Arquitectura Séc XIV

Os Séc. XIV e XV

Portugal contribuiu de um modo decisivo para o desenvolvimento da arquitectura dos finais da Idade Média. É disso testemunho a abadia cisterciense de Alcobaça (começada em 1178), um monumento notável e em óptimo estado de conservação, característico do período gótico inicial (ilustração p. 98 e ss.). Durante os séculos XIII e XIV, as ordens mendicantes foram as principais responsáveis pelo desenvolvimento da arquitectura; porém, foi no reinado de D. Dinis (1279-1325), homem das letras, e de sua mulher Isabel de Aragão, que a nobreza e a corte começaram, também, a contribuir para este desenvolvimento. As duas maiores construções daquela época estão relacionadas com Domingos Domingues, um arquitecto que certamente era apreciado pela casa real. Entre 1308 e 1311, erigiu o claustro do mosteiro de Alcobaça, assim como a igreja de Santa Clara-a-Velha, em Coimbra, consagrada em 1330, um edifício notável a nível arquitectónico. A compleição maciça e românica do exterior desta construção assinala a postura conservadora que domina o Gótico português no início do século XIV. O interior, de três naves e sem transepto, foi o primeiro a ser totalmente abobadado (com uma abobada de berço apontada, na nave central); no entanto, as dificuldades no domínio desta técnica são ainda evidentes. Curiosamente, esta construção, que devido a uma enxurrada causada pela subida das águas do rio Mondego ficou coberta de lodo ate a uma altura de cinco metros, foi o ponto de partida da recepção românica do Gótico em Portugal.

No reinado de D. Afonso IV (1325-57), a catedral românica de Lisboa foi presenteada com um novo remate oriental, que por várias vezes foi danificado por sucessivos terramotos. O esboço inicial previa a existência de um deambulatório de dois andares, estreito e alto, para o qual se abriam nove capelas radiais de planta poligonal. No entanto, o edifício foi alterado e só foi concluído no século XV . A uniformidade das abobadas do deambulatório e acentuada por meio de uma nervura de vértice corrida. No exterior, os contrafortes maciços sobressaem visivelmente dos muros exteriores, provavelmente como medida preventiva contra os desabamentos de terra. No Alentejo também se construíram alguns edifícios significativos, de entre os quais se destaca o claustro da catedral de Évora, começado em 1350. As suas quatro alas estão totalmente cobertas por abobadas de cruzaria de ogivas e também aqui uma nervura de vértice corrida vai unindo os vários tramos.

A construção do mosteiro da Batalha representou mais um avanço na arquitectura portuguesa. Este mosteiro foi mandado construir em 1385, por D. João I, em acção de graças pelo êxito alcançado em Aljubarrota .

Este mosteiro dominicano, assim como as capelas funerárias dos monarcas, tornaram-se o emblema da jovem dinastia de Avis, que acabara de ascender ao trono e que viria a comandar os destinos de Portugal até à regência de D. Filipe II.

As sucessivas ampliações deste complexo prolongaram-se ate ao século XVI, inclusive, e fizeram dele um espelho do desenvolvimento da arquitectura portuguesa.

O mosteiro da Batalha tornou-se simultaneamente um campo de experimentação e um modelo para quase todas as construções mais importantes do reino.

A primeira fase de construção teve inicio em 1388 e respeitou a planta de todo o complexo, elaborada por Afonso Domingues, que previa a construção de uma igreja de três naves e um transepto com cinco capelas. Este esquema, bem conhecido pelas ordens mendicantes, foi transposto para dimensões invulgares (80 m de comprimento, 22 de largura e 32,5 de altura) e baseou-se em Alcobaça.

Certos pormenores, como o alçado basilical sem trifório, a variação da forma dos pilares, assim como os capiteis naturalistas tornaram-se um modelo para uma série de construções posteriores, como é o caso da igreja dos Agostinhos de Santa Maria da Graça, em Santarém, ou da igreja do Convento do Carmo, em Lisboa. Esta ultima, tal como o mosteiro da Batalha, também teve origem num voto feito por D. Nuno Alvares Pereira, o condestável de D. João I. Hoje restam apenas a zona do coro e as arcadas da nave, e é nesse local que funciona actualmente o Museu de Arqueologia.

