“É conhecendo que se entende e entendendo que se tem condições de acrescentar, de criar, e de fazer crescer a Instituição a que temos a honra de pertencer.”
Considerações iniciais
Tendo participado assiduamente das sessões da minha Oficina, no prazo regularmente definido para um Aprendiz-Maçom habilitar-se a um aumento de salário – tempo em que procurei aperfeiçoar-me na correcção das minhas fraquezas e vaidades, e após assegurar-me de que o meu Mestre 1° vigilante está satisfeito com o meu desempenho de obreiro, no desbaste da Pedra Bruta, formalizei o meu pedido de ascensão ao 2° Grau da Ordem, tendo para isso recebido a sugestão de discorrer sobre o tema: “A PALAVRA A BEM DA ORDEM EM GERAL E DO QUADRO EM PARTICULAR”, título que completa a sequência dos trabalhos da Sessão Económica do Ritual do Aprendiz.
Sendo uma sugestão, eu poderia simplesmente declinar da indicação e optar por um outro assunto que julgasse ser de maior expressividade maçónica. Contudo, e ao contrário, a escolha desse assunto deixou-me vivamente entusiasmado, porquanto, ainda que intuitivamente, eu já tinha a minha mente operando, há algum tempo, sobre a essência do seu verdadeiro significado na simbologia do Grau de aprendiz.
Na verdade – e por feliz coincidência -, desde o início da minha vida templária desperta-me a atenção, de maneira muito especial, a forma como vem sendo utilizado aquele espaço de tempo em que a palavra é franqueada a todos os Irmãos, indistintamente, antes do encerramento formal de cada Sessão.
Por esta razão, a escolha deste assunto, como já disse antes, deixou-me muito feliz, sobretudo pela convicção de que, através do estudo que iria desenvolver sobre este tema, por certo encontraria uma valiosa fonte de cultura maçónica, a qual viria preencher muitas lacunas para mim ainda existentes, sobre aspectos importantes da simbologia e da ritualística do Grau de Aprendiz.
Preliminares sobre o tema
Sempre me pareceu que alguns aspectos conceituais estavam a merecer uma melhor interpretação no que tange ao emprego mais apropriado da “PALAVRA A BEM DA ORDEM EM GERAL E DO QUADRO EM PARTICULAR”, especialmente como orientação para os Aprendizes como eu, nem sempre convenientemente instruídos sobre as subtilezas ritualísticas e muito pouco familiarizados com a investigação sistemática das suas próprias dúvidas.
Pois bem, o que se observa na prática, é que no limitado entendimento dos Aprendizes, aquele horário parece destinar-se exclusivamente a comunicações de carácter social, em particular para agradecimentos pelo carinhoso envio de cartões de felicitações, flores ou cestas contendo lindas frutas tropicais, ou, então, para comunicar eventuais ausências por motivos profanos.
E esta compreensão permanece equivocada, na medida em que é assim que ele vê as coisas acontecerem em Loja, circunstância que, no meu entender, merece ser corrigida, dando-se-lhe o verdadeiro e mais amplo sentido interpretativo.
O que queremos dizer, na verdade, é que não temos conseguido identificar uma efectiva correspondência entre o significado intrínseco do título – certamente concebido por experientes mestres litúrgicos -, e a resposta dos Irmão àquele estímulo.
Com efeito, numa simples análise do título, observamos que a abrangência que lhe está implícita, reclama intervenções de mais forte conteúdo instrutivo para o aprimoramento dos iniciados na Arte Real, e não apenas a formulação dos tradicionais agradecimentos ou justificativas acima referidos, embora estas manifestações encontrem total amparo quando usadas naquele momento, porquanto consubstanciam informações sociais que não deixam de ser do interesse do Quadro, isto é, da Loja a que orgulhosamente pertencemos.
Quando nos dispormos a reflectir sobre o título deste trabalho, surge-nos a oportunidade de verifica como é amplo e ilimitado o seu conceito e logo nos apercebemos, diante do que nos sugere “A PALAVRA A BEM DA ORDEM EM GERAL E DO ORADOR EM PARTICULAR”, que ali nos está sendo oferecida a faculdade de abordar qualquer assunto que venha reforçar o apostolado do Bem, das Virtudes, da Luz e da Verdade.
