Sacralidade grupal e pele: A espiritualidade presente na ética limite

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espiritualidade

Des femmes victimes d´inceste ou de violence sexuele
«choisissent des piercings génitaux pour recréer et revendiquer
leur corps […] Longtemps lors de son adolescence elle s´est efforcée
de contrôler un corps lui échappait et dont elle avait honte par
des pratiques physiques intensives et souvent ascétiques

(BRETON, 2010, p.92).

O alheamento corpóreo imposto

A referência de Breton à reconstrução que a pele consegue operar, no momento de tatuagem do órgão plástico que suporta o corpo, põe em linha de consideração o estado inverso: a destruição. Ficou destruída a categoria de identidade, de corporeidade e de personalidade, pela imposição de uma leitura da Pessoa, que não se inflete perante o imperativo dos direitos humanos (Breton, 2010, p.92).

Todo o ato de construção de si, que é ativado a partir da “propriedade” de um corpo que pertence à Pessoa, dá lugar à repetição da etiqueta que foi colocada por outra pessoa, no momento de uma situação traumática.

Não existe uma intencionalidade que exale desejo e iniciativa, segundo uma dimensão mais densa, na sociedade. A dor infligida, quando apelou aos contornos do corpo, gravou na leitura que o homem faz de si mesmo uma estrutura redutora. Sou, agora que padeci de tão grave mal, o resultado daquilo que me fizeram e não aquilo que pela coragem conseguir ser.

Não existem dúvidas: há um alheamento corpóreo, que foi imposto. A dimensão que é mais reveladora do homem, deixa de ter contornos de aletheia. Passa, isso sim, a repetir estruturas de dizibilidade imposta, até ao mais ínfimo do que o Homem possa ser.

Perante tal revisão da noção de corpo, a atitude congrega todo o poder que se lhe pode dar: ação salvífica ou alinhamento pelas estruturas que gravitam em torno do corpo, e consequente morte do Eu. Será a vivência corporal de si que dará a resposta ao dilema, como de resto afirma o autor: “Les modifications corporelles sont pour elle une «revendication de son corps” (LE BRETON, 2010, p.92).

O toque transformador do outro

Considerar o plano da vida humana, é sempre fazê-lo de acordo com uma perceção de sentido. Aquém ou além, não existe referência alguma, portanto, humanidade alguma possível. Tudo o que se possa configurar, exige uma estrutura cinestésica que delimita o processo de registo da realidade e de mundo.

No momento em que a resistência se impõe, os limites do corpo aparecem com uma vivacidade inovadora: os contornos surgem em boca própria. Não existe etiqueta alguma; antes pelo contrário, é o próprio corpo, através dos mecanismo do sistema nervoso, a revelar os seus contornos e limites.

Esta revelação é um Encontro com o corpo e com a dimensão própria, que configura a categoria de Pessoa. Dá voz ao processo de recalcamento que ocorre pelas forças de uma sociologia do corpo e pela musculatura de uma ética normativa potente, para fazer calar o desejo de si, que todo o homem deve cultivar. Mas na cultura urbana atual, este encontro não se dá isoladamente.

Se é certo que a predicação do si terá de ser feita pelo próprio, para não existir uma imposição e alheamento, é necessário confessar que o Encontro Sagrado consigo mesmo não se dá apenas pelo registo topográfico da dimensão do si corpóreo-sensitivo.

Byung-Chul Han, Ferraris, Lipovetsky falaram dos imperativos de uma sociedade produtiva, das imposições da técnica, da transição para um presente, mas sobretudo da necessidade da comunicação para reverter a situação do desaparecimento dos rituais, portanto, a intersubjetividade é uma categoria a ter em conta (LIPOVETSKY, 2017, p.16).

No ato de tatuar, a sacralidade do Encontro consigo mesmo convoca a intervenção de um outro, o tatuador. Não se reduz a uma radiografia de uma nova categoria vital, que nada adiantaria. É através de um outro que o corpo, os seus limites e as opções de reconstrução de si ganham sentido e possibilidade de concretização.

Não no sentido utilitário de quem pede a intervenção, porque seria incompetente para reproduzir a imagem na pele. A intersecção de planos na densidade da pele é mais profunda: é uma causa eficiente. Através da dor infligida pelo tatuador, a Pessoa que está a ser tatuada dá-se conta do seu Eu, do seu corpo, da sua identidade e das possibilidades que tem diante, portanto, o Outro também tem uma função sagrada.

Esta é a primeira das unificações, que a sacralidade grupal assume. A síntese imagética, a fusão e a assunção de uma transformação do Eu são tópicos importantíssimos na equação que estamos a apresentar.

A iniciação simbólica ao conhecimento do eu

Estruturalmente, a dimensão sagrada do Encontro emerge segundo várias matizes. Ficou descrita a função da dor, uma outra dimensão de corpo e a possibilidade de se reconstruir. Terá de aparecer a nova roupagem que o corpo pode assumir, considerando o universo imagético disponível (Flusser, 2021) mas o perigo de um desaparecimento da identidade, espreita de novo.

O Desaparecimento dos rituais, de Byung-Chul Han, relata os sintomas de uma sociedade comunicativa, mas não gregária. Existe uma preocupação pela produção, pela autenticidade, pela manifestação de um eu, pela criação de uma imagem – mesmo que em meios remotos – mas em momento algum, o relato de uma presentificação de intenções: pôr em comum aquilo que se deseja comunicar (HAN, 2020).

