“Filhos de Salomão” era outra denominação dada aos pedreiros-livres, construtores das grandes catedrais góticas. Esta tradição remonta aos tempos dos maçons ditos operativos, os quais, segundo estas mesmas tradições, a teria herdado directamente dos construtores do Templo de Jerusalém, capitaneados pelo Mestre Hiram Abiff, de Tiro, o grande arquitecto da época. [1] A história desta tradição, e como ela se propagou pelo mundo, chegando até os dias actuais, foi contada por James Anderson nas suas Constituições, onde ele diz que
“depois da edificação do Templo de Salomão, a Maçonaria aperfeiçoou-se em todas as Nações vizinhas; pois os numerosos artistas que ali trabalharam, sob a direcção de Hiram Abiff se dispersaram quando ela foi terminada, para a Síria, Mesopotâmia, Assíria, Caldeia, Média, Pérsia, Arábia, Asia Menor, Grécia, e outras partes da Europa, onde ensinaram esta Arte aos Filhos nascidos livres de pessoas eminentes, graças à Destreza dos quais os Reis, Príncipes e Potentados, construíram numerosos Edifícios gloriosos, e tornaram-se Grão-Mestres, cada um no seu território (…). [2]
E evidente que Anderson não inventou esta história. Na verdade, ele apenas a compilou de documentos mais antigos, emprestando à história toda a sua rica imaginação. Com isto ele transformou a prática iniciática de um grupo de místicos artesãos numa vigorosa alegoria filosófica que atraiu para a Maçonaria os mais importantes espíritos da época e continua empolgando, ainda hoje, um grande número de pessoas pelo mundo afora. [3]
A tradição que afirma ser a Maçonaria originária no Templo de Salomão consta de vários documentos pertencentes aos antigos maçons operativos. Ela vem do conjunto de manuscritos chamados de “Velhas Instruções”, que certamente Anderson deve ter tido em mãos e trabalhado com a sua prodigiosa imaginação sobre o conteúdo deles. Um deles especialmente, o Manuscrito Cooke, de cerca de 1410, diz que
“na feitura do Templo de Salomão, que o Rei David encetou (…) Salomão tinha oitenta mil maçons trabalhando para ele: e (…) Salomão confirmou as instruções que David, o seu pai, dera aos maçons. E o próprio Salomão ensinou-lhes as suas maneiras (isto é, costumes e práticas), que pouco diferem das maneiras ora em uso. [4]
De onde estes antigos maçons tiraram estas informações ninguém sabe, pois, todos os manuscritos que contém alguma referência a esta tradição foram redigidos propositalmente numa forma metafórica, muito própria da linguagem iniciática, certamente com o propósito de confundir os profanos que porventura tivessem acesso a eles. [5] Ao que parece, foi o Cavaleiro André Michel de Ramsay, que no seu discurso aos maçons franceses, pronunciado, segundo alguns em 20 de Março de 1737, ou 26 de Dezembro de 1736, aventou uma ligação histórica entre as Ordens de Cavalaria fundadas na Terra Santa por ocasião das Cruzadas, e a Maçonaria. “Os nossos antepassados, os Cruzados”, disse ele, “reunidos de todas as partes da Cristandade na Terra Santa quiseram reunir assim, numa só Confraria, os indivíduos de todas as nações. Que gratidão se deve a esses homens superiores, que, sem interesse secundário, sem mesmo escurar a vontade natural de dominar, imaginaram um estabelecimento, cujo único objectivo é a união dos espíritos e dos corações, para torná-los melhor, e formar, no correr dos tempos, uma nação, toda espiritual, em que, sem prejuízo dos diversos deveres que exige a diferença de Estados, criar-se-á um povo novo, que, composto de várias nações, aas cimentará de um certo modo, pelo vínculo da virtude e da ciência.”(…) [6]
Aqui também não se pode atribuir ao Cavaleiro Ramsay uma exactidão histórica aos termos do seu discurso porquanto não sabe de que fonte ele retirou a informação de que a Maçonaria moderna teria sido fundada pelos Cruzados na Terra Santa. Nem a que Ordem de Cavalaria ele se referia, porquanto as três principais Ordens que foram fundadas naquela época são hoje citadas como núcleos da Maçonaria moderna. Mais perto de nós, Maurice Druon, na sua famosa série de romances “Os Reis Malditos”, sugere que esta relação se estabeleceu especialmente com os Cavaleiros Templários, pois estes, segundo este autor teriam dado “origem à instituição do Compagnonnage — associações de operários – que existe até hoje. Tinham necessidade de operários cristãos. Então organizaram-nos e deram-lhes um conjunto de regras chamadas “dever”. Estes operários, que não portavam armas, vestiam-se de branco; participavam das Cruzadas e construíram no Oriente Médio as formidáveis fortalezas, como se diz no jargão da arquitectura, de acordo com o “aparelho dos cruzados”. [7]
Novamente não podemos emprestar foros de historicidade a esta informação porquanto o autor não cita as suas fontes. Mas a maneira directa e incisiva com que ele escreve, leva-nos a crer que ele tenha prova do que diz. Talvez ele tenha se inspirado na própria Regra dos Irmãos do Templo, que nos seus Estatutos, redigidos por São Bernardo de Clairvaux, permitiam a presença, entre os Cavaleiros Templários, de pedreiros profissionais para construírem as suas fortalezas e castelos.