E isto tudo, em proveito não só da nossa Respeitável Loja, mas sobretudo, em benefício da Ordem em Geral, aí entendido os limites infinitos de uma Instituição Una, Universal, que tem muitos centros de acção implantados em todos os recantos da Terra, mas uma só unidade doutrinária, imutável no perpassar dos séculos. Assim aprendi com os meus Irmão de Loja.
E no transcorrer da Sessão Económica – cabe aqui perguntar -, que momento pode ser considerado mais expressivo, mais belo do que aquele em que o nosso Poderoso Venerável, guia de todos os Irmãos da nossa Augusta Loja, num momento de incomparável sentido de liberdade maçónica, democraticamente faculta o uso da palavra, sem maiores formalidades, a todos os filiados da sua Oficina, incentivando-os a transmitir as suas vivências em forma de ilustrações, comunicações, esclarecimentos, informações doutrinárias ou filosóficas, enfim, sobre qualquer tipo de assunto que esteja efervescente na sua mente, naquele instante, objectivando, não apenas o Bem do Quadro em Particular, mas também , da Ordem em Geral.
Aquele é o momento mágico da Sessão, onde melhor do que em qualquer outro, se pratica a incensurável liberdade de expressão, desde que não sejam explorados assuntos perniciosos, que versem sobre controvérsias religiosas, temas políticos ou quaisquer outros estranhos aos interesses da Ordem.
Poder-se-ia alegar, neste ponto, que não e apenas naquele momento da Sessão, que os obreiros têm liberdade de se expressarem livremente, pois esta condição também se repetiria, igualmente, em diversos outros momentos de uma Sessão Ordinária de Primeiro Grau.
A este propósito podemos garantir, seguramente, que em nenhum outro momento esta liberdade de expressão se apresenta com tanto vigor e de forma tão abrangente, como na “PALAVRA A BEM DA ORDEM E DO QUADRO.
Naquela oportunidade, mais do que em qualquer outra, avulta a sublimidade daquele instante, que é inegavelmente raro e talvez único no contexto do simbolismo.
Isso pode ser facilmente constatado se recorrermos à sequência dos trabalhos da Sessão Económica. Naquela oportunidade, estando a Loja regularmente composta para o início dos trabalhos, sucedem-se cerimónias simbólicas e práticas com a participação de todos os Irmão presentes, as quais estão divididas em segmentos, de acordo com os propósitos que se pretende realizar.
A partir daí, estabelece-se um diálogo contínuo entre o Venerável mestre, as demais Luzes e os Oficiais da loja, seguindo toda uma sistemática prevista no Ritual, cujo desenrolar se processa na seguinte ordem de eventos:
- Abertura ritualística
- Leitura e aprovação do balaústre
- Leitura e destino do expediente
- Saco de propostas e informações
- Escrutínio secreto para admissão de novos membros
- Ordem do dia
- Entrada de visitantes de lojas co-irmãs
- Tempo de estudos
- Tronco de beneficência
- Palavra a bem da ordem em geral e do quadro em particular
- Encerramento ritualístico
Neste rol de actividades, realmente divisamos algumas que permitem aos Irmão se expressarem com liberdade em Loja durante uma Sessão, mas vejamos em que condições isto acontece:
Quanto ao item nº 01, apenas se desenvolvem os diálogos ritualísticos entre o Venerável Mestre, as demais Luzes e os Oficiais da Loja.
No item nº 02, existe a possibilidade de debates orientados pelo Venerável, desde que se refiram, exclusivamente, a assuntos contidos na acta da última Sessão, sendo que, na eventualidade de serem votadas emendas, utiliza-se, não a palavra, mas tão somente o sinal de costume com a mão estendida.
No item nº 03, a palavra não é concedida aos Irmãos.
Quanto ao item nº 04, normalmente ocorrem mais informações do que propostas. E quando estas são apresentadas, têm de ser obrigatoriamente formuladas por escrito e submetidas ao Venerável Mestre para lhes dar o devido destino.
No item nº 05, quando é o caso de escrutínio, sobre candidatos, a manifestação se restringe ao assunto em discussão e também através da manipulação de esferas, no caso das votações.
