O Congresso de Lausanne

A segunda tentativa de se promover a união e a organização internacional, antevista e abortada em 1834, foi o Convento que se realizou em Lausanne na Suíça período de 6 a 22 de Setembro de 1875, tendo como principais objectivos rever e reformar as Grandes Constituições de 1786. Visou, também, a definição e a proclamação de princípios e a elaboração de um Tratado de Aliança e Solidariedade.

Onze Supremos Conselhos fizeram-se representar neste Convento:

  • Inglaterra (e País de Gales),
  • Bélgica,
  • Cuba,
  • Escócia,
  • França,
  • Grécia,
  • Hungria,
  • Itália,
  • Peru,
  • Portugal e
  • o anfitrião Suíça.

A Escócia e a Grécia, ambas representadas pelo mesmo Ir∴ retiraram-se antes do final dos trabalhos, facto que levou a assinatura dos documentos finais a somente nove países. Os Supremos Conselhos dos Estados Unidos (jurisdição sul) [1], Argentina e Colômbia deram o seu assentimento, mas não puderam mandar representantes. O do Chile mandou dizer que daria o seu assentimento às resoluções do Conclave.

Após numerosas reuniões de trabalho em comissão e onze sessões plenárias, o Conclave foi encerrado em 22 de Setembro de 1875.

Foram basicamente discutidos os seguintes temas:

  1. uma revisão das Grandes Constituições de 1786, retirando toda referência a Frederico II, tendo como base a versão latina [2], considerada como a carta fundamental do R∴ E∴ A∴ A∴;
  2. a conclusão de um Tratado de União, de Aliança e de Confederação dos Supremos Conselhos;
  3. a proclamação de um Manifesto solene;
  4. uma Declaração de Princípios do Rito, nos quais os cinco primeiros parágrafos foram incluídos no Tratado de Aliança;
  5. adopção de um Monitor (Tuileur) Escocês, especificando para cada grau do 1º ao 33º, as especificações sobre a decoração da Loja, os títulos dos oficiais, os sinais de ordem e de reconhecimento, os toques, as baterias, as aclamações, as marchas, as idades simbólicas, as palavras sagradas e de passes, as jóias, painéis, alfaias, etc.
  6. apresenta uma relação dos Supremos Conselhos regularmente reconhecidos no mundo: Estados Unidos: Jurisdição Norte e Sul, Costa Rica, Inglaterra, Bélgica, Canadá, Chile, Cuba, Escócia, Colômbia, França, Grécia, Hungria, Irlanda, Itália, México, Peru, Portugal, Argentina, Suíça, Uruguai e Venezuela. O Brasil não aparecia na lista e segundo Prober “o S.C.BRAS., na verdade um dos mais antigos do mundo, não figurava nesta relação dos 22 ‘reconhecidos’, por certo uma represália por não ter participado” [3]. A Acta da décima sessão faz menção à questão do reconhecimento do Brasil: o Convento reconhece a existência de um Supremo Conselho no Brasil. Porém, como existiam duas autoridades pretendendo este título, seriam enviados, pelo Supremo Conselho da Suíça, os documentos para que ambas chegassem a um acordo. Caso contrário, o assunto deveria ser remetido ao tribunal criado pelo artigo VII do Tratado de Aliança para que pudesse ser julgado.

Um ponto polémico do Congresso de Lausanne foi a divisão existente sobre o Grande Arquitecto do Universo que será discutido, de seguida, num item específico deste trabalho.

O artigo 3º do Tratado de Aliança e de Confederação estipulava que os Supremos Conselhos se reuniriam em Convento geral em 1878 em Roma ou Londres e de dez em dez anos a partir desta data.

Contudo, como este Convento de Lausanne não foi ratificado como previsto, somente em 1900, por iniciativa do Supremo Conselho da França, um novo, mas modestíssimo Conclave se estabeleceu em Paris. O Conclave, previsto para se reunir em Bruxelas em 1902, teve o seu início em 10 de Junho de 1907, 32 anos após o Conclave de Lausanne, com o pomposo título de Primeira Conferência Internacional dos Supremos Conselhos. Depois deste Conclave é que se assiste às reuniões regulares, somente interrompidas pelas duas guerras mundiais:

  • a IIª Conferência em Washington – 1912,
  • a IIIª em Lausanne – 1922,
  • a IVª em Paris – 1929,
  • a Vª em Bruxelas – 1935,
  • a VIª em Boston – Setembro de 1939,
  • a VIIª em Havana – 1956,
  • a VIIIª em Washington – 1961,
  • a IXª em Bruxelas – 1967,
  • a Xª em Barranquilha na Colômbia – 1970,
  • a XIª em Indianápolis nos ESTADOS UNIDOS – 1975,
  • a XIIª em Paris – 1980,
  • a XIIIª em Washington – 1985,
  • a XIVª no México – 1990, a XVª em Lausanne – 1995 e
  • a XVIª no Rio de Janeiro em 2000.