Na Batalha, porém, Afonso Domingues só conseguiu terminar algumas partes da igreja, do claustro real e da sala do capitulo. Em 1402, a obra foi entregue ao mestre Huguet, um arquitecto provavelmente de origem inglesa ou que, pelo menos, mantinha estreitas relações com Inglaterra. Portugal também mantinha uma relação dinástica com o reino de Inglaterra, devido ao casamento de D. João I com D. Filipa de Lencastre. Consequentemente, não se pode afastar definitivamente a hipótese de que o mosteiro da Batalha tenha sido, de algum modo, influenciado pelo perpendicular style. Huguet concluiu a abobada que Domingues começara, e para tal teve que elevar a nave central e melhorar a sua iluminação. Construiu, ainda, a fachada ocidental, cujo rico portal figurativo está emoldurado pela decoraq5o linear da parede e é encimado pelo rendilhado em estilo flamejante. Todavia, as suas obras mais importantes são as duas capelas funerárias situadas dentro da igreja: a sul, a Capela do Fundador, Batalha, Mosteiro de Santa Maria da Vitória, Capela do Fundador, cerca de 1426-34 – Hugetuma construção de planta quadrada, terminada em 1434, onde se encontram os túmulos do rei D. João I e de sua mulher, e ainda a concepção das Capelas Imperfeitas, assim designadas por nunca terem sido concluídas. Trata-se de uma capela axial, de planta redonda, destinada a panteão de D. Duarte e família (ilustração em cima). A Capela do Fundador e uma obra-prima de cantaria: o compartimento quadrado e iluminado por uma luz clara e é fechado por uma cúpula octogonal com uma abobada estrelada filigranada, que cobre os túmulos do casal real. A verticalidade da decoração consegue criar uma atmosfera de claridade e leveza singulares. Todos os elementos decorativos, sejam as nervuras, os perfis ou os motivos vegetais e heráldicos, revelam uma perfeição extrema; além disso, a pedra natural de cor clara confere-lhes uma suavidade adicional. As Capelas Imperfeitas teriam, certamente, uma decoração semelhante.

A sua planta centrada desenvolve-se em sete capelas e a sua tipologia enquadra-se na tradição dos modelos espanhóis, de que são exemplo a capela de Alvaro Luna, em Toledo, ou a Capilla del Condestable, em Burgos; também estas capelas são luxuosas construções funerárias que foram levantadas por detrás do coro das respectivas igrejas.

A decoração das capelas do mosteiro da Batalha prosseguiu até ao reinado de D. Manuel I.

Em Portugal ainda existem algumas construções militares interessantes, e muitas delas foram já sujeitas a grandes restauros. E o caso, por exemplo, dos castelos de Leiria, Beja, Guimarães, Almourol, Óbidos e Chaves, assim como de numerosas torres militares e muralhas. O castelo de Bragança, começado cerca de 1390, é uma obra exemplar. A muralha Castelo de Bragança, sec XII-XVIque o circunda e reforçada por torres circulares e ao centro ergue-se a monumental torre de menagem. Até ao século XVI, inclusive, a construção militar portuguesa esteve intimamente relacionada com as residências feudais, pois a instabilidade daquela época exigia a construção de residências fortificadas. Os arquitectos e engenheiros militares portugueses também desempenharam um papel importante na conquista e na protecção das colónias portuguesas em Africa, na América Latina e na Ásia, conseguindo, assim, preservar a arquitectura militar portuguesa.

A arquitectura manuelina

A chamada “arquitectura manuelina” dificilmente se enquadra no período “gótico”. No entanto, não pode ser aqui ignorada, uma vez que o seu ponto de partida formal remonta ao Gótico tardio europeu. De acordo com o seu conteúdo ou, mais precisamente, com o seu programa iconográfico, a “arte manuelina” pertence já à Idade Moderna: a propaganda dinástica e as aspirações de uma potencia colonial em ascensão passam para primeiro plano, deixando para trás as tradições medievais. A utilização do termo “manuelino”, designação que tem sido geralmente aceite, deve-se ao facto de durante o reinado de D. Manuel I, o Venturoso, Portugal ter assistido a um período áureo não só no que diz respeito a sua historia, como também no que se refere a sua arquitectura. Todavia, este termo não se adequa a designação de um estilo: a arte “manuelina” conjuga elementos tardo-góticos de diversas origens, com formas renascentistas e ainda com um programa emblemático próprio. Ao contrario do que aconteceu em Espanha, o elemento árabe não teve grande importância em Portugal.

