A Fraternidade num momento de guerra

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fraternidade, guerra

Mas a maior força do homem está na sua capacidade de ser inconsequente e ilógico. No meio de pestes, guerras e fomes, ele constrói catedrais; e, sendo um escravo, nutre pensamentos despropositados e inconvenientes, próprios de um homem livre.

Aldous HuxleyGeração Perdida 
(Edição Livros do Brasil, p. 164.)

Por paradoxal que pareça, os tempos que vivemos são propícios para se centrar o pensamento no que realmente importa; na linguagem popular, um back to basics que é imposto pela urgência de se estar num quadro onde percebemos que o que era adquirido, talvez o não fosse.

Nos seus textos definidores, especialmente na Constituição de Anderson, aprendemos que para um maçom não deve haver lugar para o desrespeito para com as autoridades: “Um maçom é um súdito pacífico do Poder Civil, onde quer que more ou trabalhe, nunca se envolverá em complôs ou conspirações contra a paz ou o bem-estar da nação”. Apesar de desmentido regularmente, e por vezes com alarde e orgulho, o maçom procura a paz na relação harmónica com os poderes civis instituídos.

Da mesma forma, todos os manuais de História da Maçonaria realçam a importância para o gesto reformador e genesíaco de 1717, e se cimenta exatamente com o texto do antes citado Pastor Presbiterano, o facto de a Europa ter vivido mais de um século de lutas religiosas sangrentas. Essa tomada de consciência terá funcionado como potenciador desta vontade de buscar o comum, o que une, e não o que separa.

O mesmo Anderson afirma de forma cristalina o que se veio a comprovar nos séculos seguintes: “a Maçonaria sempre foi prejudicada pelas guerras, derramamentos de sangue e desordens, antigos Reis e Príncipes sempre se dispuseram a estimular os Homens da Fraternidade por sua lealdade e índole pacífica; […] Fraternidade, que sempre floresceu em tempos de paz.”

E é esta a equação que, neste frio inverno onde a primavera de março parece não poder entrar, devemos procurar: como, num clima de acirramento, onde as clivagens e os radicalismos emergem como interpretação de um mundo que anseia por respostas, nos pode continuar a unir e a fazer, de cada um, um buscador e um fazedor de Paz.

Huxley é sublime na frase que tomei para epígrafe: “No meio de pestes, guerras e fomes, ele constrói catedrais; e, sendo um escravo, nutre pensamentos despropositados e inconvenientes, próprios de um homem livre.”. Não hesita o pensador em dizer que este nosso modo é “inconsequente e ilógico”. Contudo, se fazer catedrais, na boa imagem do pedreiro que nelas tanto se inspira, é “inconsequente e ilógico”, então elas não estariam à nossa vista, tantos séculos depois, nem reuniriam em si tantos significados.

A alquimia da natureza humana reside exatamente nessa capacidade, aparentemente ilógica e sem consequência direta imediata, de construir, pensando, não no agora, mas numa essencialidade talvez sem tempo.

A imagem que nos é apresentada ritualmente do dever de reconhecer fraternalmente todo e qualquer irmão, mesmo com quem tenhamos, no passado-profano, tido problemas, é a metáfora do limite do que é a Fraternidade: amar até quem se poderia odiar.

Este amar incondicional qualquer Ser Humano, impossibilitando, por exemplo, que um maçom defenda a pena de morte, é a plenitude do ato de despir os preconceitos e de assumir a plena anulação do ego. Só nessa dimensão se pode ser fraterno em relação a quem é diferente, a quem não se compreende ou, mesmo, em relação a quem se critica, se nos opõe, nos faz “guerra”.

No momento em que os combates bélicos regressaram a uma Europa que se representou nas últimas dezenas de anos como tendo superado essa fase de barbárie, importa regressar a Anderson e a Huxley, à afirmação plena e incondicional da Paz, mesmo que seja com a construção de castelos de areia, mais frágeis que as catedrais. E por Paz, entendamos: a militar ou aquela do simples olhar de afeto que tantas vezes escorraçamos por detrás das máscaras quotidianas.

Por vezes, é “inconsequente e ilógico” o pequeno gesto de cada um. É aí que reside a Fraternidade, quando percebemos que a urgência do tempo nos obriga a um regresso ao fundamental.

Paulo Mendes Pinto

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1 thought on “A Fraternidade num momento de guerra”

  1. Sergio l. De Conto

    Sim, é insano promover guerras, mas e bom lembrar que Maçons se envolveram na guerra de independência das Estados Unidos.
    Ao qual concordo!

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