O artigo 7º do referido Tratado criava um tribunal composto de cinco Soberanos Grandes Inspectores Gerais, membros activos de cinco Supremos Conselhos, com a competência para julgar, em primeira instância, diferenças que pudessem ser suscitadas entre os Supremos Conselhos Confederados, resguardado o direito de apelação à Confederação, que decidiria em última instância o direito de apelação, por maioria de votos, no Conclave mais próximo a se realizar. Chegaram a nomear os cinco primeiros Conselhos, mas com o tempo, ficou letra morta. Os Estados Unidos sempre se posicionaram contra uma Confederação com o incisivo argumento de que uma Confederação existiu uma vez no seu país e que exigiu uma guerra sangrenta para eliminá-la e uma Confederação Maçónica não seria, pois, desejável pela aversão que os americanos têm a esse nome!

No texto revisional das Grandes Constituições o artigo II mantinha o carácter vitalício dos membros dos Supremos Conselhos, ou seja, os Grandes Inspectores Gerais seriam nomeados ‘ad vitam’.

O artigo III limitava em nove anos o período de mandato dos cargos para os quais fossem eleitos.

O artigo V limitava em 33 o número máximo de membros activos de cada Supremo Conselho.

O artigo X prescrevia que o Soberano Grande Inspector Geral não poderia, valendo-se da sua autoridade privada, conferir qualquer Grau maçónico nem expedir diplomas ou patentes.

O artigo XI anulava todos os então Consistórios e Conselhos de Kadosh, uma vez que os graus 30, 31 e 32 somente poderiam ser conferidos na presença de três Soberanos Grandes Inspectores Gerais.

O artigo XVI revogava os artigos XII, XIII e XIV das Grandes Constituições de 1786, desvestindo cada Supremo Conselho da soberana autoridade da Maçonaria, pela impossibilidade de exercer os soberanos poderes maçónicos de que se achava revestido Frederico II, bem como a perda também do poder legítimo de deputar um Soberano Grande Inspector Geral para estabelecer um Supremo Conselho no grau 33 em qualquer país, observadas as prescrições das Grandes Constituições.

A versão revista das Grandes Constituições de 1786, elaborada em Lausanne, foi, na prática, seguida por todos os Supremos Conselhos, incluindo aqueles que não aceitaram oficialmente o dito Conclave. Convém salientar que, em 1880, os Supremos Conselhos da Inglaterra e da Bélgica denunciaram o Tratado.

O Brasil não se soube posicionar em relação ao Congresso de Lausanne, ficando numa situação dúbia e confusa, ora aceitando ora negando. Os seus rituais mantiveram a posição da lenda de Frederico II, sem nenhuma explicação crítica, causando uma confusão entre os membros dos graus filosóficos. Isto pode ser constatado pelo prefácio da sétima edição das Grandes Constituições Escocesas editada pelo Supremo Conselho:

“Tendo as “Constituições, Institutos e Regulamentos Maçónicos” adoptados em Bordeaux em 1762 e em Berlim em 1786, bem como as Resoluções do Congresso de Lausanne em 1785 (sic) [1875], as de Bruxelas em 1907 e as de Washington em 1912 do Decreto do Sob∴ Gr∴ Comend∴ General Thomaz Cavalcanti de Albuquerque, se tornado as Leis que regulamentavam o R∴ E∴ A∴ A∴ no Brasil, foram elas anexadas aos Estatutos do Supremo Conselho e publicadas como “Leis que regem o Escocismo no Brasil””.

Verificava-se, mais tarde, o inconveniente de tal junção, pois os Estatutos podem sofrer alterações, na dependência das necessidades, como vem acontecendo até à presente data. Dado serem aqueles Documentos imutáveis na sua forma, quer pelo tempo quer pela tradição, baixou o Sob∴ Gr∴ Comend∴ José Marcelo Moreira o Decr∴ 122, em 19/08/64, determinando a publicação em separado de ambos os Documentos.

Assim, como consequência, foi publicado com o Título “Antigas Constituições Escocesas de 1762 e 1786”, bem como as Resoluções de Lausanne (1875), deixando de figurar as de Bruxelas (1907) e de Washington (1912).

