A Palavra e o Silêncio

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O dom da palavra é lindo, mas a sabedoria do silêncio é perfeita. Você será dono do seu silêncio e escravo da sua palavra.

Há um velho ditado que traduz: “o silêncio é de ouro e a palavra é de prata”. Mesmo assim, as pessoas preferem falar a ouvir. Porque é que isto acontece?

A palavra faz-se com uma só vogal, a, a primeira letra do alfabeto, e quatro consoantes. Há muitas palavras: a de Deus, a de honra, a do rei, a que não volta atrás, e a que se dá para firmar um compromisso ou promessa.

Ao longo da minha vida académica deparei com três situações distintas com relação à palavra e às pessoas. Existem pessoas Palavra, pessoas De Palavra e pessoas da Palavra.

Numa análise rasa, as pessoas “palavra”… hoje são raras… o perfil, a silhueta, a forma de ser, constituem a palavra. Basta um olhar de aprovação ou reprovação e a comunicação foi feita.

As pessoas “De Palavra” estão cada vez mais raras também! Pessoas que sustentam o que falam e cumprem os seus compromissos a qualquer preço.

As pessoas “Da Palavra” são os oradores que se expressam com clareza e firmeza através da oratória.

Diz o poeta que a palavra tem valor quando entremeada de silêncios. A leitura de um bom livro é um diálogo incessante: o livro fala e a alma responde.

Raro é encontrar alguém que lê por prazer e não por dever.

O que seria da nossa cultura sem a matemática de Pitágoras, a geometria de Euclides, a filosofia de Sócrates, Platão e Aristóteles?

Os hebreus imprimiram ao tempo, graças aos persas, um caráter histórico e uma natureza divina. E produziram uma literatura monumental – a Bíblia – que inspira três grandes religiões: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Os livros bíblicos reúnem uma sucessão de factos históricos e alegóricos (parábolas, metáforas, aforismos), entremeados de genealogias, axiomas, provérbios, poemas (Cântico dos Cânticos e Salmos) e detalhes técnicos e ornamentais (a construção do Templo). A Bíblia é, para os crentes, Palavra de Deus e, como tal, proposta de amor. A ponto do profeta Jeremias exclamar: “Tu me seduziste, senhor, e eu me deixei seduzir”. Em cada livro do Antigo Testamento encontramos textos poéticos. No Eclesiastes está escrito: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. O que foi, será, o que se fez, tornar-se-á a fazer: nada de novo debaixo do sol! Destaca-se nele o poema do Tempo: Tempo de nascer e tempo de morrer. Tempo de plantar; tempo de colher; Tempo de matar e tempo de curar; tempo de destruir e tempo de construir; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de gemer e tempo de bailar…

Tira-se o livro dessas tradições religiosas e elas perdem toda identidade e propósito. Livro tem começo, meio e fim. Como a vida. As grandes narrativas favorecem a nossa visão histórica e criam a calda de cultura na qual brotam as utopias. Pois sem utopia não há ideal, e sem ideal não há valores nem projetos.  A literatura é a arte da palavra.

As palavras pesam. Talvez por serem a mais genuína invenção humana. A ânsia de se expressar levou o ser humano a conjugar mente e boca, cérebro e laringe, órgão da respiração e deglutição, para proferir palavras.

O mundo foi criado porque foi proferido: “E Deus disse: “Haja Luz” e houve luz”, conta o autor do Gênesis.

Vivemos sob o signo da palavra. Unir palavra e corpo é o mais profundo desafio de quem busca coerência na vida. A palavra fere, machuca, dói. A palavra levanta, educa, constrói. Proferida no calor aquecido por mágoas ou ira, penetra como flecha envenenada. Obscurece a vista e instaura solidão.

A boa palavra salva. Uma expressão de carinho, alegria, acolhimento ou amor é como brisa suave que ativa as nossas melhores energias. Somos convocados à reciprocidade.

Vivemos cercados de palavras vãs, condenados a uma civilização que teme o silêncio. Fala-se muito para dizer bem pouco.

Guimarães Rosa inicia Grande Sertão Veredas com uma palavra insólita: “ Nonada”. Não nada. Não, nada. Convite ao silêncio, à contemplação, à mente centrada no vazio, à alma despida de fantasias.

Bartolomeu Campos de Queirós (Bartô) era um artesão da palavra. Trabalhava cuidadosamente cada vocábulo, cada frase, até extrair toda a polissemia possível, assim como a abelha suga o néctar de uma flor. Ele escreveu mais de 70 livros. Nos últimos anos da sua vida mais escreveu do que leu. Em 2012 ficou encantado, como dizia Guimarães Rosa e foi morar com Deus. Era um mago das palavras.

