O conceito Conatus e a Maçonaria

Partilhe este Artigo:

Origem

conatus
Diversos filósofos aplicam o conceito Conatus na explicação da origem da violência que tira a liberdade do homem: aquela que o impede de andar com as forças da sua própria iniciativa, escravizando-o através de paixões e desejos.

Trata-se de um verbo latino que dá tratamento filosófico à compreensão e determinação necessárias para se tornar livre, continuar a existência e aprimorar-se na linha de tempo reservada para a vida: a base da vivência maçónica.

Tem aspectos positivos e negativos que são interessantes de serem analisados, pois exercita uma dicotomia que auxilia no entendimento do ser.

Sem que muitos o percebam, é parte das grandes provocações que a Maçonaria faz aos seus adeptos, já desde o primeiro psicodrama do simbolismo: a cerimónia da iniciação; ocasião em que o iniciando é instado se deseja persistir mesmo em presença da luta interna contra rejeição, desejo e paixão.

Baruch Espinoza

Para Baruch Espinoza o conceito Conatus é:

  • O desejo de viver, existir;
  • Esforço que se manifesta na consciência em direcção da auto-perseverança para continuar existindo;
  • A vida repleta de desejos dos quais depende o usufruto da vida;
  • Onde o homem é essencialmente composto de desejos;
  • A potência de agir e resistir;
  • A essência da humanidade que varia de acordo com a intensidade da auto-preservação onde não ter desejos é suicidar-se: é morte!

Como viver sem se submeter a desejos que escravizam à existência?

Como perseverar na vida com qualidade debaixo do princípio de auto-conservação natural que pode levar à escravidão?

O conceito Conatus tem diversas significações em resultado do instinto e livre-arbítrio naturais contrapondo-se ao exercício consciente da liberdade.

Desejo

Desejo é potência, capacidade de realizar, força que leva à acção.

Tudo que resulta em acção é resultado de desejos.

É nisto que se baseiam os oportunistas para exaurir a força da maioria dos humanos: exploram os outros através dos seus próprios desejos. Os abusadores deduziram que o homem está construído mais para desejar que para raciocinar.

Pensar é actividade cansativa, para alguns até dolorosa.

Poucos pensam!

A absoluta maioria da massa humana prefere receber o produto de outros pensadores e levar a vida apenas nutrindo os seus apetites e desejos primários: são aqueles que estacionam na base da Pirâmide das Necessidades de Maslow, ao nível das necessidades fisiológicas, e dificilmente alcançam ao estágio da auto-realização.

O homem exibe em primeiro plano os resultados dos seus desejos e não o resultado da sua capacidade racional.

Os desejos e paixões não deveriam ser a raiz de todo mal, perversidades e perturbações, mas, em resultado da preguiça, são!

Por indolência ou por perversidade, as paixões e desejos escravizam o homem. E o pior, é o próprio escravo que assim o deseja, preferindo a prisão no recôndito das suas paixões que ser livre com responsabilidade.

Daí ser o Maçom instado em combater o bom combate para vencer as suas paixões escravizantes e praticar as boas paixões para servir e trazer felicidade para si mesmo e aos conviventes.

Mas como matar o motor do desejo que movimenta o homem ao erro e submissão sem matar o Conatus, a sua iniciativa de persistir em evoluir independente?

Usando deste elemento motor para desenvolver, pela racionalidade, apenas o lado bom e livre desta potência natural.

Na Maçonaria é oferecida a oportunidade de desenvolver a capacidade de iluminação, o desejo de andar com as próprias forças, sem auxílio ou tutela de outros, nutrindo os próprios desejos naturais sem se submeter ao desejo de terceiros em virtude de preguiça para evoluir utilizando dos recursos do seu próprio discernimento.

Fraternidade

A convivência fraterna, e sem necessidade de escudos hipócritas, têm potencial para libertar o homem.

A fraternidade existe para proporcionar experiências alegres e agradáveis que levam ao desenvolvimento de forças de ataque e defesa para derrubar desejos que degradam.

