A nudez do candidato

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iniciação candidato

Um dos elementos marcantes na iniciação de um Candidato é a sua condição desnudada a que é submetido ao entrar na Câmara das Reflexões.

Antes de ser admitido no Templo, é necessária uma preparação física que corresponde a sua preparação moral, como uma das provas que deverá vencer de forma tanto exterior como interior.

Segundo as mais antigas tradições a preparação do candidato é como segue:

  • olhos vendados
  • uma corda com laço de enforcar no pescoço
  • braço e peito esquerdos descobertos
  • joelho direito descoberto
  • pé esquerdo descalço

Na versão francesa dos costumes, o pé esquerdo desnudo leva um chinelo baixo.

Tais procedimentos, segundo Jules Boucher, darão ao candidato a dolorosa impressão de que a sua dignidade de homem foi reduzida, como de um mendicante.

Análise da condição desnudada

Olhos vendados – segundo Magister, a venda que cobre os olhos além de significar o seu estado de ignorância ou cegueira do mundo que o rodeia, ou seja, de perceber tudo a sua volta pela luz, também impõe um isolamento das influências do mundo exterior e, portanto, da luz ilusória dos sentidos como percebemos esse mundo, incentivando-nos agora a nos centrarmos em nós mesmos para uma maior percepção interior ou de forma espiritual das Verdades apresentadas pelas provas da iniciação.

Corda no pescoço – a corda pode ser relacionada aos cordões usados pelos frades, assim como um cordão umbilical que nos uniu a nossa mãe no nosso período intra-uterino. Tal corda pode ainda indicar por estar atada ao pescoço do candidato, um estado de escravidão e serventia, porém no sentido moral, escravidão dos seus erros e vícios, ao qual o homem profano está atado por se encontrar nas trevas do mundo. É como um jugo ou julgamento de fatalidade que pesa sobre ele, e demonstra a ele a necessidade de se livrar desse jugo e escravidão moral degradada, para voluntariamente passar pelas provas e recuperar a sua dignidade. Todas a provas, os seus obstáculos, dificuldades e contrariedades provocadas pela iniciação são oportunidades e meios de progresso interior do candidato.

Braço e peito esquerdo desnudos – estes elementos preparatórios fazem parte do chamado Triângulo da Nudez. Tal despojamento das vestes do lado esquerdo do peito é o despojo de todo e qualquer convencionalismo social, do orgulho intelectual e da sensibilidade moral do candidato. Neste estado, busca-se a sincera manifestação dos seus sentimentos (lado esquerdo do peito), o reconhecimento da Verdade.

Joelho direito desnudo – estando o joelho descoberto nos inspira ao espírito de humildade, do ajoelhar-se perante os verdadeiros valores morais, na busca da Verdade e superação das ilusões. Ao nos ajoelharmos estamos demonstrando humildade, respeito e até mesmo devoção ao princípio a nossa frente. Está também relacionado a pedir perdão por nossos erros, e incitando-nos à reflexão. Ao se constituir um novo cavaleiro, este se ajoelhava para receber as bênçãos e a nova condição, jurando respeito e solidariedade ao constituinte.

Pé esquerdo descalço – as práticas mais antigas não providenciavam chinelos, e sim o candidato era mantido com o pé esquerdo descalço. Tal situação leva-o a um desequilíbrio no caminhar, na marcha adiante, indicando a sua dificuldade de discernimento de qual caminho seguir e de reconhecer a verdadeira natureza dos obstáculos do solo a percorrer, podendo tropeçar a qualquer momento e assim estar dependente do seu guia para o direccionar.

Nestas condições é que o candidato é levado até a Porta do Templo onde irá pedir, buscar e encontrar a Luz da Verdade que lhe restituirá a condição de iniciado.

Existe um conto intitulado “A Roupa Nova do Rei” de Hans Christian Andersen que fala sobre um rei vaidoso que se preocupava apenas com as suas roupas. Ele, porém, é enganado por dois trapaceiros, que se apresentam como tecelões, e afirmam que podem criar uma roupa mágica, que só é visível para aqueles que são inteligentes e competentes. O rei, querendo parecer sábio, finge ver a roupa, assim como todos os seus súbditos, por medo de serem considerados tolos.

Quando o rei finalmente desfilou na sua nova “roupa”, todos o elogiavam, excepto uma criança que grita: “Mas ele está nu!” A revelação da verdade faz com que o rei se sinta envergonhado, mas ele continua a andar orgulhosamente, preso na sua vaidade. A história é uma crítica à superficialidade e à necessidade de reconhecimento social pelas vestes que usamos, mostrando como a vaidade nos pode cegar para a verdade. É uma fábula sobre honestidade e a coragem de dizer o que realmente pensamos. A condição desnudada do candidato tira-lhe a vaidade ilusoriamente oferecida por suas vestes como ilustrado pelo conto acima.

O que pode significar as vestimentas rotas de um mendigo então?

As roupas desgastadas podem ser um símbolo da desigualdade social. Elas lembram-nos que, em muitas sociedades, existem pessoas que lutam diariamente para sobreviver, enquanto outras vivem em abundância. Esta disparidade pode levar-nos a reflectir sobre o nosso papel na sociedade e como podemos contribuir para a mudança, seja através de acções directas, como voluntariado, ou apoiando políticas que promovam a inclusão social.

A ideia de autenticidade é muito valorizada em diversas correntes filosóficas. O mendigo, ao se libertar das expectativas sociais e da necessidade de se conformar a padrões de vestimenta, pode ser visto como alguém que vive a sua verdade. Isto provoca-nos a pensar sobre até que ponto estamos dispostos a abrir mão da nossa autenticidade em nome da aceitação social. O que temos que fazer ou que temos que usar para agradar os outros?

