Sei por experiência própria que é sempre um tema de debate fazer da interpretação da herança maçónica uma ponte entre o seu passado tricentenário e o futuro que se aproxima, num mundo cuja evolução filosófica e tecnológica parece mover-se num carro de corrida, mas a verdade é que a Ordem exige na maioria das suas instituições uma abordagem mais inclusiva e um maior respeito pela diversidade, mantendo inalterada a sua integridade ideológica, sem parecer que está a tentar forçar um elefante a entrar num Volkswagen.
Em suma, quando falamos dos rituais, símbolos e alegorias utilizados na Maçonaria, estamos a referir-nos a uma certa arte de luz e sombra que transmite os seus ensinamentos. Na verdade, a ideia principal é que sejam capazes de comunicar princípios filosóficos e morais que promovam, a nível psicológico, uma metamorfose construtiva ajustada a um princípio de realidade com complexidades infinitas.
Inquestionavelmente, a Maçonaria não é um reality show filosófico e manter a funcionalidade dos rituais e símbolos agindo como um relógio suíço é essencial para preservar a identidade da Ordem, e nisso devemos agir com muito cuidado, o que não nos impede de os reinterpretar sem diluí-los ou dar um aspecto alegórico aos seus grandes documentos no que diz respeito a mitos que não correspondem a uma realidade histórica, de modo a que sejam acessíveis a um sector mais vasto da sociedade.
A minha opinião é que não se trata de fazer uma mudança desafiante na tradição subjacente aos símbolos e princípios fundamentais da Maçonaria, mas sim de uma expansão da sua cobertura social para continuar a oferecer uma oportunidade humanística que continua a derrubar muros entre diferentes pessoas que vivem numa época em que as migrações constroem sociedades mais plurais que, por vezes, parecem uma colagem surreal. Na verdade, este deveria ser considerado um imperativo moral dos maçons.
A tarefa é fortalecer a liderança ética dentro das Lojas e Obediências que reflicta a pluralidade do mundo exterior num momento em que, em termos gerais, o número de membros deixou de aumentar como espuma pela primeira vez na história e há sérias questões internas e externas sobre a oferta e a relevância da Maçonaria no século XXI. O que significa que estes não são bons momentos para descansar sobre os louros.
E neste sentido, é notório que grandes Obediências históricas de diferentes estilos, como o Grande Oriente de França e a Grande Loja Unida de Inglaterra, numa mudança que já iniciaram, não sem grandes dificuldades e mal-entendidos internos, começaram a expandir a sua diversidade étnica , origem social, género e orientação sexual, e em comunicações oficiais têm explicado que a Maçonaria é um espaço de verdadeira construção para todas as pessoas sem qualquer distinção. O que foi honestamente a primeira grande mudança visível da Ordem no século XXI.
Enfrentar o futuro não consiste apenas em seleccionar líderes que não se enquadrem nos perfis excludentes tradicionais que asseguram uma homogeneidade cada vez mais fraca e etérea, mas também em desenhar uma cultura interna de estratégias sustentáveis, paralela à necessária instrução maçónica, que encoraje adicionais humanistas e mais formação institucional respeitosa e distanciar o maçon e o estranho de preconceitos e clichés.
Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:- R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)
- Ex Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)
- Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)
Fonte

- Simbolismo das cores na Maçonaria
- Grau 6 – Secretário Íntimo (REAA)
- A lenda de Hiram Abiff – a força de um mito
- Sol & Lua na Maçonaria
- Tubalcaim e o seu significado para a Maçonaria

