Rito de York: uma breve apresentação

Rito de YorkA bem da verdade devemos ter em mente que, nos Estados Unidos da América, o termo “Rito de York” refere-se apenas aos Altos Graus (de Mestre de Marca a Cavaleiro Templário e outras Ordens anexas), assim como o Rito Escocês Antigo e Aceito, refere-se apenas aos graus compreendidos entre o 4° ao 33°. As Lojas simbólicas lá são chamadas de Blue Lodges e os rituais que estas Lojas seguem são chamados de Monitores de Webb, não se relacionando portanto os graus azuis com o termo “Rito” (nem de York e nem Escocês).

O Rito de York, tem a sua origem marcada em 26 de Setembro de 1797, a partir da publicação de uma compilação dos Graus Azuis, Capitulares e Ordens de Cavalaria, feita pelo irmão Thomas Smith Webb. É hoje o rito maçónico mais praticado no mundo, haja vista que é o rito predominante nos Estados Unidos da América, onde se concentram dois terços dos maçons de todo o globo. Vale ressaltar também que é um rito praticado há quase 220 anos praticamente sem alterações dos seus rituais originais.

Segundo o irmão Norris Abbott, no seu artigo Founding Father of the York Rite, isto é, O fundador do Rito de York, o irmão Thomas SmithWebb, em 1797, aos 26 anos e morando em Albany, capital do estado de New York (EUA), escreveu a sua obra literária intitulada Freemason’s Monitor or Illustrations of Masonry (Monitor dos Maçons ou Ilustrações da Maçonaria), baseando-se na obra inglesa praticamente homónima de William Preston (1772), que era um homem que dedicou todo o seu tempo ao estudo e aperfeiçoamento do Ofício Maçónico e das suas prelecções.

A obra de Webb ficou conhecida como Webb’s Monitor, ou Monitor de Webb em Português, e lhe rendeu fama internacional, tornando-se um verdadeiro padrão de ritual dos graus do Rito Americano (graus simbólicos e altos graus) na maioria das Grandes Lojas americanas.

A Webb também é atribuída a organização do Rito de York em corpos separados, que antes estavam desorganizados e trabalhando sobre jurisdição de Grandes Lojas juntamente às Lojas Simbólicas. Foi ele quem fundou e colocou os Graus Capitulares sob a égide do General Grand Royal Arch Chapter que hoje é o corpo maçónico mais antigo da América. Com o seu zelo maçónico incansável, realizou também a formação do Acampamento St. John dos Cavaleiros Templários, hoje a Comanderia St. John n°1 de Cavaleiros Templários, de Providence – Rhode Island em 1802, o primeiro de todos os corpos Templários na América. Depois trabalhou na formação o Grande Acampamento de Cavaleiros Templários dos Estados Unidos em 1816.

De acordo com Leyland (apud Abbott, 1971):

“Foi o génio de Webb que viu no campo da Maçonaria a necessidade de fortes organizações nacionais e estaduais para preservar, fortalecer e propagar as cerimónias maçónicas, que antes praticadas de forma avulsa, descontrolada e às vezes vaga, agora são firmemente conhecidas como Rito Capitular e Ordens Templárias.”.

Segundo o que traz o Blog York Rite Freemasonry, na seção Information on Degrees, o Rito de York é baseado nos rituais do antigo Ofício Maçónico praticado na Inglaterra nas primeiras décadas de 1700. A formação da Grande Loja de Londres e Westminster em 1717 (tida como a primeira Grande Loja da Inglaterra e do mundo) especificava que as Lojas só estavam habilitadas a conferir os graus de Aprendiz Admitido (Entered Apprentice), Companheiro de Ofício (Fellowcraft) e Mestre Maçon (Master Mason), sendo todos os outros graus existentes considerados espúrios. No entanto, muitas Lojas que conferiam outros graus e que os consideravam parte primordial da educação maçónica, em especial o grau do Real Arco, formaram a sua própria Grande Loja em 1751 denominando-se “os Antigos” e chamando pejorativamente os membros da primeira Grande Loja de “os Modernos”. Esta foi a primeira grande cisão da Maçonaria especulativa.

Entretanto, existe um outro motivo para este cisma. Acontece que quando Samuel Prichard publicou num jornal local de Londres o seu “Maçonaria Dissecada” em 1730 (primeira inconfidência maçónica), esta “Primeira Grande Loja” mudou os sinais e alguns detalhes dos rituais para que profanos, conhecedores destes sinais revelados pela exposição de Prichard, não se fizessem passar por Maçons para se beneficiar do fundo de socorro que existia na época.  Diz-se que após algum tempo, alguns irmãos irlandeses e escoceses, ao tentarem visitar Lojas inglesas, não foram admitidos pois não sabiam os novos e “modernos” modos de reconhecimento, e além disto acabaram por ser um tanto quanto marginalizados pela Maçonaria inglesa (é válido dizer que tratando-se de ritual maçónico os irlandeses e escoceses são consideravelmente mais antigos do que os ingleses).

O fato causou um grande desconforto nos irmãos visitantes, pois eles estavam de posse de todos os sinais, toques e palavras correctos e consideravam que a Grande Loja de Londres não tinha autoridade nenhuma para fazer estas alterações.

Estes irlandeses, escoceses e também os ingleses descontentes com as posturas “moderninhas” da primeira Grande Loja (principalmente no que tange aos Altos Graus que foram considerados irregulares) fundaram a Grande Loja dos Antigos em 1751 (Mui Antiga e Honorável Fraternidade de Maçons Livres e Aceitos), retornaram às praticas anteriores e diziam praticar “a verdadeira e ANTIGA Maçonaria de YORK”, aqui referindo-se naturalmente à lenda de Athelstan e da cidade de York como berço mítico da Maçonaria, lenda esta contida em diversas versões das Antigas Obrigações (Old Charges) que datam do século XIV.

