A importância do Equinócio de Março na astrologia, na alquimia e em tradições esotéricas

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equinócio

Fisicamente falando, os equinócios e solstícios são eventos astronómicos que marcam a mudança das estações do ano. No Solstício de Verão, o Sol atinge o seu mais elevado ponto no céu, enquanto no solstício de Inverno desce ao seu ponto mais baixo. Os equinócios da Primavera e do Outono marcam os pontos médios no movimento do sol entre os dois solstícios e é nestes pontos do ano que o dia e a noite têm a mesma duração. Cultural e historicamente falando, no entanto, para algumas culturas arcaicas, elas também representavam um mistério mais profundo nestas etapas, relacionando-as com as noções de nascimento, crescimento, amadurecimento, morte e, enfim, ressurreição.

Para as tradições astrológicas e alquímicas, herdeiras de sistemas culturais tremendamente antigos, o Sol e o ouro são representados por um ponto dentro de um círculo. Este símbolo pode ser lido como um olho aberto, representando a Consciência Desperta, como a semelhança entre o micro (ponto) e o macrocosmo (círculo), o “um” e o “todo” num só conjunto, o ponto que tudo contém e de onde tudo emana. O símbolo ou glifo (inscrição) do Sol ainda designa o centro de um sistema onde tudo gira e ainda pode (Publicado em freemason.pt) servir de referência para axiomas como “Deus é um círculo [infinito] cujo centro está em toda a parte e a circunferência em lugar algum” –  frase atribuída a diferentes pensadores, mas em especial a Santo Agostinho. A ligação do Sol com o ouro dá-se, em grande parte pelas propriedades “incorruptíveis”, ou melhor, perenes do ouro diante dos elementos e do tempo: o Sol, diferentemente da Lua, que representa mudanças, entre outros factores do seu simbolismo, é tido como “imutável”, na sua natureza, assim como o ouro, que não oxida e que sob várias circunstâncias em que outros metais perderiam características e se degradariam, o mesmo continua com a sua estrutura atómica inalterada. A sua cor amarela também é passível de associação, por analogia, à tonalidade aparente da luz solar em grande parte do dia. Não bastasse isso, devido às propriedades supracitadas, o ouro, entre os alquimistas passou a ser, metaforicamente, como correspondência do Sol na matéria, a meta de transformação/depuração da consciência, da alma e da vida em algo sublime e superior ao estado de degradação provocado pelo tempo e por uma consciência não-desperta na maioria da Humanidade.

Grande parte das culturas antigas, entre elas a egípcia, a celta e a maia, viam nos movimentos celestes do sol uma reflexão cósmica da jornada espiritual que poderiam realizar na Terra dentro de si. Isto explica por que monumentos, cidades e estilos de vida foram modelados em torno dos solstícios e equinócios e alinhados à jornada do sol pela eclíptica (o caminho percorrido pelo Sol ao longo do ano, perfazendo o zodíaco) e das estrelas (o seu aparecimento sazonal, incluindo as constelações não-zodiacais). Estas antigas civilizações baseadas na religião do sol viam a iluminação espiritual como o verdadeiro propósito da vida, e procuravam orientar as suas sociedades inteiras para os princípios espirituais que eles viam exibidos acima deles no céu.

Os símbolos solares também são análogos às narrativas de muitas divindades e encontram-se por trás da maioria das formas religiosas actuais. Por exemplo, figuras salvadoras do sol-Cristo emergiram uma e outra vez dentro de várias tradições derivadas da antiga religião original/primitiva do sol e estágios chave nas suas vidas frequentemente correspondem a eventos solares. Figuras como Jesus, Mithra, Krishna, Quetzalcoatl, entre outros – frequentemente compartilham semelhanças. Elas podem estar associadas ao sol, nascidas no solstício de Inverno, ensinar e realizar maravilhas, morrer e ressuscitar no equinócio da Primavera e ascender aos céus no solstício de Verão. O futuro retorno dessas divindades solares é também muitas vezes anunciado, novamente com a sua chegada num solstício de Inverno (quando o mundo está mais escuro) trazendo luz ao mundo mais uma vez. As festividades religiosas ocidentais, mesmo as do hemisfério sul obedecem ao simbolismo das estações do ano no hemisfério norte devido, sobretudo, aos processos de colonização, mas ainda assim o significado subjacente à jornada solar pelas estações permanece.

Pode-se afirmar que a sobrevivência destes mitos em diferentes culturas se dá meramente por transferência ou difusão cultural das narrativas, mas do ponto de vista comparativo, o processo simbolizador que realiza essas associações entre heróis salvadores, a sua jornada de vida e o Sol, na verdade dá-se independentemente de ter havido um contacto mais directo entre um grupo social e outro na História. Tais pessoas, tenham elas realmente existido fisicamente ou sejam um amálgama de várias figuras virtuosas numa só narrativa e personagem, funcionam como uma luz para guiar o caminho, uma referência, modelo de consciência desperta e meta a ser atingida.