Sobre o item nº 06, havendo Ordem do Dia, o Venerável permite o debate, desde que circunscrito, rigorosamente, ao que foi lido pelo Secretário.
Quanto ao item nº 07, não é concedida a palavra aos Irmãos.
No item nº 08, cabe ao Venerável, ao Orador ou a outro Irmão previamente designado, fazer uma exposição didáctica sobre o assunto de relevante interesse da Ordem. No caso de perguntas, estas só poderão ser formuladas sobre o assunto abordado.
Sobre o item nº 09 a palavra não é franqueada.
Quanto ao item nº 10, que precede o encerramento ritualístico da Sessão, aí sim, diferentemente de tudo o que vimos anteriormente, ali acontece o florescimento da liberdade de expressão sem reservas e sem limites, possibilitando aos Irmãos abrir as suas mentes e os seus corações em submissão aos preceitos e exigências da doutrina maçónica e das regras e obrigações impostas pela razão. O que dele se espera, é tão somente a espontaneidade, a clareza e a fidelidade aos princípios interpretativos da liturgia e da ritualística.
Resultado de uma pesquisa bibliográfica
Na concepção do meu plano de trabalho, claro que não poderia adoptar a pretensão de explorar o assunto louvando-me apenas em meus conhecimentos, observações e experiências pessoais. Tinha, necessariamente, de buscar suporte nos ensinamentos já expendidos por renomados Mestres nas inúmeras obras maçónicas disponíveis, certo de que, uma das coisas, mas valiosas que alguém pode aprender na vida, é a arte de pôr em prática os conhecimentos e as experiências dos outros.
Interessava-me, sobremaneira, verificar se as ideias que eu tinha delineado sobre o tema, estavam consentâneas com o pensamento dos experientes Mestres litúrgicos.
Antes de recorrer a esse expediente, porém, consultei o Ritual do Grau de Aprendiz, detendo-me particularmente no capítulo dedicado ao desenvolvimento da Sessão Económica do Rito Escocês Antigo e Aceito, confirmando a inexistência de quaisquer comentários ou esclarecimentos consistentes, que pudessem trazer subsídios importantes à elaboração do trabalho.
Orientado por esse propósito, na verdade por essa imperiosa necessidade, recorri às estantes especializadas de uma grande Livraria, onde, após folhear inúmeros livros, seleccionei e adquiri alguns deles, já bastante conhecidos do público maçónico, escritos por consagrados autores, responsáveis por primorosa literatura sobre a Ordem.
A partir de então eu tinha ao meu inteiro dispor, substancial quantidade de fontes bibliográficas para manusear, compreendendo as seguintes publicações:
- Comentários ao ritual do aprendiz,
- Vade-mecum iniciático, Nicola Aslan;
- Simbolismo do primeiro grau – Rizzardo da Camino;
- O que é a Maçonaria – A. Tenório D’albuquerque;
- Ritual do 1° grau – aprendiz.
De posse de tão excelente material informativo, dispus-me a iniciar o desenvolvimento efectivo do meu trabalho, na expectativa de acrescentar, às ideias já esboçadas, todo manancial ilustrativo que seria retirado dos livros adquiridos, principalmente nos capítulos voltados para a descrição da Sessão de 1.° Grau e em particular, sobre a “Palavra a Bem da Ordem e do Quadro”.
Animou-me sobretudo, quando seleccionava as fontes de consulta aludidas, as elogiosas referências que encontrei nas suas contracapas, apresentando-as como definitivas soluções para suprir a completa ausência de literatura especializada sobre a simbologia do Ritual, o que me transmitiu a agradável e tranquila certeza de ter escolhido o que de melhor existia sobre a matéria.
Prosseguindo na elaboração do trabalho, iniciei a pesquisa pelo livro do Poderoso Irmão Nicola Aslan, Ex. – Secretário de inspecção de Liturgia e Ritualística do G. O. do Rio de Janeiro e Ex. Grande Secretário de Cultura e Orientação do GOB, e após ler e reler as 363 páginas da obra, voltadas exclusivamente para Ritual do Aprendiz, encontrei os seguintes únicos comentários sob o título: “A PALAVRA A BEM DA ORDEM”:
“Após o giro do Tronco Beneficência, o V.. M.. faz anunciar pelos Vigilantes que concederá a Palavra a Bem da Ordem em Geral e em Particular do Quadro.