As vestimentas rasgadas também nos fazem reflectir sobre a fragilidade da vida humana. Assim como as roupas podem ser facilmente danificadas, as nossas vidas podem mudar num instante. Esta perspectiva pode ajudar-nos a valorizar mais o presente e as relações que temos, lembrando que o que realmente importa não é o material, mas as experiências de vida e conexões que criamos ao longo do caminho.

Em muitas tradições filosóficas e espirituais, há uma ênfase na importância do interior sobre o exterior. Tais filosofias ainda adoptam para os seus discípulos vestes extremamente simples e únicas. As vestimentas rotas podem simbolizar uma libertação das amarras do materialismo moderno, sugerindo que a verdadeira riqueza reside em valores espirituais como amor, amizade e solidariedade.

Estes temas são profundos e provocativos e podem gerar discussões enriquecedoras sobre como vivemos as nossas vidas e como percebemos os outros, e tal condição do candidato nem no nem vestido oferece tal oportunidade.

O costume do uso da corda na iniciação tem sido abandonado, mas na Maçonaria, a corda no pescoço é um símbolo que carrega significados profundos e variados, reflectindo os princípios e ensinamentos da antiga Maçonaria.

  1. Sinal de Aprendizagem e Humildade: A corda pode ser vista como um lembrete da humildade necessária para a aprendizagem. Assim como a corda pode restringir, ela também simboliza a necessidade de se submeter ao processo de aprendizagem e à disciplina que vem com ele.
  2. Vínculo Fraternal: A corda representa a ligação entre os membros da ordem. Ela simboliza a união dos maçons, enfatizando que todos estão interligados por valores comuns e um compromisso mútuo com o crescimento moral e espiritual.
  3. Representação do Compromisso: O uso da corda também pode simbolizar o compromisso do iniciado com os princípios da Maçonaria. Ele está se ligando a uma nova forma de vida e prometendo seguir os ensinamentos da ordem.
  4. Reflexão sobre a Vida e a Morte: Em alguns contextos, a corda pode ser vista como uma alusão à fragilidade da vida humana. Isso leva os iniciantes a reflectirem sobre a sua própria mortalidade e sobre a importância de viver uma vida virtuosa.
  5. Simbologia da Libertação: Embora inicialmente possa parecer um símbolo de restrição, a corda também pode representar libertação. Ao passar pelo processo de iniciação, o Maçom está se libertando das amarras do egoísmo e da ignorância, buscando um caminho de iluminação.

Estes significados são apenas algumas interpretações das tradições maçónicas, que podem variar entre diferentes ritos e grupos dentro da Maçonaria. O simbolismo é uma parte fundamental da experiência maçónica, incentivando os membros a reflectirem profundamente sobre as suas vidas e sobre o que significa ser parte dessa fraternidade antiga.

Na Maçonaria inglesa, a corda que é colocada no candidato leva o nome de “CABLE TOW”, ou cabo de ancoragem, que nos leva a interpretar como uma forma de “amarrar” ou “ancorar” o novo membro à ordem maçónica. Esta simbologia reflecte a ideia de compromisso e conexão com a fraternidade e os seus princípios. Aqui estão algumas maneiras de entender esse aspecto:

  1. Compromisso com a Ordem: A corda pode simbolizar o vínculo que o iniciado estabelece ao se tornar parte da Maçonaria. Este acto de “amarrar-se” à ordem representa um compromisso sério em seguir os ensinamentos, valores e normas da fraternidade. É um reconhecimento de que ele agora faz parte de algo maior do que si mesmo.
  2. Responsabilidade e Dever: Ao se unir à Maçonaria, o novo membro aceita responsabilidades e deveres em relação aos seus irmãos maçons e à própria ordem. A corda pode ser vista como um lembrete constante dessa responsabilidade, incentivando o iniciado a agir com integridade e ética.
  3. Ancoragem na Tradição: A corda também pode simbolizar a ancoragem do membro nas tradições e na história da Maçonaria. Assim como um barco é ancorado para não se perder no mar, o iniciado é “ancorado” nos princípios e ensinamentos que sustentam a ordem.
  4. Conexão Fraternal: A corda representa a ligação entre os membros da fraternidade, enfatizando que todos compartilham um laço comum. Esta conexão fraternal é fundamental na Maçonaria, onde a solidariedade e o apoio mútuo são essenciais para o crescimento pessoal e colectivo.
  5. Simbologia da Transformação:  O acto de ser “amarrado” ou “ancorado” também pode simbolizar uma transformação pessoal. O iniciado é convidado a deixar para trás velhos hábitos ou formas de pensar que não servem mais ao seu desenvolvimento, enquanto se compromete com um novo caminho de aprendizagem e crescimento.

Assim as demais condições de nem nu nem vestido do candidato, a corda no pescoço durante a iniciação serve como um poderoso símbolo de compromisso, responsabilidade, conexão e transformação dentro da Maçonaria.

Pesquisa por Alberto Feliciano

Bibliografia

  • Berteaux, Raoul – La Symbolique au Grade d`Apprenti, Editions Edimaf 1986
  • Lavagnini, Aldo – Manual del Aprendiz, Editorial Kier 2006
  • Figueiredo, J. G. – Dicionário de Maçonaria – Ed. Pensamento 1985
  • Guilmot, Max Guilmot – Legado do Saber – Biblioteca Rosa-Cruz 2002
  • Pesquisa em sites de IA

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