Outras Edições têm vindo sucessivamente à luz, à medida que as anteriores vão sendo esgotadas. As últimas Edições surgem com um Título novo, sem qualquer justificativa “Grandes Constituições Escocesas”.

Como, com o decorrer do tempo, as Resoluções de Lausanne (1875), bem como as de Bruxelas e mesmo as de Washington caíram em desuso, deixaremos de publicá-las na presente Edição, ficando a mesma constituída apenas pelas duas primeiras que foram a fonte orientadora do Rito.” [4]

A Querela do G∴ A∴ D∴ U∴

Muita tinta já foi gasta para se reflectir sobre o conceito de Deus na maçonaria mundial e a questão ainda não está clara. Vamos tentar focar a questão, sobretudo, nas Constituições de Anderson e no Congresso de Lausanne quando se reuniram os principais Supremos Conselhos do mundo do R∴ E∴ A∴ A∴ em 1875.

No período operativo, a maçonaria absorveu o conceito de Deus da Igreja Católica Apostólica Romana. Tanto nas Antigas Obrigações (Old Charges) inglesas quanto em documentos mais recentes, ou seja até a fundação da Grande Loja de Londres em 1717, prescrevem-se orações à Santíssima Trindade, à Virgem Maria e aos Santos Patronos. Somente nos manuscritos do final do século XVI, a Reforma Anglicana começou a retirar o culto dos Santos e da Virgem Maria. Convém salientar que as Antigas Obrigações nunca usaram a expressão Grande Arquitecto do Universo nos seus textos. Tal expressão somente passou a ser usada pelo pastor presbiteriano Anderson, que por sinal modificou substancialmente a fundamentação católica das Antigas Obrigações.

Se se considera o período especulativo, a partir da fundação da Grande Loja de Londres, as Constituições de Anderson despontam como o documento basilar.

A Constituição de Anderson de 1723 no capítulo Deveres de um Franco-maçon refere o seguinte:

I – O que se refere a Deus e a Religião

“O Maçon está obrigado, por vocação, a praticar a moral, e se compreender os seus deveres, nunca se converterá num estúpido ateu nem irreligioso libertino. Apesar de nos tempos antigos os maçons estarem obrigados a praticar a religião que se observara nos países em que habitavam, hoje crê-se mais conveniente não lhes impor outra religião senão aquela que todos os homens aceitam, o dar-lhes completa liberdade com referência as suas opiniões particulares. Esta religião consiste em ser homens bons e leais, quer dizer, homens honrados e probos, seja qual for a diferença de nome ou de convicções. Deste modo a Maçonaria converter-se-á num centro de unidade e é o meio de estabelecer relações amistosas entre pessoas que, fora dela, teriam permanecido separadas”. [5]

Neste parágrafo de Anderson, encontram-se as seguintes directrizes:

  1. acredita em Deus;
  2. é um ser religioso e
  3. pratica uma forma de religião natural, podendo ser cristã ou não. Estaria Anderson querendo substituir o cristianismo por uma religião natural ou propondo a coabitação dos dois?

Não se deve esquecer que Anderson era um pastor presbiteriano trinitário. Clarke levanta uma tese interessante ao notar que, na edição da Constituição de Anderson de 1738, ele faz referência a quatorze irmãos eruditos que leram, emendaram e finalmente aprovaram o texto escrito em 1723.

Anderson estaria a passar por sérias dificuldades financeiras na década de 20, pois apesar de ter casado com uma mulher de posses, perdeu parte considerável das suas propriedades no escândalo da South Sea Bubble em 1720. Precisava trabalhar arduamente com a sua pena para fazer algum dinheiro extra e Clarke considera que Anderson era um simples secretário daquele comité dos quatorze que teriam tido a responsabilidade de criar os princípios e ideias da Constituição de 1723. Muitos desses quatorze pertenciam à Sociedade Real, a primeira organização científica do mundo. Não se deve esquecer que Desaguliers era um membro da Real Sociedade (Fellow of Royal Society – FRS) e amigo pessoal de Isaac Newton. Payne, Bayle e Desaguliers seriam, assim, os principais mentores além dos elementos de sangue real. [6]

O espírito do texto é completamente deísta. Aqui convém fazer uma distinção entre deísmo e teísmo. Segundo Alberton

