Introdução
A Maçonaria é uma instituição conhecida por seus mistérios, alegorias, simbolismos e por seus rituais de iniciação que despertam a curiosidade e o imaginário popular, dos quais resultam em lendas nos meios chamados “profanos”, ou seja, daqueles que não foram iniciados na instituição.
Dentro do simbolismo, dividido nos seus três graus mais populares, aprendiz, companheiro e mestre, exige-se que o candidato ou Maçom passem por uma série de actividades e cerimónias para que consiga ascender nos graus seguintes. Contudo, destaque especial se dá para a cerimónia de iniciação, que marca a recepção e introdução do candidato na ordem. Ainda hoje, a iniciação maçónica é objecto de especulações e lendas por parte de muitos grupos da sociedade, em especial os que não vêem a Maçonaria como algo positivo. Muitos elementos são de conhecimento popular, como o esquadro e o compasso, presentes em obras de arquitectura e que hoje tornaram-se marca registrada daqueles que fazem parte da instituição. Outro elemento bastante popular e controverso é a figura do bode, contudo, essa relação problemática e complexa não é algo recente, a sua origem remonta ao século XIX em instituições iniciáticas nos Estados Unidos, antes mesmo do seu aparecimento na Maçonaria.
Apesar de estar intimamente ligado aos mistérios da Maçonaria, a figura do bode não está presente nos rituais maçónicos das potências regulares do Brasil, contudo, alguns autores maçónicos chegam a mencioná-lo nas suas obras, como exemplo, Albert Pike em Moral e Dogma (1871). A influência do bode tornou-se tão popular que a sua imagem é utilizada por muitos maçons, sendo adoptado como animal de estimação da instituição. Por outro lado, a sua má fama permanece considerável e permeia o imaginário popular de muitos grupos sociais e religiosos.
Esta relação expressa como parte do humor maçónico, ligado principalmente aos mistérios iniciáticos e as pegadinhas que faziam parte das cerimónias, renderam à ordem uma faceta ocultista e relacionada aos cultos satânicos, entretanto, no aspecto social essas acções por vezes ocasionaram diversos problemas para a instituição, envolvendo casos jurídicos e de morte durante uma iniciação. Diante de tantas problemáticas muitos rituais e constituições maçónicas passaram a adoptar uma postura mais severa em relação às brincadeiras durante as cerimónias iniciáticas, ainda assim, a figura do bode permanece popular dentro e fora da Maçonaria.
Origem e desenvolvimento do bode nas fraternidades iniciáticas
Historicamente o aparecimento do bode se dá na idade média onde era visto como um símbolo do diabo. Histórias comuns à época mencionavam a sua relação com as bruxas, que montadas em bodes iam até a cidade para realizar cultos satânicos e participar de orgias (HODAPP, 2013).
A ideia vulgar de que “montar no bode” faz parte das cerimónias de iniciação numa Loja Maçónica tem a sua origem real na superstição da antiguidade. Os antigos gregos e romanos retratavam o seu deus místico Pã com chifres, cascos e pele felpuda, e o chamavam de “pés de bode”. Quando a demonologia dos clássicos foi adoptada e modificada pelos primeiros cristãos, Pã deu lugar a Satanás, que naturalmente herdou os seus atributos; de modo que, para a mente comum, o Diabo era representado por um bode, e as suas marcas mais conhecidas eram os chifres, a barba e os cascos fendidos. Depois vieram as histórias de bruxas da Idade Média e a crença nas orgias de bruxas, onde, dizia-se, que o Diabo aparecia montado num bode. Estas orgias das bruxas, onde, em meio a cerimónias terrivelmente blasfemas, praticavam a iniciação nos seus ritos satânicos, tornaram-se, para o vulgo e o iletrado, o tipo dos mistérios maçónicos; pois, como diz o Dr. Oliver, era uma crença comum na Inglaterra que os maçons estavam acostumados nas suas Lojas “a adorar o Diabo”. Assim, a “montagem no bode”, que se acreditava ser praticada pelas bruxas, foi transferida para os maçons; e o ditado permanece até hoje, embora a crença tenha desaparecido há muito tempo. (MACKEY, 2007, p. 315, tradução nossa)
Este pensamento popular foi representado artisticamente no frontispício da segunda edição de Blockes-Berges Verrichtung (1669), de Johann Praetorius. Na imagem é possível ver uma figura feminina montada num bode e uma segunda centralizada, representando uma bruxa beijando o ânus de um bode (MOORE, 2007).
