As portas que não levam ao templo: sobre o vício de interpretar antes de ler

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porta entrar

Existe um vício intelectual que atravessa épocas, disciplinas e instituições: a interpretação que precede a leitura. Primeiro se decide o que o texto deve dizer; depois se procura no texto alguma coisa que pareça confirmá-lo. Se não houver, inventa-se. Se houver contradição, ignora-se. E assim, geração após geração, vão se acumulando camadas de “tradição” que ninguém jamais verificou – mas que todos repetem com a solenidade de quem proclama verdades reveladas.

Na Maçonaria, este vício encontrou terreno fértil. E um dos seus frutos mais curiosos é a afirmação, repetida em lojas, palestras e grupos de discussão, de que as três portas desenhadas no tapete do Rito de Schröder “representam as três portas do Templo de Salomão” ou, pior, “fazem referência directa à lenda de Hiram Abiff”. Repete-se isso como se fosse dogma. Como se estivesse escrito em pedra. Como se Friedrich Ludwig Schröder, o reformador alemão que dá nome ao rito, tivesse deixado essa explicação em algum lugar.

Acontece que não deixou.

E mais: deixou exactamente o contrário.

O que proponho aqui é simples – tão simples que deveria ser desnecessário, mas aparentemente não é: ler o texto. Não o resumo do resumo. Não a interpretação da interpretação. O texto. O que Schröder escreveu em 1816. O que ele trocou em cartas com o seu colaborador Meyer entre 1802 e 1816. O que os rituais originais dizem – e, sobretudo, o que não dizem.

A obra de referência é Die Rituale aller drei Grade, publicada em Hamburgo em 1816, resultado final das revisões que Schröder empreendeu ao longo de quase duas décadas. Na página 41, ao descrever o quadrilátero oblongo desenhado no chão da Loja – aquilo que hoje chamamos de “tapete” -, Schröder é categórico: trata-se do Grundriss des geistigen Baues, a “planta do edifício espiritual”. Não do Templo de Salomão. Do edifício espiritual. A construção ética do sujeito. O aperfeiçoamento humano possível.

Em seguida, Schröder regista – com sujeito indeterminado e advérbio de adição – que “costuma-se também chamá-lo de contorno do templo salomónico” (man pflegt denselben auch den Umriss des salomonischen Tempels zu nennen). Ele não está aderindo a essa denominação. Está anotando que ela existe. É a diferença entre dizer “isto é um cachorro” e “há quem chame isto de cachorro”. Parece subtil, mas é abissal. O primeiro afirma uma essência; o segundo regista um uso alheio. Schröder faz o segundo – e, logo em seguida, define o que ele próprio considera ser o verdadeiro significado do símbolo: den Bau der möglichsten menschlichen Vollkommenheit, “a construção da máxima perfeição humana possível”.

E as portas?

A pergunta “por que as três portas no tapete?” pressupõe que elas estejam ali para representar algo específico, e que esse algo seja a lenda de Hiram ou o Templo de Salomão. É uma pergunta legítima. Mas a resposta documentada, filologicamente verificável, historicamente sustentada, é: não.

Não há, em nenhum ritual schroederiano do período 1801–1816, qualquer descrição dessas portas como “entradas do Templo”. Não há, na correspondência entre Schröder e Friedrich Ludwig Wilhelm Meyer – publicada por Herbert Schneider em 1979 -, qualquer correlação entre as três aberturas do tapete e os três assassinos, os três golpes ou as três saídas da lenda hiramita. Não há, no prefácio da edição crítica de Schneider, qualquer menção a essa ligação. O que há, ao contrário, é a afirmação expressa de que o grande mérito de Schröder foi justamente a Entfernung des salomonischen und templarischen Beiwerks – a “eliminação dos acessórios salomónicos e templários”.

Leia de novo: eliminação.

O sistema de Schröder não é salomónico por acidente ou por omissão. É anti salomónico por projecto. Schröder e o seu mentor Johann Joachim Christoph Bode passaram décadas depurando os rituais germânicos de tudo aquilo que consideravam “acréscimos de invenções estrangeiras” – Zuthaten fremder Erfindung, nas palavras do próprio Schröder. E a inflação salomónica, templária e hiramita estava no topo da lista. Eram, para eles, excrescências tardias, “teatralidades vazias”, ornamentos que desviavam a atenção do que realmente importava: o trabalho ético, a construção do carácter, o aperfeiçoamento possível do ser humano.

Na correspondência com Meyer, Schröder critica expressamente rituais que tentam “explicar tudo pela lenda do Templo”. Meyer, por sua vez, afirma que William Preston – o grande sistematizador inglês – “não extrai o ritual do Templo, mas o injecta nele artificialmente”. São palavras duras. E são palavras dos fundadores do sistema. Ignorá-las para manter uma interpretação que nos agrada é fazer exactamente o que eles criticavam: construir a alegoria primeiro e procurar o texto depois.

Então, se as portas não representam o Templo, o que representam?

A resposta está nos próprios rituais – e na tradição joanina-germânica anterior a 1730, muito antes da inflação salomónica que tomou conta da Maçonaria continental na segunda metade do século XVIII.

As três portas – ou, mais precisamente, as três trapeiras (Trapeiren), como eram chamadas nos registos mais antigos da Loja Absalom zu den drei Nesseln, em Hamburgo – são pontos de acesso do espaço ritual. Não do Templo. Da Loja. Do alojamento de obra. Elas marcam três movimentos fundamentais: o ingresso do profano na luz, o trânsito interno do trabalho, e a saída para o mundo. Esses três movimentos correspondem aos três polos de autoridade da Loja – Venerável Mestre, Primeiro Vigilante, Segundo Vigilante – e ao percurso do sol ao longo do “dia simbólico”: Oriente, Sul, Ocidente.

