Jean Claude Gacon – Um Maçom Francês em Portugal

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Venerável Mestre e todos os Irmãos em vossos graus e qualidades,

Numa conversa com o nossa Irmão RUI BANDEIRA, este sugeriu-me que escrevesse uma prancha em francês para que ele tivesse a gentileza de a traduzir para português. O nosso Irmão Rui sugeriu-me que versasse sobre a minha vinda a Portugal e um resumo do meu percurso e das minhas descobertas.

Tendo vivido um pouco mais de 44 anos com Marie-Christine, a minha esposa deixou-me depois de uma longa doença aos 65 anos. Sem filhos, nem qualquer família, encontrei-me sozinho numa casa grande nos subúrbios de Paris, onde morámos um pouco mais de 28 anos. Os dias foram longos e confesso que não estava interessado em muitas coisas.

Tínhamos uma governanta chamada Simone, de origem brasileira, casada com um português, Manuel da Silva. Esses pais felizes tinham um menino de cerca de dez anos chamado David, uma criança muito gentil e bem educada falando um excelente francês. Estando sozinho, alguns domingos, convidei-os para almoçar no restaurante. Foi assim que comecei a descobrir a cozinha portuguesa.

Chegamos, assim, a Agosto de 2015, um mês sagrado para todos os portugueses que vivem fora dos seus locais portugueses de origem. Estando sozinho neste mês de Agosto, eles não quiseram deixar-me na minha solidão e gentilmente convidaram-me para a sua casa de família em VIZELA, a cerca de sessenta quilómetros do PORTO.

Não conhecendo Portugal, pensei: porque não? Então, assim partimos os quatro em Agosto para perto do PORTO. Esses quinze dias foram um encanto para mim. O nosso programa de todos os dias era: pequeno-almoço, partida em passeio para descobrir este belo país, almoço em restaurantes, permitindo-me apreciar a muito boa comida portuguesa, com apenas um pequeno problema: a abundância das refeições (nesses quinze dias, engordei quatro quilos). No final do dia, voltávamos para a casa do Manu e da Simone, e depois do jantar, por insistência minha, jogava-se dominó. Partidas renhidas entre os três que terminavam com frequência muito tarde.

Havíamo-nos acostumado, o Manu e eu, a irmos com muita frequência às termas de VIZELA. Piscina, banhos de lama, relaxe, um verdadeiro mimo. E quando, saindo de uma destas sessões, o Manu me ofereceu um almoço por cinco euros, tudo incluído, entrada, prato, uma garrafa de vinho e café, não acreditei nos meus olhos e no meu paladar. Mas foi real e foi bom.

Na esteira das nossas caminhadas, o que me fez descobrir os arredores do Porto, fomos duas vezes a FÁTIMA e até junto da fronteira espanhola. E apesar dessas agendas lotadas, fizemos uma pequena busca em agências imobiliárias e foi assim que acabei ficando proprietário de uma casa localizada a poucos quilómetros do PORTO, na” Madalena ” – VILA NOVA de GAIA. No final de Agosto, a minha estada terminou e regressei à minha casa parisiense.

Voltámos, o Manu e eu em meados de Novembro de 2015 para assinar no notário , no PORTO, a compra da minha casa.

De meados de Novembro de 2015 a Julho de 2016, tratei de vender a minha casa em Croissy-sur-Seine e assinei a venda no notário em 20 de Julho de 2016. A 22, comprei um bilhete Paris – Porto. Deixei a França sem arrependimentos e feliz em descobrir um novo país com uma nova vida.

Durante esse período pleno de boas intenções, tive aulas de português com um professor em casa, durante 3 horas por semana, mas, quando cheguei a Portugal, desisti, porque Simone e Manu falavam muito bem francês. Estou com um pouco de vergonha !!!

Da estada de Agosto, a coisa mais importante que retive ao descobrir Portugal, é a grande gentileza dos portugueses. Não havia um dia em que eu não encontrasse marcas de simpatia, gentileza e atenção; sempre que viajei de avião para breves estadias parisienses, ao embarcar sempre tive um português que se ofereceu para me ajudar a carregar minha bagagem de mão. Coisa impensável num francês! Durante a minha estada, enviei vários cartões postais para pessoas das minhas relações, referindo a gentileza dos portugueses. Uma coisa que realmente me chocou foi o facto de os turistas franceses se comportarem mal neste belo país. Eles crêem que tudo lhes é e não mostram nenhum respeito pelos portugueses.

Depois de instalado no final de Julho de 2016 em GAIA, comecei a visitar o Porto e seus arredores. Fiz alguns conhecimentos com franceses através da associação VIVRE À PORTO.

