A Maçonaria Especulativa deve o seu nome e muito da sua estrutura à Maçonaria operativa. Todavia, já os collegium romanos tinham o mesmo tipo de organização de uma Loja Maçónica: um Venerável Mestre, dois vigilantes, um Secretário e um Tesoureiro. Tinham também três graus. Os seus rituais falavam, também, da morte e ressurreição, usando os símbolos maçónicos: esquadro, compasso, fio de prumo e nível. A ideia de reconstrução, de recomeçar era, pois, um dos principais desideratos.
Estes collegium transformaram-se, posteriormente, em colégios de arquitetos. Trabalhavam a pedra que indicava uma solidificação no tempo e no espaço. Cada pedra encontrava o seu lugar próprio na edificação. Esta, por sua vez, era divinizada através de catedrais, monumentos, igrejas ou castelos. Era a procura do eterno, do divino, do perfeito ou daquilo que a poderíamos chamar de algo que está para além da dimensão tempo/espaço.
Em termos filosóficos e, portanto, especulativos, o paralelo estabelecido entre, por um lado, uma reconstrução física de um templo, com a consequente procura da perfeição e, por outro, um aperfeiçoamento interior e, como tal, não visível, é uma alegoria muito feliz e inspiradora.
A ideia do rigor e disciplina, presentes na construção de um templo físico, mas de igual forma necessárias na melhoria do nosso interior é outro dos paralelos.
Na realidade, a régua, o compasso, o esquadro, entre muitos outros símbolos, não são mais do que um mote para o questionamento sobre a nossa existência, o nosso papel no mundo e a possibilidade de ascendermos àquilo a que adiante chamaremos Dimensões Superiores.
Queremos transformar o mundo num lugar melhor, mas isso só se consegue com força, beleza e sabedoria, ou seja, os propósitos das três colunas – ou três luzes – do Templo de Salomão.
Todavia, a Maçonaria especulativa foi mais longe e procurou abarcar tudo o que de relevante existiu na história da Humanidade na busca de um Homem novo, capaz de transformar o mundo num lugar melhor, no fundo, identificar a verdade em comunhão com os seus semelhantes.
Nesta busca da verdade, a Maçonaria resgatou valores ancestrais e, como tal, sólidos e já expurgados das vicissitudes conjunturais de certos períodos históricos. Foi assim com conceitos provenientes do antigo Egito, um dos centros sagrados da Humanidade. O seu saber influenciou os filósofos gregos. Pitágoras, por exemplo, esteve no Egito onde apreendeu com os sacerdotes nos seus templos.
Outra fonte a que a Maçonaria foi beber conhecimento foi precisamente aos grandes filósofos da antiguidade, Sócrates e Platão (para além do já referido Pitágoras). No presente balaústre optámos por desenvolver alguns dos ensinamentos de Sócrates.
Sócrates revisitado
Sócrates, cuja mãe era parteira, costumava dizer: até hoje a minha mãe nunca fez um parto a uma mulher que não estivesse grávida. Esta frase, de certa forma cómica, mas de uma lógica irrefutável, – por de mais evidente -, traz-nos a possibilidade de a desenvolvermos e retirarmos conclusões. É esse um dos propósitos deste trabalho.
Sócrates, cuja frase mais conhecida é, certamente, “só sei que nada sei”, trouxe uma método de procura da verdade que ainda hoje é atual em várias ciências: o questionamento sequencial. Todo o Maçon reconhece tal metodologia.
Este pensamento é também conhecido por “paradoxo socrático”. Apesar de podermos fazer várias interpretações da frase, aquela que, porventura, mais consenso reuniu diz que é sábio quem conhecer a dimensão da sua ignorância, ou das suas lacunas, percebendo, dessa forma, tudo aquilo que ainda tem para descobrir e melhorar. Dito de outra forma: reconstruir no seu templo interior.
Ora, para isto é necessária uma segunda proposição de Sócrates: “conhece-te a ti próprio”. Na verdade, esta reconstrução do nosso templo, propósito da maçonaria especulativa, só é possível se aplicarmos este princípio presente nesta frase simples, mas profunda, deste filósofo.
É esta procura da verdade que para um maçon tem que fazer a diferença. Que verdade procuramos? Será a verdade que nos dá uma aparente sensação de segurança e que, em muitos casos, se baseia numa materialidade exacerbada e destituída de espiritualidade e sentido de justiça? Não, certamente.
