“Quais são os efeitos dos genes no comportamento? Bem, isso depende do ambiente. E quais são os efeitos do ambiente no comportamento? Bem, isso depende dos genes.” (2)
A Maçonaria preconiza um forte compromisso de bem recepcionar os candidatos que cultivam a esperança de serem admitidos nos “nossos augustos mistérios”. Obviamente, os nossos manuais assim recomendam, mas “nem tudo que a terra aplaude o céu aprova” (Apud Mateus 24:35).
A leitura do texto do Irmão Fernando Rodrigues de Souza – “O bode, o esquadro e o compasso: problemas decorrentes do humor na iniciação maçónica” (1) e o comprometimento individual, há anos, nestas ocasiões, motivou-me a escrever, utilizando-me de conceitos clássicos da psicologia experimental para trazer à discussão, o quão importante são os acontecimentos que circunscrevem o acto de “dar luz” a um leigo; logo, logo, um neófito.
Receber a luz, não significa apenas dar foco a aspectos ritualísticos e filosóficos ligados ao momento; vai muito além, pois certamente, não será lembrado somente durante a sua vida maçónica, mas durante toda a sua vida biológica, permanecendo ou não na Instituição!
E há um aspecto mais terreno, mais objectivo: significa retirar uma venda que nos cega por horas, abrir os olhos à luz e, muito antes de provocar quaisquer pensamentos filosóficos, ter dificuldade de habituar a mente e a visão num ambiente que nos é totalmente desconhecido e inesperado (15). Naquele átimo, quanta emoção, expectativa, curiosidade e mesmo, temor, sobrevêm, nos nossos pensamentos?
É o cérebro em busca de adaptação e de âncoras identificáveis que lhe possa trazer alguma tranquilidade; provavelmente, é aquele momento em que os sistemas neurológicos de alerta e defesa desejam gritar: “Quero a minha mãe!”; ou para alguns, talvez, “Quero a minha esposa!”.
O cérebro leva entre 1 e 7 segundos para formar uma opinião sobre alguém. Esta avaliação é baseada na linguagem verbal, não verbal, postura, vestimenta, etc. Conhecendo ou não isto, em algum lugar e tempo ignorados, alguém escreveu ou falou, de forma inédita, que “a primeira impressão é a que fica”; e podemos dizer mais: que fica e que cria nas nossas mentes, um caminho profícuo para acreditarmos que “existem mesmo estes mistérios” e nos esforcemos para os descobrir e alcançar. Mesmo que esta busca dependa do interesse e motivação individual, os estímulos feitos neste primeiro contacto, são determinantes para que aprendam, precocemente, a valorizar a seriedade e a profundidade desta incrível Instituição.
Seja para o bem ou para o mal, como é difícil mudar uma imagem inicial!
Questionar é a base do desenvolvimento em qualquer área da actuação humana; então, de quem é a responsabilidade de manter estas neófitas mentes sempre alertas e interessadas? Persistentemente em busca do novo? Sempre encantadas? Será que é só do indivíduo “automotivado”?
Como manter a neotenia (3), ou seja, a curiosidade, a criatividade, a aprendizagem activa, a mentalidade jovial e flexível dos neófitos lá na vida maçónica adulta, quando envolvidos com a disfarçada soberba do galgar dos graus ou “aumento de salário”? (4-7)
E é aí que entra o perigo dos ferimentos da luta, nem sempre cicatrizáveis, entre a hipervigilância e a hiposatisfação; ou, excesso de motivação gerando decepção e problemas; especialmente, quando temos “freios” em excesso nas nossas Lojas (5).
Transitando para onde interessa, é importante alertar que nestas tentativas de usar da retórica para persuadir, influenciar ou convencer um público (6), é alicerçador que, considerando o propósito, utilizemos, mesmo que superficialmente, certos conceitos sistemáticos.
Iniciamos, pois, com o efeito primazia: é um viés cognitivo onde informações apresentadas no início de uma sequência são mais bem lembradas e influenciam mais a avaliação do que as subsequentes. Isso ocorre porque os primeiros itens recebem mais atenção e são transferidos para a memória de longo prazo, moldando as primeiras impressões como duradouras; ou seja, as características positivas no início de uma descrição levam a um julgamento positivo, mesmo que os aspectos negativos sejam mencionados ou descobertos a posteriori. Inclui ainda, o efeito de recência, no qual a última coisa ouvida ou vista é lembrada com mais intensidade. Ambos os efeitos formam uma curva de posição serial, mostrando que o início e o fim são preferencialmente lembrados – o centro geralmente fica para trás (8,9) [1].
E atrás de uma linha de raciocínio, vamos caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento (10).
Sem nos aprofundarmos no conceito e focando na visão que nos interessa para o tema, a perseverança da crença ou persistência da crença, é outro viés cognitivo onde as pessoas mantêm convicções mesmo diante de evidências contrárias. A percepção inicial é tão forte que gera este fenómeno chamado de “perseverança da impressão“. Tendemos a procurar provas para confirmar a nossa ideia inicial e ignorar evidências que a contradizem. Chamado ainda de “conservadorismo conceitual”, esse mecanismo psicológico faz com que crenças sejam reforçadas mesmo quando refutadas (efeito bumerangue). Tendemos a priorizar as nossas conclusões iniciais e resistir a mudar de ideia, mesmo quando pode ser do nosso interesse fazê-lo (11).