Estes pedreiros tinham estreitas ligações com a Ordem do Templo, sendo integrados na sua estrutura como fréres du métier, segundo diz a Regra. Assim, teria sido a própria condição do Templo, como estrutura autónoma, não sujeita a autoridade eclesiástica nem secular, que teria permitida aos maçons medievais alcançar o seu status de pedreiros-livres, com liberdade de locomoção e trabalho em todos os reinos europeus, sem precisar de se sujeitar aos constrangimentos que opunham as servidões feudais aos profissionais de outros ofícios. [8]
Com a extinção da Ordem, na França, alguns irmãos do metier também foram perseguidos e vários acabaram na fogueira. Em consequência, muitos profissionais de construção franceses emigraram para outros países, especialmente as Ilhas Britânicas e a Alemanha. Assinale-se que foi neste período – época em que França e Inglaterra se despedaçavam na Guerra dos Cem Anos – que houve um grande incremento na fundação de Lojas maçónicas operativas na Alemanha, Flandres e Ilhas Britânicas, especialmente. Por outro lado, enquanto os reinos dominados pela fúria inquisitória da Igreja católica se afundavam na superstição e na ignorância, nos países acima citados a semente da reforma religiosa estava sendo incubada. E a principal corrente desta reforma seria exactamente a semente Templária, que logo daria ao mundo os rebentos do pensamento rosacruciano e o seu consequente, o Iluminismo. [9]
Desta forma poder-se-iam fundir a tradição do Templo do Rei Salomão com os Cruzados e a Maçonaria moderna, sem se cair no logro do puro exercício imaginativo. Os Templários, historicamente, estabeleceram a sua sede nas ruínas de um edifício que era tido como sendo os antigos estábulos do Rei Salomão. O seu objectivo, muito mais do que defender os lugares santos e manter a segurança das estradas da Terra Santa, revelou ser muito mais abrangente e ambicioso. Na verdade, a se julgar pelo que se tornaram mais tarde – uma grande potência económica e militar – o que os Templários almejavam era mesmo a fundação de um estado teocrático, inspirado no mirífico reino messiânico que Jesus pregara em vida. E ao que parece, pelas evidências contidas no processo que extinguiu a Ordem do Templo e levou os seus comandantes à fogueira, este foi o principal motivo desse processo. [10]
Por outro lado, existem muitas evidências de que o misterioso episódio do nascimento da Rosa-Cruz seja o eco tardio de um renascimento Templário, trabalhado de uma forma diferente. Agora não se tratava mais de assumir o poder temporal, através de uma estrutura política, solidamente apoiada por uma força militar, mas sim de uma revolução espiritual que pusesse em xeque o poder da Igreja Católica e liberasse o espírito humano para um novo conceito de religião, onde os dogmas fossem banidos pelo exercício da razão. Este objectivo transparece claramente nos famosos Manifestos Rosacruzes, na qual se fala na nação utópica universal, formada por espíritos livres dos dogmas e da superstição, onde os “filhos da ciência” encontrariam abrigo e protecção. Seria esta a própria descrição da Maçonaria universal que Ramsay viria a pregar cem anos depois. [11]
