A origem arquitectónica da Maçonaria e a sua base científica, matemático-astronómica, estão claramente marcadas no seu simbolismo primitivo. O compasso aberto sobre o esquadro, a perpendicular, as denominações de “Loja”, “Trabalhos”, “obreiros”, “salários”, “pranchas”, “peças de arquitecturas”, pertencem evidentemente à arte da construção. Os três pontos das abreviaturas maçónicas em forma de triângulo são também eles a representação do esquadro. O Sol envolvendo o símbolo da Providência e as estrelas, que decoram os diplomas e os templos maçónicos, indicam a sua parte astronómica. Os lugares na Loja possuem igualmente a mesma proveniência: o Venerável a Oriente, onde o Sol nasce, o Segundo Vigilante a Sul, onde o Sol marca a metade do dia, e o Primeiro Vigilante a Ocidente, onde o Sol se põe.
A iniciação do Mestre Maçon, ligada à falsa lenda da morte de Hiram (falsa porque está em contradição com a Bíblia, de onde a dizem originária) assemelha-se muito a outra lenda egípcia sobre a morte de Osíris – e as duas lendas, não são mais do que a história anual das posições aparentes do Sol e dos movimentos reais da Terra em redor deste astro, com as naturais consequências da vida do planeta em função deste movimento de translação [1].
O Grande Arquitecto do Universo não é certamente o Jeová hebraico nem o Deus cristão: é a maneira filosófica de representar as forças criadoras e impulsivas da Natureza [2].
Evidentemente que a Maçonaria tenta transmitir aos seus adeptos a compreensão científica [3] da Natureza: as suas festas são realizadas nos solstícios (Natal e S. João): é nelas que se devem celebrar os efeitos do Sol sobre a vegetação terrestre e a vida de todos os seres.
Neste ponto a Maçonaria está de acordo com as festas religiosas dos gregos e romanos, cujas divindades significavam as diferentes manifestações da vida terrestre.
O primeiro artigo de todas as constituições maçónicas tende a dirigir a atenção do homem para o estudo das ciências, das artes, da moral e da solidariedade humana.
A Constituição da Maçonaria portuguesa decretada em 1840 estabelece no seu primeiro artigo: “A Ordem da Maçonaria Lusitana é uma associação de homens livres que tem por fim o exercício da beneficência, a prática de todas as virtudes, e o estudo da moral universal, das ciências e das artes”. Os graus maçónicos primitivos eram apenas três quando se formou a Grande Loja de Inglaterra, o que está de acordo com a origem arquitectural da Ordem.
O iniciado entrava como aprendiz e, naturalmente, (como o nome indica) passava alguns anos a aprender a arte e recebia um pequeno salário; instruído no trabalho tornava-se companheiro dos trabalhadores profissionais; alguns anos mais tarde, reconhecido como artista consumado, ascendia ao grau de mestre, que era o dos grandes artistas, conhecedores da geometria, da resistência dos materiais e da arte sublime de cortar e afeiçoar a pedra.
Parece que entre estes havia uma classe dos mais antigos e dos mais considerados, e nesta classe escolhia-se o Grão-Mestre e os mais altos dignitários da associação.
Quando a Maçonaria chegou a França e à Alemanha, homens especulativos e cheios de imaginação, pertencentes a esses países, transformaram-na introduzindo-lhe simbolismos recolhidos nas lendas das Cruzadas, dos Templários, e dos antigos mistérios dos persas e dos egípcios. Dai o acrescento de novos graus aos três primitivos e a formação de novos ritos. Ramsay, cavaleiro escocês residente em França, fundou o Rito Escocês que teve inicialmente sete graus e, depois vinte e cinco, número que foi aumentando gradualmente até trinta e três. Pelo contrário, os franceses formaram o Rito Francês ou Moderno, com sete graus. Outros ritos foram inventados, tendo mais graus do que o Escocês e houve até quem atingisse noventa e dois [4].
A este respeito, Miguel António Dias, o mais notável escritor maçónico português, na sua História da Franco-Maçonaria, publicado em 1843, escreve (págs. 20 e 23) o que segue:
“Rito Simbólico: este rito é o primitivo na Europa e existe em todo o globo. Os seus fundadores julgaram melhor dar-lhe apenas três graus, nos quais se encontra a tripla força de bem pensar, bem dizer e bem agir. Estes três graus servem de fundamento a todos os outros ritos, salvo a insignificante transposição de algumas palavras, ou algumas variações nas baterias.
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Rito Escocês: este rito foi fundado por um barão escocês; no seu começo era apenas composto de sete graus, que aumentaram até vinte e cinco, mas hoje têm por cortejo trinta e três graus.
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Rito Moderno ou Francês: alguns membros do Grande Oriente de França, fatigados das querelas continuas nos altos graus do Escocês, organizaram o Rito Moderno Francês. Este é composto de sete graus, em duas séries; a primeira, sob o título de Maçonaria Simbólica ou Azul, compreende os três primeiros graus; a segunda, chamada Maçonaria dos altos graus ou Maçonaria Vermelha, encerra quatro ordens ou graus místicos.”
Na história da Maçonaria portuguesa que se vai ler, faremos notar que a Rito Simbólico proveniente da Grande Loja de Inglaterra era praticamente o único conhecido em Portugal até ao final do séc. XVIII. Após a Revolução Francesa, diversos maçons franceses chegados a este país aqui fizeram a propagação do seu Rito Moderno que a Constituição Maçónica de 1822 prescrevia às Lojas do Grande Oriente Lusitano (Arquitectura Mística, prólogo). Em 1839, Silva Carvalho, no seu desapontamento por não ter sido reeleito Grão-Mestre, introduziu entre nós o Rito Escocês, de acordo com maçons brasileiros.
Em 1843, o conde de Tomar e Moura Coutinho receberam igualmente, por delegação do Brasil, os últimos graus deste rito que, mais tarde, se nacionalizou e se difundiu em Portugal.
Em 1882, houve nova revivificação do Rito Simbólico, que chegou a reunir dezoito Lojas, das quais só restam duas no Oriente Lusitano. Mas este rito, seguido ainda em algumas Lojas inglesas e norte-americanas, está muito propagado noutros países, sobretudo na Itália, onde conta com numerosas Lojas em várias cidades. E ainda apreciado pelo seu espírito democrático, que impede vaidosas exibições e distinções de lugares na Loja, visto que conta apenas três graus e que as suas insígnias são de uma simplicidade primitiva, sem figurações ornamentais.
Autor desconhecido
Notas
[1] Mas não se trata, obviamente, de uma «falsa lenda» (aliás não há falsas lendas nem «lendas verdadeiras») – trata-se, isso sim, de um mito tanto no caso de Hiram como no de Osíris. Mitos semelhantes com uma simbologia comum. E, como todos os símbolos, têm estes também a sua correspondência na realidade. «O que está em baixo é como o que está em cima» e vice versa, como nos ensina a Tábua de Esmeralda. (A. C. C.).
[2] E é essencialmente um símbolo carregado de significado, o que nada tem a ver com qualquer «maneira filosóficas de representação. (A. C. C.).
[3] Se assim fosse, não haveria diferença entre Maçonaria e qualquer instituição científica e, portanto, profana. O Importante aqui não é o conhecimento científico, mas antes o conhecimento iniciático. (A. C. C.).
[4] Todos estes ritos podem ser vistos nos livros citados no parágrafo anterior (N. do A.).

- A Constituição de Anderson
- Ritual de Emulação
- Formação – O Avental do Aprendiz
- A importância da Maçonaria para a Família
- Gomes Freire conspirou? Certamente, mas…