É pedagogia maçónica. É organização do espaço simbólico. Não é dramaturgia bíblica.

Ricardo Vidal, em comunicações de 2015 à lista de discussão Schroeder Brasil, já havia alertado: nos rituais mais antigos, essas aberturas não eram sequer chamadas de “portas”. Eram trapeiras – aberturas simbólicas traçadas no chão da taverna, junto com o restante do quadro, usando giz e carvão. O termo aparece nos Protokolle da Loja Absalom (1760–1790) e nos códices ritualísticos manuscritos da Hamburger Freimaurerbibliothek, consultados por Herbert Schneider. Chamar isso de “portas do Templo de Salomão” é anacronismo. É projectar sobre o símbolo original uma camada de significado que veio depois – e que veio, justamente, dos “embelezadores” que Schröder passou a vida combatendo.

Os manuscritos maçónicos mais antigos que possuímos – o Edinburgh Register House Manuscript de 1696 e o Sloane Manuscript 3329 da British Library – já apresentam quadros de loja com três acessos. Mas esses acessos não são chamados de “portas do Templo”, não têm ligação com Hiram, e representam locomoção ritual, não arquitectura bíblica. A estrutura é anterior à mitologia. O símbolo é anterior à lenda. E Schröder sabia disso – razão pela qual fez questão de retornar ao essencial, podando os acréscimos fantasiosos que haviam se acumulado ao longo de décadas.

Alguém poderia objectar: “Mas a lenda de Hiram existe no terceiro grau, e o tapete é usado em todos os graus, então faz sentido haver uma conexão.” Faz sentido homilético, talvez. Faz sentido como construção posterior. Mas não faz sentido documental. Porque a pergunta que importa não é “dá para interpretar assim?”. É claro que dá. Dá para interpretar qualquer coisa de qualquer jeito. A pergunta que importa é: “Schröder interpretou assim?”. E a resposta, nos textos que ele deixou, é não.

A Maçonaria é um sistema simbólico aberto. Cabe muita coisa. Cabe leitura psicológica, cabe leitura mística, cabe leitura social, cabe leitura templária. O problema não é a pluralidade de leituras. O problema é quando uma leitura particular se apresenta como “a tradição” – e ninguém pergunta de onde ela veio. O problema é quando a alegoria substitui o documento. Quando a repetição substitui a verificação. Quando o “todo mundo sabe” substitui o “onde está escrito?”.

As três portas do tapete schroederiano são limiares de passagem. São entradas e saídas do espaço de trabalho. São marcadores do percurso ético do irmão – do ingresso na luz à saída para o mundo, passando pelo labor no canteiro. Não são portas do Templo. Não são cenas da lenda de Hiram. São o que sempre foram: aberturas de uma Loja – de um alojamento de obreiros -, traçadas no chão de uma taverna, com giz e carvão, por homens que sabiam a diferença entre trabalhar num canteiro e encenar num teatro.

A regra schroederiana é simples – e está escrita na própria correspondência dos fundadores: primeiro ler o texto, depois construir a alegoria. Nunca o contrário.

Esta regra não vale apenas para a Maçonaria. Vale para o Direito, onde decisões são fundamentadas em precedentes que ninguém leu. Vale para a Teologia, onde dogmas se constroem sobre traduções de traduções. Vale para a História, onde mitos nacionais substituem documentos de arquivo. Vale para qualquer campo do conhecimento humano onde a preguiça intelectual encontra abrigo na palavra “tradição”.

A tradição, quando é autêntica, não teme a verificação. Pelo contrário: exige-a. Uma tradição que só sobrevive enquanto ninguém consulta as fontes não é tradição – é fraude. E a fraude, como dizia Schröder, é o que arruinou a Maçonaria a partir da segunda metade do século XVIII: graus vendidos, lendas compradas, e uma espiritualidade de vitrine, mas sem espelho.

As portas estão ali. Sempre estiveram. Mas elas não levam ao Templo de Salomão. Levam ao canteiro de obras. Levam ao espaço onde se trabalha. Levam – se tivermos coragem de atravessá-las – à construção da máxima perfeição humana possível.

Que é, afinal, a única construção que importa.

Rui Badaró – Meister vom Stuhl da ARLS Gotthold Ephraim Lessing nº 930 – GLESP.

Referências

  • SCHRÖDER, Friedrich Ludwig. Die Rituale aller drei Grade. Hamburg, 1816.
  • SCHRÖDER, F.L.; MEYER, F.L.W. Die Freimaurerkorrespondenz 1802–1816. Herbert Schneider. Hamburg, 1979.
  • LOGE ABSALOM ZU DEN DREI NESSELN. Friedrich Ludwig Schröders Ritualen von 1801. 4. ed. Hamburg: Kurt Marx et al., 1982.
  • LOGE ZUM SCHWARZEN BÄR. Ritual des Lehrlings. Hannover, 2001.
  • LENNHOFF, Eugen; POSNER, Oskar. Internationales Freimaurerlexikon. Wien, 1932.
  • VIDAL, Ricardo. O tapete schroederiano e o Templo de Salomão. Comunicações à lista de discussão Rito Moderno/Schroeder Brasil. Yahoo Grupos, 2015.
  • Edinburgh Register House Manuscript, 1696.
  • Sloane Manuscript 3329. British Library.

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