O Rito Schröder recebeu este nome em homenagem ao seu idealizador e fundador, o Irmão Friedrich Ludwig Schröder (3 de Novembro de 1744 – 3 de Setembro de 1816), um notável actor, dramaturgo e director de teatro alemão que pelo seu trabalho no desenvolvimento deste Rito é considerado o reformador da Maçonaria Alemã.
Para entender o porque deste título é necessário antes conhecer o seu antagonista: o Rito da Estrita Observância.
Em 1742, foi iniciado em Frankfurt, o Irmão Karl Gotthelf von Hundt, mais conhecido como Barão de von Hundt. Durante a sua aprendizagem maçónica o Irmão Hundt foi introduzido a uma lenda que se diz fazer parte da tradição escocesa, a lenda desenvolvida a partir de um discurso proferido pelo Irmão Andrew Michael Ramsay (1686 – 1743), também conhecido como Chevalier Ramsay. Ramsay, escocês de nascimento e naturalizado francês, na sua imaginação, concedeu à Maçonaria uma origem cruzada: dizia o pronunciamento que foram os cruzados na Palestina, para a retomada da Terra Santa, que fundaram a Maçonaria e que depois, quando da reconstrução dos templos cristãos lá no além-mar uniram-se aos cavaleiros de São João de Jerusalém (Hospitalários).
Este discurso escrito e proferido por Ramsay, então Grande Orador na França, perante uma assembleia Maçónica em 1737, foi muitíssimo difundido e teve um enorme efeito, proposital ou não, na Maçonaria. Mesmo não sendo comprovadamente uma verdade histórica a ligação da Maçonaria com os cavaleiros cruzados, tudo isto soou muito cómodo e enaltecedor aos maçons da época, pois a lenda conferia à Maçonaria uma origem nobre. Deste ponto surgiu uma grandiosa inspiração de incontáveis intelectuais que decidiram criar, pautando-se em lendas como a de Ramsay, Altos Graus, que iam além dos graus simbólicos já conhecidos, o que evidentemente aguçou a vaidade dos Irmãos em subirem os novos graus.
Apesar de Ramsay não citar os Cavaleiros Templários, a partir do seu discurso motivador, eles foram atrelados à origem maçónica, por terem constituído a Ordem Militar Religiosa mais famosa que já existiu. Na história dos Cavaleiros Templários, após a execução do vigésimo terceiro Grão Mestre da Ordem do Templo, Jacques de Molay, no dia 18 de Março de 1314, em Paris, a mando do Rei Felipe IV, o Belo, que determinou juntamente com o Papa Clemente V, a morte de inúmeros cavaleiros e a extinção da Ordem. Pela lenda, alguns cavaleiros sobreviventes fugiram da França e dirigiram-se à Escócia para tentar preservar o que ainda restava das tradições templárias. Para conseguirem chegar até a Escócia eles vestiram-se como pedreiros operativos e lá foram recebidos por pedreiros e cavaleiros, conseguindo assim reestruturar a Ordem, assumindo o nome de Mabeignac.
Dentre os que decidiram fundamentar na lenda de Ramsay a base para Altos Graus, estavam os Irmãos Chevalier de Bonneville na França e o já citado Irmão Hundt na Alemanha, este último que em 1754 fundou o Rito da Estrita Observância (Strike Observanz). Em 1761 o Rito concretizou-se e em 1765 foi adoptado pela Grande Loja Provincial de Hamburgo, tornando-se a “menina dos olhos” dos Irmãos alemães que agora corriam contra o tempo para ostentarem os novos títulos de Mestre Escocês de Santo André, Noviço, Templário, Cavaleiro Professo e Clérigo Maçon. Facto é que com a adição destes novos graus no sistema de ensino maçónico, enxertaram-se à filosofia da Ordem diversos frutos da imaginação de ainda mais Irmãos, ou ainda preceitos advindos de outras ordens iniciáticas, transfigurando os princípios básicos provenientes da maçonaria operativa e do antigo ritual Inglês, e consequentemente distanciando os Irmãos da verdadeira essência da Ordem.