Alguns rituais maçónicos antigos referem-se a Deus através do acrónimo “GOAT”, God Of All Things, uma palavra que significa bode. Isso serviu para que livros antimaçónicos dedicassem atenção especial a essa questão. Posteriormente os rituais passaram por alterações de modo a evitar essa polémica, e como resultado disso, Deus passou a ser referido pelo acrónimo “GAOTU”, Grand Architect of The Universe. (HODAPP, 2013)
Outro problema gramatical também fez com que a fama do bode se firmasse cada vez mais na Maçonaria. Nas antigas hospedarias e estalagens da Inglaterra, era costume, muitos anos atrás, que as suas instalações ostentassem um texto como sinal. Um texto comum usado era “Deus nos envolve”, God encompasseth us, e é muito provável que com o tempo tenha se corrompido para “Bode e Compassos”, Goat and Compasses, um sinal ainda utilizado actualmente por muitas pousadas rurais na Inglaterra. “O conhecimento de que os compassos eram um emblema da Arte pode ter levado os profanos a acreditar que o bode também figurava nas nossas cerimónias.” (ADAMS, 2018, p. 25)
Uma possível influência mencionada por Adams (2018), nas suas Masonic Notes, é a gravura dos querubins com pernas de bode, sustentadores do brasão que veio a tornar-se um dos símbolos mais utilizados na Maçonaria anglo-saxónica, presente no frontispício da 2ª edição da obra Ahiman Rezon (1764).
Outra referência utilizada para justificar a presença do bode em instituições iniciáticas é a menção do texto bíblico do livro de Levítico 16. 7-10, que explana sobre o conceito de bode expiatório no contexto judaico. (HEIMBICHBER; PARFREY, 2012)
Toma os dois bodes e os põe diante do SENHOR, na entrada da tenda do encontro. Aarão tira sorte sobre os dois bodes: uma sorte ‘para o SENHOR’, uma sorte ‘para Azazel’. Aarão apresenta o bode sobre o qual caiu a sorte ‘para o SENHOR’, e com ele faz um sacrifício pelo pecado. Quanto ao bode sobre o qual caiu a sorte ‘para Azazel’, ele é apresentado vivo diante do SENHOR, para fazer sobre ele o rito da absolvição enviando-o a Azazel no deserto. (BÍBLIA TRADUÇÃO ECUMÊNICA, 1995, p. 136)
As décadas de 1820 e 1830 foram caracterizadas por perseguições de grupos religiosos de vertente cristã protestante e organizações políticas inimigas da Maçonaria que realizaram ataques vinculando materiais que acusavam a instituição de práticas ocultistas, transgressoras e que iam de contra aos ideais cristãos. Segundo os apontamentos de Adams (2018), “o bode pode ter se associado à Maçonaria principalmente por meio da instrumentalidade da Igreja Católica Romana, durante o período da sua aberta hostilidade à Maçonaria.” (ADAMS, 2018, p. 105)
Estas perseguições ocasionaram diversos problemas, de modo que, muitas lojas pararam de realizar as suas reuniões (MOORE, 2007). Apesar de historicamente o bode ter sido associado aos rituais maçónicos de forma pejorativa, havia um considerável esforço para desmistificar essa comum associação. Em Dezembro de 1917 foi publicado um artigo sobre o assunto e lido durante reunião na loja Blackmore Vale nº 3625, por um maçom chamado E. Turner, onde o autor buscava demonstrar que o bode, emblema do mal e da lascívia, não tinha ligação com os ritos puros e exaltados da Maçonaria. (ADAMS, 2018)
Outros autores percebendo os danos ocasionados por essa lendária associação optaram por uma postura menos misteriosa e nos seus escritos deixaram a questão esclarecida de forma bastante objectiva e incisiva. O já mencionado Hodapp (2012), no seu clássico Freemasons For Dummies afirma: “Fique tranquilo: não há bode na loja. Os graus da Maçonaria são um assunto sério para os maçons, e não há brincadeira (ou brincadeira de bode).” (HODAPP, 2013, p. 153)
Mencionando as antigas práticas maçónicas na Europa, Heimbichner e Parfrey (2012) apontam o carácter humorístico do acto de ‘montar o bode’ durante as cerimónias na Maçonaria. Para os autores isso deveria ser sempre lembrado apenas como uma piada existente há séculos. (HEIMBICHBER; PARFREY, 2012, p. 50)
