A maçonaria na política americana

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Muito mais do que na Europa, foi nas Américas, sem sombra de dúvida, que mais se fez sentir a acção política da Maçonaria, proporcionando, inclusive a concretização da maior nação maçónica do mundo: os Estados Unidos da América.

Principalmente nos séculos XVIII e XIX, quando nas Américas, submetidas ao colonialismo europeu, lutavam pela sua emancipação, é que mais se fez sentir a acção política da Instituição, pois ela teve, indiscutivelmente um papel preponderante na libertação das colónias americanas, como planeadora e organizadora dos movimentos de emancipação.

Além da predominância da Maçonaria nas conspirações e na acção contra o colonialismo, muitas vezes opressivo, da Inglaterra, de Espanha e de Portugal, nenhum pesquisador imparcial e desapaixonado poderá negar que, entre os principais líderes da libertação das colónias americanas, sobressaíam os Maçons: George Washington, Benjamin Franklin, nos Estados Unidos da América; San Martin, na Argentina; Simon Bolívar, na (Publicado em freemason.pt) Venezuela; Benito Juarez, no México; José Marti, em Cuba; O’Higghins, no Chile; Sucre, na Colômbia; Gonçalves Ledo, José Bonifácio, Januário da Cunha Barbosa, D. Pedro I, no Brasil. Isto sem contar a figura maiúscula do venezuelano Francisco Miranda que lutou, directa ou indirectamente, pela libertação da maior parte das colónias.

A independência dos Estados Unidos da América

A Maçonaria chegou bem cedo aos Estados Unidos. O primeiro Maçom da América é, geralmente, considerado como tendo sido John Skene, feito Maçom – aceito na realidade, pois foi na época da transição – na Loja de Aberdeen, na Escócia, e que se estabeleceu em Burlington, Nova Jersey, em 1682. O segundo foi Jonathan Belcher, nascido em Boston, Massachusetts, em 1681, e feito Maçom durante uma viagem à Inglaterra, em 1704. Outros Maçons, que surgiram, nessa época, acabaram criando núcleos maçónicos antes de 1730, sem a influência das grandes alterações havidas na Inglaterra, em consequência da criação do sistema obediencial. A Franco-Maçonaria regular chegaria à América colonial em 1730, sob os auspícios da Premier Grand Lodge of England of Provincial Grand Masters, para diversas áreas. Embora formada, no seu início, na maioria, por membros dos regimentos britânicos, o grande aporte de americanos natos propiciaria, a ela, um papel fundamental na independência do país.

A imigração inglesa para a América do Norte, iniciada no começo do século XVII, originou a formação das colónias que, em 1732, já eram treze, com crescente importância económica que as tornava muito valiosas para a Inglaterra. Este valor aumentou quando após a guerra com França, a Inglaterra anexou, às suas colónias americanas, parte do Canadá e as terras situadas entre o rio Mississípi e os Montes Apalaches.

Com a crise económica gerada pelo conflito com França, a metrópole inglesa passou a exigir, das suas possessões a observância de actos lesivos aos interesses das colónias; surgiram assim, o “Navigation Act” que limitava o intercâmbio comercial das colónias exclusivamente à metrópole e o “Sugar Act” que regulamentava o comércio do açúcar.

Logo depois, necessitando manter um exército de dez mil soldados ingleses para a defesa da colónia, o parlamento inglês votou, em 1765, o “Stamp Act” que estabelecia taxas a serem pagas por documentos, sendo destinadas à manutenção das tropas inglesas; diante da reacção das colónias, o “Declaratory Act”, no qual afirmava ter plenos poderes e autoridade para legislar sobre as colónias.

Em 1767, um novo decreto, o “Townshend Act”, iria tornar mais tensas as relações entre a metrópole e as colónias, pois este decreto estabelecia impostos sobre o chá, o chumbo, o papel e o vidro importados pelas colónias, sendo, o dinheiro auferido, usado para pagar os funcionários britânicos das possessões; esses funcionários eram mal vistos, pois agiam com desonestidade, praticando contrabando e apreendendo mercadorias de comerciantes honestos.

