A Fénix – símbolo da esperança e do renascimento (II)

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fénix

O poeta romano Públio Ovídio Naso, conhecido como Ovídio, nos países de língua portuguesa, nascido no século 43 a. C., descreveu a fénix do seguinte modo:

Estas criaturas (outras raças de pássaros) todas descendem dos seus primeiros, de outros do seu tipo. Mas um sozinho, um pássaro, renova e renasce dele mesmo – a Fénix da Assíria, que se alimenta não de sementes ou folhas verdes mas de óleos de bálsamo e gotas de olíbano. Este pássaro, quando os cinco longos séculos de vida já se passaram, cria um ninho numa palmeira elevada; e as linhas do ninho com cássia, mirra dourados e pedaços de canela, estabelecida lá, inflama-se, rodeada de perfumes, termina a extensão da sua vida. Então do corpo do seu pai renasce uma pequena Fénix, como se diz, para viver os mesmos longos anos. Quando o tempo reconstrói a sua força ao poder de suportar o seu próprio peso, levanta o ninho – o ninho que é o seu berço e o túmulo do seu pai – como imposição do amor e do dever, dessa palma alta e carrega-o através dos céus até alcançar a grande cidade do Sol (Heliópolis, no Egipto), e perante as portas do sagrado templo do Sol, sepulta-o“.

O cosmógrafo Al-Qaswini, na sua obra Maravilhas da Criação, afirmou que o Simorg Anka vive por 1700 anos e que, quando o seu filho chega à idade adulta, o pai queima-se a si mesmo numa pira funerária. Esta imagem do simurgh foi claramente influenciada pela fénix e é a ela que se refere o poeta persa sufi Farid ad-Din Attar, em A Conferência dos Pássaros, de 1177:

Na Índia vive um pássaro que é único: a encantadora fénix tem um bico extraordinariamente longo e muito duro, perfurado com uma centena de orifícios, como uma flauta. Não tem fêmea, vive isolada e o seu reinado é absoluto. Cada abertura no seu bico produz um som diferente, e cada um desses sons revela um segredo particular, subtil e profundo. Quando ela faz ouvir essas notas plangentes, os pássaros e os peixes agitam-se, as bestas mais ferozes entram em êxtase; depois todos silenciam. Foi desse canto que um sábio aprendeu a ciência da música. A fénix vive cerca de mil anos e conhece de antemão a hora da sua morte. Quando ela sente aproximar-se o momento de retirar o seu coração do mundo, e todos os indícios lhe confirmam que deve partir, constrói uma pira reunindo ao redor de si lenha e folhas de palmeira. No meio destas folhas entoa tristes melodias, e cada nota lamentosa que emite é uma evidência da sua alma imaculada. Enquanto canta, a amarga dor da morte penetra o seu íntimo e ela treme como uma folha. Todos os pássaros e animais são atraídos pelo seu canto, que soa agora como as trombetas do Último Dia; todos se aproximam para assistira o espectáculo da sua morte, e, pelo seu exemplo, cada um deles determina-se a deixar o mundo para trás e resigna-se a morrer. De facto, nesse dia um grande número de animais morre com o coração ensanguentado diante da fénix, por causa da tristeza de que a vêem presa. É um dia extraordinário: alguns soluçam em simpatia, outros perdem os sentidos, outros ainda morrem ao ouvir o seu lamento apaixonado. Quando lhe resta apenas um sopro de vida, a fénix bate as suas asas e agita as suas plumas, e deste movimento produz-se um fogo que transforma o seu estado. Este fogo espalha-se rapidamente para folhagens e madeira, que ardem agradavelmente. Breve, madeira e pássaro tornam-se brasas vivas, e então cinzas. Porém, quando a pira foi consumida e a última centelha se extingue, uma pequena fénix desperta do leito de cinzas.
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Aconteceu alguma vez a alguém deste mundo renascer depois da morte? Mesmo que te fosse concedida uma vida tão longa quanto a da fénix, terias de morrer quando a medida de tua vida fosse preenchida. A fénix permaneceu por mil anos completamente só, no lamento e na dor, sem companheira nem progenitora. Não contraiu laços com ninguém neste mundo, nenhuma criança alegrou a sua idade e, no final da sua vida, quando teve de deixar de existir, lançou as suas cinzas ao vento, a fim de que saibas que ninguém pode escapar à morte, não importa que astúcia empregue. Em todo o mundo não há ninguém que não morra. Sabe, pelo milagre da fénix, que ninguém tem abrigo contra a morte. Ainda que a morte seja dura e tirânica, é preciso conviver com ela, e embora muitas provações caiam sobre nós, a morte permanece a mais dura prova que o Caminho nos exigirá”.

Na literatura ocidental moderna, François Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire escritor, ensaísta, deísta e filósofo iluminista francês, nascido em 1694, fez a seguinte descrição desta ave fabulosa, na sua novela “A Princesa da Babilónia”:

Era do talhe de uma águia, mas os seus olhos eram tão suaves e ternos quanto os da águia são altivos e ameaçadores. O seu bico era cor-de-rosa e parecia ter algo da linda boca de Formosante. O seu pescoço reunia todas as cores do arco-íris, porém mais vivas e brilhantes. Em nuanças infinitas, brilhava-lhe o ouro na plumagem. Os seus pés pareciam uma mescla de prata e púrpura; e a cauda dos belos pássaros que atrelaram depois ao carro de Juno não tinham comparação com a sua.

