Verdade, Alívio e Amor Fraternal no espelho da auto-reflexão

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A imagem de um espelho pode ser muito útil para compreender a experiência contemplativa, porque é da natureza da nossa consciência, das nossas mentes, reflectir. O termo ‘reflectir’ não se refere apenas ao acto de ponderar sobre algo, mas refere-se ainda mais directamente ao modo como a mente funciona. Todas as imagens que vemos nas nossas mentes – sejam imagens de coisas no mundo ao nosso redor, de memórias, fantasias ou visões inspiradas – são representações de coisas e não as próprias coisas. Este processo também é verdadeiro para todos os nossos outros sentidos, mas nada representa melhor a natureza reflexiva da mente do que a maneira como um espelho funciona para o sentido da visão. Mesmo quando uma pessoa tenta pensar sobre a sua própria mente, o pensamento é apenas uma imagem da mente e, portanto, é uma acção ou parte da mente, mas não a própria mente.

Estas últimas afirmações indicam como pensar sobre algo pode realmente interferir na nossa capacidade de estar tão autenticamente presente no momento quanto possível e, assim, observar e perceber mais completamente a maior realidade ou verdade do momento. Como exemplo, considere o fenómeno bem conhecido de que pensar demais em fazer algo, como dançar, enquanto na verdade tenta fazê-lo, atrapalha que dancemos tão bem quanto poderíamos. Outro exemplo pode ser encontrado no fotógrafo obsessivo, aquele que não consegue parar de tirar fotos de algo pelo tempo suficiente para simplesmente estar presente na experiência mais directa disso. Quanto mais pensamos sobre algo, menos o experimentamos de facto, seja algo que consideramos externo a nós mesmos ou algo tão interno quanto os nossos mais secretos pensamentos e sentimentos.

Ao praticar meditação silenciosa ou oração contemplativa, a pessoa fica mais aberta para tudo o que surge na consciência, seja uma percepção sensorial em resposta a algo externo ou pensamentos e sentimentos que surgem de outras maneiras. Este tipo de oração é praticado na aceitação fiel do que realmente é, filtrando e distorcendo o mínimo possível com expectativas, regras, análises ou julgamentos. Significa abrir a nossa consciência mais completamente aos factos imediatos da existência e à misteriosa presença do Divino. Portanto, vemos mais claramente a verdade das coisas como elas são no momento presente, e menos como em um espelho empoeirado e torto.

Uma das experiências mais comuns em tal prática é uma maior consciência de todos os nossos próprios pensamentos, sentimentos e comportamentos. Além disso, a maioria de nós não gosta de ter consciência da confusão que acontece dentro de nós. Descobrimos que não somos tão racionais, centrados, harmoniosos, praticamente competentes, emocionalmente seguros, intelectualmente certos, espiritualmente iluminados ou moralmente virtuosos como gostamos de fingir para os outros e para nós mesmos. Na verdade, quem pratica isto por demasiado tempo acaba por ver em si mesmo as sementes, senão as mudas, ou mesmo os rebentos, de todos os pecados já cometidos por alguém.

Existem muitas formas de reagirmos ao nos olharmos naquele espelho. Não tenho dúvidas de que um senso intuitivo destas possibilidades, se não alguma experiência real delas, leva algumas pessoas a considerar a prática contemplativa muito perigosa e até mesmo falar dela como arriscar uma possessão demoníaca. Estes tipos de medos devem ser respeitados pelos indivíduos que os dominam, porque muita verdade crua pode ser prejudicial quando não estamos preparados para lidar com ela. No entanto, para outros, o choque inicial e o horror da sua desilusão existencial são finalmente aliviados, dando lugar a uma reverência, humildade, gratidão, compaixão, bondade e abnegação mais profundas e autênticas. Tornamo-nos menos sobrecarregados por toda a fragilidade, confusão, fragmentação, desonestidade e negatividade da nossa própria humanidade e da dos outros, e vemos que essas coisas vêm e vão dentro de um contexto maior, a bela totalidade do nosso ser e vir a ser. O nosso próprio olhar para dentro do espelho da alma, libertando as nossas ilusões e aceitando a realidade como ela é, por sua vez, leva-nos a ver os outros com mais clareza, a amá-los e a nós mesmos com mais liberdade. Somos menos propensos a julgar de maneira estreita e rígida e mais inclinados a oferecer o alívio que vem por meio da compreensão, do perdão, de bons conselhos, encorajamento e apoio. É assim que a prática contemplativa serve aos nossos princípios maçónicos de Verdade, Alívio e Amor Fraternal.

Chuck Dunning

Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:

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