No entanto, para conseguirmos chegar a essa verdade precisamos de alguns pré-requisitos. Como nos disse Manly Palmer Hall: “O verdadeiro Maçon não está vinculado a credos. Ele percebe, enquanto, Maçon, que a divina iluminação da sua Loja, a sua religião deverá ser universal: Cristo, Buda ou Maomé são nomes que pouco significam, pois ele reconhece a luz e não o seu portador”. Uma frase lapidar que nos elevada a pensamentos superiores.
A nossa sociedade, no fundo aquilo a que chamamos o mundo profano, está impregnada daquilo a que podemos chamar de consumismo. É um mundo que, a cada passo, pensa nos aspetos materiais da existência e menos nos espirituais.
Ora uma sociedade que se baseia no TER em prejuízo do SER está condenada ao individualismo sem sentido, onde a espiritualidade pode até ser dispensada.
Quanto vale a espiritualidade? É algo que está muito para além da noção de tempo/espaço, numa dimensão não alcançável por todos, infelizmente.
Quem fez da sua existência apenas ações pelo seu bem-estar e dos seus não será, com toda a certeza, recordado. Aquele que fez da sua vida uma luta por um mundo melhor torna-se eterno, pois será lembrado, enaltecido e não cairá no esquecimento.
A obsessão pelo TER, numa materialidade que nos embriaga e até nos turva a visão, pode impedir-nos de chegar ao que de mais importante existe: o SER.
Qualquer ser humano deve querer que os outros o considerem, não tanto por aquilo que ele tem, mas por aquilo que ele é. O TER é sempre circunstancial e efémero, pois a nossa existência é finita, com esta finitude morre também essa materialidade já que, pela via da herança, passa para os seus descendentes, ou seja, deixa de ser algo seu.
Já com o SER as coisas são diferentes podendo até ser eternas. Bastaria tão só darmos o exemplo de Sócrates. Quando ainda hoje o revisitamos, o interpretamos, no fundo o admiramos, então é porque ele morreu, mas apenas fisicamente.
O SER, na perspetiva maçónica, a reconstrução do templo interior, passa, como antes se disse, pela busca da verdade. Pretende-se um crescimento espiritual e cultural. Maçonaria é, pois, neste sentido, uma aprendizagem da liberdade.
Uma pessoa bem formada, dotada de valores e expurgada de vícios comuns contribui, com toda a certeza, para um mundo melhor. Por sua vez, esse mundo passa pela trilogia tão cara à Maçonaria e pela qual muitos maçons lutaram e arriscaram a sua vida: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Voltando à frase Sócrates sobre o parto: só podemos aspirar a uma transformação interior se antes tivermos feito algo nesse sentido. Tal como uma mulher não poderá fazer um parto sem estar grávida, também um Maçon não poderá partir a pedra bruta sem ter vários requisitos prévios.
Que requisitos são esses? Em primeiro lugar, o amor, o amor fraternal. Sendo a Maçonaria uma irmandade esta tem de ser verdadeira e não uma mera prática mecânica de rituais cujas frases falam em amor, mas a verdade desse sentimento poderá estar arredado. Sem esse amor, o “parto” não se dá ou, dando-se, será um nado morto. Não valeu a pena o investimento que esses Irmãos fizeram na Maçonaria, em tempo, paciência, atenção, pois enganaram-se a si próprios, já que nada mudou no seu interior.
Esta reconstrução interior está por demais evidente na Maçonaria. Para tal bastaria citar a frase, por todos conhecida dos nossos rituais, que é dita pelo Venerável Mestre em Loja: “Meus Irmãos, já não estamos no mundo profano, deixámos os nossos metais à porta do Templo! Cultivemos a Fraternidade nos nossos corações e que os nossos olhares se voltem para a Luz!“.
A interpretação é óbvia. Os metais à porta do Templo significam o afastar da materialidade e do já referido TER. Cultivar a fraternidade, no sentido do amor fraternal e, a busca da verdade, ou da luz, são os outros requisitos para os trabalhos que se seguem e que deverão contribuir para o partir da pedra bruta.
O segundo será o perdão. Na realidade, o rancor, o ódio ou a amargura não poderão estar nos nossos corações. A transformação, seja do que for, faz-se com amor e não com o seu contrário, só dessa forma poderá ser eterna.