Diante de tais disputas e contradições, os responsáveis pelo aparecimento do bode não foram os maçons, mas sim os chamados Odd Fellows, uma instituição sediada na cidade de New Kensington, na Pensilvânia, e assim como a Maçonaria, também realizava práticas iniciáticas. Cabe ressaltar que no século XIX diversos catálogos antigos de empresas de suprimentos fraternos ofereciam bodes mecânicos para uso em instituições iniciáticas e fraternidades, ou nos chamados graus “divertidos”. É nesse contexto que a instituição inovou as suas cerimónias ao adquirir um bode mecânico da loja DeMoulin Bros. & Co., de Greenvile, Illinois, empresa mais conhecida por seus elaborados catálogos intitulados “Burlesco and Side Degree Specialties, Paraphernalia and Costumes”, que carregavam quase 200 páginas de pegadinhas inventivas e sádicas. (HEIMBICHBER; PARFREY, 2012 p. 53)
Na década de 1840 eles passaram a receber notoriedade e isso fez com que surgissem as primeiras publicações anti-Odd Fellow, sendo a mais popular a Odd Fellowship Exposed (1845), de autor anónimo. Esta publicação descrevia de maneira imprecisa a cerimónia de iniciação, onde o candidato era recebido escutando gritos de ‘Prepare o bode!’. O autor do texto ainda menciona ter montado num grande bode preto e branco, sido instruído a segurar nos seus chifres e em seguida caindo no chão. O relato é concluído mencionando que após o ocorrido todos os presentes riram da situação. (MOORE, 2007)
Para Heimbichber e Parfrey, a popularização do bode se deu através da The Modern Woodmen of the World, uma fraternidade de notoriedade fundada em 1883, no estado do Iowa, que também fez uso de um bode mecânico. Segundo os autores, “o seu eventual crescimento pode ter encorajado outras fraternidades norte-americanas a adoptar práticas semelhantes.” (HEIMBICHBER; PARFREY, 2012, p. 52)
Apesar das diversas acusações contra as fraternidades sobre a utilização do bode nas suas cerimónias, “há relatos de que uma prática comum era que cada candidato montasse um bode vivo ao redor da loja.” (HEIMBICHBER; PARFREY, 2012, p. 52). Um exemplo dessa prática é o da fraternidade intitulada A Benevolent and Protective Order of Elks, que afirmou ter “realmente utilizado um bode no seu ritual de iniciação” (HEIMBICHBER; PARFREY, 2012, p. 52)
James Madison, na sua Exposition (1848), afirma que “o bode não era mais percebido como uma calúnia maliciosa, perpetrada em um ataque antimaçónico, mas era apenas um eufemismo jocoso, adoptado por muitos maçons.” (HEIMBICHBER; PARFREY, 2012, p. 52). James W. Cook no seu livro The Arts of Deception: Playing with Fraud in the Age of Barnum (2001), argumentou que “a preocupação dos Estados Unidos com os segredos tornou o que ele chama de “engano astuto” um modo significativo de diversão durante esses anos.” (MOORE, 2007, p. 168)
O bode como símbolo adoptado pelos maçons
Por muitos anos o bode permaneceu como símbolo maligno associado às diversas fraternidades que surgiam no século XIX, mesmo não havendo conhecimento real do que se passava nas cerimónias por parte daqueles que realizavam tais acusações, contudo, nas últimas décadas do mesmo século, o significado do bode nas lojas foi transformado, de modo que, os membros das fraternidades começaram a celebrá-lo e adoptá-lo como fazendo parte dos rituais, sendo agora associado como “símbolo do conhecimento compartilhado.” (MOORE, 2007, p. 169)
Além das formas de associação positiva do bode com as iniciações realizadas pelos rituais das fraternidades, outras maneiras de exaltação surgiram em oposição às críticas dos grupos antifraternalistas. Os poemas cómicos She Wanted to be a Mason (1881) e When Father Rode the Goat (1901), combinavam informações presentes nas cerimónias das fraternidades, como os apertos de mãos e as senhas secretas, com a figura do bode. Estes textos tinham o intuito de criar humor a partir dos segredos presentes dos cerimoniais. Outra maneira de produzir humor relacionado ao bode eram as gravuras e ilustrações presentes em panfletos, convites e revistas ligadas ao fraternalismo.