.
Nesta ocasião fazem-se saudações por aniversários ou outro qualquer acontecimento social de um dos Irmão presentes e também referências a actos realizados pela Oficina: iniciação, elevação, etc., em que são cumprimentados os Irmãos e foram objecto dessas cerimónias maçónicas.
.
É também nesta oportunidade que se prestam informações a respeito de Irmãos enfermos ou ausentes, de encargos recebidos pelo Venerável Mestre e outros semelhantes”.
É evidente que o Irmão NICOLA ASLAN foi extremamente económico e exageradamente simplista na sua obra, em se tratando de um tema de tamanha magnitude.
Com relação ao grande Mestre RIZZARDO DA CAMINO que, entre tantos, pareceu-me o mais festejado e o mais respeitado pela imensa e profunda literatura da sua autoria, disponível nas bibliotecas maçónicas, constatamos em “Simbolismo do Primeiro Grau”, que surpreendentemente ele não cita o assunto uma vez sequer e não lhe dedica uma só palavra nas suas 220 páginas. E aí eu me pergunto entre surpreso e estarrecido, com uma obra que esmiúça o Ritual do Aprendiz nos seus mínimos detalhes, não se dispõe a incluir uma única frase sobre a “Palavra a Bem da Ordem em Geral e do Quadro em Particular”.
Pois bem, naquele ponto a minha pesquisa bibliográfica de certa forma tinha resultado inútil. Tanto no Ritual do Aprendiz como nas obras adquiridas, nada havia obtido de concreto em relação às minhas pretensões, que viessem enriquecer as páginas deste meu modesto trabalho. Ao contrário, essa circunstância deixara-me de certa forma frustrado e porque não dizer, preocupado, pois eu teria de continuar, na defesa de uma tese que eu abraçara e sobre a qual eu esperava, sinceramente, que os grandes pensadores da Sublime Ordem estivessem atentos, por tratar-se, sem dúvida, de assunto revestido do mais profundo cunho simbólico e de extraordinária beleza no Ritual do Aprendiz.
Acresce a tudo isso, ainda a nível de preocupação, o facto de alguns Irmãos, de longa militância maçónica, terem me garantido que nunca tinham visto ou souberam ter sido este assunto utilizado como tema para ascensão ou elevação de Grau, o que limitou, ainda mais, quaisquer perspectivas de obter alguma fonte eficaz de auxílio externo.
Estudo interpretativo do assunto
Aprendi certa vez que não há barreira intransponível, senão aquela que reflecte a nossa própria fraqueza de propósito e, portanto, não haveria de ser a falta de subsídios que iria esmorecer o meu ímpeto de continuar defendendo o meu ponto de vista, com vigorosa determinação.
Estou absolutamente convencido, e ouso mesmo afirmar, que há um ângulo do assunto sob exame, que tem passado despercebido à aguda sensibilidade de muitos Irmãos, e, comprovado está, também por parte dos nossos mais consagrados autores maçónicos, pois é inegável que do ponto de vista doutrinário, o momento a que nos referimos constitui fonte fecunda de importantes ensinamentos e que, no entanto, vem sendo colocado em plano secundário, por conta de uma visão certamente distorcida.
Ressalve-se, porém, desde logo, que muito do que vem sendo dito ao longo deste trabalho, não irá focalizar qualquer novidade para Irmãos mais experimentados, que já têm essa verdadeira consciência incorporada, e disso estamos absolutamente convencidos.
Contudo, e à guisa de ilustração e de alerta, gostaríamos de lembrar facto ocorrido recentemente, em uma Loja coirmã, quando no tempo destinado à “Palavra a Bem da Ordem e do Quadro”, um Irmão dirigiu-se a outro – reconhecidamente uma das maiores autoridades em ritualística maçónica – pedindo-lhe para esclarecer aos presentes qual a maneira mais correcta de acendimento dos candelabros do Templo, se com três ou com apenas uma vela, como estava acontecendo naquela Loja.