Bartô contava nos seus livros que, quando criança ficava intrigado com o mistério de como pouco mais de vinte letras podem registrar na escrita tudo o que a cabeça pensa… A sua escrita é canto, luz, vereda e afago. Cada frase lindamente esculpida!

A escrita constitui uma forma de oração, como bem sabia o salmista. A experiência de Deus antecede e ultrapassa a escrita. No entanto, o pouco que dela se sabe é por meio da escrita; raras vezes por experiência pessoal. Grandes místicos, como Buda, Jesus e Maomé, nada escreveram. O que sabemos deles e dos seus ensinamentos é graças a quem teve o trabalho de redigir.

Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros. Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever, inclusive, a sua própria história. Bill Gates.

Ler é sonhar, poetar, divagar, expandir a fantasia e cultivar a sensibilidade. Quem lê aprende a pensar, discernir, optar e escrever. O grande perigo, hoje, é ver crianças e adolescentes “seqüestrados” intelectualmente pela hipnose televisiva de baixa qualidade “navegando” à deriva na internet. Navegando ou naufragando !!! Com veia poética dizia Castro Alves: “ Oh! Bendito o que semeia. Livros … livros a mão cheia. E manda o povo pensar! O livro caindo n’alma. É germe que faz a palma. É chuva que faz o mar”.

Ler é um exercício de escuta e ausculta. Estudar a literatura, entre outras razões, serve para ler com mais acuidade o livro da vida, cujos autores e personagens somos nós. Quanto mais uma pessoa lê, mais aprende a ler. O importante é não ter medo do livro. Infelizmente, nós, os alfabetizados não temos o hábito da leitura por prazer. Como somos poucos os que compramos livros e lemos, as nossas cidades têm muitas farmácias e poucas ou nenhuma livraria. Como lembra Mário Benedetti: “a literatura não muda o mundo, mas sim as pessoas. E as pessoas mudam o mundo”.

O silêncio é ensurdecedor. Ficar silente é entrar em comunhão consigo mesmo. É sentir a vida brotando de dentro para fora. Retirar-se, recolher-se à solidão, estar consigo mesmo, é uma exigência espiritual e intelectual. Enclausurar-se significa renunciar a convites, festas, atrações, viagens…

O silêncio é a linguagem da alma, é a palavra não dita, é a sabedoria dos sábios. Ele é misterioso e guarda um mundo de ideias e pensamentos não expressos, e sem dizer uma palavra ele emana uma energia boa ou ruim, que pode contaminar o ambiente e se fazer presente.

Ele às vezes assusta quem está perto e incomoda muita gente acostumada a se comunicar por frases, nem sempre bem ditas e que de tão faladas, já não são mais escutadas.

Ele é evitado por muitas pessoas que acostumadas a fugirem de si mesmas, recorrem a subterfúgios como alternativas para não ter que pensar, e assim se escondem no meio de todo mundo e vira um monte de gente igual, que agem de modo similar, sem personalidade e sem vontade própria.

A convivência diária misturada com pessoas de pouca criatividade, que buscam serem iguais aos outros e se satisfazem  copiar ao invés de criar, cultiva gerações pouco interessantes.

O silêncio é primordial para que pessoas especiais submerjam e dê vida a vida.Para quem está em silêncio, a princípio ele pode ser bastante barulhento, é um mergulho na alma.

Ele entra nas profundezas nunca antes exploradas e vai vasculhando, procurando encontrar-se diante de um mundo mágico. Essa viagem é demorada, não precisa de passagem, de dinheiro e passaporte, mas precisa de coragem e persistência. A  medida que se aprofunda o silêncio vai se acalmando, a paz vai evidenciando e a vontade de persistir nele aumenta.

O silêncio é enriquecedor, e quem sabe vai chegar o momento em que a comunicação por ele vai ser mais presente e eficiente. Nos últimos tempos as conversas que se ouve, tanto nos relacionamentos quanto no dia- a- dia de todos ficaram bastante banalizadas e a palavra perdeu realmente o seu valor.

Hoje promete-se muito, fala demasiado sobre tudo e todos e literalmente falam sem pensar, pois se pensassem, se analisassem para falar, não sairia tantos absurdos, tanta incoerência, tanta discrepância. O silêncio ajuda a mente a se organizar e assim contribui para que o indivíduo tenha uma relação melhor com a sociedade e com ele mesmo.

As palavras normalmente possuem dúbio sentido e expressar somente por ela limita um pouco a conversa. Infelizmente é o método mais comum usado. A linguagem corporal apresenta também interpretação própria e o que acontece é que às vezes o corpo fala uma coisa e a palavra fala outra.

Então, é interessante escutar aquilo que a palavra e o corpo não falam. É muito mais complicado do que grande parte das pessoas imagina. E quem pratica o silêncio, fala com o olhar, com sentimento, vai além, observa , espera a sua vez, não tem pressa.

O ser humano que aprendeu a silenciar a sua mente fala o que tem quer ser dito com critério, e uma vez dito, porque ter que falar sempre a mesma coisa. Ele é pragmático e expressa-se acertadamente, pois quando fala, é que muito já foi trabalhado no seu interior.

O silêncio é a solidão de cada um, é um oceano ilimitado, e é nele que se encontra a paz, a serenidade. Cada um tem as suas riquezas, tem o seu saber, e é dentro de si que as respostas se apresentam. Elas estão lá dentro te esperando, entre, te contemple, medite e de vez em quando sai e deixa o seu rastro por onde passar. Deixe as pegadas de sabedoria, amor e luz.

O silêncio

Onde quer que você esteja, seja a alma deste lugar.

Discutir não alimenta.

Reclamar não resolve.

Revolta não auxilia.
Desespero não ilumina.
Tristeza não leva a nada.
Lágrima não substitui suor.
Irritação intoxica.
Deserção agrava.
Calúnia responde sempre com o pior.
Para todos os males, só existe um medicamento de eficiência comprovada.
Continuar na paz, compreendendo, ajudando, aguardando o concurso sábio do Tempo, na certeza de que o que não for bom para os outros não será bom para nós…
Pessoas feridas ferem pessoas.
Pessoas curadas curam pessoas.
Pessoas amadas amam pessoas.
Pessoas transformadas transformam pessoas.
Pessoas chatas chateiam pessoas.
Pessoas amarguradas amarguram pessoas.
Pessoas santificadas santificam pessoas.
Quem eu sou interfere diretamente naqueles que estão ao meu redor.
Acorde…
Se cubra de Gratidão, se encha de Amor e recomece…
O que for benção pra sua vida, Deus te entregará, e o que não for, ele te livrará!
Um dia bonito nem sempre é um dia de sol…
Mas com certeza é um dia de Paz.

Chico Xavier

A Arte da Palavra

A oratória é a mais típica e a mais gráfica manifestação da arte, porque é a arte da palavra – da palavra que é a vestidura do pensamento, da palavra que é a forma da ideia, da palavra que é nítida voz da natureza e do espírito, da palavra que é tão leve como o ar e tão irisada como a mariposa, da palavra que é transparente como a gaze e tão sonora como o bronze, da palavra que cicia como a aura e troa como o canhão, que murmura como o arroio e ruge como a tormenta, que prende como o ímã e fulmina como o raio, que corta como a espada e contunde como a clava, que fotografa como o sol e acarinha como o fogo; da palavra que ostenta a majestade da arquitetura, o relevo da escultura, o matiz da pintura, a melodia da música, o ritmo da poesia, e que pelos seus rendilhados e riquezas, pelas suas graças e opulências, aclama a oratória, rainha das artes, e o orador – rei dos artistas!

Alves Mendes

Carlos Gabriel Rachid Lacerda

Bibliografia

  • Ofício de Escrever – Frei Betto
  • Código de Inteligência – Augusto Cury, Dr.
  • Chico Xavier – Espiritualista
  • O Poder da Palavra – Martin Claret
  • Palavras que Curam – Douglas Block
  • O Mago da Palavra – Og Mandino
  • A Arte da Palavra – Alves Mendes
  • O Cavaleiro Preso na Armadura Robert Fisher
  • Vários livros de Oratória Reinaldo Polito

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One thought on “A Palavra e o Silêncio

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    Caríssimo GABRIEL RACHID, saudo-vos.

    Sua LAVRA é de um HOMEM PALAVRA, com ALICERCE num HOMEM DE PALAVRA à EDIFICAÇÃO monumental de um HOMEM DA PALAVRA; parabenizo-o, pois!
    Todavia CARO IRMÃO, é magistral a CRÔNICA XAVIERIANA O SILÊNCIO.

    Obrigado,

    Dr Jairo Corrêa

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