A Maçonaria para os leigos: Mistérios, Origens e Estrutura

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Giorgione - Três Filósofos, maçonaria
Giorgione – Três Filósofos

Introdução: Mistérios

Para uma pessoa que não sabe utilizar a informática básica, o computador representa um mistério que só poderá ser desvendado através de uma iniciação (início) nos estudos da mesma. ora, aquilo que é o desconhecido, portanto oculto e representando um mistério (simbolicamente a escuridão / trevas), está a todo o momento presente na vida do homem, resta saber se o mesmo possui as condições e / ou os atributos para receber o conhecimento (luz / iniciar) que lhe tirará da condição de ignorância (novamente escuridão / trevas) do que é desconhecido, tendo assim conseguido, será, portanto, um iniciado em tais assuntos / conhecimentos que outrora eram misteriosos para o mesmo.

A AMORC e MacNulty colaboram para uma melhor compreensão do conceito dos mistérios:

(…) os egípcios antigos fundaram as primeiras Escolas de Mistério. Para ser admitido nessas escolas, era preciso ser considerado digno de receber a sabedoria que os mestres consideravam sagrada e valorizavam mais que tudo no mundo. (…) Na Roma antiga, os mistérios eram chamados initia e, os iniciados, mystae. O vocábulo, initiare, em latim, significa inspirar e, initium quer dizer começo ou instrução. (…) (AMORC, 1985, p.8).
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Os Mistérios constituíam-se numa instituição pública reconhecida no mundo antigo. Embora tenham tido maior influência sobre a vida intelectual ocidental dos séculos não muito distantes como o XVI e o XVII, hoje é difícil compreender porque se baseiam numa visão do mundo tão diferente da do nosso materialismo científico contemporâneo (MACNULTY, 1996, p.5).

Os mistérios acerca da Maçonaria desenvolvem-se com a própria definição de mistério, pois além dela representar um conhecimento (gnose) que só os Iniciados na mesma tendem a acreditar que possuem, a forma que este conhecimento é passado (através de rituais / a Iniciação) também constitui um mistério no sentido de segredo e para ampliar ainda mais o horizonte, este mistério, é um mistério considerado antigo e por isso mais fascinante, querendo-se remontar as Antigas Escolas de Mistérios. Por isso, a Maçonaria também é conhecida como uma Escola de Mistérios.

Ainda hoje as pessoas ficam fascinadas pelo segredo ou mistérios maçónicos, para tanto, verifica-se as antigas [1] e mais recentes [2] produções cinematográficas e também literárias [3] que têm como centro a Maçonaria para se verificar que o termo “Maçonaria” vende e entretém muito, aguçando a curiosidade das pessoas.

A Pedagogia e a Estrutura Maçónica

Quando se pensa em rituais, faz-se logo referência a algo ligado a alguma religião, culto, a magia (mágico) ou ao sobrenatural, porém, também podem ser relacionados a algo formal e simples e que está no nosso quotidiano.

Os rituais estruturam e organizam a vida das pessoas, tendo como estrutura basilar a repetição como característica, levando em alguns casos à disciplina; há, portanto, uma aprendizagem consciente ou inconsciente sobre o ritual.

Os rituais, executados repetidamente, conhecidos ou identificáveis pelas pessoas, concedem uma certa segurança. Pela familiaridade com a(s) sequência(s) ritual (is), sabemos o que vai acontecer, celebramos a nossa solidariedade, partilhamos sentimentos, enfim, temos uma sensação de coesão social (RODOLPHO, 2004, p. 139).
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“(…) Numa simples apresentação de um amigo a outra pessoa, por um conhecido comum, há um rito: ligeira curvatura, aperto de mãos, palavras de cortesia, ar sorridente. Se não for observado o rito, alguém pode ser severamente censurado e classificado como mal educado, grosseiro, estúpido. Todos os processos, usos e costumes da nossa civilização baseiam-se em ritos. É por isto que nas Chancelarias há, obrigatoriamente, um chefe do ritual destinado a programar a maneira correcta de recepções, a fim de se evitarem “gaffes” às vezes imperdoáveis e de repercussões internacionais, envergonhando a nação em que foram cometidas. Dão a esses “experts” o nome de Chefe de Cerimonial; mas é mesmo do Ritual.
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Quando se diz que a personagem tal quebrou o protocolo, leia-se: desobedeceu ao ritual, ao uso e costume que tem de ser observado e seguido nos actos cerimoniosos de carácter oficial. (…) (ALENCAR, 1980, p.89)

Victor Turner (1974) desenvolve a ideia de um tipo específico de ritual, esta especificação ele chama de “rito de passagem”. Arnold van Gennep, citado por Turner, define esses ritos como ritos que acompanham toda mudança de lugar, estado, posição social e de idade. Há diversos tipos de ritos, tais como: da hospitalidade, da adopção, da gravidez e parto, do nascimento, da infância, da puberdade, da iniciação, da ordenação, do noivado, do casamento, dos funerais, das estações, etc.

Para Rivière (1997 apud RODOLPHO, 2004), a aprendizagem da leitura e da escrita é uma forma de iniciação, de atribuição de uma nova identidade à criança. As etapas escolares na nossa sociedade como por exemplo o fim de colégio e entrada na universidade, os trotes aos calouros, são etapas que seguem, atribuindo-se a cada um de nós novas identidades e novos papéis a serem desempenhados junto ao grupo que convivemos. O importante em qualquer ritual não é o conteúdo explícito, mas as suas características de forma, convencionalidade, repetição, etc. Não se deve levar pelo valor da racionalidade ou pelos critérios da nossa sociedade, já que estes não são válidos para outros grupos.

Já para Andràs Zempléni (2000 apud RODOLPHO, 2004), os protótipos dos ritos de passagem são os ritos de iniciação, pois em ambos se marca a transição de um status social para outro (morte e renascimento simbólicos). Portanto, a iniciação é uma forma sintética dos ritos de passagem, por meio dos quais ela opera. Porém, a iniciação é mais do que um simples rito de transição, ela é um rito de formação. É esta formação que irá diferenciar os participantes que estão de fora (profanos / não iniciados) dos que estão dentro (neófitos / iniciados). São inúmeras as iniciações, por exemplo, que contam com ritos de inscrição nos corpos de marcas, signos visíveis da formação e transformação (escarificações, circuncisões, modificações no formato dos dentes, perfurações no nariz ou lábios etc.

A sociedade está sempre criando cerimónias de recepção ou passagem para consagrar algum estágio ou conquista na vida do homem, atribuindo a este, nova identidade, novo status, novo papel, nova responsabilidade, nova forma, dentre outros sinónimos a serem desenvolvidos junto ao grupo em que convive; por isso a Maçonaria se utiliza de um ritual / rito como forma de instrução e também da iniciação como forma de recepção, tudo de forma pedagógica para interiorizar, sensibilizar, instruir e formar os candidatos (e os maçons já iniciados) a ser tornarem pessoas melhores do que já deveriam ser. É notável o papel dos rituais no quotidiano do homem antigo e moderno, o que a Maçonaria faz é dar o toque da tradição e antiguidade a este aspecto pedagógico, tentando resgatar valores e situações ora esquecidos ou adormecidos na labuta do dia a dia.

Assim como uma Escola ou Universidade, a Maçonaria possui uma série de particularidades pedagógicas e também administrativas, alicerçadas nas mais repletas tradições construídas ao longo do tempo. Possuindo também os maçons, cargos e hierarquias voltados para a instrução (pedagogia) e também para a administração (gestão) da instituição.

O “profano” (candidato) para ingressar na Maçonaria deve ser convidado por um Maçom ou demonstrar interesse em pertencer a instituição. Independentemente de o Maçom conhecer ou não o candidato, este passa por longos processos burocráticos e de sindicâncias para a sua entrada na instituição. Todo este processo que irá findar com a iniciação propriamente dita, pode ser comparado a um vestibular para ingresso numa instituição de ensino superior.

O espaço físico onde os maçons, também conhecido como obreiros ou pedreiros livres, se reúnem é chamado Loja, a Loja representa todo espaço físico do ambiente, incluindo todas as salas, espaços, quintal, banheiros, cozinha, os bens móveis. A Loja possui um espaço físico, que é como se fosse uma sala de aula, destinado aos estudos formais, trabalhos e cerimoniais dos maçons. Este espaço físico dentro da Loja em alguns ritos maçónicos é chamado de templo. Quando os maçons estão reunidos liturgicamente dentro do Templo, dizem então que estão na oficina trabalhando / estudando. Os mesmos necessitam, igual a uma escola, estar uniformizados, no caso dos maçons, os mesmos utilizam-se de um avental para simbolizar que estão trabalhando / estudando para o seu aperfeiçoamento e o da humanidade.

A Maçonaria possui “séries” ou “períodos” que são os chamados graus, estes por sua vez consistem na sua forma simbólica e, portanto, básica para formação do Maçom, em três: aprendiz (1° grau), companheiro (2° grau) e mestre (3° Grau), leva-se, no Brasil, uma média de 1 a 2 anos para que esta formação se complete. Há também os graus complementares, erroneamente conhecidos como filosóficos, que são os que estão acima do grau de Mestre, que vão variar em números conforme o rito. O homem que não é Maçom é chamado de profano e o ensino ministrados aos maçons é chamado de arte real. São os Mestres que, estando aptos, instruem os aprendizes e companheiros na oficina. O cargo mais alto de uma Loja é chamado de Venerável Mestre. O cargo mais alto em âmbito territorial num território (estado ou país) é chamado de Grão-Mestre, que pode ser comparado a um reitor. Para exercer qualquer cargo, além da aptidão o Maçom em questão deve ter sido escolhido através de votação pelos outros maçons.

A reunião / junção de três Lojas ou mais, faz com que as mesmas se organizem politicamente e administrativamente em federações ou confederações. Costuma-se utilizar os termos de Grande Oriente ou Grande Loja as jurisdições maçónicas que governam as Lojas num determinado território. Um território pode ter mais de uma Grande Loja ou Grande Oriente. Caso estes se reconheçam mutuamente, isso significa que concordam em partilhar o governo maçónico naquele território. O Grande Oriente e a Grande Loja são chamados de obediências ou potências maçónicas.

A Arte Real, possui formas diferenciadas de serem transmitidas. A Maçonaria chama de rito um conjunto sistemático de cerimónias e ensinamentos, que podem variar de acordo com o contexto histórico em que foram criados, a temática do seu criador ou sintetizador, o objectivo e a influência de diversos saberes. São exemplos de Ritos mais conhecidos: Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA), Rito Adonhiramita, Rito Brasileiro, Rito Moderno ou Francês, Rito de York, Rito Schroeder ou Alemão, etc.; mas todos com pontos comuns inalteráveis, que servem como uma espécie de Projecto Político Pedagógico, e que devem ser seguidos.

A pedagogia contida no ritual é repassada ao Maçom para que ele tente colocar aqueles ideais abstractos em prática quando sair do espaço sagrado da ritualística. A moral, por exemplo, presentificada no ritual, é relativizada e considerada “moralidades” quando se examina o “contexto da situação”. Pois no plano empírico cada um a interpretará de uma forma, de acordo com as suas conveniências e interpretações para Maçonaria (SOUZA, 2006, p.22).

Devido a estes diversos ritos e as formas de se organizarem pedagogicamente, politicamente e administrativamente, alguns autores preferem utilizar o termo Maçonarias ao invés de Maçonaria, por entenderem que há diversas casas maçónicas de linhas de pensamentos diferentes, inclusive algumas sendo reconhecidas como Maçonaria, outras buscando o reconhecimento, algumas perdendo o reconhecimento e outras não procurando o reconhecimento, porém utilizando o termo “Maçonaria” ou outro equivalente em seu nome, como forma de demonstrar uma antiguidade e / ou uma tradição, no entanto modificada, não se utilizando de todas as principais regras de regularidade, por acharem que as mesmas estão ultrapassadas, representando uma época em que certas conquistas e direitos, principalmente a igualdade de direitos entre o género masculino e feminino não se tinham consumado.

O douto Grão Mestre Lucas Galdeano muito bem dissertou sobre tais regras de regularidade:

(…) um Rito deve ter conteúdo que consagre algumas exigências bem conhecidas: o símbolo do Grande Arquitecto do Universo, o Livro da Lei, o Esquadro e o Compasso sobre o altar dos juramentos, sinais, toques, palavras e a divisão da Maçonaria Simbólica em três graus. Não há nenhum órgão internacional para reconhecer ritos. Acima do 3° Grau, cada Rito estabelece a sua própria doutrina, hierarquia e cerimonial.
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Um rito maçónico, usando simbolismo próprio, é um grande edifício. Deve ter projecto integrado, dos alicerces ao topo. Cada rito possui detalhes peculiares. A linha maçónica doutrinária, em cada Rito, deve ser contínua, dos graus simbólicos aos filosóficos. Cada Rito é uma Universidade doutrinária.
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(…) A Maçonaria caracteriza-se pela diversidade e sempre admitiu a pluralidade de ritos. O Sistema do Rito Único, caso existisse, não seria um bom sistema. A Ordem reuniu sistemas diversos formando uma unidade superior, perfeitamente caracterizada que é a Doutrina Maçónica. A Maçonaria convive com muitos ritos, uns teístas, outros deístas sem esquecer os agnósticos. Afinal, há muitas maneiras de se relacionar com Deus. Mas há um detalhe: o Maçom não pode ser ateu. Em decorrência deste eclectismo, as manifestações maçónicas disseminadas no mundo ao longo do tempo, apresentam-se com grande diversificação, havendo Unidade na Diversidade (…) (GALDEANO, 20–).

Assim, dentro dos Ritos, existem alegorias e símbolos, nos quais o Maçom irá aprender a filosofia maçónica desde a sua entrada na ordem através da iniciação, findo a iniciação, o Maçom ainda terá um vasto universo de estudos e aprimoramentos à sua frente, como explica Souza:

Um rito de passagem muito importante, pois através do cerimonial se dramatiza a entrada de um novo membro – um estranho que se tornará familiar – à Maçonaria.
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Os ritos de passagem são situações inerentemente dramáticas, ou seja, situações de conflito que podem ser analisadas pela chave do ‘drama social’ (…).
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Turner utiliza-se de uma terminologia teatral para analisar as sequências desse ‘drama social’. No caso, dentro do estudo em questão, pode-se dizer que se tem um ‘drama social não-socializado’, pois todo o ritual é realizado a portas fechadas, e restrito aos seus participantes, encarregados de promoverem o processo de transformação do ‘profano’ em Maçom e de testar a sua certeza em entrar para a organização. Este autor considera o ‘drama social’, no seu desenvolvimento formal completo, ‘como um processo de conversão particular de valores e fins, distribuído sobre um âmbito de actores, dentro de um sistema’. A ritualização de iniciação de passagem, isto é, quando ‘alguém começou a se mover em direcção a um novo lugar na ordem social’, de qualquer grau, pode ser vista como a encenação de um drama, um processo em que alguns valores devem ser transformados, dentro de uma visão de mundo. Para isso, o significado de todo o drama é performatizado. Para Turner, o ‘homem é um animal auto-performático, as suas performances são, de um modo, reflexivas, em performance ele revela a si mesmo para si mesmo’. A performance do ritual de aprendiz, portanto, revela muito sobre a visão de mundo maçónica(…) (SOUZA, 2006, p.23-24).

Estas alegorias consistem em passar certas verdades ou questionamentos, de formas teatrais, dando a oportunidade de se “sentir” o ensinamento, coisa que uma leitura, aula ou palestra seria incapaz de realizar. É o teatro ensinando o homem, onde o profano na iniciação é o actor e espectador protagonista:

(…) o estudo abordado na Ordem passa por áreas diversas, tais como a astronomia, a física, a química, a matemática, e as ultrapassa enveredando por temas que carecem ainda de comprovação científica. Como, por exemplo, a sugestão na forma de existência de forças invisíveis que influenciariam nas decisões das pessoas. Algo dentro de uma racionalidade maçónica, porque não considerada sobrenatural, mas uma técnica que estaria dentro das leis da natureza, desconhecida pela média dos indivíduos.
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Ora, quaisquer destes temas podem ser encontrados actualmente em profusão em boas livrarias e em editoras ligadas ao tema do esoterismo. (…).
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Contudo, nunca se sabe como este ‘programa de estudos’ com os seus ‘conteúdos’ são exactamente abordados em cada loja (…) (Idem, Ibidem, p.88).

Macnulty também dá a sua contribuição sobre o assunto:

A interpretação dos símbolos, se chegar a ser feita na totalidade, é responsabilidade de cada Maçom; e neste processo de interpretação pessoal – e da observação dos princípios que regem a vida de cada um – podemos verificar como o Ofício da Maçonaria assume vida como um mistério.
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(…) Assinala-se que os eruditos do Renascimento, os criadores da franco-Maçonaria especulativa, consideravam o seu ‘Oficio’ como uma disciplina que hoje identificaríamos com a psicologia, ou talvez com a actual investigação académica acerca da natureza da consciência (…) (MACNULTY, 1996, p.7).

Assim como as Escolas ou Universidades, os alunos, os maçons, não serão iguais. Não haverá uma uniformidade de pensamentos ou atitudes destes maçons que “beberam” do conhecimento maçónico. Até porque, quando um homem se torna Maçom, o mesmo já possui toda uma história de vida, experiências e formas de pensar, que serão somados, misturados, desbastados e lapidados com aquilo que a pedagogia maçónica apresenta a ele. Além de que, o convívio com diversos irmãos das mais variadas crenças religiosas, posições sociais e profissões, irá enriquecer e alimentar o conceito de sociabilidade, pois o campo da Maçonaria é constituído de um vasto mundo de elementos e interesses; lembramos umas das máximas da sociologia que diz que o meio influencia, porém não determina o comportamento do agente. Isso também é observado por Souza:

O mundo da Maçonaria não está livre de influências, nem de contaminações, com diversos campos. (…). A teoria dos campos tem a utilidade de registar, em nível abstracto, um ‘pensamento institucional’ que, no caso deste estudo, a Maçonaria quer concretizar e dizer sobre si mesma. Não existe de facto ‘mundo à parte’: o que se tem são pessoas-corpo que nos seus quotidianos participam de vários universos aparentemente isolados uns dos outros, mas que, quando nos aproximamos para analisá-los, percebemos que eles sempre se relacionam a outros campos, portanto, não são isolados, embora conservem, na maioria das vezes, um carácter próprio, que lhes permite afirmar uma identidade de grupo. (…).
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(…) aos múltiplos interesses que motivam a movimentação de um Maçom, o que faz com que tudo dentro do campo maçónico se torne múltiplo: pois nem sempre um Maçom se comporta como outro Maçom, pois os dois podem ter interesses divergentes pela Maçonaria; o capital a ser alcançado, pois um Maçom pode estar em busca do sagrado e outro da protecção oferecida pela instituição; a representação de Maçonaria, já que um pode compreender a Maçonaria como uma instituição filantrópica e outro pode lê-la como algo mais além; a função da Maçonaria, etc. Tais tópicos não se constituem como campos dentro do campo maçónico, pois não envolvem concorrência por posições melhores, mas como ‘lugares’. Ou melhor, lugares de interesse, a exemplo da filantropia, da ajuda-mútua, do esoterismo (SOUZA, 2006, p.20-21).

Apesar de opiniões diferentes sobre diversos campos, os maçons conservam, na maioria das vezes, um carácter próprio, que lhes permite afirmar uma identidade de grupo, que fará com que haja certa coerência entre os seus afiliados. A construção e desconstrução do Maçom como pessoa, as metáforas passadas através das alegorias e simbolismos que constituem toda a estrutura de linguagem simbólica da instituição que tem como objectivo garantir a continuidade e a transmissão, permitindo a superação das experiências concretas do homem. Os maçons compartilham de um mesmo sistema de significados, uma variedade limitada pela tradição da Arte Real, que em contraposição à sociedade é o valor dado aos costumes e usos.

A Maçonaria assimila, através do Maçom, o contexto histórico da época em que é praticada e também o lugar, adequando-se através dos tempos, porém sem perder as suas tradições mais valiosas que a garantem e a tornam reconhecida e identificada como Maçonaria, apesar das divergências a respeito dos Landmarks.

Assim sendo, a aprendizagem do segredo ou sobre o segredo faz com que o Maçom seja educado a respeitá-lo e incorporá-lo no seu viver, tendo ciência de como um Maçom na teoria (ideal) deve conduzir-se dentro e fora da Loja. O Maçom é convidado à cidadania e a actuação política (afinal, o homem é um animal político!). O candidato mesmo após passar por diversas provas durante a sua Iniciação, e tornando-se Maçom, estas “provas” continuam dentro e fora da instituição, pois deve colocá-las em prática e não as deixar apenas na teoria ou amostra apenas para os outros maçons. Percebe-se que o segredo, os segredos ou o secreto tem o carácter de protecção do exterior, transformando-se consequentemente no “cimento” de união entre os seus membros, sendo um desvelar autovelante entre eles.

A Origem

A autora Ângela Cerinotti comenta as variadas hipóteses de contradições a respeito do nascimento da sociedade maçónica, afirmando ser impossível tomá-las analiticamente, como se pode ver na seguinte citação:

Como consta de uma monografia sobre o assunto (La Sessa, La Massoneria: l’antico mistero delle origini [A Maçonaria: o antigo mistério das origens] FOGGIA, 1997), de acordo com uma pesquisa realizada em 1909, em 206 obras historiográficas publicadas até então, acerca das origens da Franco-Maçonaria, surgiram 39 diferentes opiniões (CERINOTTI, 2004, p.8-10).

Ora, se temos 39 opiniões diferentes numa pesquisa realizada em 1909, é facto que este número cresceu com o decorrer dos anos e o avançar das pesquisas e da tecnologia, haja vista também o poder do imaginário popular.

O autor Alain Bauer (2008, p.22-23), citando o professor Antoine Faivre, mostra-nos uma nova “fórmula” buscando sintetizar as diversas maneiras de ver a historiografia maçónica, são elas a abordagem empírico-crítica, a abordagem mítico-romântica e a abordagem universal. A primeira diz que “a análise histórica é factual, e não espiritual. Mais moderna e em plena expansão, ela considera a história maçónica como uma ramificação à parte da história social”. A segunda, “baseada na inventividade muito desenvolvida da parte histórica das Constituições de 1723, reforçada pelas publicações de William Preston, ela combina lendas e factos, chega até a encontrar origens extraterrestres na Ordem. Toda a literatura maçónica dos séculos XVIII e XIX é por ela influenciada.”. A última, sempre de acordo com Antoine Faivre, “procura-se casar o sistema simbólico maçónico com outros sistemas a fim de satisfazer uma necessidade essencialmente experimental e individual. Por outros termos, os símbolos maçónicos não seriam específicos da Maçonaria, mas seriam muito mais a expressão de constantes universais presentes ao longo das eras sob diversos disfarces, independentemente de toda a questão de filiação histórica.”.

O respeitável autor e também Maçom Charles Leadbeater (2012) explica que se pode agrupar as variadas correntes de forma sintética em 4 principais escolas de pensamento maçónico organizadas segundo a relação do conhecimento existente fora do campo maçónico (vulgarmente chamado “mundo profano”). São elas: a Autêntica ou Histórica; a Antropológica; a Mística (ou esotérica); e a Oculta.

A Escola Autêntica ou Histórica é baseada na linha documental, ou seja, aquilo que através da História, através dos Historiadores sejam eles maçons ou não, pode ser comprovado por documentação. Ora, vê-se aqui um positivismo altamente ortodoxo. O próprio nome da escola diz que a mesma parece ter sido a primeira a desenvolver pesquisa sobre a Maçonaria e ao mesmo tempo de forma implícita, faz a sugestão de que as outras escolas não oferecem caminhos adequados para investigação, não tendo com isso a sua autenticidade. Esta Escola afirma não admitir uma Antiguidade na Maçonaria anterior ao século XIII d.C., quando foram produzidos os Estatutos de Bolonha, um texto originalmente em latim, possuindo 3 folhas de pergaminho, datado de 1246, produzido por um escrivão público, a mando do capitão de Bolonha Bonifácio de Cario e reconhecido pelo Conselho de Anciãos em 1248, colocando as sociedades de Construção sob as leis da Cidade de Bolonha (ISMAIL, 2012).

A Escola Antropológica incorpora às suas pesquisas e análises os estudos da Antropologia, ou seja, o estudo de costumes e tradições de sociedades arcaicas, principalmente de tribos, buscando-se nelas as origens da simbologia maçónica, ou até a própria Maçonaria. Os seus adeptos admitem uma Antiguidade bem maior para a Maçonaria, chegando-se a estabelecer analogias com os Mistérios Antigos. Esta escola através de métodos comparativos, percebe semelhanças entre os símbolos e práticas rituais observados em diferentes comunidades com os empregados na Maçonaria. É a mesma linha de pensamento de Antoine Faivre quando fala das constantes universais, a abordagem universal.

A Escola Mística (ou esotérica) parece distanciar-se sensivelmente das outras. Não é produto de nenhum departamento científico fora da Ordem maçónica nem muito menos está interessada nas pesquisas históricas e antropológicas, apesar de eventualmente as utilizar. É uma corrente de pensamento que se aproxima mais da Religião, preocupando-se com o desenvolvimento espiritual do homem, que, segundo ela, deve procurar a união consciente com o Grande Arquitecto do Universo. Valorizando a experiência espiritual, a atenção desta Escola não se volta para o problema da linha de descendência do passado da Maçonaria; admite, no entanto, que a Maçonaria tem ligação com os Antigos Mistérios.

A Escola Oculta, como a sua “irmã” anterior, possui também uma orientação mais próxima do campo da Religião e / ou dos estudos espiritualistas, baseando-se nos conhecimentos do Ocultismo. A palavra Ocultismo pode gerar medo aos mais religiosos que estão imbuídos de pré-conceitos colocados goela abaixo pela sociedade. Para os maçons, o ocultismo nada mais que é que o estudo dos problemas ocasionados pela natureza que não possuem uma solução oficial pela ciência oficial, bem como o estudo e reflexão sobre os mundos além do plano material do homem (físico), tais como o mundo astral e mental, buscando-se um aperfeiçoamento moral e espiritual, através principalmente da meditação e de experiências individuais, fazendo-se assim a ligação com Grande Arquitecto do Universo.

A Maçonaria Operativa, que se estende por toda a idade Média e Renascença e tem o seu declínio iniciado com a fundação da Grande Loja de Londres (1717), compreende a história dos operários medievais, construtores de basílicas, catedrais, igrejas, abadias, mosteiros, conventos, palácios, castelos, torres, casas nobres, mercados e paços municipais.

Parece haver um consenso em que estudiosos e pesquisadores costumam dividir a origem da Maçonaria em três fases distintas:

  1. primitiva,
  2. operativa (ou activa) e
  3. especulativa (fase actual).

Conclusão

Quando o assunto é Maçonaria, os leitores, estudantes e maçons são completamente livres para rejeitar ou discordar de qualquer coisa que lhes possa parecer falsa ou insalubre. Maçonaria é um mergulho num campo repleto de suposições, areias movediças, pântanos, invenções de tradições em cima de tradições e demais expressões pomposas que dão um “ar” de labirinto e brilho a qualquer tema que tenha como objecto a Maçonaria. Uma verdadeira aventura intelectual onde os franco-maçons ingleses e depois os franceses não só proporcionaram meios de criar o mito, como também fizeram, muitas vezes o esforço de nele acreditar, como observou Bauer e também Morel e Souza:

A Maçonaria é fértil em mitos de origem – e mito não quer dizer mentira (BAUER, 2008, p.19).
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Difícil saber onde termina o facto histórico e começa o mito. Ambos estão amalgamados no quotidiano vivido pelos maçons, nos seus ritos, nas suas tradições, no seu imaginário e, sobretudo, na sua identidade. Ambas as narrativas, a histórica e a lendária são, portanto, verdadeiras (BAUER, 2008, p.83).
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(…) o ideário maçónico foi de certo modo pioneiro ao criar a convivência do racionalismo moderno com a adesão, hoje tão espalhada, a ancestrais colectivos e a referências esotéricas como cabala, alquimia, hermetismo, as sociedades iniciáticas egípcias, gregas e judaicas, os Colegia Fabrorum romanos, a cavalaria das Cruzadas… Sempre haverá um ‘pedreiro’ ajudando a tirar pedras tidas como falsa deste ‘templo’ repleto de tradições – gloriosas para uns, duvidosas para outros. É possível preparar um suculento sopão de letrinhas com tantos ingredientes simbólicos, ainda que as receitas divirjam sobre alguns itens (MOREL; SOUZA, 2008, p.35).

Mito também é sinónimo de tradição na Maçonaria, de tradição inventada, entendendo-se como um conjunto de práticas reguladas por regras tácitas ou abertamente aceitas; sendo de natureza ritual ou simbólica visam colocar a semente de certos valores e normas de comportamento através da repetição, o que implica, automaticamente, uma continuidade em relação ao passado. Sempre será possível estabelecer continuidade com um passado histórico apropriado. Passado este no qual a nova tradição é inserida não precisa ser remoto ou perdido nas brumas do tempo, porém na medida que há referência a um passado histórico, as tradições inventadas caracterizam-se por estabelecer com ele uma continuidade bastante artificial. Resumindo, elas são reacções a situações novas que assumem a forma de referência a situações anteriores, ou estabelecem o seu próprio passado através de repetição quase que obrigatória (ROBSBAWN; RANGER, 1997).

A Maçonaria consagra-se a um vasto mundo, mas que no final das contas o seu detentor é quem vai decidir a que prática ela se consagrará; podendo-se dizer que a Maçonaria é para os maçons um desvelar autovelante e para os profanos um desvelar autovelante especulativo e consequentemente mais labiríntico do que é para os próprios iniciados; o que faz com que “o ponto final” desta conclusão seja simbólico e não definitivo. Portanto, já somos proficientes em ligar e desligar o computador.

Marco Antonio L. G. Campillo

Bibliografia

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  • BAUER, Alain. O nascimento da franco-Maçonaria – Isaac Newton e os Newtonianos. Tradução Fulvio Lubisco. São Paulo: Madras, 2008.
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  • CERINOTTI, Angela. Maçonaria: A descoberta de um mundo misterioso. São Paulo: Globo, 2004.
  • FERRÉ, Jean. A história da franco-Maçonaria (12481782). Tradução Eni Tenório dos Santos. São Paulo: Madras, 2003.
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