Cassius Marcellus Coolidge (1844-1934) foi um artista norte-americano, conhecido por suas pinturas que demonstravam cães de diversas raças realizando actividades humanas. Entre 1894 e 1934, o artista pintou 16 telas e numa dessas obras, intitulada Riding the Goat (1900), foi registrado de maneira antropomórfica cães realizando uma cerimónia de iniciação dentro de uma loja. Na pintura é possível observar em primeiro plano um cão da raça São Bernardo de olhos vendados montado num bode enquanto três oficiais ao fundo da cena, em local de destaque atrás de uma mesa e portando colares cerimoniais, observam a cena. Também é possível verificar que um cão da raça Spaniel conduz o candidato segurando uma corda presa ao redor do pescoço. Os cães da assembleia estão fumando charutos e cachimbos, e estão usando chapéus utilizados no Rito Escocês da Maçonaria. (MOORE, 2007)
Estas produções levaram o bode e as fraternidades iniciáticas a um patamar de popularidade muito grande no início do século XX, de modo que chegaram a alcançar diversas empresas que passaram a produzir “souvenirs, chaveiros para relógios, abotoaduras, e outras peças masculinas decoradas com bodes e cabeças de bodes” (MOORE, 2007, p. 175). Entre as décadas de 1890 e 1900, diversos materiais impressos e convites das festas anuais da organização dos Veteranos Maçónicos do Brooklyn ostentavam a figura do bode. O anúncio da quinta festa anual de 1893 toma destaque especial por mostrar um bode interrompendo um banquete maçónico andando sobre a mesa, quebrando pratos, derrubando uma garrafa de vinho e borrifando um homem com uma garrafa de água com gás. Homens, vestindo trajes formais acrescidos de aventais maçónicos, cercam a mesa e olham com horror e descrença para a besta rotulada de “Grande Mestre da Situação”. Ao interromper uma ocasião formal e desencadear o caos e a desordem nela, o bode assume o papel do ”Senhor do Desgoverno”, que simultaneamente inverte e reifica a estrutura social em cerimónias tradicionais do calendário carnavalesco, como o Mardi Gras ou o Natal. A garrafa de vinho sobre a mesa perto do bode sugere o processo pelo qual as restrições da civilização foram relaxadas. (MOORE, 2007, p. 176, tradução nossa)
Problemas decorrentes do humor nas cerimónias iniciáticas
Estas acções fizeram com que as fraternidades iniciáticas assumissem o controle da situação, tornando aquilo que outrora foi tomado como objecto de crítica em motivo de orgulho, sendo utilizado de maneira humorística e provocativa diversas vezes. Contudo, a prática de brincadeiras nas cerimónias de iniciação causaram diversos acidentes e problemas notáveis para esses grupos. Em 1902 o Sovereign Camp of the Woodmen of the World foi processado num valor de $25,000 por Samuel W. Mitchell, que reclamava danos com base nas lesões causadas pelos aparelhos. (MOORE, 2007, p. 187). Em 1906, Charles McAtee pediu $2.000 em um processo contra a loja Modern Woodmen em Arrowsmith, Missouri. Ele sofreu ferimentos quando foi vendado e empurrado por um bode mecânico, tal acto culminou com o bode passando por cima do seu rosto. (MOORE, 2007, p. 187)
Em Março de 2004 um homem chamado William James foi morto durante uma cerimónia na loja maçónica Southside em Patchogue, Nova York (TAVERNISE, 2004). A vítima foi baleada na cabeça quando um outro membro disparou uma arma carregada com balas reais em vez de balas de festim. A cerimónia em questão foi descrita como tendo o objectivo de criar ansiedade e consistia em manter o candidato sentado numa cadeira em frente a uma plataforma com latas de refrigerante. Em seguida, a arma falsa seria disparada e um outro membro fora do ângulo de visão deveria derrubar as latas com uma vara, criando a ilusão de terem sido atingidas pelas balas. (HEIMBICHBER; PARFREY, 2012, p. 58)
