Simbolismo da Maçonaria X: O Sistema de Instrução Simbólica

Partilhe este Artigo:

instrução

As palestras das lojas inglesas, que são muito mais filosóficas do que as nossas – embora eu não acredite que o sistema em si seja, em geral, tão filosoficamente estudado pelos nossos irmãos ingleses como por nós – definiram maravilhosamente a Maçonaria como sendo “uma ciência da moralidade velada em alegoria e ilustrada por símbolos”. Mas a alegoria em si não é outra coisa senão simbolismo verbal; é o símbolo de uma ideia, ou de uma série de ideias, não apresentadas à mente numa forma objectiva e visível, mas revestidas de linguagem, e exibidas sob a forma de uma narrativa. E, portanto, a definição inglesa equivale, de facto, a isto: que a Maçonaria é uma ciência da moralidade, desenvolvida e inculcada pelo antigo método do simbolismo. É este carácter peculiar como instituição simbólica, esta adopção completa do método de instrução pelo simbolismo, que dá toda a sua identidade à Maçonaria, e que a fez diferir de todas as outras associações que o engenho do homem concebeu. Foi isto que lhe conferiu aquela forma atraente que sempre assegurou o apego dos seus discípulos e a sua própria perpetuidade.

A Igreja Católica Romana [37] é, talvez, a única instituição contemporânea que continua a cultivar, em qualquer grau, o belo sistema de simbolismo. Mas aquilo que, na Igreja Católica, é, em grande medida, incidental, e fruto do desenvolvimento, é, na Maçonaria, o próprio sangue vital e alma da instituição, nascido com ela no seu nascimento, ou, melhor, o germe do qual a árvore brotou, e que ainda lhe dá apoio, nutrição e mesmo existência. Retirai à Maçonaria o seu simbolismo e retirareis ao corpo a sua alma, deixando para trás nada mais do que uma massa sem vida de matéria efémera, apta apenas para uma rápida decadência.

Uma vez que, então, a ciência do simbolismo forma uma parte tão importante do sistema da Maçonaria, será bom começar qualquer discussão sobre esse assunto por uma investigação da natureza dos símbolos em geral.

Não há ciência tão antiga como a do simbolismo [38], e nenhum modo de instrução foi tão generalizado como o simbólico em épocas passadas. “A primeira aprendizagem no mundo”, diz o grande antiquário, Dr. Stukely, “consistia principalmente em símbolos. A sabedoria dos caldeus, fenícios, egípcios, judeus, de Zoroastro, Sanchoniathon, Pherecydes, Syrus, Pitágoras, Sócrates, Platão, de todos os antigos que chegaram até nós, é simbólica.” E o erudito Faber observa que “a alegoria e a personificação eram peculiarmente agradáveis ao génio da antiguidade, e a simplicidade da verdade era continuamente sacrificada no santuário da decoração poética.”

De facto, a instrução mais antiga do homem foi através de símbolos [39]. O carácter objectivo de um símbolo é o mais adequado para ser apreendido pela mente infantil, quer a infância dessa mente seja considerada a nível nacional ou individual. E, assim, nas primeiras idades do mundo, na sua infância, todas as proposições, teológicas, políticas ou científicas, eram expressas na forma de símbolos. Assim, as primeiras religiões eram eminentemente simbólicas, porque, como aquele grande historiador filosófico, Grote, observou: “Numa época em que a linguagem estava ainda na sua infância, os símbolos visíveis eram os meios mais vívidos de agir sobre as mentes dos ouvintes ignorantes.”

Mais uma vez: as crianças recebem o seu ensino elementar através de símbolos. “A era um arqueiro”; o que é isso senão simbolismo? O arqueiro torna-se para a mente infantil o símbolo da letra A, tal como, depois da vida, a letra se torna, para a mente mais avançada, o símbolo de um certo som da voz humana [40]. A primeira lição recebida por uma criança na aquisição do seu alfabeto é assim transmitida pelo simbolismo. Mesmo na própria formação da linguagem, o meio de comunicação entre homem e homem, e que deve, portanto, ter sido um passo elementar no progresso do aperfeiçoamento humano, foi necessário recorrer a símbolos, pois as palavras são apenas e verdadeiramente certos símbolos arbitrários pelos quais e através dos quais damos expressão às nossas ideias. A construção da linguagem foi, portanto, um dos primeiros produtos da ciência do simbolismo.

Devemos ter constantemente em mente este facto, da existência primária e predominância do simbolismo nos tempos mais antigos [41]. quando estamos a investigar a natureza das religiões antigas, com as quais a história da Maçonaria está tão intimamente ligada. Quanto mais antiga a religião, mais o simbolismo abunda. As religiões modernas podem transmitir os seus dogmas em proposições abstractas; as religiões antigas sempre os transmitiram em símbolos. Assim, há mais simbolismo na religião egípcia do que na judaica, mais na judaica do que na cristã, mais na cristã do que na maometana e, por último, mais na romana do que na protestante.

