Tolhidos pelas contingências, facilmente nos parece que o humano pode ser o que mais dificilmente encontramos na Humanidade. Assombrados pelos medos contantes, embasbacados com o excecional que nos deslumbra, hipnotizados pelo ruído e pelas luzes, o imediato é o que nos dá a alegria, tornando-nos incapazes de chegar à felicidade.
Esvaziados de sentido na monotonia desse supérfluo, que se impõe nas necessidades imediatas que não conseguimos mediar, mas apenas corresponder em desejo crescente, o profundo acaba por ser uma miragem que nos é trazida apenas pela literatura e pela arte, tão falho está o quotidiano.
Apesar de corresponder a um momento exato, a iniciação deve ser alimentada na sua ressignificação constante; se a vida o não permite, a literatura é a principal porta que podemos usar. Nessa busca que devemos fazer para encontrar o que nos foque no que mais importa em matéria de espírito, Ernst Jünger, no seu sublime Sobre as Falésias de Mármore (de 1939) conduz um qualquer iniciado à pureza do essencial que, tantas vezes esquecemos no dia-a-dia esvaziado pelos metais do mundo profano. Conduz-nos ao humano no mais sublime sentido maçónico, livre de qualquer mácula original.
Ao nível deste texto de Jünger, recordo A Montanha Mágica, de Thomas Mann (de 1924), ou O Mágico, de Somerset Maugham (de 1908), para não referir vários dos livros de Hermann Hesse, especialmente o Siddhartha (de 1922) e Narciso e Goldemund (de 1930), apenas para referir os que mais me marcaram. O início do século XX, marcado pelos abalos sísmicos que foram os escritos dos “mestres da suspeita” (Nietzsche, Marx e Freud), foi de uma riqueza única no campo da literatura de pendor iniciático.
Sobre as Falésias de Mármore narra a vida de dois eremitas, de quem não se chega a perceber a religião, num tempo e num espaço que não importa definir corretamente – isso não é o essencial. Num clima de caos que uma guerra tremenda lança numa vasta região, com morte e terror levados ao limite, Jünger diz-nos, com a maior simplicidade, pela boca de um dos eremitas:
“O seu princípio era o de considerar os homens que de nós se acercavam como achados raros que descobrimos durante uma viagem. Gostava de chamar aos homens os Optimates, para significar que todos pertencem à nobreza inata deste mundo e que cada um deles pode oferecer o mais excelente.” (p. 43)
O encontro do fundamental faz-se fora do imediato, do que no momento nos afeta. O caos não é simplesmente a morte e a carnificina, mas o desequilíbrio. Quando o caos se afasta, a sintonia com o mundo revela-se e “constitui sinal inconfundível de que se vivem bons tempos o facto de o poder do espírito se tornar visível e atuante na conjuntura” (p. 63). Aí, o tempo como que desaparece e o presente ganha sentido, como na Cadeia de União: “uma ação correta se reconhece sobretudo pelo facto de nela também o passado se integrar harmoniosamente num todo” (p. 43).
Numa ligação entre passado e futuro, nesta dimensão de harmonia, o acaso não existe e, mesmo se aparente, não é mais que isso: “os nossos esforços eram abundantemente recompensados pela convicção de que a medida e a lei habitam imperecivelmente o acaso e as desordens deste mundo” (p. 47).
Jünger mostra-nos um mundo onde é possível, pelo espírito, lutar contra o material. O trabalho espiritual é árduo:
“Pensávamos ter descoberto que existem armas mais poderosas do que aquelas que cortam e trespassam, mas acontecia-nos às vezes recebemos como crianças no mundo primitivo onde o medo é omnipresente. Ignorávamos ainda a plenitude do domínio que ao homem foi concedido” (p. 85).
Enfim, repleto de imagens que nos ajudam a recentrar o foco no essencial para a construção interior, Jünger vai ao limite de afirmar que, no limite, deveríamos viver segundo a máxima de vida: “fortalecíamo-nos na nossa resolução de resistir unicamente pelo poder do espírito” – lembrar que o texto é escrito em 1939, ano de uma conjuntura muito complicada na sua Alemanha natal…
Mas, a verdade, é que é no centrar no espírito que o Mestre está no centro do círculo. Como que num percurso onde regressamos ao ponto de partida, regressando ao essencial, é o Aprendiz que acaba por justificar a possibilidade da mestria através do silêncio. Diz-nos Jünger acerca de algumas expedições que faziam os eremitas para colher plantas para o herbário: “Se não descrevo os pormenores desses percursos, é porque nos ocupávamos de coisas que estão fota do domínio da linguagem e que, portanto, não se acham submetias ao império da palavra” (p. 96).
Jünger leva a um limite incomensurável a capacidade de usar a palavra para descrever e nos fazer sentir o que, de facto, só iniciaticamente conseguimos. Fora do império da palavra, no império do sentir e do sentido.
Ernst Jünger, Sobre as Falésias de Mármore
(Lisboa, Ed. Vega, 2ª ed., 1991)
Texto enviado por Paulo Mendes Pinto (Ao Alexandre Maia, que me indicou esta pérola)

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