É importante citar ainda que desde o princípio do século XVIII, a Europa estava repleta de seitas e ordens iniciáticas como Rosa-Cruzes, martinistas, alquimistas e iluminados. Tendo todos eles sido perseguidos, encontraram o seu único refugio seguro no seio de Lojas Maçónicas, pois era a Maçonaria muito bem aceita na época (quando ser Maçon junto a reis, imperadores e duques, significava, obviamente, um reconhecimento social). Não tardou para que os supracitados Irmãos provindos de outras seitas/ordens começassem a introduzir os conceitos e práticas ritualísticas das suas antigas entidades no quotidiano da Maçonaria, desviando ainda mais os rituais maçónicos dos antigos e puros rituais ingleses, de modo que, ao longo do século, colocaram as suas “mistificações” nos Altos Graus cavalheirescos provenientes dos adeptos de Ramsay, e infelizmente também o fizeram nos Graus Simbólicos, o que também ocorreu, é claro, no Rito da Estrita Observância.
Tudo isto acendeu o pavio: alguns Irmãos alemães não suportavam mais ver a maçonaria tão cheia de vaidades e deturpações exteriores estranhas à sua verdadeira origem e essência. Em 1782, durante uma convenção em Wilhelmsbad, surgiu entre entusiastas a ideia da elaboração de um novo ritual que fosse pautado nos antigos rituais ingleses, resgatando os princípios da maçonaria para livrá-la dos erros e acréscimos decorrentes do Rito da Estrita Observância, fixando assim como objectivo da Maçonaria alemã o aperfeiçoamento moral com base na religião cristã e no humanismo. Logo uma comissão foi formada e o Irmão Friedrich Schröder liderava a jornada a caminho da reestruturação da Ordem na Alemanha.
Os irmãos de Hamburgo decidiram por: restaurar a verdadeira e antiga Maçonaria como lhes fora trazida pelos seus antecessores, esforçando-se zelosamente para elevar os seus propósitos a um nível bem mais alto, fazendo com que cada um dos seus ramos seja mais útil, alcançando este objectivo com amor e com a pesquisa da verdade. Além disto, propuseram também melhorar a harmonia entre os Irmãos, e, principalmente, trabalhar apenas nos três graus da Arte Real, de acordo com o Antigo Ritual Inglês (Escocês, Irlandês e Inglês na verdade) dos antepassados, até que os novos rituais organizados fossem apresentados na Convenção Geral.
Como já levantado anteriormente, o Rito da Estrita Observância predominava na Maçonaria Alemã e o carácter da Maçonaria inglesa originalmente introduzida em Hamburgo se tinha perdido, estando portanto as Lojas dominadas pelo misticismo, alquimia, entre outros. Sendo contrário a estes movimentos, o Irmão Schröder, fundou a Loja “Louise Zum Flammenden Herz” adoptando o Rito Sueco Zinnendorf, Loja na qual foi Venerável Mestre. Vai morar na Áustria, mas retornou logo e em 1787 foi-lhe confiado o primeiro malhete da sua Loja Mãe onde presidiu até 1799. Em 1793 tornou-se membro também da Loja “Einigkeit und Toleranz”. Em 1794 tornou-se Grão-Mestre Adjunto da sua potência, a Grande Loja Provincial de Hamburgo e da Baixa-Saxónia, que era subordinada à Grande Loja de Londres. Permaneceu neste cargo até 1814 quando foi eleito Grão-Mestre e neste ficou até ao seu falecimento em 3 de Setembro de 1816, aos 72 anos, na cidade de Rellingen, dizendo um dos seus biógrafos que
“a arte dramática perdera uma das suas mais brilhantes jóias e a humanidade um dos seus membros mais nobres e ricos de sólidas virtudes”.
