidades imutáveis da vida. “Parker, Discourse of Religion, b. i. ch. i. p. 14.
[3] “Os sábios de todas as nações, idades e religiões tinham algumas ideias dessas doutrinas sublimes, embora mais ou menos degradadas, adulteradas e obscurecidas; e essas dicas e vestígios dispersos das verdades mais sagradas e elevadas eram originalmente raios e emanações de tradições antigas e primitivas, transmitidas de geração em geração, desde o início do mundo, ou pelo menos desde a queda do homem, para toda a humanidade”. RAMSAY, Philos. Princ. of Nat. and Rev. Relig., vol. ii. p. 8.
[4] “Nesta forma, não apenas os objectos comuns acima enumerados, mas gemas, metais, pedras que caíram do céu, imagens, pedaços de madeira esculpidos, peles recheadas de animais, como os sacos de remédios dos índios norte-americanos, são considerados divindades, e assim se tornam objectos de adoração. Mas, neste caso, o objecto visível é idealizado; não é adorado como a coisa bruta realmente é, mas como o tipo e símbolo de Deus” – Parker, Disc. of Relig. b. i. ch. v. p. 50.

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