Tudo depende de como queremos ver – a evolução dos Ritos

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Platão dizia que a perfeição do círculo existe apenas na mente, o que induz pensar que em nenhum lugar do Universo existe um círculo perfeito, apenas na imaginação humana. Criar círculos na mente deixa claro o poder da mente em desenvolver novas e inusitadas ideias, induzidas pela diversidade com que foi projectado o Universo. Neste mundo de ilusão sensorial tudo depende de como queremos ver. Inúmeros foram os círculos que os homens já desenharam e esculpiram, na sua maioria manifestação da arte fútil que agrada à sensibilidade do observador. É semelhante à diversidade de ritos da Maçonaria, a arte útil que visa o homem. A diversidade de ritos na Maçonaria é a razão da sua sobrevivência.

Debates entusiásticos a favor e contra a flexibilidade do Rito Escocês Antigo e Aceite deram conta da existência de divergências do “rito original”, o que, segundo opinião de pensadores maçons, estaria a destruir a Maçonaria de dentro para fora; as suas críticas são severas e contundentes contra as modificações do rito introduzidas nas diversas obediências, inclusive em lojas de uma mesma obediência. Estes analistas sérios e bem intencionados desejam voltar ao “rito original”, o que, em face da diversidade vigente, constitui tarefa difícil, senão impossível; o rito de hoje é resultante da flexibilidade da Maçonaria e da vontade de homens igualmente pensadores ilustres ao longo do tempo.

O rito presta-se a estabelecer costumes e, pela repetição, mudar pessoas em determinada época. Ademais, quanto o “rito original”, ao qual se pretende voltar, é de facto original? “Neste mundo nada se cria, tudo se copia”; todo saber humano deve a sua existência a incontáveis ciclos de tese, antítese e síntese. Não será este “rito original” cópia de ritos anteriores? Os ritos mudam constantemente. Em que é que a mudança é prejudicial? São as estruturas físicas enrijecidas, que se opõem ao movimento, duras, que mais têm possibilidade de quebrar na presença das oscilações, vibrações, mudanças de um Universo vivo, cheio de energia. A estrutura flexível da Maçonaria tem a capacidade de sobreviver mais tempo; é como na alegoria do grande, rijo e velho carvalho e a esguia, jovem e frágil haste de trigo, quando submetidos à força do vento, um quebra o outro verga; qual deles sobrevive?

Observem-se as complicações geradas pelos imutáveis Landmarks e que engessam a instituição maçónica numa realidade do passado. Existem diversas compilações, qual delas é original? Hoje algumas das leis naturais básicas extraídas dos Landmarks estão defasadas em relação a presente realidade e dinâmica social. Alguns Landmarks são discutíveis, ilógicos. Mas é a lei! Lei não se discute, obedece-se! Rito não é lei, é modelo; passível de modificação. E é o que os homens fazem: adaptam o rito para a sua realidade, a sua época. As leis também se adaptam no tempo, entretanto a compilação dos vinte e cinco Landmarks de Mackey atrofia-se quando reza imutabilidade; até onde se sustenta imutável só a sabedoria dos homens do futuro definirão. Albert Pike, com ironia e pensamento arguto irrefutável demoliu, no seu tempo, o que hoje ainda sufoca a Maçonaria; reduziu os vinte e cinco Landmarks de Mackey a apenas cinco. Ritos e leis mudam na corrente do tempo; apenas uma única lei é imutável para o homem, oriunda dos actos criativos do Grande Arquitecto do Universo: a lei do amor fraterno.

Do movimento que é característica do mundo vivo, as modificações introduzidas no Rito Escocês Antigo e Aceito foram salutares e prestam-se a materializar homens aperfeiçoados para a sociedade humana em qualquer época. Muda o homem, muda a ideia, mas o símbolo é o mesmo. Percebe-se que as mudanças no rito são função do movimento, de palavras, de ideias; os símbolos são os mesmos: compasso, esquadro, nível, prumo, maço, cinzel, régua, espada, trolha, etc. Basta preservar os símbolos! O que aconteceria se substituírem a espada por uma espingarda AR15, a pena do secretário por um laptop, o cinzel por uma britadeira?

