A Coluna da Harmonia

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Ao abordarmos o tema “Coluna da Harmonia”, devemos compreender a natureza simbólica que a Música representa para a nossa Ordem. E tudo começa com uma simples palavra: SOM.

“No princípio era o Verbo”. O SOM, a palavra, o movimento.

O SOM pode apresentar-se como um princípio Criativo do Universo, mesmo antes da Luz. O SOM é uma onda, uma vibração. Essa onda é o resultado de uma fonte oscilante, que se propaga através dos elementos sólidos, líquidos ou gasosos.

“AUM” ou “OM” aum hgh654w3sw3, o SOM das origens, é um símbolo ternário que simbolizam as três divindades supremas do hinduísmo: Brahma, Vishnu e Shiva.

É o Vishuddha Chakra, o quinto, que representa a vontade do Poder Criador através do SOM, a manifestação do Verbo Divino entre a Humanidade e que constitui a PALAVRA como fonte de um poder que através de vibrações transmuta a matéria e exalta os sentimentos. As próprias letras dos alfabetos são formas estruturadas de energia que projectam a Geometria Sagrada através do SOM.

Com as suas emoções e os seus desejos, o ser humano confere um poder aos símbolos alfabéticos, às suas formações e tonalidades e quando somados à energia própria do caractere, surge a energia completa da Intenção Divina.

Paralelamente, o despertar da sensibilidade da audição tem uma importância enorme, faz parte daquilo a que Platão se referia como “música das esferas celestiais”, que eram os SONS que ele absorvia do Universo, através de um apurado Ouvido Espiritual.

Movimento Harmónico, a poesia do som

O termo Harmonia deriva da palavra grega “armonia” (ajuste). Ela pode ter diferentes interpretações, e uma das mais comuns é: “a ciência dos acordos”.

A Harmonia é uma das componentes estruturais da música, tal como a melodia. Ela é composta de frequências simultâneas, que têm por objectivo trazer relevo e profundidade à interacção instrumental. Representa o aspecto vertical da música enquanto a melodia representa o aspecto horizontal.

A Harmonia pode ser considerada como um princípio de organização que reúne, em um momento de construção completa, vários elementos que estão espalhados. No fundo, essa é uma das missões do Mestre Maçom; proporcionar Harmonia.

A simbiose entre as nossas intenções e as nossas acções, guiam-nos para uma Harmonia connosco mesmos. A Harmonia entre o nosso pensamento e a nossa consciência perde-se muitas vezes. As vivências de diversas experiencias, permitem-nos rectificar esses conflitos devido, principalmente, às vibrações do Universo. Mas agora o mais contundente a esta reflexão é, certamente, que uma Harmonia invisível é mais forte do que aquela que é aparentemente visível.

Em todo o movimento existe um significado e um propósito. Quando exaltamos acções, os gestos devem passar de horizontais a verticais e ao Harmonizamo-nos, esses nossos movimentos reflectem-se de forma relevante no nosso estado emocional, logo a nossa prestação perante o Universo torna-se mais Sábia e mais Válida.

Devemos de exigir o melhor de nós mesmos se quisermos contribuir para a Egrégora, que é a mais alta expressão do Movimento Harmónico em Loja. É uma forma prática de despertar e de exaltar a nossa consciência a explorar a nossa experiência. Na sua execução, os nossos movimentos são mais a força do “ser” do que “fazer”. O gesto, praticado em uniformidade, pode fornecer uma distância suficiente para estarmos cientes das emoções que nos impedem de ficarmos abertos ao “Momento”.

Ao estudar um gesto, procurando compreender o seu significado mais profundo em Harmonia com o desempenho, devemos nos separar da carga emocional, que é muitas vezes a causa dos nossos conflitos internos.

Um gesto digno é executado por um maçom focado, atento, absorvido por aquilo que faz. Um gesto tem a capacidade de ser inserido na memória; mas uma pessoa distraída ou menos atenta, inquieta, deixará de executar um gesto com dignidade. Quando nós “elaboramos” um gesto, é necessário que ele esteja em conformidade com o que ele deve representar no sentido a que lhe damos; deve de ser conseguido com todo o nosso “Ser”, isto é, com o nosso Corpo, com o nosso Espírito e com a nossa Alma.

De facto, em todas as nossas acções, domina a graça delas; isto significa que a justiça deve prevalecer em conformidade com os nossos regulamentos, respeitar o ritual e ter rectidão moral. “A rectidão sem um sentido fraterno é nepotismo”.

Na verdade, as nossas acções reflectem quem somos. O gesto é a acção principal de todos os maçons no Templo, é um ponto de convergência, unidade e Harmonia entre todos; é um processo que deve ser vivido e sentido colectivamente para ser Harmonioso. Esta é uma ferramenta de transmissão; requer dedicação, trabalho e reflexão.

Música: A magnitude vibratória

Existem duas conjunturas sonoras que se destacam; o “Ruído” e a “Música“.