Isto ocasionou uma nova reacção, à frente da qual se colocou o líder revolucionário e maçónico Samuel Adams que levantou a população de Massachusetts, o que levaria, a 5 de Março de 1770, ao chamado Massacre de Boston, quando dois regimentos ingleses, entrando em choque com a multidão revoltada, mataram e feriram muitas pessoas, fazendo com que o Parlamento, sob pressão das demais colónias, revogasse o “Townshend Act”.

Foi justamente em Massachusetts que se iniciou a luta pela independência; e, coincidentemente, foi também ali que se iniciou a Maçonaria nos Estados Unidos da América, com a fundação a 23 de Abril de 1730, da Grande Loja de Massachusetts, expandindo-se depois por toda a América do Norte.

Após três anos de relativa calma, ocorreria a crise do chá, mais um estopim aceso no caminho da emancipação; em 1773, era votado o “Tea Act”, que tinha, por objectivo, ajudar a East Indian Company a vender os seus excedentes de chá nas colónias. Além do preço do produto ser elevado, os compradores teriam, também que pagar impostos, sendo os lucros revertidos em benefício dos agentes da East Indian Company.

Aumentou, então, a revolta culminando a 17 de Dezembro de 1773 com o chamado Boston Tea Party, quando novamente em Boston, cerca de cinquenta colonos, disfarçados de índios, atacaram um navio e derramaram o seu carregamento de chá no mar. Logo a seguir, o Maçom Patrick Henry, na Virgínia, colocava-se à frente da reacção contra a metrópole, propondo a realização de um congresso continental; essa ocorreria na Filadélfia, em 1774, com a presença de 56 delegados de todas as colónias, com excepção da Geórgia. Neste Congresso foi aprovada a Declaração de Direitos e Agravos que exigia a revogação dos actos do governo inglês, lesivos às colónias; o governo britânico, todavia, não aceitou as exigências, decidindo reforçar as tropas inglesas nas colónias, com a finalidade de garantir o cumprimento dos decretos do Parlamento.

O conflito concretizar-se-ia, marcando o verdadeiro início da Revolução Americana, quando em Abril de 1775, o general Thomas Gage, comandante das tropas inglesas em Boston, decidiu prender os líderes revolucionários e maçónicos Samuel Adams e John Hancock, além de se apoderar do material bélico dos colonos, em Concord; houve resistência e choque entre as forças adversárias, sendo dispersos os efectivos de Gage.

O segundo Congresso Continental, reunido na Filadélfia, resolveu, então, designar George Washington para comandar as forças rebeldes. Washington, nascido a 22 de Fevereiro de 1732, foi iniciado na Maçonaria a 4 de Novembro de 1752, na Loja “Fredericksburg n° 4”, no estado da Virgínia, de cuja Grande Loja seria eleito Grão Mestre em 1777, em plena luta pela independência.

Sucederam-se, então, as batalhas em diversas colónias, sem que a luta se definisse; enquanto isto, o Maçom Thomas Payne incendiava a opinião pública, através da publicação do seu “Common Sense”, onde fazia a apologia de um movimento libertador e não de uma simples reacção contra as (Publicado em freemason.pt) leis opressivas. A 4 de Julho de 1776, depois de um ano de debates, o Congresso Continental aprovava a Declaração de Independência [1], redigida por Thomas Jefferson.

A guerra, todavia, prosseguiria, não só contra as tropas inglesas, mas também contra o grupo de colonos liderado por John Dickinson que se opusera, fortemente, à declaração de independência; esses colonos, que tomaram o partido dos ingleses, foram denominados “tories” e muitos deles lutaram nos exércitos britânicos.