“teísmo é a doutrina de escola filosófica que admite a existência de Deus pessoal, primeiro princípio e fim último de tudo o que existe; deísmo é um sistema filosófico-religioso ou espécie de religião natural. Não nega a existência de Deus. Entretanto, Deus só pode ser alcançado por argumentos puramente racionais. Não há, pois, revelação e o Cristianismo torna-se desnecessário. A intervenção de Deus no mundo também é desnecessária, negando, por conseguinte, a sua Providência. Por isto, também, repugna-lhe o milagre, bem como toda intervenção sobrenatural: a Revelação e a Graça ou auxílio de Deus”. [7]

Teístas seriam aqueles que, no Ocidente judaico-cristão, aceitassem como seu Deus, o Deus de Abraão, Isaac e Jacó e deístas seriam como os cientistas que aceitam como Deus, o Deus de Leibniz e Spinoza.

Assiste-se, pois, a uma guinada na maçonaria inglesa, em termos religiosos, começando no catolicismo romano na fase operativa, passando pelo protestantismo (religião anglicana) até desembocar numa religião natural. Contudo, a reacção teísta não se fez esperar, já que a segunda edição da Constituição de Anderson de 1738 repõe a questão que tinha sido muito radical para o espírito teísta inglês e o concomitante ataque da primeira bula papal contra a maçonaria. [8]

A segunda edição alterou o artigo primeiro, passando à seguinte redacção:

“Um Maçon é obrigado na sua dependência a observar a Lei Moral como um verdadeiro Noaquita, e se entendeu correctamente o Ofício, nunca será um estúpido Ateu nem um Libertino irreligioso, nem agirá contra a sua Consciência.

Nos tempos antigos os Maçons cristãos eram obrigados a concordar com os usos cristãos de cada país por onde viajavam ou trabalhavam; mas sendo a Maçonaria fundada em todas as Nações, mesmo as que praticam várias religiões, são eles agora unicamente obrigados a aderir àquela religião na qual todos os homens estão de acordo (cada Irmão vivendo na sua própria e particular opinião), que é a de serem homens bons e sinceros, homens honrados e probos, quaisquer que sejam as denominações, religiões ou crenças que possam distingui-los, por estarem todos de acordo com os três grandes artigos de Noé, que são suficientes para preservar o Cimento da Loja. Assim a Maçonaria é o Centro da sua União e o Feliz Meio de conciliar pessoas que teriam ficado perpetuamente separadas”. [9]

A segunda alteração veio em 1756 com o Ahiman Rezon ou seja, a Constituição da Grande Loja dos Antigos do Irlandês Laurence Dermott, na qual se acusava os modernos de terem omitido as orações, descristianizado o Ritual e ignorado os Dias Santos. Dermott propõe, então, uma verdadeira reafirmação de fé à Santa Igreja, no caso agora a Igreja Anglicana, apesar de propor no Ahiman Rezon uma prece para o cristão diferente da prece para o judeu que fosse iniciado. [10] O caminho da volta teísta estava sendo remontado e atingirá o seu ápice com a fusão em 1813 da Grande Loja dos Antigos com a Grande Loja dos Modernos, dando início, assim, à Grande Loja Unida de Inglaterra. A Constituição de Anderson de 1815 será marcadamente teísta, como se verá a seguir:

“Um Maçon é obrigado, pelo seu título, a obedecer à lei moral e, se compreender bem a Arte, nunca será ateu estúpido, nem libertino irreligioso. De todos os homens, deve ser o que melhor compreende que Deus enxerga de maneira diferente do homem, pois o homem vê a aparência externa ao passo que Deus vê o coração. Um maçon é, portanto, particularmente compelido a nunca actuar contra os ditames da sua consciência. Seja qual for a religião de um homem, ou a sua forma de adorar, ele não será excluído da Ordem, se acreditar no glorioso Arquitecto do Céu e da Terra e se praticar os sagrados deveres da moral…”. [11]

A posição da Grande Loja Unida da Inglaterra pode ser sintetizada da seguinte forma: durante um período relativamente curto – entre o final do século XVIII até 1835 – quase toda a referência cristã foi expurgada dos manuais e rituais ingleses – como foi exaustivamente demonstrado por N. B. Cryer [12] – ao mesmo tempo, e talvez como uma compensação, o teísmo passa a dominar o coração e as mentes da maçonaria inglesa.

Se o retorno teísta conseguiu cimentar a maçonaria inglesa, no continente causou um retrocesso à visão liberal e à tolerância religiosa contidos na primeira Constituição de Anderson. Assiste-se, daí em diante, a um embate entre o dogmatismo teísta inglês contra os deístas livres-pensadores franceses e belgas. O cobertor era por demais curto. Se, por um lado cobria a ruptura inglesa, por outro, desencadeava o cisma francês.