Duas construções de finais do século XV acompanharam a mudança ocorrida em Portugal, em que uma civilização marcada pelo espírito de finais da Idade Media se transformou numa cultura cosmopolita da era dos Descobrimentos.

Uma dessas construções é a igreja franciscana de Évora. Fundada por D. João II, antecipa um tipo de espaço característico do século XVI: a nave é flanqueada por capelas laterais e esta coberta por uma abóbada de berço quebrada, com lunetas. Esta uniformização do espaço viria a ser consumada na primeira construção dos Jesuítas, em Roma, o Il Gesu de Vignola e tornar-se-ia o modelo para a organização espacial das igrejas barrocas. A procura de novas soluções está também patente no pórtico amplo, decorado com colunas helicoidais e com o emblema de D. João II, o pelicano, e ainda o de D. Manuel I, a esfera armilar. Na igreja de Jesus, em Setúbal, o motivo das colunas helicoidais e transposto para o interior. Iniciada em 1491, e uma igreja-salão de três naves, cujas abóbadas de aresta são suportadas por seis colunas de fuste torcido como as amarras de um navio, enquanto que a capela-mor é decorada por uma complexa ab6bada estrelada. A execução da obra é atribuída a Diogo Boytac ou Boitaca (aprox. 1460-1528), um artista talvez de origem francesa, que viria a reformular a arte estatal de D. Manuel I no mosteiro dos Jerónimos, em Belém, e no mosteiro da Batalha. Os pilares helicoidais da igreja de Santa Maria de la Magdalena, em Olivença, são ainda mais elegantes e requintados do que os de Setúbal; além disso, um sumptuoso arco em cortina abre passagem para o presbitério.

O mosteiro dos Jerónimos, em Belém, situado à entrada de Lisboa, perto da foz do Tejo, é a obra mais importante do reinado de D. Manuel I, tanto do ponto de vista arquitectónico, como ideológico. Na época de transição da Idade Média para a Idade Moderna, Portugal tornou-se uma potência mundial e comercial, graças aos Descobrimentos. O essencial deste mosteiro foi construído no primeiro quartel do século XVI e conjuga artisticamente estruturas tardo-góticas, com formas decorativas do plateresco e com símbolos dinásticos. Esta mistura confere ao monumento um carácter inconfundivelmente português.

Fundado em 1496 por D. Manuel I, este monumento real destinava-se a panteão da dinastia de Avis e foi pensado como local de devoção para os marinheiros que dali partiam ou que ali regressavam a casa. Foi iniciado em 1501 e entregue aos frades jeronimitas e veio substituir a Cartuxa outrora existente no mesmo local, que havia sido fundada pelo Infante D. Henrique e entregue à Ordem de Cristo, e que já não correspondia às exigências práticas e ideológicas da época. Belém, Lisboa, Torre de Belém, 1515-1521, Francisco de Arruda.

Juntamente com a Torre de Belém, bem perto dali, o mosteiro dos Jerónimos era o posto avançado representativo da capital do império colonial.

Diogo Boytac, que já se havia distinguido na construção do mosteiro de Jesus em Setúbal, foi o primeiro arquitecto que trabalhou no mosteiro dos Jerónimos. Projectou um complexo com quatro claustros, muito maior do que a construção actual. A planta daquela ampla igreja-salão foi concebida sob sua direcção e compreende três naves, um transepto claramente destacado, mas pouco saliente, e um coro alto construído sobre os primeiros três tramos, de um total de cinco. O acabamento do sistema de suporte e o abobadamento invulgar que unifica todo o espaço são posteriores a 1517 e foram elaborados por João de Castilho (cerca de 1475-1552), um arquitecto e escultor oriundo de Espanha, que foi solicitado para todas as construções mais importantes do reinado de D. Manuel I. A complexa abóbada reticulada da nave é suportada por seis pilares octogonais de 25 m de altura, cobertos por elementos decorativos renascentistas, enquanto que a abóbada do cruzeiro é auto-portante. Tanto do ponto de vista estético como estático, a construção deste espaço é uma obra-prima, que escapou incólume ao grande terramoto de 1755. No exterior, destaca-se o emolduramento do portal, que comporta um programa iconográfico complexo. A capela-mor, pelo contrário, panteão de D. Manuel 1 e dos seus descendentes, foi demolida em 1563 e concluída por Diogo de Torralva (cerca de 1500-66) e Jerónimo de Ruão, que certamente estavam a par da construção do mosteiro do Escorial.