Washington, demonstrado as suas qualidades de líder e de estrategista, adoptava um sistema táctico de movimento para fatigar os ingleses, enquanto a Maçonaria francesa acompanhava, entusiasmada, o movimento libertador empreendido pelos seus irmãos da América do Norte. Nesta altura, iria tornar-se decisiva a participação de Benjamin Franklin, pois este, com o apoio da Maçonaria americana, desenvolvia intensa actividade em França, onde era membro da Loja “Neuf soeurs” de Paris, a mesma Loja onde Voltaire seria iniciado mais tarde.

Franklin conseguiu fazer, com o apoio dos Maçons franceses, com que a 6 de Fevereiro de 1778, a França reconhecesse a independência dos Estados Unidos da América, enviando uma esquadra em socorro dos patriotas americanos. Logo depois, Espanha também entraria na guerra contra os britânicos, levando todos estes factos à capitulação definitiva das tropas britânicas, em 1781, sendo o tratado de paz – Tratado de Paris – assinado a 3 de Setembro de 1783, com o reconhecimento da independência dos Estados Unidos da América.

Distinguiram-se nesta fase final de luta, além dos muitos Maçons americanos, os Maçons franceses, François de Grasse, comandante da esquadra enviada por França, e o marquês de Lafayette, que equipara antes da entrada da França na guerra um navio, por sua própria conta, indo oferecer, como voluntário os seus serviços aos rebeldes americanos.

George Washington, ao tomar posse como o primeiro presidente da República dos Estados Unidos da América, prestou o seu juramento sobre a Bíblia utilizada na abertura dos trabalhos da Loja “Saint John” de Nova York. Ao lançar a pedra fundamental do edifício do Congresso norte- americano, em 1793, ele e outros dignitários da Maçonaria dos Estados Unidos portavam as suas insígnias maçónicas; ao falecer, em 1799, os seus funerais foram, de acordo com a sua expressa vontade, realizados dentro da ritualística maçónica, sendo a cerimónia fúnebre, dirigida por Elisha Cullen Dick e pelo reverendo James Muir, respectivamente presidente e orador da Loja “Alexandria”.

Depois de Washington, os Estados Unidos seriam dirigidos por outros presidentes e políticos maçons, entre os quais:

James Monroe; Andrew Jackson; James K. Polk; James Buchanan; Andrew Johnson; James A. Garfield; William McKinley; Theodore Roosevelt; William Howard Taft; Warren G. Harding; Franklin Delano Roosevelt; Harry S. Truman; Lyndon B. Johnson e Gerald R. Ford [2].

O presidente George Bush foi também, em numerosas ocasiões, referido como Maçom. O presidente Bush prestou o seu juramento do cargo sobre a Bíblia de George Washington, que pertence à “Saint John’s Lodge”, de Nova York. Pertencendo a Bíblia a uma Loja maçónica, muitos autores admitiram, precipitadamente, que ele fosse Maçom. A Bíblia foi usada a pedido da Junta Congressional da Comissão de Cerimónias Inaugurais, e foi usada, pela primeira vez, a 30 de Abril de 1789, pelo Grão Mestre dos Maçons de Nova York, para o juramento de George Washington, o primeiro presidente. Outros presidentes, que prestaram o seu juramento sobre essa Bíblia foram: Warren G. Harding, Dwight D. Eisenhower e Jimmy Carter. Dos três, só o primeiro foi Maçom [3].

Nota-se, assim, que a Maçonaria sempre desenvolveu um papel importantíssimo na vida pública norte-americana, começando com a sua obra na Revolução, com o “Tea Party” de Boston, sendo este organizado na Loja “Saint Andrew” e com o facto de que dos 56 signatários da Declaração de Independência, 50 eram Maçons. Ainda nos dias actuais, os Maçons constituem a maioria nas casas legislativas americanas – 60% no Congresso Nacional – e grande parte da política externa e interna é tratada sob a égide das Lojas, com os seus quatro milhões de membros, através das suas ligações nacionais e internacionais, como aconteceu em diversos lances de bastidores da Segunda Guerra Mundial, podendo ser citado, a título de ilustração, o relatório do Chefe de Segurança da Franca Ocupada, datado de 1941, onde o mesmo apontava a ida de um enviado especial do presidente Maçom, Franklin D. Roosevelt, ao Papa, que tinha como objectivo um acordo secreto para a formação de uma frente democrático-católica- maçónica contra o nazismo.