O Irmão especializado em ritualística, após dar a resposta que julgou mais conveniente, assumiu uma atitude de visível constrangimento e dirigindo-se aos obreiros e para minha surpresa, pediu desculpas a todos por ter tratado daquele assunto naquele momento, pois sabia que o correcto seria abordá-lo, não ali, mas no Tempo de Estudos.
O que é preciso deixar bem claro é que tanto o assunto das velas como qualquer outro de sentido ritualístico – doutrinário, não só pode como deve ser tratados ou respondidos naquele exacto momento em que o clima lhe é mais oportuno.
Convenhamos, não faz qualquer sentido se deixar uma pergunta deste tipo no ar, adoptando como resposta dizer ao Irmão que coloque a sua dúvida no Saco de Propostas, da próxima Sessão. Isto seria um disparate ao meu entender.
É exactamente para isto que os Mestres litúrgicos criaram este momento de elevação, onde a palavra passa a ser usada livremente para o Bem não apenas da Ordem, mas da Ordem em Geral, ou seja, pelo bem de todo o espectro que envolve a Sublime Instituição na sua abrangência universal.
E assim, o Maçom faz-se livre nas suas manifestações de cidadão responsável e respeitável , para que possa continuar dispondo e fazendo uso da tribuna que o Venerável Mestre lhe confiou, pois ele é livre e de bons costumes.
Reflexões finais sobre o tema
Dissemos nos parágrafos iniciais que quando o nosso Venerável franqueava a palavra a Bem da Ordem e do Quadro, ele estava abrindo um dos mais lindos espaços da ritualística do Grau de Aprendiz, e para reforçar este ponto de vista, passaremos à tentativa de fixar este conceito, convocando a atenção dos prezados Irmão, da nossa Augusta Loja Fénix, para a realidade que pretendemos modelar de forma objectiva, em relação ao tema que abraçamos.
Primeiramente, gostaria que meditassem sobre um facto da maior importância, que se resume na atitude desta Instituição, que traz a sua origem de séculos remotíssimos, nos tempos em que os governos eram terrivelmente tirânicos e o povo escravizado, e já naquela época, a Maçonaria ensinava aos seus seguidores a serem leais, virtuosos e criativos e mostrava-lhes o caminho do louvor ao Grande Arquitecto do Universo.
E naqueles tempos imemoriais, antes que a Oficina de trabalho fosse fechada, que os seus obreiros recebessem os seus salários e fossem então despedidos contentes e satisfeitos, era-lhes concedida a palavra pelo seu Mestre, deixando-os livres, nas suas opiniões individuais, para falarem sobre as ocorrências de mais um longa e exaustiva jornada de trabalho, antes que as portas se fechassem à meia-noite.
Aquele era o momento simbólico da “PALAVRA A BEM DA ORDEM EM GERAL E DO QUADRO EM PARTICULAR”, dos nossos dias.
Deste modo, a Maçonaria, desde aqueles tempos remotos, já estava fundada no mais lídimo princípio da Democracia participativa, apoiada em fortes alicerces, onde se destacavam a solidariedade de exprimir os seus sentimentos, tudo isso apoiado na resplandecente beleza esotérica do seu simbolismo.
Como bem sabemos, a nossa Sublime Ordem tem como lema a trilogia: LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE, que configura a síntese do seu programa de acção em prol da Humanidade e que deve ser o farol a iluminar a trilha de todos os Maçons dignos e perseverantes.
Quando o Venerável abrindo mão da sua suprema autoridade em Loja, libera a palavra aos seus discípulos, ele está exercitando, de forma magnífica, o sagrado princípio da LIBERDADE, este extraordinário e inalienável direito de pensar livremente, de exteriorizar os seus pensamentos pela palavra, o que significa poder fazer tudo quanto não prejudique os seus semelhantes, os seus Irmãos.
Quando a palavra é facultada a todos os Irmãos, indistintamente, sem limites de hierarquia, voltamos àquela situação em que todos são nascidos iguais e as únicas distinções que admite, são o mérito, o talento, a sabedoria, a virtude e o trabalho.
Naquele momento da Sessão, todos os Maçons, quaisquer que sejam os cargos que ocupem na vida profana, o seu poder económico – financeiro, a sua religião ou a sua raça, se igualam através do título único de IRMÃO. E aí está caracterizado o princípio da IGUALDADE.
