Os Ritos Templário e Escocês

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Ao discutir os Altos Graus Maçónicos do século XVIII, é preciso fazer uma distinção entre os chamados Graus Templários, por um lado, e os Graus Ecossais (ou Escoceses), por outro. Foi estabelecido que os Graus Ecossais vêm de Londres, [3] enquanto os Graus Templários têm uma origem francesa [4]. Estes dois tipos de Altos Graus são os graus mais característicos do século XVIII [5].

A primeira referência a Ecossais ou Maçonaria Escocesa em Inglaterra é uma “Scots Masters Lodge” realizada na Devil’s Tavern, Temple Bar, Londres, em 1733. Este Loja reunia-se na segunda e quarta segunda- feira de cada mês, e a Loja esteve activa até 1736, altura em que foi apagada da lista de Lojas. Em 1735 um total de doze Maçons foram “feitos” Mestres Escoceses na Loja n° 113, no Bear Inn, Bath. Cinco anos mais tarde, em 1740, havia pelo menos mais três referências a Maçons feitos ou “elevados” a Mestres Escoceses [6]. A Maçonaria Ecossais parece ter-se espalhado pelo Continente numa fase inicial, e as referências a este tipo de Maçonaria dos Altos Graus em Berlim datam de pelo menos 1741 e em França de cerca de 1743 [7].

Enquanto os Graus Ecossais estão em grande parte ocupados com a construção de um novo Templo (um tema implicitamente Cristão), os Graus Templários centram-se na lenda que a Maçonaria derivou dos Cavaleiros Templários medievais. A ordem dos Cavaleiros Templários, fundada na primeira década do século XII, foi dissolvida por Filipe IV “O Belo” de Bourbon (1268-1314) e pelo Papa Clemente V (1264-1314) na primeira década do século XIV, mas segundo uma lenda Maçónica, os Templários sobreviveram nas terras altas da Escócia e mais tarde reapareceram ao público como a Ordem dos Maçons. A primeira pessoa a apresentar esta teoria da continuação foi o Cavaleiro Escocês Andrew Michael Ramsay (1686-1743), que viveu como expatriado em Paris. Ramsay foi o Orador da Loja Le Louis d’Argent, cujo Venerável Mestre era Charles Radclyffe (1693-1746). Numa famosa oração proferida na Loja em 1737, Ramsay afirmou que os cruzados medievais na Terra Santa, ou Ultramar, fundaram a Maçonaria [8]. Ele não identificou explicitamente os cruzados, que alegadamente fundaram a Maçonaria, como sendo os Cavaleiros Templários, mas como Pierre Mollier salientou, a identificação dos Cruzados com os Templários não estava muito longe [9].

A oração de Ramsay provou ser um marco no desenvolvimento dos rituais de iniciação Maçónica, e logo começaram a surgir rituais que incorporavam a tese de Ramsay. Foi no meio das Lojas Jacobitas [NT2] de Paris que os Graus Maçónicos Templários se desenvolveram pela primeira vez, talvez já em 1737 [10]. O propagador mais conhecido dos Graus Templários na Alemanha foi o Barão Karl Gotthelf von Hund (1722 – 1776), e é frequentemente afirmado que ele tinha sido iniciado num Grau Templário em França em 1743 [11]. Com base neste início, criou o Rito da Estrita Observância, que consistia em três graus adicionais: Mestre Escocês, Noviço e Cavaleiro Templário ou Cavaleiro do Templo. O nome do Rito tinha “o duplo significado de seguir estritamente as regras da Ordem, bem como de a distinguir da então corrente Maçonaria Alemã” [12]. Von Hund introduziu ainda uma característica peculiar na estrutura do seu Rito, nomeadamente a dos Superiores Desconhecidos ou Superiores Incogniti [13]. Estes Superiores Desconhecidos governaram, através de von Hund, o Rito da Estrita Observância, e esperava-se que os membros do Rito observassem rigorosamente os decretos destes Superiores. Tem-se sugerido que o verdadeiro chefe do Rito era nada mais nada menos que o jovem pretendente Formoso Príncipe Carlos, Charles Edward Stuart (1720-1788). As implicações políticas para a Maçonaria (especialmente em relação aos Ritos Escoceses) durante o século XVIII têm sido objecto de muitos debates e especulações. Embora seja evidente que muitos exilados Jacobitas eram activos em lojas Maçónicas, permanece em aberto a questão de saber até que ponto os interesses Jacobitas moldaram efectivamente os rituais Maçónicos de iniciação [14]. Em 1772, a “Estrita Observância” fundiu-se com os chamados Clérigos (Klerikat), criados por Johann August Starck (1741-1816), mas este acordo terminou em 1778. Quatro anos mais tarde, em 1782, a Estrita Observância terminou oficialmente no Convento de Wilhelmsbad e foi substituída pelo Rito Escocês Rectificado (…).