Maçonaria

Na Maçonaria, o mito da fénix é invocado em toda a sua grandeza iniciática para mostrar a natureza que se renova em toda a sua integridade, pela acção fogo, que aqui significa tanto o trabalho do alquimista no seu forno, cozendo e recozendo o material da Obra, quanto o baptismo cristão, conforme preconizado por João Baptista. Ambos são analogias que simbolizam a prática da doutrina renovadora da Maçonaria.

Joaquim Gervásio de Figueiredo, 33º, no seu Dicionário de Maçonaria, descreve-a assim:

Fénix: ( do grego phoinix ) – Na Mitologia egípcia, é um belo e solitário pássaro fabuloso, do tamanho de uma águia, que viveu no deserto árabe um período de mil anos, findo o qual se consumiu no fogo, ressurgindo, posteriormente, das suas próprias cinzas, renovado, para reiniciar outra vida igualmente dilatada. Tem parentesco simbólico com o simurgh persa, meio fénix e meio leão; com a hamsa hindu e a águia bicéfala dos heteneus e hindus. Acha-se representado em numerosos manuscritos antigos, sendo que, na arqueologia cristã, aparece circundado de raios solares, que o consomem, para ele renascer em seguida, como símbolo de Cristo morrendo mas ressuscitando…  figura do painel da Loja Egípcia do Rito de Cagliostro, grau de Mestre, no meio de uma pira, significando que, como esse pássaro, o Maçom pode renascer à vontade das suas próprias cinzas.

O resgate dos chilenos, em 13.10.10 – No acidente na mina San José, no Chile, em 2010, a cápsula que estava retirando um por um dos 33 mineiros foi chamada de Fénix, porque o resgate deles, a uma profundidade muito grande de terra, lembrava a ressurreição da ave mítica das cinzas; teve, a meu ver, simbolismo maçónico. Para os conhecedores do simbolismo maçónico e do ocultismo, é difícil não reflectir sobre os factos numerológicos e simbólicos do evento, tais como:

  1. “O número de mineiros” – Insígnia do 33º (e mais alto) Grau do Rito Escocês Maçom. O número 33 é de grande importância na Maçonaria e no sistema de números da cabala. Ele pode ser encontrado em muitos casos na tradição maçónica.
  2. “A data do evento” – A data do início do resgate, 13.10.10, também é significativo pois pode ser cabalisticamente calculado da seguinte maneira: 13+10+10, o que equivale a 33.
  3. “A Fénix” – O nome do dispositivo de resgate foi chamado “Fénix” (Phoenix), que é a ave que renascia das próprias cinzas. Mais uma vez, a selecção do nome Fénix, uma criatura mitológica, representando uma grande importância nos mistérios do ocultismo, é bastante interessante. A ave é considerada um símbolo de consumação da transmutação alquímica, um processo equivalente à regeneração humana.
  4. Nos Mistérios era habitual referir-se os iniciados como fénix ou homens que tinham nascido de novo, pois apenas com o nascimento físico ganha o homem consciência no mundo físico, então o neófito, depois de nove graus no seio dos Mistérios, nasceu para uma consciência do mundo espiritual.” – Manly P. Hall, “Ensinamentos Secretos de Todas as Idades”.
  5. “O simbolismo do evento – Para resumir o caso do resgate, 33 mineiros que ficaram presos por 69 dias, nas profundezas e na escuridão do subsolo, foram suspensos um a um, num dispositivo chamado “Fénix” – uma criatura representante da iniciação ocultista – à luz do dia. Como se costuma dizer: “Ex tenebris lux”: Da escuridão para a luz.

Como vimos, a crença na ave lendária que renasce das próprias cinzas, existiu em vários povos da antiguidade e, em todas as mitologias, o significado da fénix é preservado: a perpetuação, a ressurreição, a esperança que nunca têm fim.

Nós, maçons, somos como a mitológica ave Fénix, pois temos um grande fogo que arde dentro dos nossos corações, cheio de paixão, desejo, amor e esperança, com milhares de ideias e perseverança para que elas se realizem; quando parecemos não ter mais forças, renascemos das cinzas e incendiamos a tudo e a todos com força e esperança, que nascem de dentro e se espalham, mostrando como não devemos desistir dos nossos amores, ideais e lutas.

Podemos cair mil vezes, mas mil vezes iremos levantar, e das cinzas ressurgiremos, cada vez mais fortes, cada vez mais donos de nós mesmos e, com certeza, estaremos a cada passo mais perto da felicidade. Podemos até errar, mas poderemos levantar-nos e mudar tudo para melhor, porque somos únicos neste mundo, e temos a obrigação de ajudar a fazer a vida ser algo melhor, não só para nós mesmos, mas para todos que nos rodeiam.

Fénix, símbolo da esperança e do renascimento. “Esperança” é uma crença emocional na possibilidade de resultados positivos relacionados com eventos e circunstâncias da vida pessoal; requer uma certa perseverança, acreditar que algo é possível mesmo quando há indicações do contrário. O sentido de crença deste sentimento o aproxima muito dos significados atribuídos à fé. “Renascimento” é o processo através do qual você lamenta a sua perda e depois se levanta e começa tudo de novo. É um dos principais segredos para alcançar o sucesso. As pessoas realizadas são aquelas que nunca desistiram de tentar ser assim.

Algumas vezes, como a Fénix, temos que renascer das cinzas. Devemos passar pelo fogo e sair fortalecidos, renovados, renascidos e cheios de esperança.

Wilton Brandão Parreira Filho – M∴ M∴ – ARLS Wilson Lopes de Almeida, 673 (São Paulo, Brasil)

Bibliografia

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