Os desafios da Maçonaria para o III Milénio

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Discurso de Abertura do Encontro Mundial de Grão-Mestres da Maçonaria, ocorrido em Lisboa entre 25 e 27 de Setembro de 1996, proferido por Luís Nandin de Carvalho

Cabe-me a honra e o encargo, que entendo como o desempenho de mais um dever maçónico, a apresentação do discurso de abertura desta Conferência, a primeira do seu género algumas vez realizada na Europa.

Introdução

As minhas primeiras palavras singelas são de homenagem e gratidão sentida, pela Obra desenvolvida pelo fundador da Maçonaria Regular Portuguesa, Dr. Fernando Teixeira, simultaneamente arquitecto e pedreiro, de um edifício inexistente em Portugal durante os últimos cem anos desde que a Maçonaria regular portuguesa a partir de cerca de 1890, se viu submergida e interrompida por desvios irregulares, que a excluíram do natural convívio universal, essencial à própria concepção humanista e universalista da Maçonaria. Cabe hoje portanto à GLRP ser a depositária legítima e única em Portugal da Tradição e dos Segredos e Saber Maçónicos. Seguidamente quero expressar aos Grãos Mestres, aos seus assessores e colaboradores aqui presentes, o meu agradecimento por terem acorrido a esta assembleia universal de maçons, acedendo a um convite, que simultaneamente encerra um direito e também um dever. O direito a participar e a expressar livremente as suas experiências e propostas de reflexão, mas também um dever de, com natural sinceridade, fraternidade, tolerância e solidariedade para com a GLRP, colaborarem activamente no sucesso desta iniciativa tão importante para a Maçonaria Universal;

Saúdo em último lugar os maçons e os não maçons, que se têm empenhado no sucesso deste Encontro, desde os que desempenham tarefas administrativas aos que têm sido chamados a participar e assegurar aspectos mais rituais das actividades maçónicas. Uma palavra especial ainda para a comunicação social, para a imprensa escrita, para a rádio e televisão, que não têm deixado com a maior actualidade, exactidão e objectividade de tratar um tema normalmente desconhecido do grande público, indicador seguro de que esta iniciativa tem relevo e mérito próprio para a Sociedade.

As quatro temáticas

Este Encontro tem agendados quatro temas principais a desenvolver em secções, em salas separadas, de modo a permitir sem exclusões a participação de todos os interessados em todos os temas para o seu aprofundamento. São os seguintes:

  • a avaliação da produção filosófica da Maçonaria
  • a Maçonaria e a juventude
  • as vantagens e inconvenientes do Secretismo
  • os limites da intervenção da Maçonaria na Sociedade

Vou abordar em conjunto estes temas, de modo a introduzir desde já ao debate algumas reflexões de interesse comum.

Desde logo anoto que destes temas, dois são inerentes a uma visão interna da Maçonaria, isto é, sobre o seu interior, como sejam a questão do secretismo e a da produção filosófica, enquanto outros dois temas são externos ou voltados para o exterior: a juventude e a intervenção no mundo profano, isto é, na sociedade civil. Todavia, em boa verdade eles equacionam a questão essencial: o que é hoje a Maçonaria, o que deve ser a Maçonaria no III milénio?

Vamos directamente ao âmago da questão com as nossas propostas de respostas:

  • A Maçonaria não é uma sociedade secreta, mas uma sociedade com segredos.
  • A Maçonaria não é uma sociedade à parte, mas parte da Sociedade.
  • A Maçonaria é a depositária do Saber da Tradição, Iniciática Primordial.
  • A Maçonaria é Universal, e tem uma legitimidade espiritual e eterna.

Comecemos pelas ideias mais simples: todos nós como homens e cidadãos da sociedade civil temos os nossos segredos, como sinónimo da nossa própria intimidade, da reserva natural da nossa íntima personalidade, enfim, da nossa privacidade intrínseca. Cada um de nós tem o segredo do self, isto é, de como se entende a si próprio. Esta introspecção é naturalmente secreta, partilhável com outros só em situações de absoluta e total confiança, e mesmo assim, quantas vezes com a reserva mental de não desvendar todos os sentimentos, ou pensamentos ou mesmo comportamento havidos. Não porque sejam condenáveis, mas apenas porque eles encerram na medida do que cada um entende, dever manter-se encerrado no seu mais íntimo interior, enfim, no seu jardim secreto.

Interrogações e Respostas

Daqui decorrem interrogações que cada um de nós certamente se colocou a si próprio: Cada um de nós é exactamente aquilo que quer ser? Ou cada um é aquilo que os seus genes, e um determinado ambiente envolvente o condiciona a ser? Qual é a margem efectiva do livre arbítrio? Em que medida existe em cada um de nós uma projecção divina do nosso destino cósmico? Como podemos melhor ultrapassar os nossos condicionamentos genéticos e ambientais, descobrir o nosso destino e melhor prepararmo-nos para sermos aquilo que queremos ser de melhor?

Será através da Maçonaria?

A Maçonaria (necessariamente, a regular e universal), através da via iniciática e sagrada, permite a reconciliação do homem com as suas origens e o seu destino, e oferece um quadro de trabalho não apenas para a construção do templo exterior, mas acima de tudo, do templo interior.

As palavras maçónicas-chave são: Grande Arquitecto do Universo, Paz, Harmonia, Fraternidade, Tolerância e Solidariedade.