A Maçonaria exige que os seus membros pratiquem com consciência o inabalável princípio da FRATERNIDADE, relacionando-se como verdadeiros Irmãos e procurando se auxiliar mutuamente.
Quando usamos esse sentimento em relação a algum Irmão que tenha se desviado do caminho do bem, se acaso ele transgrediu os preceitos normalmente impostos pela sociedade, pelos regulamentos e pelas leis, ao invés de humilhá-lo ou permitir que enredado pelo vício ele se destrua irreversivelmente no fundo do poço, recomenda-se ampará-lo, apontando-lhe o caminho da salvação, estendendo-lhe a mão segura e amiga da solidariedade e do amor.
Já se disse que o Maçom deve ser tolerante para com as fraquezas dos seus semelhantes, para que os demais possam perdoar-lhe os seus eventuais erros e deslizes. Ama o teu próximo como a ti mesmo; porém de forma sincera, real e eficazmente, pois o valor do Maçom mede-se por suas realizações em prol dos seus semelhantes. Não tenhamos, portanto, qualquer constrangimento em usar a palavra para o bem de um Irmão necessitado, pois você tem um momento do Ritual reservado para erguer templos à virtude e cavar masmorras ao vício.
Quando dissemos desde os capítulos primeiros deste nosso trabalho, que o momento dedicado à “Palavra a Bem da Ordem e do Quadro”, se sobrepunha a qualquer outro na Sessão do Aprendiz, em expressividade que acabamos de descrever, onde sobreleva a divisa da Maçonaria: LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE. A LIBERDADE que o Irmão tem de falar livremente, em IGUALDADE de condições com os demais integrantes da Loja, e sempre imbuído do mais elevado sentimento de FRATERNIDADE para com os seus semelhantes.
E isto só pode acontecer naquele especial momento da palavra concedida pelo Venerável, num movimento que busca, em última análise, a dignificação do homem, revigorando-lhe o ânimo, incentivando-lhe as forças morais, para que ele se transforme em bom discípulo da Ordem Maçónica.
Conclusão
Ao longo do nosso trabalho procuramos solenizar a “PALAVRA A BEM DA ORDEM EM GERAL E DO QUADRO EM PARTICULAR”, por estarmos absolutamente convencidos de que ali reside um dos mais belos momentos do Ritual do Aprendiz, daí a minha grande alegria pela oportunidade de estudar, reflectir e escrever sobre o tema. Não obstante a sua evidente importância, verificamos que a sua utilização nas Sessões Económicas não vem correspondendo à destinação que lhes deram os ilustres mestres litúrgicos, ao definirem o seu título de forma tão abrangente.
Quanto ao material que reuni como fonte de consulta, para subsidiar a feitura deste meu trabalho, lamento deixar registada a minha total frustração pelo vazio que os renomados autores deixaram em relação à “Palavra a Bem da Ordem e do Quadro”. Em contrapartida e por uma questão de irrecusável justiça, não poderia deixar de apresentar os meus melhores agradecimentos pela extraordinária soma de ensinamentos obtidos através da leitura de obras tão primorosas, onde aprendi, sobretudo, que o objectivo maior da Maçonaria é chagar a um modelo peculiar de eterna e universal justiça, segundo a qual, todo ser humano possa desenvolver livremente as faculdades de pensar e de se expressar e que possa vir a concorrer com todas as suas forças, para a comum felicidade dos seres humanos.
Resta-me neste momento, que terei apreciado o meu trabalho pelos Mestres da minha Augusta Loja, rogar ao grande arquitecto do Universo, Fonte fecunda de Luz, de Felicidade e de Virtude, que ilumine os queridos Irmãos que terão esta incumbência, a partir deste momento, para que tenham a justa compreensão do esforço despendido por este humilde obreiro, objectivando a melhoria do seu salário.
Estou convencido de que o nosso trabalho por certo não esgota o assunto na sua plenitude, entretanto, posso assegurar-lhes que ele está verdadeiramente impregnado do mais puro desejo de apresentar o melhor, dentro dos limites razoáveis da minha competência, na esperança de que não se perca de vista o carácter transcendental deste tema que tivemos a honra de abordar.
Carlos Leger Sherman Palmer

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Excelente!
Muito elucidativo e ponderado.