Muitos dos Ritos dos Altos Graus que foram fundados durante o século XVIII passaram para o esquecimento, mas ainda subsistem alguns Ritos importantes até hoje. Os mais importantes são o Rito Escocês Antigo e Aceite, o Rito Escocês Rectificado e o Rito Sueco. De longe o maior destes Ritos, em termos de número de iniciados, é o Rito Escocês Antigo e Aceito, que tem um total de trinta e três graus, incluindo os três Graus do Ofício [15]. O Rito é uma colecção de rituais franceses do século XVIII e contém tanto os graus Ecossais como os Templários [16]. Há também outras influências como o Cavalheirismo, a Alquimia e a Rosa-Cruz [17]. O simbolismo Rosa-Cruz está concentrado principalmente no Grau XVIII, Cavaleiro Rosa-Cruz, enquanto o Grau XXVIII, Cavaleiro do Sol, contém simbolismo alquímico [18]. Em 1801 o Rito Escocês foi oficialmente fundado em Charleston, na Carolina do Sul.

Tradução de M. L. Prates

Notas do Tradutor

[NT1] Tradução de In An Introduction to the High Degrees of Freemasonry, de Henrik Bogdan, VIIº, Heredom, Volume 14, 2006, disponível, em 27/04/2020, em https://www.academia.edu/237466/An_Introduction_to_the_High_Degrees_of_Freemasonry

[NT2] Lojas de partidários de Jaime II, da Escócia (e Jaime VII de Inglaterra e Irlanda), após a sua abdicação.

Notas

[3] Pierre Mollier, “L’Ordre Écossais’ à Berlin de 1742 à 1751,” Renaissance Traditionelle, n.º 131 – 132 (2002), págs. 217 – 227. Ver também Alain Bernheim, “Did Early ‘High’ or Écossais Degrees Originate in France?” Heredom, vol. 5 (1996), págs. 87–113.

[4] André Kervella e Philippe Lestienne, “Un haut-grade templier dans des milieurx stuardistes en 1750: L’Ordre Sublime des Chevaliers Elus” Renaissance Traditionelle, n.º 112 (1997), pág. 229 ff.

[5] Para uma compilação representativa dos rituais cavalheirescos e Templários, ver Pierre Girard-Augry, Rituels Secrets de la Franc-Maçonnerie Templière et Chevaleresque (Paris: Éditions Dervy, 1996).

[6] “Lodge of Antiquity (then nº 1) made 9 Brn into Scots Masters”; “5 MMs were ‘Rais’d Scots Masters’ in No 137, Bristol”;“5 Brn made Scots Masters at Salisbury.” A.C.F. Jackson, Rose Croix (Addlestone, Surry: Lewis Masonic, 1993), p. 219.

[7] Bernheim, “Early ‘High’ or Écossais Degrees,” pp. 31–32. A primeira referência à Maçonaria Ecossais encontradas nas revelações Francesas está em [Abbé Larudan?], Les Francs-Maçons Ecrasés (1746/47) in Harry Carr, Early French Exposures (London: Quatuor Coronati Lodge nº 2076, 1971), págs. 292, 307 – 314.

[8] A Oração foi publicada várias vezes, e foi enviada ao Cardeal de Fleury em 20 de Março de 1737. Duas das cartas de Ramsay para Fleury estão reproduzidas in Albert Lantoine, La Franc-Maçonnerie Ecossaise en France (Paris: Émile Nourry, 1930). Sobre Ramsay, ver, em particular, “Le Pseudo-Créateur des Hauts Grades: Le Chevalier de Ramsay”, pág. 17–49, na acima mencionada obra de Lantoine; e Albert Lantoine, Histoire de La Franc-Maçonnerie Française (Paris: Émile Nourry, 1927), págs. 113 – 124.