Philippe Guéanu falou de uma síntese de imagens, que segue uma estrutura propositadamente forjada pelos universos do hiper-modernismo (GUÉAU, 1993). Bernard Stilger, na sua Miséria simbólica, põe a nu a força nmésica que as estruturas mercantis têm quando se trata de determinar a identidade (STILGER, 2013). Como pode o comprometimento sacral irromper nas suas funções simbólicas do Eu, antes velado?

Na verdade, não existem quaisquer ajustes de uma imagem a uma identidade, que foi roubada. Leia-se a proposta de Ângelo Cardita ou de Jean-Luc Marion para ver em que modelos se pôs a nu uma de deformação dos conceitos de identidade e de Deus (Marion, 1980). A perda de qualquer referência de leitura, agora na relação gregária, também não é defensável: a procura de cobertura imagética impõe-se, no momento de reestruturar o que o “corpo roubado” pode ser. Sobre uma via intermédia.

Sem ajuste e com a elasticidade que se possa encontrar, é a via da simbólica e da fruição que se impõe. Retomo: não é possível um ajuste preciso no momento de tatuar. Tampouco é possível pensar que a forma, antes inscrita no corpo de uma Pessoa, perca a sacralidade, porque a “forma” deixa de ter a “forma” com que foi desenhada. E, em última instância, também não se pode considerar como real o desaparecimento dos rituais e da humanidade com a perda de uma “forma perfeita”, que antes era partilhada por todos os homens tatuados.

A fusão da sacralidade grupal

A dor, o desejo e o poder de decidir acerca da Identidade estão plasmados numa simbólica, que é assumida. Partindo de uma radiografia do Eu próprio, existe mistura de terrenos: interioridade de um eu e a exterioridade do mundo imagético à disposição, no mundo em que a Pessoa se dá conta que pode decidir sobre a sua Personalidade e Identidade. A revolução fase a outras religiosas, ou mesmo de sacralidade, mais fracas é que o grupo passa a integrar a identidade, que agora se descobre de modo sagrado.

Não é apenas uma escolha de vários elementos, que podem ser adotados por uma determinada pessoa. No ato de tatuar, as noções de Eu e de Outro ficam fundidas numa única imagem: Eu sou um eu tatuado, que não pode deixar de fazer apelo ao Outro do mundo das imagens a que me acolhi.

Neste sentido, não foge aos famigerados modelos de unidade. O todo e as partes, sem anulamento de ponto algum da equação, passam a estar plasmados na identidade e no aspeto imaginado da Pessoa. Mas aqui não apenas no sentido de uma memória, que fica colada à “aparição” de um Individuo. Nada tem que ver com isso.

Aponto para a impossibilidade de que possa dizer coisa alguma sobre mim, fora do horizonte de uma comunidade de visões de mundo. Depois, para o assumir de uma mundividência como notificação de mim e, no desdobramento desta ideia, para uma integração do Outro como caminho mais direto para um Eu, apesar das complicações que precipitaram um processo de decoração do Corpo.

Segundo a fusão de mundos, é pelo Outro que tenho um acesso sagrado a mim mesmo. É através da perfeita radiografia de mim, que me chega pela dureza da agulha na minha pele, é através da escolha das imagens que outros tem para mim e, finalmente, é no imperativo de integrar os demais na definição do que sou que me dou conta da fusão de mundos, de um ponto de vista sacral.

Pele, lugar sagrado e de encontros

O ato de tatuar a pele poderá significar uma afirmação de identidade distinta do outro e nesse sentido uma declaração física e gráfica do Eu.

Tal representação identitária implica um ato de coragem e reporta ao domínio da responsabilidade. De resto, a singularidade ou exclusividade de uma determinada tatuagem – o desenho em si, as cores escolhidas, o local do corpo tatuado – indiciam a necessidade de ser diferente dos demais e uma estratégia de afirmação pessoal de caráter não-verbal.

Porém, tanto pode significar aproximação e encontro com o outro, em termos de subcultura urbana, como rutura com as gerações precedentes dado o afrontamento, devido ao fato de ousar nova estética corporal, nova perspetiva da utilização do corpo e nova identificação com a referida subcultura.

Daniel Mineiro [1] e Paulo Mendes Pinto [2]

Fonte

  • Revista Relicário [revista do Museu de Arte da Diocese de Uberlândia]

Notas

[1] Doutor em Filosofia pela Universidade de Évora/Universidade de Valencia. Professor e coordenador de projetos da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Atua nas areas: Filosofia da Religião, mística cristã, ecologia, espiritualidade, religiões orientais.

[2] Doutor em Estudos Culturais. Diretor Geral Académico do Grupo Lusófona/Brasil. Coordenador da área Ciência das Religiões da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa/Portugal. Áreas de atuação: esoterismo, judaísmo, maçonaria, espiritualidades.

Referências

  • FLUSSER, Vilém. O universo técnico das imagens. Lisboa, 2021.12.
  • GUÉAU, Philippe. L´éloge de la simulation. Paris, Milieux, 1993.
  • HAN, Byung-Chul. Do desaparecimento dos rituais. Lisboa: Relógio D´Água, 2020.
  • LE BRETON, David. “Se reconstruitre par la peau. Marques corporeles et processus initiatique”. Revue française de psychosomatique, nº 38 (2010), p. 92.
  • LIPOVETSKY, Gilles. Os tempos hipermodernos. Lisboa: Edições 70, 2017.
  • MARION, Jean-Luc. L´idole et la distance. Paris Flamarion, 1980.
  • STILGER, Bernard. A miséria simbólica. Lisboa: Orféu Negro, 2013.

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