O claustro, baseado no projecto de Boytac, mas erigido sobretudo por Castilho, é o ponto culminante da arquitectura manuelina no limiar do Renascimento (ilustração em baixo, à esquerda). Este complexo de planta quadrada e de dois pisos compreende seis tramos em cada ala, cobertos por abóbadas reticuladas; quatro abrem-se em arcadas profundas e amplas, entre contrafortes robustos. Os tramos dos cantos são atravessados diagonalmente por arcos mais largos, que permitem a visão dos pilares angulares ricamente decorados. Enquanto que no interior do claustro dominam as formas do Gótico tardio, nas superfícies voltadas para o pátio predominam os elementos decorativos platerescos introduzidos por Castilho. A ornamentação das superfícies, assim como as pequenas colunas rendilhadas, colocadas no intradorso das Belém,Mosteiro dos Jerónimos, Interior da Igreja e abóboda, 1517, Diogo Boytac, João de Castilhoarcadas, organizam o edifício em estruturas filigranadas. O aspecto geral desta construção, com a sucessão regular de arcos redondos e o realce da horizontalidade, aponta já para ao Renascimento e evidencia uma maior proximidade aos monumentos espanhóis. É possível que o claustro não tenha servido apenas para fins contemplativos, mas que lhe tenham sido atribuídas funções representativas. Tal como no interior da igreja, também aqui se misturam estruturas tardo-góticas com ornamentação renascentista e representações figurativas com motivos emblemáticos, como a cruz da Ordem de Cristo, a esfera armilar e as armas. O encanto estético do conjunto é evidente e o seu programa iconológico ainda continua por decifrar.

A construção do mosteiro dos Jerónimos, em Belém, ficou a dever-se não só à necessidade de orientação espiritual, mas sobretudo às exigências ideológicas de uma potência colonial em ascensão. Além disso, tentava-se mais uma vez uma união entre Portugal e Espanha: D. Manuel tencionava casar o seu filho João com Leonor da Áustria, irmã do futuro imperador Carlos V Em 1517 decidiu-se transferir o panteão da dinastia de Avis do mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha, para Belém. Porém, os monges opuseram-se e só na segunda metade do século é que D. Manuel I e a sua família puderam encontrar no coro e no transepto daquela igreja a sua última morada.

A já referida Torre de Belém, que na altura da sua construção (1515-21) ainda era banhada pelas águas do Tejo, é da autoria do arquitecto Francisco de Arruda. Embora a sua obra obedecesse às mais avançadas técnicas de guerra, servia essencialmente fins representativos, mais do que estratégicos. Ao mesmo tempo que prosseguiam as obras em Belém, o ponto avançado de Lisboa, continuavam também os trabalhos no mosteiro da Batalha. Desde a viragem para o século XVI que Mateus Fernandes dirigia unia eficiente oficina, encarregue da continuação das obras do panteão de D. Duarte, as Capelas Batalha, Mosteiro de Santa Maria da Vitória, Capelas Imperfeitas, portal, 1509, Mateus FernandesImperfeitas. Em 1 509 concluiu-se o portal principal, certamente o trabalho de cantaria mais rico e fino daquela época. As ombreiras daquele portal do Gótico tardio estão coroadas por vários planos de formas de arco que se interceptara, e todos os elementos arquitectónicos estão cobertos por motivos flamejantes; motivos vegetais, ornamentais e heráldicos fundem-se numa trama decorativa semelhante a renda de bilros. O aspecto exterior do portal poderia ser interpretado como uni desenvolvimento das tendências decorativas do Gótico tardio, comuns em Espanha, como por exemplo no Palacio del Infantado ou em S. Juan de los Reyes, ou ainda na Flandres ou em Borgonha. Todavia, nos pequenos detalhes, surge um elemento novo: misturada com os motivos Batalha, Mosteiro de Santa Maria da Vitória, Capelas Imperfeitas, Portal principal, 1519, Pormenor da divisa do rei D. Duarte – animais e vegetais que se repetem na ombreira do portal, surge a divisa de D. Duarte, também ela reiterada – “Fiel até à morte”- à qual se juntam a esfera armilar de D. Manuel e as insígnias da Ordem de Cristo. Os trabalhos na capela foram interrompidos em 1516. Primeiro, porque naquela altura D. Manuel I estava mais empenhado na construção do mosteiro dos Jerónimos, em Belém, que iria albergar o panteão real; segundo, devido à morte de Mateus Fernandes. Além disso, muitos outros arquitectos, quase todos dedicados à construção militar, tinham sido solicitados para procederem à fortificação da costa africana. Os trabalhos foram retomados em 1528, por João Castilho, que apenas concretizou uma loggia renascentista, de modo que o panteão de D. Duarte acabou por nunca ser concluído.