Vim a conhecer eu um casal com cinco filhos adultos, Teresa e Daniel. Casal que eu chamo de “Casal acompanhante”. De tempos em tempos eu vinha visitá-los para um fim de semana em Lisboa. Casal adorável e muito atencioso, que foi de grande ajuda quando cheguei no início de Dezembro de 2016, para um fim de semana, fiquei com um grave problema de saúde e eles conseguiram que eu fosse operado urgentemente na Fundação Champalimaud.

Desde esse dia, não voltei a sair de Lisboa e já faz 18 meses que moro nesta cidade muito bonita, que começo a descobrir e apreciar muito.

Esse casal, com a sua grande gentileza, fez-me descobrir o que era uma verdadeira família, algo que eu não conhecia, e os cinco filhos deles receberam- me muito bem. Na minha idade, descobri o que é ”Uma família muito bonita” e estou muito feliz com isso.

Além disso, Teresa e Daniel, são-me muito úteis, porque ambos falam português e, para tudo que é administrativo, logístico, deve-se reconhecer que em Portugal para um estrangeiro não é fácil. Também é muito importante o lado médico e, para marcar consultas em médicos ou clínicas não é fácil para mim.

Tendo-me estabelecido permanentemente em Portugal para aqui terminar os meus dias e morando em Lisboa, não queria interromper as minhas actividades maçónicas. Entrei em contacto com a Grande Secretaria da G∴ L∴ N∴ F∴ em PARIS, que me deu o contacto do Vice-Grande Secretário da G∴ L∴ L∴ P∴ de Lisboa, o Respeitável Irmão José RUAH. Este recebeu-me muito cordialmente e propôs-me que ingressasse nesta Loja, após os documentos de transferência entre a G∴ L∴ N∴ F∴ e a G∴ L∴ L∴ P∴ estarem ultimados.

Foi a partir de Outubro de 2018 que me receberam nesta Respeitável Loja.

Queria agradecer a todos os meus irmãos por me terem recebido calorosamente na Respeitável Loja ”MESTRE AFFONSO DOMINGUES, n.º 5 no Oriente de LISBOA. Para me apresentar e dar a conhecer o meu percurso maçónico, refiro o que se segue.

Tendo descoberto a Luz no final de Maio de 1988 na R∴ L∴ “La Vallée des Rois Silencieux” n.º 459, no leste de Paris – G∴ L∴ N∴ F∴, vou tentar contar as minhas impressões nessa altura.

Uma vez iniciado, descobri um mundo à parte e cheio de lições. O irmão Segundo Vigilante, que devia ocupar-se dos aprendizes, tendia a esquecer-nos. Nenhuma formação, nenhum apoio, nenhum conselho. A única instrução que nos foi dada foi: que um aprendiz não deveria falar (sem quaisquer explicações) Aguardei 18 meses antes de poder passar a Companheiro. Numa sessão, o Segundo Vigilante disse-me: para a próxima sessão, faz-me um trabalho com as tuas impressões da Iniciação, sem mais explicações ou conselhos. Apresentei um trabalho intitulado ”Primeiro percurso iniciático”, que colocava em paralelo a minha Iniciação e a minha experiência na maratona de Nova York que eu havia realizado no final de Outubro de 1980, em 3 horas 46 minutos e 27 segundos.

A propósito de que ‘um aprendiz não deve falar’, este Irmão Segundo Vigilante, durante um ágape disse-me ”não te ouvimos. Podes falar!” Preferi não responder e, a partir daquele momento, prometi a mim mesmo que, se um dia fosse oficial e um Segundo Vigilante, cuidaria dos Aprendizes. Para mim, o papel do Segundo Vigilante é primordial, é através dele que o Aprendiz se revela, ganha confiança em si mesmo, evolui na sua carreira e faz um bom maçom.

Ao longo do meu percurso em diferentes Lojas e dos diferentes cargos que ocupei, observei que cada cargo deveria ser realizado com muito cuidado e rigor.

Na INICIAÇÃO, no dia em que recebemos a Luz, a Cerimónia deve ser feita com todo o rigor por todo o Quadro de Oficiais. Porque, se infelizmente houver uma pequena falta, o Aprendiz recentemente iniciado poderá traçar um paralelo entre a sua Iniciação e a do novo Iniciado. E temos apenas uma iniciação e dela mantemos uma memória inesquecível.

Todos vocês, meus irmãos, devem lembrar-se desse grande momento, mesmo várias décadas passadas. Cada cerimónia, Passagem, Elevação são momentos marcantes da nossa existência de maçons.

O trabalho de um maçom nunca pára” e essa máxima é muito verdadeira. Nós devemos sempre em Loja Trabalhar, Ouvir, Transmitir e Trazer a nossa Pedra para o Edifício. É esse trabalho em comum que permite que a Loja esteja bem, seguir em frente, dar a cada um dos Irmãos o que ele procura.