A independência dos países latino-americanos

Um dos maiores trabalhos políticos da maçonaria internacional foi, sem sombra de dúvidas, a emancipação das colónias centro e sul- americanas, incluindo o Brasil, tratado nesta obra, num capítulo à parte.

Avulta, nesta luta, o nome de Francisco Miranda, revolucionário venezuelano, considerado o precursor da independência hispano- americana. Nascido em 1754, em Caracas, combateu em diversas frentes de guerra, no Marrocos, nas Antilhas e na Flórida. Embora existam alguns indícios, não há qualquer comprovação documental de que Miranda tenha sido Maçom. A sua vida aventureira sempre foi muito nebulosa, havendo, inclusive, controvérsias até em torno da sua morte, como se verá.

Entre 1785 e 1789, visitou quase todos os países da Europa relacionando-se com as figuras mais ilustres da Sociedade e da inteligência europeias: era amigo da família real inglesa, frequentando os gabinetes ministeriais da Inglaterra; frequentava os clubes revolucionários de Paris, com a mesma desenvoltura com que visitava os salões de Catarina, a Grande, na época em que esta dedicava grande carinho à Maçonaria, assegurando-lhe protecção e honrarias. Além disso, mantinha estreito relacionamento com George Washington, Benjamin Franklin e Thomas Payne.

Procurou, então obter auxílio da França, da Inglaterra e dos Estados Unidos da América para a emancipação das colónias espanholas da Américas. Em 1790, conseguia que William Pitt, o Moço, primeiro ministro do gabinete inglês, durante o reinado de George III, se interessasse pelos seus projectos.

Transferindo-se então para França, combateu ao lado dos girondinos, contribuindo para a conquista das primeiras vitórias obtidas pelas forças da Revolução; caindo, todavia, em desgraça, regressou à Inglaterra, onde começou a sua obra de emancipação, fundando a entidade denominada Grande Reunião Americana, com o apoio da Maçonaria inglesa.

A “Grande Reunião Americana” era uma entidade com finalidades totalmente políticas, destinada a promover a independência dos povos americanos subjugados pelo colonialismo espanhol; logo, ela recebeu a adesão e o solene juramento de Maçons ilustres, como San Martin, O’Higghins, Bolívar, Alvear, Montufar, Narino e outros, todos empenhados no comum propósito de banir, sem diferenças de regionalismos, o (Publicado em freemason.pt) domínio espanhol do solo americano, implantando posteriormente o regime republicano. Desta, também fizeram parte Hipólito José da Costa, patriarca da imprensa brasileira e vulto da independência do Brasil e Domingos José Martins, chefe da Revolução Pernambucana de 1817.

Da “Grande Reunião Americana” nasceu a Loja “Lautaro” da Argentina, circunscrita aos objectivos políticos traçados em Londres; esta Loja seria a precursora de outras “Lautaro” no Chile, que como a da Argentina, se transformaria no quartel general da independência; no Peru, no Equador, no México, na Venezuela, na Nicarágua e na Bolívia.

A par da actividade das Lojas “Lautaro”, a “Grande Reunião Americana”, sob o comando de Miranda, ampliava a sua esfera de acção, instalando sucursais em França e na própria Espanha, onde Cádis e Sevilha, tornou-se o foco da insurreição, aliando-se às Lojas da Maçonaria regular da Espanha e à Carbonária espanhola.