O equinócio de 20 de Março (Primavera para o hemisfério norte e Outono para o sul) é o ponto em que, astronomicamente, o Sol inicia a sua ascensão pela eclíptica até que atinge o seu apogeu no Verão, quando chega ao Solstício de 21 de Junho. No zodíaco trópico, adoptado pela Astrologia Ocidental, estes pontos fundamentais representam, respectivamente, o ingresso do Sol no signo de Áries e de Câncer. O equinócio e solstício seguintes são os de Libra e de Capricórnio, respectivamente. O equinócio de Março em essência (mesmo que no hemisfério sul seja a entrada do Outono), é marcado simbólica e culturalmente pelo ressurgir da força vital (Sol) no seu signo de exaltação (Áries). É o momento em que a luz retorna ao mundo e em que todos os inícios, em tese, seriam fortalecidos. Aqui se iniciava o calendário agrário e religioso, um atrelado ao outro, tanto no Egipto, quanto na Suméria e noutras partes do planeta em que culturas agrárias ou pastoris se utilizavam dos movimentos celestes para garantir a sobrevivência da tribo, comunidade ou cidade-estado hierática. Tal como se percebe no simbolismo do Carneiro, no zodíaco, com o seu conjunto de características guerreiras, portadoras do poder da (Publicado em freemason.pt) Vontade e o desejo intenso de acção, o equinócio, desde os tempos remotos, é também visto como um período (não só a data precisa do equinócio, mas o decorrer do primeiro mês a partir dele) em que há uma verdadeira luta entre luzes e trevas, com uma vitória final das forças luminosas (vide a ressurreição nas narrativas de diversas tradições, após o herói descer aos infernos).

O Áries é também o símbolo do semeador, do fertilizador, tanto no sentido agrário quanto no sexual do termo. É conhecida a predilecção das pessoas com ênfases arianas nos seus mapas astrológicos por situações, digamos, “polinizadoras”, por um lado na base das conquistas amorosas, por outro lado na base da tendência muito forte a iniciar projectos em grande número. Obviamente esta tendência pode ser mais acentuada nuns e menos noutros, de acordo com as posições dos demais factores a considerar num mapa astrológico, mas todos os arianos partilham, em algum grau, desse impulso.

Os rituais religiosos modernos e as práticas mágicas, teúrgicas, filosóficas ou pagãs da actualidade, herdeiras e ressignificadoras que são das formas antigas de conexão com os aspectos divinos da natureza, têm em grande parte relações com as mudanças de estação pela via dos equinócios e solstícios. O início destes calendários mágico-religiosos é o símbolo do irromper da vida, do optimismo, entusiasmo, da ultrapassagem do que era antigo, mas a sua retoma num nível acima, renovado. No simbolismo judaico-cristão, parte do que o ingresso do Sol nessa fase do ano representa é a crucificação-morte-ressurreição do Salvador, a páscoa cristã, enquanto a páscoa judaica é o grande processo de libertação e despertar, com o êxodo do Egipto. O símbolo da páscoa na forma do coelho ou do ovo é também o símbolo do irromper da vida, ao usar um animal cuja prole é numerosa e o ovo universal contendo a vida que irá surgir como símbolo. A noção de que o equinócio é época de renovação/libertação/irrupção da vida é o que mobilizava as sociedades antigas a realizarem rituais purificadores nas suas casas e aldeias.

Actualmente estes rituais são realizados por muitas sociedades secretas, tanto em actos colectivos em templos, reservados aos seus membros, quanto individualmente, com os participantes de tais sociedades praticando as suas meditações, orações e actividades sagradas nos seus santuários particulares. Por outras palavras, o equinócio da Primavera é a melhor época do ano para se concentrar em novos projectos, livrar-se de coisas que não servem mais e encontrar um grau maior de equilíbrio na vida – afinal, falamos de um momento em que dia e noite estão equilibrados, o mesmo valendo para o equinócio de Libra, em Setembro, mas ali já com outra abordagem que não o irromper da vida, marcada pelo Áries. De facto, muito mais do que no dia primeiro de Janeiro, quando muitas pessoas se auto comprometem a fazer mudanças e a perseguirem metas, é aqui que, mágica e energeticamente, a natureza inteira conspira para tanto. Em todo o equinócio de Março semeamos algo. A sementeira do amor, da luz, da boa vontade, da proatividade e do respeito ao próximo pode fazer com que você se surpreenda com os bons retornos que terá ao longo do ano. E se você actuar mágica ou teurgicamente, espere um contacto muito virtuoso com os deuses.

Carlos Hollanda

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1 thought on “A importância do Equinócio de Março na astrologia, na alquimia e em tradições esotéricas”

  1. Antônio Luiz

    Muito explicativo.
    Nas culturas antigas os povos respeitavam e se guiavam pelos Astros. Um Tfa.

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