Em Outubro de 2022 durante o segundo turno do pleito eleitoral para o cargo de presidente do Brasil, vídeos e imagens falsas associando o candidato Jair Messias Bolsonaro à Maçonaria circularam pelas redes sociais. Nas imagens adulteradas era possível vê-lo posando ao lado de membros da instituição e a figura do bode, associado ao satanismo, ao fundo. Estas publicações relacionando Bolsonaro com a Maçonaria e o satanismo tiveram 23,4 mil curtidas e 4 mil compartilhamentos na rede social Twitter. Como forma de reduzir os danos ocorridos pelo alcance das publicações, as três potências da Maçonaria regular no Brasil emitiram individualmente e também conjuntamente notas de repúdio contra a difamação ocorrida para com a instituição, em especial, ao associá-la com o satanismo.
O Grande Oriente do Brasil, maior e mais antiga potência maçónica brasileira, demonstrando preocupação com a prática de brincadeiras e do humor nas suas cerimónias, menciona no seu Código Disciplinar Maçónico no Título X “Dos actos indisciplinares”, art. 48:
São actos indisciplinares aos quais se aplicam a sanção disciplinar de inabilitação para o exercício de cargo maçónico por até dois anos, descrita no inciso II, do art. 24: III – submeter candidato a ser iniciado a qualquer tipo de atitude não prevista na nossa legislação maçónica ou no Ritual, ensejando trote, prova tarefa ou situação que possa gerar constrangimento físico ou moral. (GRANDE ORIENTE DO BRASIL, 2016, p. 12)
O trecho supracitado aponta qualquer tipo de humor ou pegadinha durante a iniciação como sendo actos indisciplinares passíveis de sanção disciplinar. Esta atitude parece actuar como forma de extinguir as práticas e vícios antigos que por diversas vezes causaram problemas para a Maçonaria. Harry Carr, ex-secretário da primeira loja maçónica de estudos e pesquisas do mundo, chamada Quatuor Coronati, de Londres, afirma que essa prática pode ser verificada numa série de documentos intitulados “Grupo de Edimburgo”, que descrevem os rituais da época e procedimentos de admissão que ocorreram entre 1696 a 1714, e quase certamente por cerca de 50 a 100 anos antes dessa época. Neles é possível verificar a descrição de muitas cerimónias para assustar o candidato, antes de ensiná-lo os sinais, as posturas e toques de Maçom. (CARR, 1968, p. 159)
Mendes (2011), no seu livro sobre o ritual de emulação, descreve algumas das práticas modernas realizadas como forma de humor nas iniciações maçónicas. O autor afirma que o candidato “é submetido a um “trote”, a brincadeiras infantis, sustos idiotas; muitos são levados e deixados por horas em cemitérios, outros são vendados, encapuzados, e rodam dentro de carros por um tempo exagerado” (MENDES, 2011, p. 66). Além disso, o seu livro também apresenta o cuidado tomado pelo chamado Sistema Inglês, em relação ao uso de brincadeiras presente nas cerimónias maçónicas, ele afirma que “o Sistema Maçónico Inglês, neste ponto, traz à lume por literatura consultada que é inadmissível a prática de brincadeiras ou actos que venham a constranger, assustar ou exaurir qualquer sentido do candidato e/ou que lhe venha causar mal-estar”. (MENDES, 2011, p. 66).