Mas o simbolismo não é apenas a mais antiga e geral, mas é também a mais útil das ciências na prática. Já vimos como opera activamente nas fases iniciais da vida e da sociedade. Vimos como as primeiras ideias dos homens e das nações são impressas em suas mentes por meio de símbolos. Foi assim que os povos antigos foram quase totalmente educados.

“Nos estágios mais simples da sociedade”, diz um escritor sobre este assunto, “a humanidade pode ser instruída no conhecimento abstracto das verdades apenas por símbolos e parábolas. Daí encontrarmos a maioria das religiões pagãs tornando-se míticas, ou explicando seus mistérios por alegorias, ou incidentes instrutivos. Não, o próprio Deus, conhecendo a natureza das criaturas formadas por ele, condescendeu, nas primeiras revelações que fez de si mesmo, em ensinar por símbolos; e o maior de todos os mestres instruiu as multidões por parábolas [42]. O grande exemplar da filosofia antiga e o grande arquétipo da filosofia moderna distinguiram-se igualmente por possuírem esta faculdade em alto grau, e disseram-nos que o homem era melhor instruído por semelhanças” [43].

Tal é o sistema adoptado na Maçonaria para o desenvolvimento e inculcação das grandes verdades religiosas e filosóficas, das quais foi, durante tantos anos, a única conservadora. E é por esta razão que já observei que qualquer investigação sobre o carácter simbólico da Maçonaria deve ser precedida por uma investigação sobre a natureza do simbolismo em geral, se quisermos apreciar adequadamente o seu uso particular na organização da instituição maçónica.

Albert G. Mackey, M.D.

Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:

Fonte

Notas

[37] O Bispo England, na sua “Explicação da Missa”, diz que em cada cerimónia devemos procurar três significados: “o primeiro, o literal, natural, e, pode-se dizer, o significado original; o segundo, o significado figurativo ou emblemático; e o terceiro, o significado piedoso ou religioso: frequentemente os dois últimos serão encontrados iguais; às vezes todos os três serão encontrados combinados.” Aqui reside a verdadeira diferença entre o simbolismo da igreja e o da maçonaria. No primeiro, o significado simbólico era uma reflexão posterior aplicada ao original, literal; no segundo, o simbólico era sempre o significado original de cada cerimónia.

[38] “Não foi todo o conhecimento dos Egípcios escrito em símbolos místicos? Não falam as Escrituras muitas vezes em parábolas? Não estão as melhores fábulas dos poetas, que foram as fontes e os primeiros mananciais da sabedoria, envoltas em alegorias perplexas?” BEN JONSON, Alquimista, acto ii. sc. i.

[39] O ilustre mitólogo alemão Müller define um símbolo como “um sinal eterno e visível, ao qual está ligado um sentimento espiritual, uma emoção ou uma ideia”. Não tenho conhecimento de uma definição mais abrangente e, ao mesmo tempo, distintiva.

[40] E pode ser acrescentado que a palavra se torna um símbolo de uma ideia; e, portanto, Harris, em seu “Hermes”, define a linguagem como sendo “um sistema de vozes articuladas, os símbolos de nossas ideias, mas principalmente daquelas que são gerais ou universais” – Hermes, livro iii. cap. 3.

[41] “Símbolos”, diz Müller, “são evidentemente coevos da raça humana; eles resultam da união da alma com o corpo no homem; a natureza implantou o sentimento por eles no coração humano.” – Introduction to a Scientific System of Mythology, p. 196, tradução de Leitch. – R. W. Mackay diz: “Os primeiros instrumentos de educação eram símbolos, os símbolos mais universais da Deidade multitudinariamente presente, sendo a terra ou o céu, ou algum objecto seleccionado, como o sol ou a lua, uma árvore ou uma pedra, familiarmente vistos em qualquer um deles” – Progress of the Intellect, vol. i p. 134.

[42] Entre a alegoria, ou parábola, e o símbolo, não há, como já disse, nenhuma diferença essencial. O verbo grego παραβαλλω, de onde vem a palavra parábola, e o verbo συμβαλλω na mesma língua, que é a raiz da palavra símbolo, têm ambos o significado sinónimo de “comparar”. Uma parábola é apenas um símbolo falado. A definição de uma parábola dada por Adam Clarke é igualmente aplicável a um símbolo, viz: “Uma comparação ou semelhança, na qual uma coisa é comparada com outra, especialmente as coisas espirituais com as naturais, por meio da qual essas coisas espirituais são melhor compreendidas e causam uma impressão mais profunda na mente atenta.”

[43] North British Review, Agosto de 1851. Faber faz um elogio semelhante. “Portanto, a linguagem do simbolismo, sendo tão puramente uma linguagem de ideias, é, em um aspecto, mais perfeita do que qualquer linguagem comum pode ser: ela possui a elegância variada dos sinónimos, sem nenhuma das obscuridades que surgem do uso de termos ambíguos.” – On the Prophecies, ii. p. 63.

Artigos relacionados


Partilhe este Artigo:

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *


Scroll to Top