Neste contexto, consegue-se perceber o prestígio moral de que gozava o Irmão Schröder, cuja integridade cativava aos outros e o movia a si mesmo em busca de um aperfeiçoamento constante. Logo nota-se que com a Maçonaria não foi diferente e por isto foi ele escolhido pelos Irmãos de Hamburgo para liderar a comissão de reestruturação da Maçonaria Alemã, livrando-a dos acréscimos exacerbados advindos de outras ordens iniciáticas e incorporados no então difundido Rito da Estrita Observância.
Para alcançar tal objectivo, o sempre perseverante e estudioso Irmão Schröder dedicou-se antes à busca de uma sólida base histórica para o seu trabalho, do contrário ele nada estaria fazendo para devolver à Maçonaria alemã, as suas devidas origens e verdadeiras práticas.
Schröder sabia que, indubitavelmente, as Lojas inglesas (e não as Francesas) eram autoridades em todos os assuntos ritualísticos, e por isso ele tinha o seu ritual impresso sem abreviações ou códigos, pois sabia que estas codificações não faziam parte das antigas e originais práticas inglesas. Reconhecia ainda que, sendo a Inglaterra o berço da Maçonaria, eram os rituais provenientes de lá que ele deveria esmiuçar para atingir o seu propósito de reformador.
Desta forma, Schröder estudou minuciosamente três inconfidências maçónicas: “Maçonaria Dissecada”, “J&B” e “Três batidas distintas na porta da mais antiga Maçonaria”. Concluiu que, embora a grande maioria das Lojas Alemãs e Inglesas estivessem colocando em uso o que Prichard trazia em “Maçonaria Dissecada”, “Três Batidas Distintas…” era mais antigo (apesar de publicado posteriormente), apropriado e coerente, e sobre este texto, baseou as suas pesquisas e o desenvolvimento do seu novo Ritual.
Aqui, chega-se numa das decisões mais importantes tomadas por Friedrich Schröder. Com o seu íntimo preenchido pelo espírito humanista da época ele decidiu que boa parte do conteúdo do “Três batidas distintas…”, como o nó corrediço e o cabo de reboque por exemplo, fazia sentido apenas para os Maçons operativos, sendo impróprio para os homens educados do século XVIII/XIX. Foi então que ele decidiu fazer leves alterações que conferiram aos Rituais reformados um tom de simplicidade, essência e humanismo, o que configurou por consequência um novo Rito onde o homem era considerado o centro da Maçonaria e da sociedade em si.
Schröder submeteu os seus rituais aos Veneráveis Mestres das 5 Lojas de Hamburgo, em 29 de Junho de 1801, os quais o adoptaram por unanimidade e, depois de uma revisão de algumas passagens, estes rituais foram impressos para as Lojas de Hamburgo, e depois em 1816 para todas as Lojas da Alemanha. Os textos dos rituais do Rito (que ganhou o seu nome), que trabalha somente nos três graus da pura Maçonaria, até os dias de hoje não contêm nada de místico ou oculto, mas retém a simplicidade do original inglês, inclusive o pensamento alemão da época, revelando um texto de alto fervor moral aliado a um generoso espírito de princípios humanitários.
Guilherme Cândido
Bibliografia
- HAUSER, Kurt Max. A verdade sobre o Rito Schröder e o seu fundador. Edições Universum n°2, 1997.
- SOUZA FILHO, Ubyrajara de. Vade-Mecum do Aprendiz – Rito Schröder. Editora A Trolha.
- Expletivo Maçónico do Grau de Aprendiz – Rito Schröder. Editora A Trolha.
- Rito Schröder – Grau 1. Editora A Trolha

- Carta aos Aprendizes
- 2º Congresso Internacional do Rito Moderno – Rito Francês
- Fobia à Maçonaria no diário espanhol ABC
- O Rito Adonhiramita: História e idiossincrasias
- Perguntas sobre Maçonaria e os Maçons – A iniciação


Desculpe, mas o irmão considera a Rosa Cruz e o martinismo como seitas? Irremediavelmente, está reduzindo a maçonaria a um clube humanitário fundamentado no materialismo filosófico.
Parabéns mano…. a história toda está muito bem resumida e apresentada