Considerações finais
Diante do exposto, pode-se verificar que o humor está presente nas cerimónias da Maçonaria há pelo menos quatrocentos anos, algo que em diversos momentos causou diversos problemas para a instituição mas também auxiliou a sua popularização em todo o mundo. Muito dessa fama historicamente se deu por conta da figura do bode, utilizado por inimigos da Maçonaria como os associando ao satanismo. Actualmente, o bode ainda é visto como uma figura que gera estranhamento por parte daqueles que não fazem parte da instituição, essa tradição parece manter-se desde o início da sua utilização pelas instituições do século XIX, em contrapartida, também passou a ser utilizado pelos maçons como símbolo da instituição e dos seus membros em muitos locais. Esta época, tida como a era de ouro do fraternalismo resultou literalmente em centenas de outros grupos surgindo em competição com os maçons, alguns deles eram obviamente menos sérios do que outros, isso serviu apenas para perpetuar o mito de que os maçons e outras fraternidades exigiam um ritual de cavalgada no bode para as suas iniciações, contudo, não é possível afirmar que tal prática fazia parte do escopo ritualístico da Maçonaria, por não constar nos seus rituais e não existirem documentos que registrem tal prática, apesar disso, a instituição ainda vale-se de outras formas de humor nas suas cerimónias, das quais resultaram em tragédias que corroboraram para a má fama nos meios populares, como recentemente pôde-se observar o caso das eleições brasileiras de 2022. Por outro lado, é possível observar através das suas leis institucionais esforços em prezar pela seriedade das suas cerimónias e rituais, evitando tais práticas, apontando-as como actos indisciplinares passíveis de punições. Isso parece demonstrar certa preocupação com o passado problemático dessas práticas, de modo a evitar problemas actuais que exponham de forma negativa a reputação da instituição nos meios não-maçónicos, contudo, ainda permanece como desafio a ser superado, numa relação complexa entre humor, segredo e responsabilidade, por parte dos organismos que experienciam os seus mistérios.
Fernando Rodrigues de Souza
| Mestrando em Ciências da Religião pela UFS. Graduado em Ciências da Religião pelo Centro Universitário Internacional (2023). Especialista em História das Religiões pela Universidade Cruzeiro do Sul (2021) e em Filosofia da Religião pela Universidade Dom Alberto (2021). E-mail: [email protected] |
Referências Bibliográficas
- A BÍBLIA. O dia do Grande Perdão. Tradução Ecuménica da Bíblia. São Paulo: Paulinas, 1995.
- ADAMS, C. C. Masonic Notes, 1918 1919, vol. 1: A Publication to Encourage and Facilitate Intercommunication Between Masonic Students in All Parts of the World. Londres: Forgotten Books, 2018.
- CARR, Harry. The Six Hundred Years of Craft Ritual. Ars Quatuor Coronati, v. 81. Londres, 1964.
- GRANDE ORIENTE DO BRASIL. Código Disciplinar Maçónico. Brasília: GOB, 2016.
- HEIMBICHNER, C.; PARFREY, A. Ritual America. Port Townsend: Feral House, 2012.
- HODAPP, C. Freemasons For Dummies. 2nd ed. Hoboken: John Wiley & Sons, Inc., 2013.
- MACKEY, A. G. An Encyclopaedia of Freemasonry. New Orleans: Cornerstone Book Publishers, 2007.
- MENDES, Fábio. Ritual de Emulação – O Grau de Aprendiz Maçom. Joinville: Clube de Autores, 2011.
- MOORE, W. D. Riding the Goat. Winterthur Portfolio, v. 41, n. 2/3, p. 161–188, Jun. 2007.
- TAVERNISE, Sabrina. Man Fatally Shot During a Masonic Initiation. The New York Times, 2004. Disponível em:
- <https://www.nytimes.com/2004/03/09/nyregion/man-fatally-shot-during-a-masonic-inihtml>. Acesso em: 13 de Dezembro de 2022.

- Os Benefícios de Ser Maçom
- “Curar” – o poema de Kitty O’Meara
- Formação – As Ferramentas do Aprendiz
- A águia bicéfala e os seus significados
- O Símbolo Perdido – O ponto dentro de um círculo