Segundo a física, o que caracteriza o ruído é um conjunto de ondas, tendo cada uma altura, intensidade fisiológica e forma vibratória. O paradoxo é que a Música tem fisicamente a mesma definição. A organização dos sons entre o “Ruído” e a “Música” não é idêntica. O ruído é um caos aleatório de sons, enquanto a música é a ordem harmoniosa desses mesmos, e o que nos permite diferenciar entre ordem e caos são os nossos sentidos cognitivos. A Música conduz o pensamento à meditação e ela é, segundo a minha opinião a maior representação das Artes Liberais. É a Arte dos Sons e das suas alterações; na Maçonaria, os sons são considerados de importância relevante. O Maçom recebe essas vibrações através da Audição e do Tato; todo o organismo capta os sons, retém, analisa e acumula no subconsciente. Pela sua própria natura, podemos deduzir que a Música é fundamental na Harmonização de uma Loja, cria um resultado efectivo e eleva os sentimentos, proporcionando assim o caminho para uma Elevação Maior. As nuances sonoras apuram o ouvido e sensibilizam a audição, potencializando a ligação do Homem ao Universo.

Toda a cerimónia iniciática e mesmo todo o trabalho em Loja em minha opinião e não contrapondo alguns ritos, não dispensa um suporte musical.

As escolhas dessas vibrações na forma de Harmonia musical, de simples melodia, de complexa orquestração ou de “bruitage” deverão ser feitas consoante os momentos rituais e a sua carga simbólica. A título de exemplo, na cadeia de união, os sons têm por objectivo fazer distinguir o nosso sentido de Egrégora, de forma a que nos elevamos ao Supremo Universal. Antagonicamente, numa iniciação, a primeira viagem deve ser caracterizada por sons pesados e drásticos com o intuito de representar a escuridão tumultuosa ou as trevas em que o neófito ainda se encontra. Todo o momento ritual deve de ser meditado e elaborado previamente para que se concretize um melhor resultado vibratório.

Acerca da música, Platão afirmou o seguinte:

“A música dá alma ao universo, asas à mente, voo à imaginação, e vida a tudo!
.
“A música é o meio mais poderoso do que qualquer outro porque o ritmo e a harmonia têm como sede a alma. Ela enriquece esta última, confere- lhe a graça e ilumina aquele que recebe uma verdadeira educação.”

Platão

A música, na Grécia Antiga, aparece fortemente inspirada pelo pensamento de Pitágoras. As relações matemáticas que “Governam o Universo” segundo ele, induzem a música como sendo uma fonte de Sabedoria, Força e Beleza. Ele definiu as relações Harmónicas como rácios de comprimento e rácios de frequência. Na escola Pitagórica, a música está fortemente relacionada aos números e aos movimentos do Universo Perfeito, e a Harmonia é o objectivo final.

Poderíamos através deste pensamento afirmar que Johannes Kepler ao formular posteriormente as três leis fundamentais da mecânica celeste, conhecidas como Leis de Kepler, pronuncia a Geometria Sagrada como sendo o elemento Harmónico Universal e através do seu movimento, proporciona a emanação da Luz Celeste. Transcrevendo para as acções rituais, as frases e os “Sons” produzidos pelo Venerável Mestre, Vigilantes e restantes Oficiais de Loja, quando executados em Harmonia, em sincronismo e com a devida intensidade, têm um efeito aglutinador hipnótico e constituem o exemplo perfeito do simbolismo ternário sonoplástico e de toda a sua Força Criadora. Estas vibrações monocórdicas reflectem na essência material dos obreiros um sentido de Egrégora Primordial, sendo ela a base de sustentação de uma Loja, formando assim os vários “Sons” uma Harmonia singular e própria.

A tradição europeia / cristã é fortemente inspirada em Pitágoras na sua concepção de música através dos escritos de Santo Agostinho (354-430) e Boécio (480-524).

Historicamente, a música e a astrologia partilham um objectivo comum que é o de compreender as Leis do Universo e da glorificação dos princípios Criativos e Divinos. Ela proporciona a Harmonia entre a Matéria e o Espírito.

Gostaria ainda de referir que desde o início da escrita musical, ela foi colocada, como a Maçonaria, sob o patrocínio de São João. Na verdade, é Gui Arezzio, no século XI, que escolheu as primeiras sílabas de hemistíquio das escrituras de São João Baptista para caligrafar as notas; “Ut re, mi, fá, sol, lá”. O “Si”, iniciais de “Sancte Iohannes” foi adicionado no final do século XVI por Anselmo de Flanders e o “Dó” apareceu em 1673 com o italiano Bononcini “.

Organista: O termo e a sua origem

O termo “Organista” nos cargos de Oficiais de Loja de alguns ritos, tem origem na nomenclatura ritual da maçonaria anglo-saxónica, precisamente pelo facto de que o titular do cargo é um executante desse instrumento que teve origem no século III A.C.