A verdadeira revolução emancipadora começou na Argentina, durante a Assembleia de 22 de Maio de 1810, na qual se decidia a sorte do vice-reinado do Prata, forçando-se a formação de uma junta governativa, ponto inicial para uma série de acontecimentos, que iriam levar à proclamação da Independência Argentina, a 9 de Julho de 1816. Nesta assembleia de 1810, notavam-se três correntes ideológicas distintas: a dos que, numa total acomodação, admitiam a possibilidade de colaboração com a Espanha, na base de uma transigência mútua; a dos que, submissamente, insistiam na sujeição, sem condições, ao regime absolutista da metrópole; e a dos que, sob a influência política da “Grande Revolução Americana”, optavam por uma imediata revolução libertadora. Aí, manifestava-se, também, a opinião da Igreja, atrelada ao tacão opressor espanhol, através das palavras do Bispo Lue – depois expulso de Buenos Aires:

“Enquanto existir em Espanha, um pedaço de terra e um governo espanhol, este deverá mandar nas Américas, sem qualquer restrição à sua autoridade soberana! Enquanto houver um espanhol vivo à superfície da terra, todos os americanos deverão obedecer-lhe, porque é a vontade de Deus!”.

Colocando, sacrilegamente, Deus sob a condição de serviçal de Espanha, presidindo à opressão dos povos americanos, apoiando os tribunais da Inquisição e a imolação dos patriotas libertários nas fogueiras do Santo Ofício, o clero das colónias americanas rendia-se à intransigência da Igreja espanhola, colocando-se frontalmente, contra a independência das possessões espanholas nas Américas.

No próprio ano de 1810, a 23 de Setembro, o padre Miguel Hidalgo y Castilla, chefe do primeiro movimento mexicano contra o domínio espanhol, sofria uma sentença terrível do bispo de Michoacán, sendo depois fuzilado. Esta sentença, mostrando bem qual era o espírito da Inquisição e olvidando o amor fraternal e a tolerância, como bases do Cristianismo, possuía trechos absurdos e terríveis, como as seguintes:

“Excomungamo-lo e anatematizamo-lo desde as portas do Céus, e o entregamos para que seja atormentado, despojado e relegado ao diabo. (…) Que Deus-Pai, que o criou, o maldiga; que o Filho de Deus, que sofreu por nós, o maldiga também, e que o Espírito Santo, que se derramou no seu baptismo lhe tire a luz do espírito. (…) Que seja condenado onde quer que se encontre: em casa, no campo, no bosque, na água ou, até mesmo, na Igreja. Que seja maldito na vida e na morte. Que seja maldito comendo ou bebendo, esfomeado, sedento, acordado, dormindo, sentado, parado, trabalhando ou descansando, ou mesmo se estiver sangrando. Que seja maldito em todas as suas faculdades. Que seja maldito no cabelo, no cérebro e nas vértebras. Que seja maldito nos olhos, nas axilas, na mandíbula, no nariz, nos dentes, nas costas, nos ombros, nas mãos e nos dedos. Que seja condenado na boca, no peito, no coração, nas entranhas e no estômago. Que seja maldito nos rins, no fígado, nos músculos, nos órgãos genitais, nas cadeiras, nas pernas, nos pés e nas unhas. Que seja maldito nas juntas e articulações dos seus membros e desde a coroa da cabeça até a ponta dos pés, de forma a não ficar um ponto livre de maldição. Que o Filho de Deus vivente, com toda a sua majestade, o maldiga e que os céus, com todos os seus poderes, façam descer sobre ele a escuridão eterna, a menos que se arrependa e penitencie! Amém!”.

A luta pela independência dos países latino-americanos, assim acabou, sendo travada, não só contra a metrópole, mas, também contra o Clero que se aliara ao absolutismo espanhol, criando entraves à emancipação.

Quando, em 1812, com o apoio de Francisco Miranda e da “Grande Reunião Americana”, San Martin fundou a primeira Loja “Lautaro”, em Buenos Aires, o movimento emancipador adquiriu, então, grande força, pois ela foi grande centro propulsor, não só da independência da Argentina, mas também, de outras colónias americanas, pois San Martin, depois da libertação do seu país, foi para o Chile, onde fundou outra Loja “Lautaro” e, juntamente com O’Higghins, libertou este país, indo depois, à frente das forças chileno-argentinas, por decisão adoptada na “Lautaro” de Santiago, libertar o Peru, onde o proclamaram “Protector”.

Da mesma maneira, o venezuelano Simon Bolívar foi o chefe das revoluções que libertaram a Venezuela, a Colômbia, o Equador, o Panamá, a Bolívia e parte do Peru, recebendo o título de “O Libertador”. Os habitantes da Venezuela, emancipada em 1811, deram-lhe o título de “Pai da Pátria e Terror do Despotismo”, porque o primeiro decreto que ele assinava ao ocupar uma cidade era o de libertação de todos os escravos. Simon Bolívar foi iniciado Maçom em Paris, através da Loja “Saint Jean D’ Écosse”; a acta da sessão da sua iniciação encontra-se em poder da Maçonaria venezuelana e o seu carácter de autenticidade foi atestado pela paleógrafa Dolores de Sortilho, da Academia de História de Caracas, em 1956.

Estas foram, em rápida síntese, as actuações políticas da Maçonaria nas lutas pela independência dos povos latino-americanos, baseadas nas actividades políticas secretas das Lojas “Lautaro”, cujo nome corresponde ao de um guerreiro araucano, morto heroicamente durante a conquista espanhola do sul do Chile, defendendo a terra dos seus antepassados.

Bartolomeu Mitre, em “História de san Martin y de la Emancipación Sud-Americana”, diz que o objectivo declarado da Loja “Lautaro” era trabalhar sistematicamente pela independência da América e pela felicidade, lutando com honra e procedendo com justiça, devendo os seus membros, serem americanos que se distinguissem pela liberdade das suas ideias e pelo fervor do seu zelo patriótico.

Ainda segundo Mitre, a constituição da Loja previa que, quando algum dos Irmãos fosse eleito para o supremo governo do Estado, não poderia tomar resoluções importantes sem consultar a Loja; sujeitando-se a esta regra, o governo desempenhado por um Irmão não poderia nomear, por si, enviados (Publicado em freemason.pt) diplomáticos, generais em chefe, governadores de província, juízes superiores, altos funcionários eclesiásticos e chefes de corpos militares. Era lei, também da Loja, a obrigatoriedade do auxílio mútuo em todos os conflitos da vida civil, a sustentação, com risco de vida, das determinações da Loja e a obrigação de dar-lhe conta de todos os acontecimentos que pudessem influir na opinião e na segurança pública; obviamente, a revelação do segredo da existência e das finalidades da Loja, por meio de palavras, ou de sinais, era punida com severas sanções, único meio de acobertar as suas actividades políticas, pela independência dos olhos vigilantes da metrópole espanhola e dos seus títeres em terras americanas.

Todas as Lojas “Lautaro”, assim como a Loja “Cavaleiros da Razão”, sucursal da “Grande Reunião Americana” em Cádis, resumiam a sua doutrina política e a sua maneira de acção em cinco graus, assim discriminados:

  • 1° Grau: Ao ser iniciado, o candidato jurava, sobre o Esquadro e o Compasso, símbolos principais da Maçonaria que dedicaria todos os seus esforços à causa da Independência americana, pondo a serviço dela, a sua vida e os seus bens.
  • 2° Grau: O iniciado tinha que mostrar os serviços realizados como Aprendiz e reafirmando a sua fé nos destinos democráticos da América, devia jurar que só reconheceria, como governo legítimo, aquele que fosse eleito pela livre e espontânea vontade do Povo, obrigando-se, também a trabalhar pela implantação do regime republicano, sob a inspiração da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade, fontes da soberania popular e da solidariedade entre os povos da América, como ponto inicial para o aperfeiçoamento das relações fraternais entre todos os povos do mundo.
  • 3° Grau: O candidato, aspirante à plenitude dos direitos do Mestre, devia reconhecer que a cada um desses direitos correspondia um indeclinável dever e, também, que para ele a pátria americana sobrelevava o valor da sua própria vida. Assumia, ainda o compromisso de propagar, entre o povo, a necessidade de uma insurreição geral, declarando-se disposto a todos os sacrifícios pelo bem da Pátria e da Humanidade.
  • 4° Grau: O postulante que, nos três graus anteriores, tivesse dado provas da sua total dedicação à causa, subia, então, à verdadeira essência da actividade e do poder político da Ordem, onde ele teria, diante do magno ideal de independência, de converter os funcionários do governo à causa da revolução, subvertendo, ao mesmo tempo, a máquina administrativa colonialista, empurrando-lhe as engrenagens e dificultando-lhe a acção normal e regular. É claro que, a este grau, só chegavam os membros de maior valor, pois na actividade inerente a esse estágio, qualquer passo em falso colocaria em risco toda a rede conspiratória das Lojas, comandadas pela “Grande Reunião Americana”.
  • 5° Grau: Sendo o grau administrativo e máximo da Instituição, a ele só ascendiam os grandes chefes militares e civis, a quem cabia a preparação militar, a escolha dos valores mentais para as funções de governo e a selecção dos agentes diplomáticos, incumbidos da preparação psicológica e da captação das simpatias das nações estrangeiras com o fim de conseguir delas o apoio moral e material do movimento. Possuíram este grau os grandes nomes das revoluções emancipadoras americanas: Bolívar, San Martin, Francisco Miranda, Sucre, O’Higghins, Marti, Rivadavia, Belgrano, Irgoyen, Pueyredón e o padre mexicano Miguel Hidalgo, mártir da independência do México e vítima da descabida sentença do bispo Michoacán.

A simples menção da estrutura doutrinária destes graus demonstra uma profunda e secreta actividade política, baseada numa rede conspiratória de carácter internacional, abrangendo a Inglaterra, França, Espanha, onde Cádis era um celeiro de conspirações, através da secretíssima “Cavaleiros da Razão”, onde San Martin foi iniciado, a Rússia de Catarina II, protectora e incentivadora de Miranda, os Estados Unidos da América, com Washington, Franklin, e os países latino-americanos. Esta luta só foi possível graças ao carácter internacional da Maçonaria, com os seus membros sendo recebidos como Irmãos em todos os países e graças ao segredo dos Templos maçónicos.

Como toda a revolução, esta também possuiu os seus mártires; o cura Miguel Hidalgo foi um, e Francisco Miranda, o precursor da independência hispano-americana, o fundador da Grande Reunião Americana, em 1797, e o patrocinador da declaração de independência da Venezuela, a 5 de Julho de 1811, foi o outro. Durante as utas pela consolidação da emancipação venezuelana, Miranda foi preso em La Guairá, enviado a Porto Rico e depois à Espanha, em 1812; encerrado em San Fernando, sofreu longos padecimentos nas mãos dos seus inimigos, falecendo, quatro anos depois, no hospital do arsenal local. Os frades do presídio não permitiram que fossem feitas as suas exéquias e nem que os seus muitos amigos estivessem presentes ao seu sepultamento, mandando queimar, também todos os seus pertences, num auto-de-fé, muito a gosto da Inquisição espanhola. Existem, todavia, controvérsias em torno desta afirmação, pois alguns autores negam que ele tenha morrido na prisão e que não tenham sido feitas as suas exéquias.

José Castellani

Notas

[1] Declaração da Independência dos Estados Unidos da América.

[2] Por ter Abraham Lincoln, décimo sexto presidente dos Estados Unidos, feito referência elogiosa, em certa ocasião, à Maçonaria, alguns autores, afoitamente, o “iniciaram”. Não existe, na realidade, nada que comprove que Lincoln foi Maçom e nenhuma das Grandes Lojas norte-americanas confirma tal afirmação. (N. A.).

[3] Conforme dados fornecidos pela Grand Lodge of Brites Columbia and Yukon A. F. & A. M. (n. a.).

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