Assim, o Grande Oriente da França, nos seus primeiros ‘Estatutos e Regulamentos Gerais’, de 1839, não faz nenhuma referência a Deus e à religião. Em 1849, alguns elementos do Grande Oriente da França, pretendendo um estreitamento de relações com a Grande Loja Unida da Inglaterra, elaboraram uma Constituição com cláusulas que exigiam a crença em Deus e a imortalidade da alma, mas com a recomendação de se respeitar a consciência individual. A supressão do artigo teísta deu-se em 1877, no G∴ O∴ F∴, quando o pastor Desmons, com a presença de 210 lojas, conseguiu o apoio de 2/3 para retirar a obrigação das lojas de trabalhar à Glória do Grande Arquitecto do Universo. Estava declarada a guerra maçónica entre a França e a Inglaterra que dura até os nossos dias. A Grande Loja Unida de Inglaterra declarou irregular tanto o G∴ O∴ F∴  quanto a Grande Loja de França. Somente em 1911, com a fundação da Grande Loja Nacional Francesa – G∴ L∴ N∴ F∴, a maçonaria inglesa deu foros de regularidade a uma instituição maçónica francesa. Para grande parte da maçonaria mundial o que vigora é a Constituição de 1815 da Grande Loja Unida de Inglaterra.

O Congresso de Lausanne também pagou a sua vassalagem à querela do G∴ A∴ D∴ U∴ . Este Convento, que foi a primeira tentativa dos Supremos Conselhos do R∴ E∴ A∴ A∴ tentarem uma certa unificação ritualística e a montagem de uma confederação dos Supremos Conselhos que, por sinal não vingou, aconteceu em 1875, dois anos antes do cisma francês cujo clima ainda permitia certo compromisso pré-ruptura. Houve a participação de onze Supremos Conselhos dos seguintes países: Inglaterra (e País de Gales), Bélgica, Cuba, Escócia, França, Grécia, Hungria, Itália, Peru, Portugal e o anfitrião Suíça. O Brasil, apesar de ter um dos mais antigos Supremos Conselhos do mundo, infelizmente não esteve presente.

O Congresso de Lausanne iria que definir os princípios do R∴ E∴ A∴ A∴ , em particular, o símbolo fundamental do G∴ A∴ D∴ U∴. Contrapunham-se, então, duas tendências:

  1. a tradição da Ordem: espiritualista e cristã contra
  2. uma visão da época: liberalista e cientificista. Tentou-se, enfim, estabelecer um compromisso conforme pode ler-se tanto no Tratado quanto na Declaração de Princípios e no Manifesto.

No Tratado, o pêndulo oscilava para o deísmo, no seu artigo 1º:

“A franco-maçonaria é uma instituição de fraternidade universal cuja origem remonta ao berço da sociedade humana; ela tem por doutrina o reconhecimento de uma força superior que ela proclama sob o nome de Grande Arquitecto do Universo;”

Na Declaração, assiste-se a uma proposição mais espiritualista:

“A franco-maçonaria proclama, como ela tem proclamado desde a sua origem, a existência de um princípio criador sob o nome de Grande Arquitecto do Universo”.

Quanto ao Manifesto, reconhece-se, sem ambiguidade, o carácter pessoal do Grande Arquitecto do Universo:

“Para elevar o homem a seus próprios olhos, para torná-lo digno da sua missão sobre a Terra, a Maçonaria coloca o princípio que o Criador Supremo deu ao homem, como bem mais precioso, a liberdade; a liberdade, património da humanidade inteira, raio do alto que nenhum poder tem o direito de apagar nem amortecer e que é a fonte dos sentimentos de honra e de dignidade”.

O desenrolar do Conclave começou a complicar, quando na sessão do dia 9, o representante dos Supremos Conselhos da Escócia e da Grécia – Ir∴ Mackersy – declarou que teria de voltar ao seu país. No dia 13 de Setembro, endereçou um comunicado ao Convento informando que não poderia, em nome dos Poderes que representava, dar a sua aprovação à Declaração de Princípios, pois os dizeres pareciam-lhe pouco espiritualistas, sobretudo a definição reservada ao G∴ A∴ D∴ U∴ – Força Superior, Princípio Criador – expressões que não condiziam com a crença num Deus pessoal.