Mudarem palavras do ritual, a forma de circulação em loja, criar novos aventais, novos estandartes, não muda o “antigo e aceito” rito escocês! Trata-se do mesmo rito! O rito assim como os seus símbolos, é apenas arquétipo, modelo; as réplicas mais antigas serviram aos homens da sua época; vive-se outra realidade; constroem-se outros círculos perfeitos na imaginação e imperfeitos na realidade; da mesma forma surgem novos procedimentos para representar os mesmos ritos, só que ligeiramente adaptados ao seu tempo. Não interessa o método usado para construir círculos perfeitos, o que realmente interessa é que estes transmitam beleza para sensibilizar homens e transformar a sua maneira de ver as verdades sob outro prisma; introduzir mudanças nos ritos tem a mesma função. É só preservar os símbolos que o rito não muda!

Homens são criaturas emocionais, espirituais e racionais a um só tempo, prevalece a característica que cada um mais alimenta; separar cada elemento destes e tratá-los em separado é técnica preconizada pelo mecanicismo. Daí a necessidade de tolerância na convivência com homens racionais, detalhistas e substancialmente técnicos, que insistem em preservar o “rito original” apenas porque as suas mentes, assim treinadas, insistem em colocar tudo em funcionamento como se fosse um antigo relógio de algibeira; um homem saudável seria um bom relógio, um homem decaído um péssimo relógio! É o mecanicismo de Descartes, caracterizado por dividir processos complicados em estruturas simplificadas e estanques, para então proceder à análise separada de cada componente. Em sistemas dinâmicos isto não funciona. Enquanto se estiver analisando uma das partes, as outras são negligenciadas; resultado: o todo fenece. A geometria é bela, mas para sistemas dinâmicos como a evolução humana ela é limitadora, castradora, morta. O mecanicismo influi em todas as ciências e só pouco a pouco cede lugar para análises que contemplam o todo e não apenas uma parte isolada de um processo. Voltar ao “rito original” é conservadorismo, simplificação e saudosismo; é influência mecanicista daqueles que olham o rito apenas como parte isolada de um sistema e esquece-se do homem que se conecta ao rito para crescer e melhorar-se. Diante do movimento, do avanço do tempo, o rito e o homem são um; o homem evolui e o rito com ele.

Para matar um rito é fácil: mudem-se os símbolos! Endureça-se o coração dos homens para que se neguem a efectuar mudanças em si; admitam-se nas lojas homens não dispostos a acordos, selvagens, viciados em drogas, imorais, politiqueiros, materialistas, ateus; negligenciem-se: estudo de temas da sociedade, sindicâncias para admissão de novos, desenvolvimento da espiritualidade, tratamento fraterno e amoroso; e outras mazelas. Observe-se que o fundamento da Maçonaria não está nos ritos, mas nos homens que a compõem e usam dos ritos como arquétipos, modelos para se relacionarem e se influenciarem para o bem. Rito é instrumento de trabalho, homem é matéria prima em modificação. Qual tem maior valor, a ferramenta ou a obra de arte? Toda atenção da Maçonaria é direccionada no sentido de mudar homens através da sua autoconstrução, e nisto o rito é apenas coadjuvante, arquétipo, modelo, nunca director. Paredes não debatem, ritos não se abraçam, são os homens que estão dentro templo os que interagem entre si e influenciam-se uns aos outros e se abraçam, para se reunirem utilizam um rito, uma simples ferramenta para se auto-desenvolver. Se os homens mudam porque o rito deve permanecer inalterado?

Partindo da ideia que na Natureza tudo se modifica, nada é igual na linha do tempo, é nas pequenas diferenças entre as diversas réplicas do “rito original” que reside a força do Rito Escocês Antigo e Aceite como elemento de transformação de homens. Todos os ritos da Maçonaria têm o mesmo potencial. Cada rito oferece características diferentes que se adaptam à diversidade de homens espalhados pelo Orbe. Voltar ao “antigo e aceito” rito escocês é o mesmo que eliminar todos os ritos diferentes, transformando-os num só; ou reunir todas as obediências numa única. O que embeleza e fortalece a Maçonaria é a maravilhosa diversidade, sob qual se albergam as colunas da maioria das linhas de pensamentos filosóficos e crenças religiosas. Com isto possibilita-se o ambiente seguro para o debate das necessidades da sociedade sem que os debatedores se matem uns aos outros. A Maçonaria é o único foro seguro para solucionar todos os problemas da humanidade, algo só possível pela actuação do amor fraterno, aquilo que o Grande Arquitecto do Universo revela e escreve na Natureza.