Desta forma, é bem possível que a verdadeira fixação intelectual que os filósofos do Renascimento tinham pela ideia de um reino utópico, também seja um eco tardio do templarismo mantido na clandestinidade. Isto evidencia-se nas obras de Giambatista Delia Porta, com a sua Cidade do Sol, na Utopia de Thomas More, em Cristianópolis, a ilha imaginária de Johannes Valentin Andreas, o criador do mito Rosa-cruz, e principalmente na Nova Atlantis, de Francis Bacon. Nesta última obra do filósofo inglês, o estudo da ciência do bom e do belo e a tolerância e a cooperação entre as pessoas substituem a religião. Curiosamente, os dirigentes dessa utópica cidade reúnem-se numa academia chamada “Casa de Salomão”. Os seus membros são chamados de “Filhos de Salomão” e usam uma cruz vermelha nos seus turbantes. [12]
E paradoxal que justamente um pensamento alimentado pelo misticismo e pela magia do espírito romântico dos Templários – formado na tradição cavalheiresca da Provença e no ascetismo da Lorraine – fornecesse as bases do racionalismo e do amor pela ciência na época moderna. Pois o iluminismo foi o filho que nasceu do pensamento hermético, racionalizado pelos cultores da Nova Ordem do Século, que legaram à humanidade a estrutura do mundo moderno. A Maçonaria, canal por onde esse rio fluiu, continua a alimentar-se desse fogo. Mas talvez seja o momento de reavivá-lo com novos entusiasmos. O Templo, que é o espírito do homem, sempre estará em perigo e sujeito a ataques de todos os lados.
Uma antiga lenda muito em voga na França diz que o fantasma de Tiago de Molay, o último Grã-Mestre dos Templários costuma aparecer todo dia 13 de Outubro, nas ruínas das antigas preceptorias Templárias. E a cada vez que aparece ele faz a mesma pergunta: “O Templo foi destruído: quem me ajudará a reconstruí-lo?” [13]
Quiçá os novos “Filhos de Salomão”, hoje dispersos por todo o mundo, ainda tenham ouvidos competentes para captar este lamento.
Notas
[1] Embora a Bíblia não se refira, em parte alguma a Hiran de Tiro como mestre-arquitecto, mas sim como mestre fundidor, o qual teria fundido as duas colunas de bronze do templo.
[2] As Constituições, pág. 15
[3] Com isto, Anderson dá a ideia de que foram os mestres israelitas, treinados por Hiram Abiff, que ensinaram o mundo a construir grandes edifícios, chamada por ele de Arte Real. O que não pode ser considerado uma verdade histórica, porquanto muito antes de Salomão, os egípcios e os povos da Mesopotâmia e da índia já construíam edifícios muito mais belos e sumptuosos do que o Templo de Salomão.
[4] Alex Home – O Templo do Rei Salomão na Tradição Maçónica, Ed. Pensamento, 1972.
[5] Ver, por exemplo, o Manuscrito Beswicke-Royds, do princípio do século XVI, que diz que a “venerável confraria dos maçons foi confirmada no país de Jerusalém”. Alex Horne, op citado, idem pg. 9
[6] Jean Palou – Maçonaria Simbólica e Iniciática – Ed Pensamento, 1962
[7] Os Reis Malditos, Vol. I, Bertrand Russel, pg. 252
[8] Malcom Barber – O Julgamento dos Templários, Oxford, OUP, Londres, Inglaterra.
[9] Peter Partner – The Murdered Magicians- Oxford, OUP, Londres, England
[10] Ver a este respeito Bárbara Frale – O Julgamento dos Templários – Editora Madras – São Paulo.
[11] Ver, a este respeito o excelente trabalho da Prof. Frances Yates – O Iluminismo Rosa-Cruz – Ed. Cultrix, 1986.
[12] O Iluminismo Rosa-Cruz, op citado.
[13] O Dia 13 de Outubro de 1307, uma sexta-feira, foi o dia em que as tropas de Filipe, o Belo, rei da França, tomou de assalto a fortaleza do Templo em Paris e prendeu todos os cavaleiros que lá foram encontrados. A sexta-feira 13, ganhou, desde então, na tradição popular, a fama de ser um dia aziago, em que o diabo está à solta.

- Cronologia Maçónica – 4ª parte – 1927 a 2003
- Os elementos simbólicos empregues na composição da “Abóbada Celeste”
- A Lenda do Ofício – 1.ª parte: Antiguidade
- O Rei Salomão e a sua herança
- O espelho e o crânio

