2020, em busca de uma Vacina Simbólica

cyan poster uyt6e

Muito questionam as vozes populistas sobre o interesse e o sentido da existência da Maçonaria. As tradições iniciáticas são, com toda a naturalidade, alvo de olhares inquisitoriais que se alimentam numa gramática quase tão antiga como elas próprias: o secretismo, a construção de conspirações, a proteção e o apoio levados ao nível da corrupção, ou o domínio social sobre a maioria são alguns dos tópicos mais correntes na visão popular sobre a Maçonaria.

Nos momentos de crise, quando se afirmam correntes detentoras de verdades inquestionáveis e claras, quando são tentadoras as definições que indicam caminhos certos, seguros e sem dúvidas, esta maçonofobia ganha, quantas vezes, dimensão de atentados, de violência física como começamos hoje a assistir, fazendo-nos recordar tempos não assim tão distantes quando grande parte da Europa viveu debaixo da escuridão dos totalitarismos.

Contudo, se o bom conselho em tudo nos levaria à adoção de posições mais recatadas, amigas e potenciadoras de posições defensivas, hoje o momento é exatamente o de fazer o posto desse alheamento prescrito, devendo a maçonaria afirmar da mais límpida forma os conteúdos que marcaram e nos distinguem como civilização.

E as civilizações movem-se num tempo longo onde as alterações dos dias pouco ou nada significam. Mas, para que o não signifiquem, esse tempo longo alimenta-se da hierarquia dos valores que são a cola das diferentes partes das sociedades. Não só a Maçonaria, como todas as tradições espirituais humanistas, devem dar o alimento fora da voragem do tempo imediato e dramático que é tão natural nas crises como a que vivemos.

A Maçonaria, como guardiã dos valores da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade, tem de conseguir fazer com que o cimento social, apesar das tensões do momento, não seja outro que não essa base que nos fundou civilizacionalmente longe do obscurantismo e perto da crítica.

Se noutras paragens parece que o “verniz da modernidade” estala a cada discurso de Bolsonaro ou de Trump, ambos alimentados e alimentando hordas populistas de religiosos acríticos que negam todo o “Pacote da Modernidade”, retirando o primado da decisão ao Parecer Médico como se este fosse uma simples opinião, felizmente, parece que na Europa a ciência continua a ser a medida para a tomada de decisão política.

Contudo, esta aparente evidência vinda ao de cima em contexto de pandemia, em nada nos deve descansar, uma vez que todo o restante quadro de valores está em grande modificação, seja no que respeita às Liberdades, à Igualdade e, muito pior, à Fraternidade. Se o dito “Pacote da Modernidade” parece ter ainda uma eficácia significativa quando se trata da sua aplicabilidade na doença, em tudo o resto a natureza crítica do humano parece estar cada vez mais afastada das nossas sociedades e dos nossos concidadãos.

E é exatamente na junção entre a necessidade do alimento espiritual e o tempo que não se esgota no “aqui e agora”, que a gramática dos símbolos ganha um lugar da máxima importância. Paralelamente à descoberta de uma vacina contra este vírus que reduziu a Humanidade ao seu mais elementar lugar nos ecossistemas, tendo-se o vislumbre da impotência do Sapiens Sapiens, falta-nos uma “Vacina Simbólica” [1] que nos permita transpor os tempos que vivemos de franco afastamento ao mais elementar humanismo.

É esta a tarefa hercúlea que as Oficinas terão de cumprir, marcando na sociedade a valorização do que, afinal, sendo tão natural, não está adquirido. Esse verniz precisa de constantes camadas de valorização, de exemplo e de demonstração cívica que o solidifiquem, que o tornem cultura popular, não pela negativa herdada do tradicional antimaçonismo, mas pela afirmação do primado do Humano como relacional, como interdependente e como crítico.

Paulo Mendes Pinto

Notas

[1] Conceito formulado por Carlos André Cavalcanti e apresentado na mesa “Religiões em tempo de pandemia: diálogos interdisciplinares”, integrada no III Colóquio Internacional «Diversidade Religiosa», que teve lugar a 12 de Setembro de 2020.

Artigos relacionados

2 thoughts on “2020, em busca de uma Vacina Simbólica

  • Avatar

    Prezados IIr.’.
    Creio que passados os primeiros meses da Pandemia, foi visto que aqueles que diziam estar defendendo pareceres científicos foram desmascarados. A iniciar pela OMS, organismo que assim tornou-se totamente desacreditado, pois hoje, ao contrário do inicio em abril, estão solicitando que NÃO se façam mais o malfadado isolamento social, prática nada científica, e sim medieval, lembrando a Peste Negra em Veneza.
    O presente artigo simplesmente colocou o presidente Bolsonaro como contrario ao trabalho científico, quando na realidade NÃO há um trabalho científico siquer que defenda o isolamento social de NÃO infectados, apenas o de pacientes infectados.
    Por outro lado o tratamento preventivo que tanto o presidente Bolsonaro solicitou, quanto o presidente Trump, mostrou-se não somente eficaz, mas o que evita aos pacientes com os primeiros sintomas de chegarem ao ponto de haver a necessidade de internação.
    É claro que os políticos se aproveitaram desta discussão para com o terror instalado dominar e gerar um estado policial em vários estados e várias nações, a exemplo do Ceará e da Bahia no Brasil e o absurdo atual na República Argentina.
    Juntaram-se a falta de raciocínio lógico e científico com a doutrinação ideológica e a vontade de submeter populações aos seus mandos autoritários, típicos das assim chamadas ideologias socialistas.
    Paulo V. Humann
    M.’.M.’.
    ARLS Pedreiros da Cidadania n. 205
    GL do Estado do Rio Grande do Sul

    Reply

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *