Filosofia Iniciática do Grau de Aprendiz (I)

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A instrução simbólica

A Palavra Sagrada que é dada ao novo iniciado depois da sua consagração e admissão definitiva na Ordem é, como temos visto, um símbolo de instrução verbal sobre os Princípios da Verdade que cada Aprendiz tem o direito de esperar dos que se encontram mais adiantados que ele na Senda da Iniciação.

Sendo a Maçonaria, na sua verdadeira essência tradicional e universal, uma Escola Iniciática, ou seja uma Academia destinada à Aprendizagem, ao Exercício e ao Magistério da Verdade e da Virtude, é natural que esta instrução deva ser esperada por parte dos menos adiantados e deva ser dada por aqueles que se encontram a isto capacitados. Esta comunhão espiritual de estudos e aspirações é a razão pela qual existem as Lojas e outros agrupamentos Maçónicos.

A instrução deve ser dada como se faz com a palavra: “ao ouvido”, ou em secreto entendimento e “letra por letra”, isto é, partindo dos primeiros elementos e com a activa cooperação do discípulo, cujo progresso não depende do que recebe, mas do que encontra por si mesmo, pelos seus próprios esforços, pelo uso que faz da primeira instrução recebida com meio e instrumento para descobrir a Verdade.

Este método caracteriza e distingue a instrução iniciática da instrução profana. Enquanto o objectivo desta última é simplesmente o de comunicar determinados conceitos ou conhecimentos, preocupando-se menos com a opinião que o discípulo possa formar sobre os mesmos, que da sua capacidade para repeti-los tal como lhe foram comunicados. Para a instrução iniciática isto representa unicamente o ponto de partida, e o essencial é a opinião que cada um forma dos seus próprios esforços e raciocínio sobre aquilo que recebeu.

A uma primeira e elementar compreensão dos Princípios ou rudimentos da Verdade, que representa a opinião e o resultado do esforço pessoal do instrutor – a primeira letra da palavra da Sabedoria – deve-se seguir um período silencioso de estudo e reflexão individual, no qual o discípulo aprende a pensar por si próprio, avançando pelos seus próprios esforços pelo Caminho que lhe foi indicado. Este estudo e esta reflexão, encontram o seu amadurecimento na descoberta da segunda letra, que é aquela que o discípulo deve dar ao Instrutor, em resposta à primeira, com o objectivo de que possa ser julgado digno e capacitado a receber a terceira, que é de um tipo inteiramente diferente das duas primeiras.

O tríplice sentido

As três letras da Palavra simbolizam efectivamente o tríplice sentido – exotérico, esotérico e transcendente – de toda expressão simbólica ou verbal da Verdade.

O primeiro sentido é aquele que corresponde à apresentação exterior de determinado ensinamento ou Doutrina. Na Maçonaria esta apresentação consiste nos símbolos, cerimónias e alegorias que caracterizam a Ordem. Na religião constitui os dogmas, cerimónias e obrigações exteriores. Na Ciência está representada pela observação analítica que nos familiariza com as propriedades exteriores das coisas. Na Arte, indica aquele conjunto de regras e cânones que formam a veste exterior e a técnica do artista. Esta é a letra que comumente se escreve.

Unicamente por intermédio do esforço pessoal, com o estudo, a reflexão e a aplicação individual, pode-se chegar ao sentido esotérico da Verdade, a Doutrina Interior é o verdadeiro segredo Maçónico, o místico ou o secreto entendimento da Verdade apresentada exteriormente nas alegorias da construção e dos seus instrumentos. Esta segunda letra não pode, portanto, ser escrita e também não o pode a seguinte que somente se recebe pelo facto de possuir a segunda.

Assim como o Maçom deve chegar pelos seus próprios esforços ao conhecimento da Doutrina Iniciática que fará dele um verdadeiro filósofo, o mesmo caminho acha-se aberto no campo da religião para o metafísico que busca o sentido profundo dos dogmas e símbolos religiosos e o valor operativo das suas cerimónias quando for entendido no seu significado espiritual. Assim , igualmente, o sincero e ardente buscador da Verdade não se circunscreverá à observação exterior dos fenómenos e das leis que governam a sua causalidade imediata, senão que esforçar-se-á por reconhecer e encontrar os Princípios que os regem e aos quais obedecem.

O Artista não será digno de tal nome até que a arte daquele que tenha aprendido o domínio puramente técnico ou formal, não seja capaz de expressar a sua própria vida e os seus sentimentos interiores.

Por conseguinte, em qualquer campo da vida temos de progredir constantemente desde um conhecimento inicial do concreto para o reconhecimento do mais profundo que nos inicia subjectivamente na realidade da coisa conhecida. Esta passo, simbolizado na Maçonaria pela passagem da primeira à segunda letra da Verdade, ou do primeiro ao segundo grau da iniciação, é uma preparação necessária para chegar à terceira letra ou terceiro sentido da Verdade, que corresponde ao terceiro grau da Iniciação, ao Magistério que dá a capacidade de falar ou realizar o que individualmente tenha sido assimilado.

Os três anos

Os três anos do Aprendiz e os três passos da sua marcha, ainda lembrando as três viagens da iniciação, são evidentemente o símbolo do tríplice período que marcará as etapas do seu estudo e do seu progresso.

Estes três períodos referem-se particularmente às três artes fundamentais (a Gramática, a Lógica e a Retórica) a cujo estudo se deve aplicar, ainda que deva contentar-se com dominar unicamente a primeira, por ser a perfeição da segunda e da terceira, respectivamente, o objecto do domínio dos Companheiros e Mestres.

A primeira entre as sete “artes liberais” – a Gramática – refere-se ao conhecimento das letras (em grego gramática: “sinais, caracteres ou letras”), isto é, ao conhecimento dos Princípios ou elementos simbólicos com os quais é representada a Verdade. Neste estudo é onde principalmente deve ser demonstrada a capacidade do Aprendiz, que ainda não sabe ler nem escrever” a linguagem da Verdade, senão que se exercita tanto num como no outro, soletrando ou estudando uma por uma as letras ou Princípios Elementares nos quais se pode resumir e nos quais pode ser traçada a origem de todas as coisas.

Há também, evidente referência dos três anos do Aprendiz ao conhecimento dos três primeiros “números” ou Princípios Matemáticos do Universo: o número um, ou seja, a Unidade do Todo; o número dois, ou seja, a Dualidade da Manifestação, e o número três, ou seja, o Ternário da Perfeição.

Este conhecimento filosófico dos três números, sobre o qual falaremos logo após, é de verdadeira e fundamental importância, enquanto compendia e sintetiza em si todo o conhecimento relativo ao Mistério Supremo das coisas. Pitágoras o expressou admiravelmente nas palavras: A Unidade é a Lei de Deus (ou seja, do Primeiro Princípio, da Causa Imanente e Pra Antinómica), o número (nascido da multiplicação da Unidade e por meio da Dualidade) é a Lei do Universo, a Evolução (expressão da Lei do Ternário) é a Lei da Natureza.

Ou, segundo as palavras de Ramaseum de Tebas: Tudo está contido e se conserva no Um, tudo se modifica e se transforma por três: a Mónada criou a Díade, a Díade produziu a Tríade, e a Tríade brilha no Universo inteiro.

A unidade do todo

A Primeira Lei ou Princípio, cujo reconhecimento caracteriza e distingue constantemente ao Verdadeiro filósofo iniciado, é a da Unidade do Todo ou, como diziam os antigos: “En to Pan” – “Uno o Todo”. O Todo é Uno na sua Realidade, na sua Essência e Substância íntima e fundamental; tudo vem da Unidade; tudo está contido e sustentado pela Unidade; tudo se conserva, vive, é e existe na Unidade; tudo se dissolve e desaparece na Unidade.

A Unidade está simbolizada naturalmente pelo ponto, origem da linha recta, do círculo e de toda figura geométrica (o ponto superior que reflectindo-se no seu aspecto dual, representado pelos dois pontos inferiores, forma os três pontos ( que caracterizam os maçons).

O Ponto, enquanto simboliza a Unidade, é um centro, o Centro do Todo, o Centro Omnipresente, no qual estão contidos, na sua totalidade e unidade, o espaço, o tempo e todas as coisas existentes. Não existe lugar onde não se encontre e que não seja uma manifestação ou aspecto parcial desta Sublime Unidade que constitui a Eternidade e o Reino do Absoluto.

Este Todo, é evidentemente, o ser, isto é, o que é Ego sum qui sum; heis aqui a definição da Realidade que constitui o Grande Todo, a Essência e Substância de todas as coisas, potencialmente contido em todo o “ser” e parcialmente manifestado em toda a existência, e no qual vivemos, nos movemos e temos o nosso ser.

O conhecimento do Uno (um conhecimento que para ser tal deve superar a ilusão da dualidade, entre “sujeito conhecedor” e “objecto conhecido”, que é a base de todo conhecimento ordinário) é o objecto supremo de toda filosofia e de toda religião: todo conhecimento relativo que se funde neste reconhecimento da Unidade do Primeiro Princípio que tem a sua base na Realidade; toda ciência ou conhecimento que dele se descuidar, não será a verdadeira ciência nem o verdadeiro conhecimento, uma vez que descansa fundamentalmente na ilusão.

Conhecer a Unidade do Todo, é pois, conhecer a Realidade, “o que é” verdadeiramente; e não reconhecê-la, ou admitir implicitamente que pode haver dois princípios fundamentais e antinómicos, ou que não há unidade e identidade fundamental entre duas coisas ou objectos em aparência diferentes, significa viver ainda no Reino da Ilusão ou na aparência das coisas e não saber discernir entre o real e o ilusório.

A Luz Maçónica consiste neste discernimento fundamental, que nos faz progredir constantemente em inteligência desde o Ocidente, que é o Reino da Ilusão, da Multiplicidade e da Aparência, em direcção ao Oriente, que é o Reino do Real, da Unidade e do Ser. No Ocidente vemos o Uno manifestado na diversidade de seres e coisas diversas, sem aparentes laços ou relações entre si, enquanto que no Oriente reconhecemos a Unidade na multiplicidade (Unidade essencial, substancial e imanente, numa multiplicidade aparente, contingente e transitória) e o laço ou relação interior que unifica a multiplicidade exterior.

Cada ponto do espaço é um centro e um aspecto do Ser, um Centro ou aspecto desta Unidade, da que tende a reproduzir em si mesmo as infinitas potencialidades. Assim pois, no infinitamente pequeno está contido o Mistério do Todo e do Infinito, e em cada aspecto do Ser, existem indistintamente todas as possibilidades do Ser e da Unidade.

A linha recta

A linha recta, produzida pelo movimento do ponto de um a outro extremo (representados pelos dois infinitos), é o emblema da vida individualizada, nascida da Unidade do Ser, assim como de todo movimento ou passo do ponto numa infinita sucessão de pontos, que caracterizam o Espaço, ou a Eternidade na infinita sucessão de momentos que formam o Tempo, tal como vulgarmente o conhecemos.

Assim como na mecânica a linha recta representa uma força, e a direcção em que ela se aplica na Maçonaria representa o progresso rectilíneo, que é a resultante da força individual potencialmente encerrada no ponto ou Centro do nosso ser, aplicada naquela exacta direcção que dá como produto natural a evolução ou “desenvolvimento progressivo e progressista” das potencialidades latentes nas virtudes ou poderes activos.

Este progresso individual, simbolizado pela linha recta, está muito bem representado pelo prumo, que mostra o esforço vertical de cada ser e de toda a Vida no seu conjunto, de baixo para cima, desde a atracção dos instintos e das tendências materiais escravizadoras, à atracção de um Poder, de uma Lei ou Ideal superior, que é a luz do Sol para a vegetação e os seres orgânicos, e a Luz interior da consciência para o homem e os seres conscientes. Este esforço vertical é condição necessária para toda finalidade ou efeito construtivo.

Assim como sem o prumo não seria possível dispor verticalmente as pedras na posição mais adequada à estabilidade e progresso de uma construção, seria também impossível o progresso individual do homem se todos os seus pensamentos, aspirações e acções não se modelassem sobre uma mesma linha recta, no sentido oposto à atracção das tendências interiores, elevando-se gradualmente até a percepção das suas possibilidades superiores.

Finalmente, a linha recta representa uma relação ininterrupta entre os dois infinitos que marcam os seus limites extremos, isto é, entre os dois aspectos antinómicos e complementares da Unidade Mãe, fazendo-nos ver uma vez mais, a unidade fundamental da Dualidade Aparente no mundo manifestado.

A dualidade da manifestação

Ainda que tudo seja essência e realidade, tudo se manifesta e aparece como dois. Unidade e Dualidade, estão assim, intimamente entrelaçadas, indicando a primeira o Reino Absoluto, e a segunda, a sua expressão aparente e relativa, sem que haja nenhuma separação verdadeiramente entre estes dois aspectos diferentes da mesma Realidade.

Assim como a Unidade caracteriza o Ser (no qual não pode existir nenhuma diferença ou antinomia), assim igualmente, a Dualidade expressa a existência nas suas múltiplas formas, entrelaçadas, por assim dizer, nos pares de opostos, que constituem o selo que marca o mundo dos efeitos e a Lei que governa toda a manifestação.

A dualidade começa no próprio domínio da consciência, com a distinção entre “eu” e “aquilo”, entre, o sujeito e o objecto (sujeito conhecedor e objecto conhecido), constituindo assim o fundamento de todo o nosso conhecimento e experiência, tanto interior como exterior. Não deve, pois, surpreender-nos que estando o sentimento de dualidade tão fortemente enraizado na ilusão da nossa personalidade, seja difícil subtrairmo-nos à mesma e chegar assim à perfeita consciência da Unidade transcendente do Todo, na qual a ilusão da dualidade – que forma a base do nosso pensamento ordinário – esteja superada por completo.

Temos dois olhos para ver, aos quais correspondem dois ouvidos e dois diferentes hemisférios cerebrais, como instrumentos orgânicos da nossa inteligência, e duas mãos e dois pés, instrumentos da nossa vontade. Como o nosso pensamento ordinário baseia-se naquilo que vemos e ouvimos, é evidente que a nossa visão exterior das coisas seja invariavelmente “marcada” por esta dualidade, misticamente simbolizada pela Árvore da Ciência, do Bem e do Mal, comendo de cujo fruto se perde momentaneamente a consciência da Unidade, que, entretanto, constitui a nossa Sabedoria instintiva e primordial (anterior à queda do domínio dual da consciência material).

Somente quando aprendemos, por meio do discernimento e da abstracção filosófica, a unificar os dois aspectos da nossa visão exterior por meio do olho simples da nossa consciência interna, chegamos ao conhecimento da Realidade (que é o conhecimento da Unidade), e a ilusão da Dualidade e da Multiplicidade perde inteiramente o poder que exerceu sobre nós.

Então, o “eu” identifica-se com “aquilo”, o sujeito com o objecto, o conhecedor com o conhecido, e rasga-se para sempre o véu atrás do qual Isis (o Mistério Supremo da Natureza) se esconde dos olhares profanos. Mas, enquanto isso, o Véu da Ilusão permanece estendido entre as duas colunas, e a ciência ordinária – a ciência que se baseia na observação e na experiência que provêm da ilusão dos sentidos e é impotente para levantá-lo.

Maxell Egens

(Continua na Parte II)

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1 thought on “Filosofia Iniciática do Grau de Aprendiz (I)”

  1. FRANCISCO OMAR FERNANDES

    Parabenizo queridos e poderosos iirm, pelo maravilhoso trabalho á frete da FREEMASON
    Levam instruçoes e orientaçoes ricas para o nosso aprendizado.]
    QUE O GADU OS CUBRAN DE MUITAS BENÇAOS,]]

    UM TFA,
    FRANCISCO OMAR FERNANDES

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