No perdão estará também um outro valor, a humildade. Saber perdoar só está ao alcance de seres que sofreram já uma grande evolução. Também aqui a Maçonaria colocou na iniciação dos neófitos este propósito. Todo o Maçon jura, pouco antes de lhe ser tirada a venda, que esquecerá qualquer rancor que tenha a outro ser humano, em concreto é-lhe perguntado pelo Venerável Mestre: “Se encontrar algum inimigo nesta assembleia ou entre os Maçons, está disposto a estender-lhe a mão e a esquecer o passado?”. Só com a resposta “Sim” o neófito completará a sua iniciação. Nenhum Maçon pode, ou deve, ignorar este juramento.
Todavia, toda a ação decorre na maior liberdade, já que a Maçonaria não se preocupa com a forma como cada um vive a sua espiritualidade. A preocupação da Maçonaria é o indivíduo e só depois o Mundo. A Maçonaria não faz demagogia, não promete coisas que não tem a certeza de poder cumprir. Assim, não só não promete a salvação, como não ameaça a salvação eterna a quem não faz o que ela sugere.
Com estes três poderosos elixires, certamente poderemos ter a lei do retorno a funcionar em pleno. Tudo o que damos ao mundo, de bom ou de mau, é-nos restituído. Atitude gera atitude. Se queremos um mundo fraterno convirá que de nós surja o melhor dos exemplos.
Agindo desta forma poderemos aspirar a aproximar-nos de Dimensões Superiores, aquelas que estão já fora do espaço e do tempo. Nestas dimensões expressamos mais sentimentos do que palavras e tentamos aceder àquilo a que poderíamos apelidar de uma sabedoria silenciosa e introspetiva. De resto, este silêncio é muito tratado na Maçonaria, pois começa por ser imposto aos Irmãos Aprendizes e Companheiros, para, qual fecho de circulo, ser o apanágio, embora voluntário, de alguns Mestres a quem a centelha de Luz tocou. Pena que nem sempre toque a todos.
É, também, nesta Dimensão Superior que poderemos aceder a pensamentos superiores, por vezes transcendentes, mas, também, mais subjetivos e esotéricos. No entanto, são pensamentos essenciais a quem almeja alcançar níveis elevados de espiritualidade.
A Maçonaria tem aqui um papel ímpar, já que, no mundo profano, o sistema de educação, por exemplo, está vocacionado para questões essencialmente objetivas e materiais. Quanto vale o amor fraternal? Ou a energia trazida por pensamentos superiores? Ser boa pessoa, do ponto de vista material, quanto vale? E vale a pena?
Todavia, não devemos ver este assunto apenas como esotérico ou filosófico, pois, a própria ciência, em concreto a física quântica, já provou que os nossos pensamentos criam a nossa realidade e que tudo é energia vibrando em certa ressonância.
Aproveitemos, pois, a força da pureza dos nossos pensamentos, unamo-nos na direção da Luz, pois só dessa forma poderemos aspirar à Eternidade.
Somos mortais, é uma certeza, a nossa imortalidade só poderá advir do exemplo que damos da nossa existência. Sócrates deu-nos esse exemplo e, por isso, ainda hoje é recordado, e em certo sentido ainda está vivo, pois os seus ensinamentos transformam ainda hoje a vida de muitos. Cabe-nos a nós, em nome desses bens maiores que são o Amor e o Perdão, mas, também a liberdade, continuar a pugnar por um mundo realmente fraterno e mais justo.
Esse terá, e deverá, ser o propósito de vida de um Maçon, ou seja, o nosso!
“Almeida Negreiros” – Grande Loja Legal de Portugal / GLRP

- Os “três filtros de Sócrates” – lição maçónica
- O simbolismo maçónico das duas colunas do pórtico do Templo de Salomão
- Maçom – o artesão e o filósofo
- A maçonaria e a República de Platão
- A Alegoria do Templo e a Iniciação Maçónica


Gostei muito do conteúdo, me levou a boas e salutares reflexões, para além do apresendizado. Gostei também das considerações feitas pelo eminente Ir.: Putti, da GLP, grande estudioso e autor de belissimas peças de arquitertura maçônica. Aprendo com ambos
É lógico que para os construtores de pontes e estradas (Collegium romanos), nível, Compasso, cinzel, não eram elementos simbólicos, mas ferramentas de trabalho. Para os construtores de catedrais, a construção era um emprego para a sobrevivência. A religiosidade, tanto de uns quanto de outros, era inerente à cultura da época, não à construção . Infelizmente a não citação de fontes permite que se levante qualquer hipótese sobre a Maçonaria.