Quando se alcança a Mestria e se lhe é confiada um ofício no Quadro de Oficiais, deve-se esforçar-se para executá-lo com rigor e estar em total harmonia com todos os Irmãos Oficiais.

Depois de ocupar os ofícios de Segundo e de Primeiro Vigilante, quando chega o momento de aceder ao ofício de “Venerável Mestre”, deve-se estar ciente da responsabilidade que recai sobre nós. Deve-se sempre ter o propósito de continuar o trabalho realizado pelos seus antecessores e estar em sintonia completa com todos os oficiais do seu Quadro. É importante saber ouvi-los, considerar as suas propostas para fazer evoluir a Loja e garantir a perenidade desta. Como V. M, deve-se ouvir todos os irmãos e ver e sentir se um ou mais irmãos estão passando por maus momentos. Devemo-nos preocupar imediatamente em tentar ajudá-lo a resolver os seus problemas.

Cada novo Venerável Mestre, no início de seu mandato, deve propor um tema que será usado para a elaboração de Pranchas por “Aprendizes, Companheiros e Mestres”. Este trabalho pode ser realizado individualmente ou em grupos de dois a três irmãos. O que é interessante neste programa é pôr os vários irmãos a reflectir no mesmo assunto e a apresentar trabalhos sobre um tema comum. Leva os irmãos a cooperarem, a conhecerem-se melhor e a se valorizarem.

Uma vez a Prancha lida em Loja, é interessante debatê-la no Ágape, o que permite que os Aprendizes e Companheiros dêem sua opinião e se preparem para o seu futuro papel como Oficiais.

Uma ou duas vezes por ano, é desejável e sábio jantar ou passear com as esposas ou companheiras, o que lhes permite entender-nos melhor e aceitar as nossas muitas ausências e as horas tardias de regresso a casa.

É interessante ver os progressos que podem ser feitos em muitas áreas quando se tem a chance de ser cooptado e iniciado. Esse percurso cria autoconfiança, exige que se trabalhe, cultive e se compartilhe o que se adquire com os demais em seu redor.

Quando se é Mestre, é desejável e criterioso visitar outras Lojas, no início do seu Rito e depois de algum tempo também de outros Ritos. Isso leva-nos a fazer comparações e a descobrir coisas novas. Os Aprendizes e Companheiros devem estar acompanhados por um Mestre, mas acho que esta é uma abordagem muito boa e que permite ganhar confiança em si mesmo.

Devemos sempre ouvir os outros Irmãos, sentir se um problema os perturba e tentar ajudá-los. Estender a mão para eles e trazer-lhes o conforto que eles esperam.

Depois de ter alguma experiência e ser um Mestre, parece-me desejável e criterioso encontrar pessoas ao seu redor, que provavelmente fortaleçam as fileiras de sua R∴ L∴. É uma grande responsabilidade, mas muito interessante, traz- se uma nova pedra para o edifício. Para que a Loja progrida e se fortaleça é necessário trazer sangue novo.

Devemos lembrar-nos que estamos todos envelhecendo, os problemas de saúde podem retardar as nossas actividades em nossa Loja e devemos sempre ter em mente que o Grande Arquitecto do Universo pode nos chamar de volta a Ele a qualquer momento.

Sucede algumas vezes que algumas Lojas têm dificuldades em “Abrir” por falta de Mestres e que todas os ofícios não podem ser ocupados. É por esse motivo que é absolutamente necessário recrutar e garantir a vida da R∴ L∴.

Um ponto que me parece importante é “Assiduidade”. Ser capaz de participar de cada sessão é um ” Dever ”, uma ” Obrigação ”. É através da presença permanente que se consolida a manutenção e a boa vida da sua Loja.

A meu ver, o ponto que me parece mais importante para um Mestre e um Oficial é a “transmissão”. É através da “Transmissão” que o nosso futuro é garantido e a Loja pode desenvolver-se, trazendo a cada Irmão o que ele espera e procura.

Meus queridos irmãos, terminei as minhas reflexões e espero não vos ter incomodado muito, mas queria renovar todos os meus agradecimentos pelo vosso acolhimento e a vossa gentileza para com um Irmão que infelizmente não fala a vossa língua, mas que a todos vós aprecia.

Disse.

Jean Claude Gacon – M∴ M∴ – R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues (GLLP / GLRP)

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One thought on “Jean Claude Gacon – Um Maçom Francês em Portugal

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    o Irmão Jean Claude Gacon pode formalmente pertencer à GLRP , mas não pertencendo a essa respeitável Obediência – tenho muito a certeza orgulho em dizer que ele está integrado na irmandade maçónica universal.

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