São os efeitos de recência e perseverança na crença que tornam o efeito primazia – ou a “primeira impressão é a que fica” – fundamental para a nossa instituição e aconselha-nos a tratar com a máxima seriedade possível o acto de dar luz a um leigo.
Procurando um mote para dar a continuidade ao texto e ao raciocínio, na busca do equilíbrio entre a hipervigilância e a possibilidade da hiposatisfação, eis que, deparo-me com a frase atribuída a Albert Einstein: “A vida é como andar de bicicleta: para manter o equilíbrio, é preciso avançar” no brilhante artigo de Rosmunda Cristiano (12).
Avancemos, pois!
“Mobilizar e armazenar energia enquanto corre na frente de um tigre para salvar tua vida, ajuda-te a sobreviver. Fazer o mesmo de forma crónica devido a uma hipoteca estressante de trinta anos, coloca-te em risco de apresentar vários problemas metabólicos, incluindo diabetes.” (2)
Voltamos à dicotomia do pavimento mosaico: prazer ou felicidade? Ócio ou sobrecarga cognitiva?
É intricado encontrar equilíbrio e produzir motivação neste nosso mundo tão moderno, rodeado de tecnologia, onde a dependência digital tornou-se realidade e faz-nos conviver com vários distúrbios psicoafectivos – NOMOFOBIA (“no mobile phone phobia“), FOMO (Fear of Missing Out”), PHANTOM RING SYNDROME (“ringxiety” ou “phantom vibration syndrome”) e várias outros sintomas relacionados. (13)
A Teoria Tridimensional do Sentimento, proposta pelo psicólogo alemão Wilhelm Wundt (14), conceitua que as experiências emocionais humanas têm como base três dimensões independentes: o caminho evolutivo entre a sensação de alegria/satisfação e o desconforto/desprazer (agradabilidade – desagradabilidade), com uma intensidade emocional entre uma forte tensão/agitação até a calma/tranquilidade (excitamento – calma) e a expectativa ou antecipação da experiência, com um estado de alerta/tensão até o de relaxamento (tensão – relaxamento).
Então a Curva de Wundt foi colocada no título para obter um efeito primazia? Chamar atenção e interessar os incautos leitores?
Não, ela resume esta luta entre a impulsividade, a emocionalidade, a racionalidade e a necessidade reinante nas nossas lojas.
A “Curva de Wundt” – também conhecida como curva de nível de prazer/activação – resume estes conceitos e torna-se fundamental no entendimento da relação entre a intensidade de um estímulo e o nível de prazer ou afecto associado a ele [2].
Não que esta teoria seja a resposta para tudo, mas na busca do equilíbrio, é necessário termos consciência desta variabilidade dos nossos sentimentos e entendermos que a frase “vencer as minhas paixões e submeter a minha vontade”, deve servir como um alerta constante, mesmo quando imaginamos que determinadas atitudes são “bem-intencionadas”.
Aqueles que convidam, os que têm a responsabilidade de recepcionar ou ainda, que acreditam e desejam transmitir os seus princípios, cultivando a ideia visionária da Maçonaria como escola, devem ter em mente estes aspectos e buscar adaptar a motivação e a vontade deste lado, com a excitação e tensão do outro – a dos recém-chegados -, procurando harmonizar, na devida medida, a tridimensionalidade dos sentimentos que rondam e ameaçam o equilíbrio desta gangorra, sempre em risco de gerar tensão entre o agradável e o desagradável.
Walter Roque Teixeira – CIM 184.372 – ARBLS Palmeira da Paz nº 2121, Benfeitora da Ordem – GOB/SC – GOB
Notas
[1] O gráfico “Efeito Primazia-Recência” foi traduzido de Steffen Schulz9 pelo Copilot (IA).
[2] O gráfico “Agradabilidade versus Intensidade de estímulo” foi traduzido pelo Copilot (IA).
Referências
- (1) Souza, Fernando Rodrigues de – “O bode, o esquadro e o compasso: problemas decorrentes do humor na iniciação maçónica”.
- (2) Sapolsky, Robert M. – “Comporte-se: a biologia humana no nosso melhor e pior” (Behave – The Biology of Humans at Our Best and Worst); Editora Companhia Das Letras, SP/SP, 2021.
- (3) Você sabe o que é neotenia? – “Clickideia“.
- (4) Teixeira, Walter R. – “Sobre Retórica, Lógica, Emoções, Racionalidade e Nós”.
- (5) Oliveira, Rosalira – “Alta sensibilidade e hipervigilância: como lidar com o estado de alerta constante”.
- (6) Retórica – Wikipédia.
- (7) Teixeira, Walter R. – “Evasão versus permutação”.
- (8) Equipe Mais Retorno – “Efeito da Primazia”.
- (9) Schulz, Steffen – ““Efeito de primazia: a primeira impressão conta (com dicas de uso)”.
- (10) Veloso, Caetano – “Alegria, alegria”, 1968.
- (11) Pilat, Dan; Krastev, Dr. Sekoul – “Belief Perseverance (The Backfire Effect)”.
- (12) Cristiano, Rosmunda – “L’Energia: la forza invisibile che costruisce o distrugge“ – Maio 2026 – Tradução de António Jorge – “Energia: a força invisível que constrói ou destrói”.
- (13) Abdo, Carmita – “Nomofobia? Conheça esse e outros transtornos associados ao abuso da tecnologia”.
- (14) Wundt, Wilhelm Maximilian – “Psicologia experimental”.
- (15) Spoladore, Hercule – “A Venda” – Loja de Pesquisas Maçónicas Brasil – Londrina-PR.

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