Ninguém está a matar o rito maçónico, o Maçom enriquece, melhora, adapta o rito às novas realidades na linha do tempo. Boa solução é aquela que preconiza flexibilidade e diversidade. É só preservar os símbolos e deixar o pensamento fluir. Semelhante ao desenvolvimento de perfeitos, lindos e maravilhosos círculos na mente, o Maçom aprende com a linguagem e traços do Grande Arquitecto do Universo que escreve a realidade na mais caótica diversidade. O homem foi projectado para admirar a diversidade. O Maçom progride no “conhece-te a ti mesmo”, de Sócrates, quando observa a Natureza e abandona a tendência de insistir em colocar tudo dentro de moldes estanques; condicionados às limitações impostas pela realidade, à ilusão, dos seus sentidos presentes neste pequeno grão de areia onde ele se encontra recluso.

Imagine o absurdo de Kepler colocando a órbita de um planeta nas linhas definidas por um cubo, esta era a realidade dele, a do hodierno Maçom é outra, mas igualmente limitada. Ao criar lindos e perfeitos círculos na mente, exercitando a capacidade de pensar, o Maçom cria novos e inusitados instrumentos que alargam a visão do Universo e também se conscientiza da sua responsabilidade para consigo mesmo e a sociedade onde está simbioticamente imerso. Diante da constante mutação da Natureza e, consequentemente, do homem, os ritos vão se diversificando, cada um deles vai se modificando, acompanhando a evolução da sociedade; a Maçonaria é evolucionista, acredita na mudança do homem para melhor, razão de investir nele e perseverar em melhorar as ferramentas, os ritos.

Para evitar desgastes e perda de foco ao que realmente interessa na Maçonaria, cabe ao Maçom nadar a favor da correnteza do tempo para não se cansar e desistir de promover o crescimento do homem, e principalmente dele mesmo. Se o Maçom é agente de mudanças, deve ele mesmo estar susceptível às mudanças que o tempo e a sabedoria lhe impõem. Mudança começa consigo mesmo e depois se propaga em tudo aquilo que o rodeia. Citando Bertolt Brecht: “Desconfiai do mais trivial, na aparência singela. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar”.

O Rito Escocês Antigo e Aceite continuará a modificar-se sem que isto cause a queda da Maçonaria ou o desgaste do rito. O que destrói o rito é o homem que, a semelhança de Kepler, não consegue formar círculos na sua imaginação devido à imaginação embotada, limitada; que ainda não alargou os seus horizontes e não aguçou o seu pensamento para além dos limites impostos aos seus sensores. Ao invés de voltar ao passado é essencial projectar o futuro, livrar-se das amarras da mesmice e pensar de forma proactiva para desenvolver e adaptar ritos mais eficientes da dança eterna dos ciclos de tese, antítese e síntese. Que os ritos construam homens que pensam sem preconceitos e estejam esclarecidos ao ponto de entenderem aquilo que o Grande Arquitecto do Universo escreve e desenha de forma aparentemente caótica, e onde, no meio da evidente confusão, acende a chama da vida.

Charles Evaldo Boller

Bibliografia

  • ASLAN, Nicola, Landmarks e Outros Problemas Maçónicos, Volume 1, ISBN 85-7252-044-9, terceira edição, Editora Maçónica a Trolha limitada., 240 páginas, Londrina, 2010;
  • CORTEZ, Joaquim Roberto Pinto, Maçonaria, Conceitos Litúrgicos, Ritualísticos e Históricos, ISBN 978-85-7252-279-3, primeira edição, Editora Maçónica a Trolha limitada., 204 páginas, Londrina, 2010;
  • GLEISER, Marcelo, Criação Imperfeita, ISBN 978-85-01-08977-7? Primeira edição, Editora Record, 366 páginas, São Paulo, 2010;
  • ISRAEL, Jonathan I., Iluminismo Radical a Filosofia e a Construção da Modernidade 1650-1750, Radical Enlighttenment, Philosofy, Making of Modernity, 1650-1750, tradução: Cláudio Blanc, ISBN 978-85-370-0432-6, primeira edição, Madras Editora limitada., 878 páginas, São Paulo, 2009;
  • SOUZA FILHO, Ubyrajara de, Cognição e Evolução dos Rituais Maçónicos, ISBN 978-85-7252-278-6, primeira edição, Editora Maçónica a Trolha limitada., 152 páginas, Londrina, 2010.

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