Criado por Ctesíbio, fundador da escola de matemática e engenharia de Alexandria, o hydraulos, ou órgão hidráulico passou a ter a partir do século XII uma importância maior na produção de composições musicais.

Entre 1738 e 1756 foram introduzidas nos rituais da Grande Loja de Inglaterra várias músicas entra as quais: A “canção do Aprendiz”, a “canção do Companheiro”, a “canção do Venerável Mestre” e a “Canção do Guarda Externo” ou mais conhecida por “The Tyler’s Toast” e que é entoada no Ágape ritual. Desde 1740, o livro da “Loja da Amizade” em Londres menciona que as canções históricas, contendo as mesmas mensagens das constituições, seriam uma maneira agradável de substituir a leitura obrigatória dessas mesmas constituições.

Estas canções funcionavam como uma “adição” aos rituais, com o claro objectivo de embelezar as sessões e os ágapes através de mensagens específicas e próprias. Entretanto no continente europeu, a perspectiva tornar-se diferente em relação à Inglesa. As primeiras músicas continentais eram pouco elaboradas ou primárias.

Posteriormente, foram criadas as Lojas Reais de Concertos, tanto em Paris como em Berlim. Essas Lojas tinham o propósito de produzir e realizar peças musicais de simbologia maçónica.

Foi na Alemanha que a música maçónica e, por consequência, a Coluna da Harmonia se elevou. Este interesse pela música estava bem representado principalmente nas Lojas militares. No entanto, refira-se que a Coluna da Harmonia nos seus primórdios não foi muito bem-vinda em França, uma nação com tradição nas artes e nas letras.

Compositores Maçons: Os Irmãos da Harmonia

A designada Coluna da Harmonia não é um termo recente visto terem compositores como Mozart, Sibélius, Liszt, Haydn e outros escrito peças específicas para a ritualística maçónica.

A Música maçónica foi iniciada por DESAGULIERS em 1723. Ele é muitas vezes ignorado; compôs cânticos maçónicos que eram transmitidos apenas oralmente, o que explica os poucos vestígios dessas peças musicais.

A Coluna da Harmonia, à época, era executada por músicos e cantores Irmãos sob a direcção de um oficial que tinha o título de “Arquitecto da Harmonia.” Esta Coluna da Harmonia tornou-se importante. Em França e na Alemanha, a partir de meados do século XVIII como referido acima, são constituídas as chamadas Orquestras Reais/Lojas Reais de Concertos que musicavam o trabalho das Lojas e também davam concertos em teatros e palácios para público profano. Isto permitiu arrecadar fundos para a actividade filantrópica das Lojas. Alguns destes concertos foram realizados no Palácio das Tulherias para a rainha Marie Antoinette e a sua corte Francesa. Essa actividade durou algum tempo e teve o seu términus em 1789 durante a Revolução Francesa. É de notar que nesta época Wolfgang Amadeus Mozart compôs três cantatas para a sua Loja em Viena, mas infelizmente a maioria das suas obras maçónicas estão perdidas.

Durante todo este período de grandes músicos maçons, eles trouxeram os seus sentimentos para a Harmonia musical. Rameau é influenciado pelo simbolismo maçónico com um carisma cósmico. Uma das suas obras intitulada “Zoroastro” é a luta entre o génio do mal, a opressão, e o génio do bem: a liberdade, que acaba por sair vencedora. Esta composição, com base na unidade dos contrários, influenciou outro Arquitecto da Harmonia, Mozart, que compôs a aria “Sarastro” que é parte integrante da sua obra “ A Flauta Mágica” . Mozart é muitas vezes considerado o músico maçom por excelência, compondo sempre com um respeito profundo para com o ritual. A Flauta Mágica tem um tal carisma maçónico de modo a que, como referiu Goethe, não pode ser verdadeiramente entendida por profanos.

O compositor Haydn teve como referencia W A Mozart. Uma obra deste compositor intitulada “Die Schöpfung” ou “A Criação” revela o carácter especificamente maçónico da oratória. Esta obra, inspirada pelos textos do evangelho de São João, consiste nas noções maçónicas da descrição do caos primitivo e a organização dos elementos cósmicos e, finalmente, a Harmonia e a Luz.

A composição “Fidelio” de Beethoven imana o espírito maçónico. Sendo um hino à liberdade e fraternidade humana é também a luta entre a sombra simbólica do cativeiro e a redescoberta da Luz. Parte das composições de Wagner são de inspiração maçónica. Sob a égide da famosa lenda do Graal em “Parcifal” , o herói cercado pelos seus irmãos cavaleiros, passa por todos os testes das viagens iniciáticas e sai vitorioso.

Na maioria das músicas de Mozart, Sibelius, Haydn, Beethoven, Wagner, Liszt, Rameau, Puccini e de outros compositores, encontramos esta unidade dos opostos, que tende a provar que a Harmonia pode existir sem um conflito dos opostos, fazendo- se cumprir assim a Sabedoria Maior do Universo.

Octávio Pimenta SousaM∴ M∴ (GLLP / GLRP)

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