Tentar explicar em que consiste o ensino iniciático é uma verdadeira aposta porque a explicação deformará inevitavelmente o que ele é em si-mesmo. Vejamos então o que ele não é :
- um prolongamento do ensino académico;
- a antítese deste último;
- um sistema filosófico? Não tem senão a aparência;
- uma ciência especializada? A ciência é um saber, o simbolismo alcança o conhecimento pela Iniciação.
Se reconhecemos que é impossível explicar claramente como funciona o ensino iniciático pelo expediente do simbolismo ao menos podemos tentar fazer sentido a sua natureza e sobre a qual nos equivocamos geralmente.
Neste ensino iniciático, o símbolo toma-se o meio de exprimir o inexprimível, é então a base de uma linguagem muda, mas significante, o que toma a unir numa certa medida a filosofia do significante e do significado, mas esta medida alarga-se consideravelmente no contexto iniciático onde não é o intelecto só a apreender, mas cede o passo à inteligência do coração, a uma percepção cultural, isto é não desnaturada, por um envolvimento sociocultural.
Temos então um tema com duas ordens de concepções: a profana e a iniciática. Entendamo-nos ainda uma vez sobre os termos: quem diz profano diz profanação. Pessoalmente ( e não envolvo mais ninguém), rejeito qualquer consideração de elitismo : o profano de hoje poderá tomar-se o iniciado de amanhã. Será falso sustentar uma igualdade natural entre os seres, alguns são mais qualificados do que outros (aplicar-me-ei numa próxima obra a definir estas qualificações).
O simbolismo está, daqui, em relação com a pluralidade dos seres porque é susceptível de múltiplas interpretações e cada um pode aí encontrar a sua correspondência segundo o seu próprio grau de evolução. Isto mesmo mostra a necessidade do simbolismo, meio primordial de transmissão que desperta o conhecimento, o desejo de passar da potência ao acto, do acto à realização.
Na Franco-Maçonaria, o trabalho de um Mestre não é formar o Aprendiz de Maçom, mas de desenvolver nele o seu próprio plano de realização individual. De facto, por muito paradoxal que isto possa parecer, o ensino iniciático não ensina, prepara ao acesso efectivo da iniciação. Não responde nunca directamente à questão de um Aprendiz, porque a resposta do Mestre seria a sua própria, ora, existem muitas outras que o mestre ignora: ele sugere, e muitas vezes, é o Mestre que (de uma certa maneira) é (re) ensinado.
Ensino iniciático = humildade, pelo que coloca constantemente questões.
É inútil fingirmos que não vemos: a iniciação praticada na Franco-Maçonaria é simbólica (ainda que virtual), não é o suporte de uma iniciação efectiva que pode tomar-se verdadeira na progressão individual do Maçon. Um autêntico Maçon pode pressentir o seu grau de iniciação ( que ele calará), não pode dizer Eu sou iniciado, isto seria o mais seguro meio de afirmar o contrário.
Em todo o caso, o iniciado ou não (e está aqui um dos grandes segredos maçónicos), o Maçon julga-se capaz, por intermédio do simbolismo de transmitir o que por vezes não compreende, nem os defensores nem as consequências nem a importância. Já não é o indivíduo que conta, mas a sua função. Basta que a tradição (simbólica) seja mantida intacta para que o ensino actue.
Eis, portanto, revelado o Grande Segredo Iniciático : inviolável na sua essência que se defende ele próprio da curiosidade senão malsã pelo menos profana. O único mistério permanece o inexprimível que cada um pode descobrir em si e, em seguida, partilhar com os outros. Mas esta descoberta não tem, afinal, nada de intelectual: um pastor sonhando sob as estrelas, e, não tendo senão um vocabulário limitado, tem certamente mais qualificações iniciáticas que o autor deste livro.
O ensino maçónico tende a realizar, pelo simbolismo, o plano cósmico do Grande Arquitecto do Universo ligando novamente o macrocosmos ao microcosmos: na ocorrência, o Maçon que completa a sua própria realização individual. O resultado desta realização implica o desenvolvimento de faculdades adormecidas, ignoradas, a descoberta das suas múltiplas constituintes aparentemente opostas, umas às outras, a compreensão destas oposições que, de facto, obedecem à lei dos contrários, o meio de os dissociar, de os localizar, de os aceitar, de os compreender, de os harmonizar: porque não há entre elas nem superioridade nem inferioridade, mas somente uma dimensão de complementaridade.
Tal é a Ordem universal, tal é o Homem universal.
Visto assim na sua universalidade, o ensino iniciático acompanha tantas aplicações como variedades: o todo está compreendido no mesmo princípio de transcendência em cada ser, único em si, tudo como a Loja Maçónica se considera única em si mesmo.
Esta variedade natural adapta-se ao símbolo a menos que não seja o símbolo que se adapta a ela ou ainda que os dois tipos de figuras se interpenetrem. Seja como for, o múltiplo toma-se UM sem que haja duas coisas idênticas no Universo.
Talvez se comece a compreender como o caminho maçónico é longo, difícil, doloroso: ele não é senão uma preparação para receber o verdadeiro conhecimento iniciático pelo efeito de um trabalho de grupo, mas, mais ainda pelo esforço individual. É esta actividade pessoal que abrirá possibilidades ilimitadas, as quais não serão mais encerradas nos limites da teoria sistemática ou a fórmula de um dogma.
Resta saber até onde pode ir este ensino iniciático, em que condições pode existir, e como estas condições são realizáveis em Franco-Maçonaria.
Cada uma destas questões merecia ser amplamente desenvolvida; os próximos capítulos ser-lhes-ão consagrados sem, todavia, fornecerem outra coisa senão temas de reflexão, pois seria uma vã pretensão querer esgotar um assunto cujos horizontes são verdadeiramente ilimitados.
Ter a disposição de espírito requerida para abordar um tal ensino seria já um grande passo em frente. Ter-se-á então a representação sintética e esquemática do conjunto que se chama a simbólica e cada um poderá apreender segundo as suas aptidões: pois o significado simbólico é profundo, sem fim, e adapta-se a todas as categorias de mentalidade ou de inteligência.
Autor desconhecido

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