Espelho meu, espelho meu… diz-me se sou eu

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espelho

Tenha cuidado com os homens que não veem qualquer mistério quando se olham ao espelho

Richard Zimler,
Os anagramas de Varsóvia, p. 330

A bruxa-má mais não é que cada um de nós na sua profanidade de buscar o belo em si, desejando ser um Narciso que se sinta tão bem com a sua imagem que por si próprio se apaixone. Todos nos “vemos” ao espelho. Todos nos sentimos vistos por nós mesmos.

Se o espelho é a possibilidade de um qualquer Narciso se apaixonar por si mesmo, a fotografia é a vontade de parar o tempo, de congelar um instante como se a vastidão do mundo fosse possível de encaixar na área pequena de um fotograma. Revemo-nos no momento ao espelho, procurando a perfeição; imortalizamos o momento na fotografia, guardando a imagem. Em ambos os casos, somos nutridos pela sensação de exatidão, da veracidade dos contornos que nos são dados a conhecer pelo globo ocular, sem ter em conta que por trás do ver encontra-se o interpretar. Não vemos, julgamos que vemos.

E muito da vida assenta na interpretação que fazemos do que o nosso globo ocular nos faculta generosa, mas caprichosamente. E nesse fotograma mínimo, não apenas pretendemos dar-lhe foro de tudo e toda a essência nele condensar, como pretendemos, depois, pegar nessa micro-realidade e, tendo-a como perfeita, dar-lhe direitos de soberania sobre tudo o resto.

Regressando à bruxa-má: “Espelho meu, diz-me quem é a mais bela?”, diz aquela que julga saber a resposta e com ela se comprazer: “sim, eu sei que sou eu a resposta”, diria ela. Vemos o que vemos, mas vemos mais, vemos o que queremos. Se o não vemos, a identidade complica-se – como no caso da bruxa e da Branca de Neve; o desejo é sempre facto de sobreposição em relação ao real.

É, de facto, irónico que tenha sido o espelho o objeto usado ao longo dos milénios para confrontar, nos ritos de iniciação, o sujeito consigo mesmo, desmascarando a confiança em si, mostrando que o maior inimigo é a imagem ao espelho… isto é, o eu que ali se reflete. Aquele que está no espelho, sou eu e é também a minha capacidade, ou quase destino, como que inata, de me opor a mim mesmo, no oposto do processo narcísico de me apaixonar. Isto é, desconstruo a ideia romântica da minha perfeição com a monstruosidade de ser eu o meu inimigo.

Que mistério nesta tensão entre o idílico e o medo? Regresso à frase de Zimler com que abro esta reflexão: “Tenha cuidado com os homens que não veem qualquer mistério quando se olham ao espelho”, poderia ser a máxima de uma didática da iniciação.

Mas o espelho tem que nos levar muito mais longe. O espelho pede uma antropologia na medida em que nos questiona sobre o reconhecimento. E na Maçonaria pouco há mais importante que isso: reconhecer. Reconhecer é a bengala vinda de tempos antigos em que sinais, palavras e toques permitiam a um desconhecido entrar no patamar de ser reconhecido como Irmão.

Dizemos que não somos maçons, que somos reconhecidos como tal pelos Irmãos. E eu, reconheço-me? Como me represento nos valores que uso para reconhecer o outro, ou serei alvo de uma síndrome de Narciso? Nem só a bruxa-má espera que o espelho lhe diga o que ela quer. Perante o espelho, quem avalia o que vê? Quem lê e representa?

No espaço de uma Fraternidade, o espelho que iniciaticamente nos é colocado como confronto, é muito mais; É o desafio do humano. O espelho são os outros que nos servem de referência, através de quem nos vemos nas suas faces. Com origem etimológica no latim <speculum>, a mesma palavra de que derivou <especular>, o espelho é tudo menos exatidão. Seja o espelho físico que empunhamos numa mão, seja toda a comunidade de outros em que construímos o reconhecimento, nunca um absoluto essa superfície polida nos dará, por mais que o queiramos e o desejemos, nessa aparente exatidão fotográfica no reflexo.

Tal como a Prudência, a quem Giotto associou pela primeira vez o espelho, também a ideia de representação, na sua tensão entre narcisos e bruxas-más, é o único caminho para a verdade e a sinceridade; no limite, para o autoconhecimento – afinal, o que se pretende iniciaticamente com o confronto ao espelho.

Quem accepi, reddidi” (“Quem aceita, devolve” ou, “Quem acolhe, entrega”) é a frase que muitas vezes legenda as figurações de espelhos no século XVIII, especialmente quando a imagem que se espelha nos remete para a iluminação e para os princípios fundamentais. “Quem aceita a Luz, também dá a Luz”, diríamos numa leitura esotérica da tradução latina. No ato de reconhecer, aceito e aceito-me, tal como me deixo iluminar e ilumino, percebendo que é nessa vontade de ser o outro que me consigo colocar em posição de me reconhecer. Só reconhecendo e sendo reconhecido, me reconheço.

Paulo Mendes Pinto

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