A Grande Loja dos Antigos “explorou” o fato de trabalhar com outros graus além dos três simbólicos e cresceu muito, incomodando a Grande Loja dos Modernos. Esta disputa foi hostil e perdurou até 1813 quando as duas Grandes Lojas se unificaram na hoje conhecida Grande Loja Unida da Inglaterra (United Grand Lodge of England), e quando isto aconteceu os dois lados tiveram de abrir mão de certas coisas. Os rituais praticados na Inglaterra após a união tenderam mais para o lado dos Modernos, mas estes tiveram que “engolir” a pratica do Real Arco (ou Arco Real como os ingleses chamam): um firme e solene landmark foi firmado entre as Grandes Lojas rivais, adoptado e colocado no “Act of Union” para guiar os maçons por todo o mundo, e para sempre nesse assunto, assim determina: “Está declarado e pronunciado que a pura Maçonaria Antiga consiste em três graus e nenhum mais, isto é, os de Aprendiz Admitido, Companheiro de Oficio e Mestre Maçon, incluindo a Suprema Ordem do Sagrado Arco Real. Porém este artigo não visa impedir qualquer Loja ou Capítulo de reunir-se em qualquer dos Graus das Ordens de Cavalaria, de acordo com as Constituições das citadas Ordens.”.

Segundo nos explica o irmão Luiz Albani Neto no seu trabalho Rito York americano e involução ao Rito York inglês (emulation rite), no entanto, na Inglaterra os moldes do Real Arco seguiram de um modo diferente do americano, embora a essência seja bem semelhante. É de certa relevância dizer que, embora existam vários indícios da prática do Real Arco anteriormente na Irlanda e na Inglaterra, o primeiro registro que se tem da colação do grau de Maçon do Real Arco aconteceu na América, na Loja Friedericksburg, Virgínia, EUA, em 22 de Dezembro de 1753, de acordo com os irmãos Hugo Borges e Sérgio Cavalcanti no seu Rito York – Graus Capitulares.

Não é difícil perceber que a unificação das Grandes Lojas inglesas rivais (1813) deu-se após a “fundação” do Rito de York nos Estados Unidos da América (1797), e quem já conhece os graus simbólicos do Rito de York sabe que eles, como já enunciado aqui, são mais pendentes ao lado dos Antigos e não foram abalados pelas alterações da unificação.

Quando os Estados Unidos da América foram colonizados muitos eram os imigrantes irlandeses, escoceses (Antigos) e obviamente os ingleses (Modernos), então ambas as Grandes Lojas inglesas, além das Grandes Lojas da Irlanda (fundada em 1725) e da Escócia (fundada em 1736), estas últimas de grande afinidade para com os Antigos e consequentemente nenhuma para com os Modernos, povoaram maçonicamente a “Nova Inglaterra” expedindo inclusive cartas constitutivas que conferiam regularidade às Lojas fundadas nos EUA.

Ocorre que quando os Estados Unidos da América se tornaram independentes (1776), os americanos, os colonos irlandeses e escoceses eram quase na sua totalidade favoráveis à independência, e logo a situação gerou bastante animosidade para com aqueles ingleses que eram, por sua vez, defensores da manutenção da colónia sob o poder da coroa inglesa. Maçons irlandeses, escoceses e americanos: adeptos das práticas dos Antigos; maçons ingleses: adeptos das práticas dos Modernos. Estados Unidos da América independentes: adeus ingleses! Adeus Modernos! E assim as práticas dos Antigos prevaleceram nos rituais das Blue Lodges americanas, em 1797 firmou-se o Rito de York, e por isso as alterações da unificação das Grandes Lojas inglesas em 1813 em nada influenciou os rituais americanos.

Afim de elucidar um pouco mais sobre a ritualística das Lojas Simbólicas americanas, é importante relembrar que nos EUA as Lojas praticam os rituais dos três primeiros graus praticamente em uníssono, baseando-se quase todas no Monitor de Webb ou então em rituais que derivaram deste (Rituais de Duncan por exemplo). Para tal uniformização litúrgica, houve em 1843 uma convenção chamada de Convenção de Baltimore visando unanimidade ritualística. Em todo o país, existem pouquíssimas Lojas que praticam o Rito Escocês Antigo e Aceito ou algum outro rito, no simbolismo.

Guilherme Cândido

Bibliografia

  • ABBOTT, Norris G. Jr. Founding father of the York Rite.
  • ALBANI NETTO, Luiz. Capítulo Jacques DeMolay n° 6 de maçons do Real Arco. Rito York americano e involução ao Rito York inglês emulation rite.
  • BLOG YORK RITE FREEMASONRY. Information on Degrees
  • BLOG NORTH RALEIGH MASONIC LODGE. York Rite
  • BORGES, Hugo; CAVALCANTI, Sérgio. Rito York: os graus capitulares. João Pessoa – PB: Editado pelos autores, 2011.
  • ISMAIL, Kennyo. Rito de York. 2010. 2015.
  • NASCIMENTO, Ricardo S. R. De um antigo e famoso documento da maçonaria operativa – Notas de estudo. Brasília – Grande Oriente do Brasil – 1999.
  • NEWELL, Barry. Chronological Order of the York Rite Degrees
  • RIBEIRO, João Guilherme C. O nosso lado da escada: história, prática e faqs sobre os graus capitulares do Rito de York. 1ª Ed. – Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2012.

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Um Comentário em “Rito de York: uma breve apresentação

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    Parabéns.Maravilhosos temas

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