Infelizmente, algumas Lojas utilizam métodos de ensino voltados para a “aquisição’ de conteúdo e não de conhecimento. Nota-se uma preocupação exacerbada em manter a disciplina e cumprir o conteúdo (exigir dos aprendizes e companheiros os trabalhos previstos no ritual), inexistindo ou sendo precário o interesse em saber se o aprendiz ou companheiro aprendeu ou não, ou seja, há falhas também no processo de avaliação.
A verdade é que a educação maçónica se encontra num abismo de desigualdade. Nem mesmo alguns esforços, como do Grande Oriente do Brasil – GOB, em padronizar o conteúdo maçónico a ser ministrado, tem garantido a qualidade de ensino e aprendizagem em todas as Lojas sob a sua jurisdição, isto porque, a grande maioria dos irmãos desconhecem um dos deveres pedagógicos da Loja, elencado no inciso III, do Art. 96, do Regulamento Geral da Federação – RGF. Verbis:
Art. 96 – São deveres da Loja:
III – empenhar-se no aperfeiçoamento dos seus Membros nas áreas de Filosofia, Simbologia, História, Legislação Maçónica, Ética e Moral e promover o congraçamento familiar maçónico;
A descontextualização dos conteúdos é um dos factores decisivos na má formação do Maçom, isto considerando o papel que a Loja deve ter na formação do Maçom para a Instituição e para sociedade, ou seja, educação deve gerar resultados sobre o Maçom e para a sociedade. Além disso, é imprescindível que se tenha em mente que além do conteúdo ritualístico e outros, há que se prestigiar a cultura maçónica como um todo.
Devemos reconhecer que o método tradicional de ensino não funciona mais tão bem e por um motivo bem simples: os homens (maçons ou não) simplesmente não são mais os mesmos. E não se pode ignorar que o grande objecto ou capital de um ensino de qualidade é o homem (Maçom), por mera lógica, torna-se impossível manter uma metodologia de ensino estática numa realidade e sociedade dinâmica. Em resumo, termos pensar e repensar se:
- A apresentação dos trabalhos feita no método tradicional ainda é o meio mais seguro de se conhecer sobre a aprendizagem dos aprendizes, companheiros e mestres (todos ainda somos educandos)?
- Somente através da apresentação de trabalhos o educador é capaz de avaliar os educandos?
Na educação tradicional maçónica podemos ensinar e reensinar as mesmas coisas, aos mesmos educandos, cem vezes. Na 101ª vez, se perguntamos aos aprendizes ou companheiros se eles se lembram o que falamos nas cem primeiras vezes, a resposta majoritária será “Não”. E pior, não conseguem repetir o que foi dito, prova que a mera repetição não ensina, e por fim, não sabem o motivo do que foi objecto da repetição.
A educação maçónica deve gerar menos ensino e mais aprendizagem. Como de costume na Maçonaria, estamos mais uma vez diante da inevitabilidade de evoluir, de alterar o como ensinar. Diante disso sugere-se que:
- As Lojas e Mestres precisam ensinar como pensar e não apenas o que pensar. Decorar textos, conceitos e etc., não faz mais sentido.
- As Lojas e Mestres têm que estimular a autonomia intelectual, não podemos formar repetidores de conceitos (muitos imprecisos, errados e etc.).
- As Lojas e Mestres precisam proporcionar um tempo de estudo reflexivo, onde o ensino maçónico não se confunda com o ensino de meras ideologias , achismos e repetições de conceitos prontos e descontextualizados.
- As Lojas e Mestres precisam ter em mente que a educação maçónica não é transferência de conhecimentos, mais o estimulo criação de possibilidade para a sua própria produção ou construção, por outras palavras, educar e ser educado maçonicamente exige consciência do inacabado, do incompleto, do inatingível.
Uma outra questão a ser tratada e discutida é o aprimoramento do processo de avaliação.
- Por que o Mestre tem dificuldade de avaliar o aprendiz e o companheiro?
- Por que avalia mal, e depois critica a deficiência na formação do avaliado?
- Por que “todos” tem dificuldades de se submeterem ao processe de avaliação?
Temos que ter em mente que a avaliação é uma das actividades que deve ocorrer dentro de um processo pedagógico maçónico, ela não pode ser tratada isoladamente, periodicamente ou só quando da análise da colação de grau(promoção, elevação, exaltação e etc.), nem pode ocorrer de forma individual e subjectiva, no dizer de alguns irmãos “eu to sempre avaliando”. Por outras palavras, a Loja não pode se reunir para avaliar os aprendizes e companheiros somente após a entrega dos trabalhos e depois de transcorrido o tempo necessário para a colação de grau.
Erra-se ao fazer a “avaliação” para dar “aumento de salário” ao Maçom. Avaliação tem como um dos seus objectivos fornecer informações acerca das acções de aprendizagem e, portanto, não pode ser realizada apenas ao final do processo, sob pena da mesma perder o seu propósito, até porque a avaliação deve envolver todos os sujeitos do processo de aprendizagem e não apenas o aprendiz e ou companheiro, por outras palavras, os Mestres devem ser avaliados, o processo educacional deve ser avaliado com um todos. Indaga-se: Alguém perguntou a algum aprendiz o que ele pensa sobre método de ensino utilizado? Se o mesmo esta sendo eficiente? No que pode se melhorado? Se os Mestres estão cooperando efectivamente no seu processo educacional?
A avaliação deve ser contínua e cumulativa quanto ao desempenho dos aprendizes, companheiros e mestres, com prevalência dos aspectos qualitativos e dos resultados ao longo do período, devendo ser menos importante a quantidade trabalho e o “sucesso” dos trabalhos.
A avaliação maçónica deve ser dialéctica, deve gerar um diagnóstico para correcção, se necessário. Deve ser encarada e compreendida como um acto maçónico amoroso, responsável e fraternal, o seu objectivo não é simplesmente conceder graus à irmãos, mas sim garantir uma segurança mínima para a Ordem, uma estabilidade e uma “padronização” mínima do conhecimento, de forma que todos os aprendizes, companheiros e mestres possam possuir as mesmas habilidades, competências e conhecimentos mínimos, por outras palavras, a avaliação tem também por escopo proteger a própria Ordem.
Parafraseando Immanuel Kant, o Maçom não é nada além do que educação maçónica faz dele.
Marcelo Artilheiro – Joinville (SC)

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