Assim, a produção filosófica da Maçonaria foi, é e será sempre orientada para a recuperação de um Saber Universal e Tradicional perdido na noite dos tempos e procurando elucidar o homem do caminho a percorrer para este se reencontrar com a sua origem, a sua vivência, o seu destino. Tradição e exemplos maçónicos

A reflexão dos maçons orienta-se, pois, para três linhas de trabalho principais:

  1. A investigação histórica;
  2. A entreajuda fraterna no aperfeiçoamento espiritual e humano, ou profissional, de cada um e dos seus Irmãos;
  3. A intervenção na Sociedade, salvaguardando, por via da observância de sólidos princípios espirituais e morais, a crença no Grande Arquitecto, a Paz, a Harmonia, a Fraternidade, a Tolerância e a Solidariedade.

Por isso os maçons estiveram na origem da Cruz Vermelha, da Unesco, da Unicef, do Médicos sem Fronteiras, da fundação de cooperativas, associações mutualistas, Misericórdias, e em geral em muitas outras iniciativas que possam ter contribuído para aqueles objectivos, o que em determinados momentos históricos, terá justificado a promoção dos valores da Liberdade, da Democracia, da Igualdade dos Direitos Humanos, dos Direitos Humanos, etc.

A abolição da escravatura, da tortura, da pena de morte, da promoção do ensino básico gratuito, da igualdade de oportunidades, da não discriminação sexual, de raças ou religiões, de justiça social, são outros tantos exemplos meritórios do resultado da produção filosófica da Maçonaria, e simultaneamente dos limites da sua intervenção coerente na Sociedade. Aliás, sublinhe-se, a Maçonaria nunca actua por si mesma, como instituição, mas sim através dos maçons, ou de instituições profanas fundadas ou geridas por maçons.

As observações feitas já nos permitem abordar a questão complementar do secretismo exactos termos em que deve ser colocada. O aspecto essencial não está na exteriorização da condição individual de maçon que cada um de nós tenha; como se trata de matéria do foro íntimo, cada um de nós lhe dará a resposta que muito bem entender, cada qual revelará se é ou não maçon como melhor lhe aprouver, os maçons podem pois identificar-se como tal individualmente, ou em grupo, ou pelas iniciativas em que participem. E muitos têm legítimo orgulho em fazê-lo.

Diferente é a questão do secretismo interno, melhor diríamos, dos Segredos rituais: da iniciação em Loja, da prática simbólica e esotérica, do trabalho interior dos maçons que entendem não dever revelar essa sua intimidade. Aqui há o direito sagrado, o dever ritual de observância do direito ao secretismo individual e da Ordem Maçónica.

Já quanto a cerimónias maçónicas solenes e festivas, ou actos administrativos públicos da Maçonaria que não envolvam apenas um ritual sagrado, e em que participem apenas os maçons que entendam estar presentes, evidentemente que podem estar abertas a profanos, isto é, familiares e amigos de maçons por estes convidados. Foi exactamente o que aconteceu no 275° aniversário da UGLE, em Londres, filmada em vídeo comercial, nas Grandes Lojas da GLE em que numa delas actuou o conjunto OPUS ENSEMBLE, enfim, ainda no dia 21 de Setembro e 24 de Setembro deste ano, respectivamente no serviço religioso de missa por alma dos maçons falecidos, na Igreja de Santo António do Estoril; na cerimónia pública, administrativa e festiva da entrega das cartas patentes de constituição do Grande Capítulo de Portugal do Arco Real Internacional, a que assistiram inclusive mulheres.

E quanto à juventude? A questão não oferece grande especificidade face ao que ficou dito, para além da natural adequação de iniciativas mais apropriadas em termos etários de interesses específicos.

A Maçonaria deve actuar mais sobre as consciências, favorecendo o respectivo despertar para o Saber e a Tradição, do que sobre comportamentos da sociedade e dos seus dirigentes políticos.

Três propósitos imutáveis

Assim, como ponto de partida para o III Milénio a Maçonaria deverá:

  1. Ser a depositária e garante da transmissão do Saber e da Tradição Sagrados;
  2. Ser o epicentro da referência de valores espirituais e éticos da natureza da condição humana e do seu destino sobrenatural e cósmico.
  3. Ser o ponto de encontro e formação de uma elite de homens de bem, que pela sua evolução e exemplo contribuirão, em cada momento, de forma justa e adequada, para evitar que a Sociedade se deixe resvalar na idolatria dos valores materiais, na alienação dos espíritos e na demissão de uma vocação sagrada e transcendente essencial.

Sete propostas essenciais, concretas para o III Milénio

Sintetizando as nossas propostas para este Encontro, os maçons em concreto devem:

  1. Criar um Centro de Estudos Mundial para investigar, estudar e reflectir sobre os desafios éticos e morais do III Milénio, ponderando as diferentes idiossincrasias das sociedades humanas.
  2. Apoiar a terceira idade, a juventude, e em geral as vítimas de exclusão social.
  3. Preparar “leaders” de opinião, e em geral de uma elite consciente das suas responsabilidades espirituais e sociais.
  4. Favorecer a cooperação com os povos em vias de desenvolvimento, através das ONG.
  5. Apoiar a investigação científica e a investigação aplicada, quer nos domínios da saúde, como em geral das condições inerentes à melhoria das condições de vida.
  6. Promover a divulgação activa das condições que favoreçam a Crença no Grande Arquitecto do Universo, a Paz, a Harmonia, a Fraternidade, a Tolerância e a Solidariedade.
  7. Apoiar os maçons que na sua vida profana, nas empresas, nas associações ou no Estado, estejam em posição pela sua capacidade de decisão e influência legítima, de desempenharem as suas funções como agentes catalisadores que evidenciem o efeito de demonstração positivo, da justeza e da bondade dos valores maçónicos para o progresso e elevação da Humanidade.

Luís Nandin de Carvalho – Antigo Grão-Mestre da Grande Loja Legal de Portugal / GLRP

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