Curioso é que o Supremo Conselho da Inglaterra enviou uma circular, em 26 de Maio de 1876, aos seus corpos subordinados, assinado pelos seus dois representantes no Conclave de Lausanne, contendo uma admoestação ao delegado escocês dizendo que se ele tivesse ficado até o final não teria feito a declaração de que o Conclave usou expressões que não se coadunavam com um Deus pessoal. Pelo contrário, o ponto que o Conclave mais fortemente insistiu foi o de colocar, como princípio absoluto e fundamental do R∴ E∴ A∴ A∴ , a crença na personalidade de Deus como o Autor, o Criador, o Criador Supremo, o Grande Arquitecto do Universo, o Ser Supremo!

Em 1877, o Grande Oriente de França suprimiu, para as suas lojas, a obrigação de trabalhar à “Glória do Grande Arquitecto do Universo” e teve início o cisma que separou, radicalmente, a maçonaria francesa da inglesa. Apesar de o R∴ E∴ A∴ A∴ sempre ter mantido a sua filiação cristã e rejeitado terminantemente a inovação do G∴ O∴ F∴ assiste-se a um distanciamento da maçonaria anglo-saxónica que propunha um Deus Pessoal dos cristãos e dos judeus ao invés de um impessoal Princípio Criador. Sem se ater ao radicalismo do G∴ O∴ F∴, a proposta de Lausanne estava mais para o Anderson de 1723 do que o de 1738. A tendência moderna é que se dê razão às proposições de Lausanne. Alex Horne chega a afirmar que saber se Deus seja visto como um Deus Pessoal ou um Princípio ou Força Criadora impessoal deve ser um questão de escolha pessoal, seja de um indivíduo ou de um grupo. [13] Quem considera que são ateus aqueles que reduzem Deus a um Princípio Criador impessoal – e esta é a posição de Pike – não deveria, por coerência, aceitar que os budistas pudessem ser iniciados na maçonaria. E, pelo que se sabe, os budistas nunca foram impedidos de se tornarem maçons.

A querela do G∴ A∴ D∴ U∴ teve uma conclusão provisória em 1877 pela reunião em Edimburgo dos Supremos Conselhos da Escócia, da Grécia, dos Estados Unidos (Jurisdição Sul), da Irlanda e da América Central. Tendo em vista o Cisma francês, estes últimos demandaram que a interpretação dada pelo Supremo Conselho da Inglaterra à definição do G∴ A∴ D∴ U∴ fosse reconhecida pelo conjunto dos Supremos Conselhos Confederados em Lausanne. Após uma troca de notas, os dois grupos – o de Edimburgo e os restantes – e sob a pressão conciliadora do Supremo Conselho da Suíça, cedeu-se às exigências do grupo de Edimburgo, a fim de realizar a unidade do Escocismo.

A querela, pois, ainda não terminou. Deísmo, teísmo, descristianização, etc. são termos que tenderão a manter a polémica na maçonaria por um longo tempo.

Em suma, Lausanne mantém a tradição cristã do R∴ E∴ A∴ A∴ nos seus diversos graus, mas, em termos de princípios, caminha para uma posição conciliadora entre o deísmo e o teísmo.

Conclusão

A principal consequência positiva do Conclave de Lausanne foi a de abrir as reuniões periódicas de grande parte dos Supremos Conselhos, chamados daí por diante de Conferências. Os únicos Supremos Conselhos que não aderiram a estas Conferências foram os da Inglaterra, da Escócia e da Irlanda. Na Conferência de Bruxelas de 1907, participaram 20 Supremos Conselhos, incluindo as duas Jurisdição dos Estados Unidos, e muitos entendimentos foram alcançados mais por consenso pragmáticos do que por força de texto legal. Estabeleceu-se a liberdade de cada Supremo Conselho adoptar a versão revista das Constituições de 1786 como proposta em Lausanne. Foram publicadas versões de Lausanne em francês, principalmente na Bélgica, havendo, contudo, um desconhecimento do Conclave por parte dos países de língua inglesa, a não ser por aqueles comentários de Albert Pike sobre a querela do G∴ A∴ D∴ U∴.

No geral, a maçonaria norte-americana desconhece completamente Lausanne.