[9] “A partir do momento em que foi estabelecida uma relação entre Maçonaria e Cavalaria, aliás, se esta Cavalaria era a das Cruzadas, os Templários não estavam longe! De facto, eles já aparecem como marca de água no Discurso de Ramsay. De facto no contexto das Cruzadas, a quem mais se pode aplicar a defesa, a não ser aos Templários. de “Esta promessa sagrada [que] não era um juramento vil, como é dito”?”, Pierre Mollier, ” Des Francs-Maçons aux Templiers: Aperçus sur la constitution d’une légende au Siècle des Lumières”, in Symboles et Mythes dans les mouvements initiatiques et ésotériques, (Paris: ARIES, Archè / La Table d’Emeraude, 1999), p. 97.

[10] J. A.M. Snoek, “A Manuscript Version of Hérault’s Ritual” in R. Caron, J. Godwin, W. Hanegraaf, and J. L. Viellard-Baron, eds., Ésotérisme, Gnoses et Imaginaire Symbolique: Mélanges offerts à Antoine Faivre (Leuven: Peeters, 2001), p. 516.

[11] Até há pouco tempo presumia-se que a alegação de que von Hund tinha sido iniciado num grau Templário em França era uma invenção. Contudo, novas descobertas demonstraram que existia efectivamente um grau Templário em França antes da formação do Rito da Estrita Observância. Para informação sobre este ritual, ver Kervella e Lestienne, “Un hautgrade templier,” Renaissance Traditionelle. Ver também Snoek, “Hérault’s Ritual.”

[12] Alain Bernheim, “Johann August Starck: The Templar Legend and the Clerics,” Heredom, vol. 9 (2001), p. 252.

[13] A inclusão de Superiores Desconhecidos é uma característica recorrente em muitas sociedades e ordens esotéricas. Por exemplo, os Mahatmas da Sociedade Teosófica; Os Chefes Secretos da Ordem Hermética da Golden Dawn, os A:. A:. (geralmente entendida como a Ordem da Estrela de Prata ou Argenteum Astrum); e mesmo o novo movimento religioso Ordem do Templo Solar.

[14] O interesse Jacobita na Maçonaria não impediu que a Igreja Católica tomasse uma posição negativa contra a Maçonaria. Em 1738 e 1751 foram emitidas duas bulas papais contra a Maçonaria: In Eminenti Apostolatus Specula de Clemente XII e Providas Romanorum Pontificum de Bento XIV. Para o texto de In Eminenti em latim e em inglês ver Alec Mellor, Our Separated Brethren the Freemasons (Londres: George G. Harap, 1964), págs. 156 – 60.

[15] Ver Harold V. B. Voorhis, The Story of the Scottish Rite of Freemasonry, rev. ed. (Richmond, Va.: Macoy Pub., 1980); Paul Naudon, Histoire, Rituels et Tuileur des Hauts Grades Maçonniques (Paris: Éditions Dervy, 1993); Albert Lantoine, La Franc-Maçonnerie Ecossaise en France (Paris: Émile Nourry, 1930); Jonathan Blanchard, Scotch Rite Masonry Illustrated: The Complete Ritual of the Ancient and Accepted Scottish Rite, 2 vols. (Chicago: Ezra A. Cook, 1887–88; reprint 1950). Esta última obra é uma exposição anti-Maçónica que, no entanto, contém relatos precisos da versão Cerneau dos rituais do REAA.

[16] O Rito Escocês contém mais graus Ecossais do que Templários; somente o 30.º e o 32° são Templários.

[17] Os temas Cavalheirescos podem ser encontrados no 15.º, Cavaleiro do Oriente ou da Espada, e no 21.º, Cavaleiro Noaquita ou Prussiano. Para uma interpretação Maçónica dos rituais do Rito Escocês, ver Albert Pike, Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry (Washington, D.C.: Supreme Council, 33º, 1871), e Henry Clausen, Clausen’s Commentaries on Morals and Dogma (Washington, D.C.: Conselho Supremo, 33º, 1974).

[18] Para mais informações sobre o Grau de Cavaleiro do Sol, ver Pierre Mollier, “Le Chevalier du Soleil: Contribution à l’étude d’un haut-grade maçonnique en France au XVIIIe siècle” (Paris: Ecole Pratique des Hautes Etudes: Ve Section – Sciences Religieuses, La Sorbonne, 1992).

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