O convento de Cristo, em Tornar, é outra obra fundamental ela arte portuguesa. A igreja de planta centrada e de carácter militar da Ordem dos Templários, construída na segunda metade do século XII, foi aumentada por João de Castilho e Diogo de Arruda, que levantaram uma construção anexa, onde se situava o coro alto e a sala do capítulo. No entanto, a arquitectura deste espaço de dois pisos, que, tal como muitas outras igrejas está coberto por abóbadas reticuladas, não é o aspecto mais relevante no contexto deste artigo. Essencial, sim, é o mérito do “estilo manuelino” que, ainda mais do que na Batalha e em Belém, está aqui patente na união entre a ornamentação de superfícies e a exposição subtil de conteúdos de carácter ideológico. A decoração sumptuosa do exterior do edifício, da autoria de João de Castilho, contrasta com a configuração sóbria mas impressionante do interior. O portal, o emolduramento das janelas, os robustos contrafortes escalonados e os frisos corridos ostentam o repertório de formas decorativas manuelinas, que constitui, simultaneamente, um programa político.

Armas e emblemas do rei, instrumentos de navegação, amarras de navio, plantas e animais marinhos aglomeram-se no repertório iconográfico e unem-se a conteúdos cristãos, sol) a cruz dos cavaleiros da Ordem de Cristo. .1 semelhança do portal sul do mosteiro dos Jerónimos, em Belém, também em Tomar o portal principal é emoldurado por um arco rendilhado que se estende à altura da fachada e sob o qual se desenvolve em vários registos um complexo programa iconográfico. Profetas, santos e a figura central de Maria transmitem conteúdos bíblicos tradicionais, enquanto que a esfera armilar sobre a arquivolta, um símbolo da ciência náutica, testemunha a posição de destaque atribuída à navegação na época manuelina. É evidente que a navegação se encontrava sob o signo do cristianismo: as viagens realizadas no âmbito dos Descobrimentos eram simultaneamente viagens de evangelização e de luta contra o paganismo e trouxeram novo ânimo à ideia da concretização de uma nova cruzada para libertar os Lugares Santos. Como consequência, tanto em Tomar como noutras construções sacras do século XVI, certos elementos profanos passaram para primeiro plano. O exemplo mais marcante é a moldura exterior da janela do capítulo do convento de Cristo, em Tornar. Atribuída a Diogo de Arruda ou a João de Castilho, reflecte a fantasia e a força criativa do período manuelino (ilustração em cima, à esquerda). Algas, corais, conchas e amarras entrelaçam-se artisticamente sobre a parede. Todo o conjunto é suportado por uma pequena cabeça (a do artista?) e, mais uma vez, é coroado e flanqueado pelos emblemas dos sustentáculos da dinastia portuguesa: a cruz da Ordem de Cristo e a esfera armilar.

Os motivos decorativos naturalistas e emblemáticos da igreja dos cavaleiros de Cristo, era Tomar, caracterizam a arte do período de transição da Idade Média para a idade Moderna, uma arte que converte em imagens as experiências da era dos Descobrimentos. Torna-se, assim, evidente, que o reinado de D. Manuel I é uma época em mudança, tanto a nível artístico, como ideológico. Do ponto de vista formal, predominam ainda as tradições tardo-góticas, porém, o enaltecimento da dinastia de Avis apresenta facetas claramente modernas.

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