Os principais pontos do Conclave foram a revisão das Constituições de 1786, geralmente aceitas hoje em dia e a proclamação de um Princípio Criador chamado G∴ A∴ D∴ U∴. O Princípio Criador permeia, até hoje, os principais documentos do G∴ O∴ B∴ e do Supremo Conselho. O art.º 2 da Constituição do G∴ O∴ B∴ reza o seguinte:

Um dos principais pontos do Conclave foi a proclamação de um Princípio Criador chamado G∴ A∴ D∴ U∴ . O Princípio Criador permeia, até hoje, os principais documentos do G∴ O∴ B∴ e do Supremo Conselho do Brasil para o R∴ E∴ A∴ A∴ O art.º 2 da Constituição do G∴ O∴ B∴ reza o seguinte:

“É postulado universal da Instituição Maçónica: A existência de um princípio criador: o Grande Arquitecto do Universo”. [14]

Os Estatutos do Supremo Conselho do Brasil para o R∴ E∴ A∴ A∴ afirma o seguinte, no seu preâmbulo:

…Sua doutrina, que tem por base as Grandes Constituições de 1786 e os Regulamentos Gerais de 1762, é fundamentada na hierarquia de 33 (trinta e três) graus, com o objectivo de desenvolver entre os maçons os seguintes princípios:

1) a existência de um Princípio Criador, o Grande Arquitecto do Universo… [15]

Outro ponto importante foi que o Conclave permitiu a todas as jurisdições do Rito Escocês ter idênticas Constituições apesar da diferença de rituais. O consenso não foi estabelecido em torno dos três primeiros graus: graus vermelhos ou azuis? E aqui a divisão ficou entre os latinos e os anglo-saxónicos: os latinos usando o avental vermelho do Mestre Maçon e os anglo-saxónicos continuando com os seus aventais azuis. O Brasil seguiu a tendência anglo-saxónica, a partir da ruptura de Bhering em 1927, tanto no G∴ O∴ B∴ quanto nas Grandes Lojas.

O Monitor (Tuileur) Escocês, editado em 1876 pelo Supremo Conselho da Suíça não teve nenhum carácter obrigatório. Documento único de referências, preciso e completo, fez diversas e, em alguns casos, profundas alterações no tocante à tradição dos graus escoceses. Desnecessário será dizer que o Monitor coloca o avental maçónico do Mestre Maçon na cor do rito, isto é, vermelho.

Um ponto também de suma importância foi que os corpos presentes ao Conclave seguiram a definição deísta do G∴ A∴ D∴ U∴ mais como um Princípio Criador do que como um Ser Supremo. Dizem que o mote – Ordo ab Chao – foi reforçado em Lausanne para simplesmente expressar o alívio dos delegados por terem conseguido colocar alguma ordem no caos que reinava antes no R∴ E∴ A∴ A∴

Os maçons ibero-americanos assim como os franceses tinham uma longa história de perseguição por parte da Igreja Católica e, portanto, estavam desejosos de um vago requerimento “deístico” que os colocasse em guarda frente às atitudes anticlericais prevalecentes então naqueles tempos. De um ponto de vista sul-americano e, principalmente, brasileiro, o Conclave de Lausanne representou um marco referencial.

Desde 1875 o R∴ E∴ A∴ A∴, aceitando francamente princípios mais democráticos e realizando as reformas que exigiam o estágio da nossa civilização, deixou de ser o que tinha sido até aquele momento, isto é, uma associação mística, eminentemente aristocrática e autoritária, que se intitulando maçónica, colocava-se frequentemente em oposição aberta aos reais princípios sustentados pela verdadeira maçonaria. Lausanne representou, mesmo que isto ainda não tenha aportado no Brasil, um verdadeiro espírito filosófico que tinha vindo para substituir a até então vigente massa informe de doutrinas místico religiosas e de lendas jesuítico-templárias de todo o género que, durante muito tempo, desviaram as inteligências maçónicas do seu verdadeiro caminho da Arte Real.

Já não existe no R∴ E∴ A∴ A∴ um Poderoso Soberano Grande Comendador absoluto e eterno ditando regras absolutas para serem cumpridas por um bando de carneiros amestrados. Trata-se, agora, de fazer com que este sopro democrático lançado em Lausanne prossiga, oxigenando as estruturas dos Supremos Conselhos de todo o mundo. Neste limiar do século XXI, a Internet poderá ser um instrumento poderosíssimo para dar um sentido mais participativo ao R∴ E∴ A∴ A∴.

Se a sociedade do século XVIII era analógica, supersticiosa e religiosa e a nossa sociedade é mais analítica, nacionalística e agnóstica no dizer de Michel Brodsky [16], Antigo venerável da Loja de Pesquisa Quatuor Coronati, a nosso ver, Lausanne está mais para a sociedade moderna do que para a tradicional, pois começa desmistificando a lenda de ter Frederico II redigido as Grandes Constituições do R∴ E∴ A∴ A∴ ; propõe uma visão moderna do G∴ A∴ D∴ U∴ e busca uma certa unidade na diversidade então vigente.

Adaptado de Autor Desconhecido

Notas

 [1] A Jurisdição Sul dos Estados Unidos votou favoravelmente a participar do Conclave, chegando mesmo a designar o Ir∴ Ebezener S. Shaw da Califórnia como delegado, que adoecido não compareceu. Morreu em 2 de Fevereiro de 1876. Albert Pike era favorável à participação e até mesmo escreveu alguns artigos mas, de seguida arrependeu-se e não aceitou participar da Confederação (esta palavra tinha um significado terrível nos Estados Unidos) e assim terminou a incipiente participação da Jurisdição Sul.

 [2] Pyron refere-se à versão francesa em 1813, tendo a primeira publicação aparecido em 1832. A versão latina, consideravelmente maior que a francesa, aparece em 1834, pelas mãos de Roume de Saint-Laurent e continha três documentos: i) Nova Instituta ou Novos Institutos Secretos, ii) a Constituição propriamente dita e iii) um Apêndice em três artigos descrevendo o estandarte da Ordem, as insígnias distintivas dos Soberanos Grandes Inspectores Gerais e o Grande Selo da Ordem.

 [3] PROBER, Kurt, História do Supremo Conselho do Grau 33.’. do Brasil, vol. I/1832 a 1927, Livraria Kosmos Editora, Rio de Janeiro, 1981, pg. 162.

 [4] SUPR∴ CONS∴ DO BRASIL PARA O RIT∴ ESC∴ ANT∴ E AC∴ , Grandes Constituições Escocesas, 7ª ed., Ed. Dois Irmãos, Rio de Janeiro, 1984, pg. 3.

 [5] GRANDE ORIENTE DO BRASIL, Constituições do G O B – 1977, Constituição de Anderson – 1723, Landmarks e Documentos Antigos, Gráfica do G∴ O∴ B∴ com Selo e Timbre do Grande Oriente do Brasil, Rio de Janeiro, s/d, pg. 71.

 [6] CLARKE, J. R., The Change from Christianity to Deism in Freemasonry in Ars Quatuor Coranatorum, vol. 78, Anais da Quatuor Coronati Lodge Nº 2076, London, 1965, pg. 49.

 [7] ALBERTON, Valério, O Conceito de Deus na Maçonaria, Ed. Aurora, Rio de Janeiro, 1981, pg. 79.

 [8] Ver a íntegra da Bula “In Eminenti” no livro antimaçónico de KLOPPENBURG, Boaventura, A Maçonaria no Brasil, Ed. Vozes, Petrópolis, 1961, pg. 317.

 [9] ASLAN, Nicola, Landmarques e outros Problemas Maçónicos, Editora Aurora, Rio de Janeiro, s/d.., pg. 171.

 [10] CRYER, N. Barker, The De-Christianizing of the Craft in Ars Quatuor Coranatorum, vol. 97, Anais da Quatuor Coronati Lodge Nº 2076, London, 1984, pg. 44.

 [11] CASTELLANI, José e RODRIGUES, Raimundo, Análise da Constituição de Anderson, Ed. Maçónica “A Trolha”, Londrina, PR, 1995, pg. 53.

 [12] CRYER, N. Barker, opus cit. , pg. 34-74.

 [13] HORNE, Alex, Ars Quatuor Coronatorum, vol. 80, 1967, pg. 301.

 [14] GRANDE ORIENTE DO BRASIL, Constituição do Grande Oriente do Brasil, Gráfica do G∴ O∴ B∴, 1995, pg. 2.

 [15] SUPREMO CONSELHO DO BRASIL PARA O R∴ E∴ A∴ A∴ , Estatuto, 10ª ed, Bloch Editores, Rio de Janeiro, 1986.

[16] BRODSKY, M. L., Why Was the Craft De-Christianised? in Ars Quatuor Coranatorum, vol. 99, Anais da Quatuor Coronati Lodge Nº 2076, London, 1986, pg. 152.

2 Comentários em “O Congresso de Lausanne

  • No artigo supra, o Congresso de Lausanne, traz para dentro da Maçonaria a figura de Frederico Rex, como grande Inspetor e autor das grandes constituições.
    Até quando Frederico vai navegar , nos meios por onde nunca andou.
    sabe-se que ele apenas foi Iniciado na Ordem, juntamente com seu ajudante.
    não passou ele de apenas um Aprendiz.
    porque aumentar o que não pode e nem deveria.

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    • Obrigado pelo esclarecimento.

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