A iluminação maçónica tem a pretensão, não a certeza, de propiciar o meio onde a potência para existir com qualidade seja aumentada. Tudo depende de como cada um reage diante da provocação da Maçonaria que, pela fraternidade, induz às experiências alegres de convivência, afastando os adeptos de situações dolorosas e tristes causadas pela tirania, opressão e prepotência de minorias sobre maiorias.

Os encontros efectuados em loja, com a sua ritualística e actividades cognitivas cultas, levam a desfrutar da vida com alegria e utiliza a acção Conatus no seu sentido positivo, presta-se a induzir perseverança para continuar na autoconstrução. A loja é semelhante a uma família e ao mesmo tempo uma escola de conhecimentos. Os mestres têm a obrigação de promover actividades e eventos que alimentem o Conatus dos demais associados de tal forma a aumentar a sua potência e desejo para a vida fraterna. Não se trata exclusivamente de festividades sociais, mas de reuniões alegres que promovam o bem, o culto, o erudito. Os banquetes maçónicos são culturais. De um lado apreendem-se conhecimentos e de outro, estes mesmos saberes são servidos e distribuídos aos conviventes. É um sistema de trocas que funciona por indução: impossível de representar em linguagem oral ou escrita porque afluem forças que são sentidas, mas ainda impossíveis de serem verbalizadas.

Desta forma são construídas personalidades fortes que agem na sociedade em todas as suas dimensões.

Desenvolvem-se líderes e não títeres.

Despertam potencialidades que levam ao desenvolvimento de gestores dos próprios destinos e transformadores da sociedade para desfrutar daquilo que a natureza oferece.

O objectivo é lúdico e ao mesmo tempo de árduo trabalho na auto-construção.

O centro é o homem Maçom.

É uma experiência espiritual.

A mudança, de forma agradável, é centrada no Maçom, no adepto, e não nos homens da sociedade. A sociedade é afectada por consequências das acções dos maçons.

É o homem forjado nas oficinas da ordem maçónica que vai fazer a diferença na sociedade onde tem a potencialidade de conduzir o seu destino e ajudar outros a se desenvolverem de igual forma.

Teoria da Afectividade

O conceito Conatus é central dentro da teoria da afectividade.

O operador dinâmico é o Maçom e a sua afectividade enquanto ser concebido como tendo uma natureza comum.

A amizade é estratégica no procedimento de elevar a capacidade de perseverança, de Conatus, para o desenvolvimento ao bem.

O sucesso da actividade maçonicamente orientada depende e é inseparável dos laços que se formam entre os irmãos. O próprio tratamento como irmandade já implica na exigência de camaradagem na actividade lúdica e cultural.

A acção Conatus é um esforço que não possui objecto, mas é estratégica: é uma potência de agir dentro da fraternidade, seguindo a teoria da afectividade, com fortes possibilidades de conservação do desejo de fazer o bem para a humanidade. Assim, o Maçom produz os frutos resultantes da própria produtividade dos dons afectivos que a natureza disponibilizou dentro dele.

Os aspectos positivos do conceito Conatus são as decisões internas que, necessariamente, passam pela vontade de viver em sociedade com outros seres vivos; “o homem é, por natureza, um ser social” (Karl Marx).

Thomas Hobbes

Segundo Thomas Hobbes, o conceito Conatus é indispensável na análise da concepção da natureza humana, em:

  • Tudo aquilo que, de alguma forma, propicia a vida em resultado do desejo e da vontade individual;
  • Um fogo interno que move o homem a se dirigir àquilo que lhe traz prazer e o afasta do que o desagrada;
  • Acção sem imposição externa: resultante do esforço em perseverar;
  • Capacidade natural de auto-conservação: característica racional humana em resultado da consciência de preservação da vida;
  • Preservar a essência interna do homem livre;
  • Manter um estado natural de vida do homem em sociedade.

Por outro lado, a característica natural do conceito Conatus é observada também em aspectos negativos, caracterizado por:

  • Egoísmo do homem que, desassossegado, deseja poder sempre mais que os outros, tendência que o acompanha até a morte;
  • Inclinação que move o homem a vencer sempre;
  • Luta no acumulo de recursos para além da necessidade;
  • Guerra de todos contra todos na vida social;
  • Homem governado pelas suas paixões, que acha possuir o direito natural de se apoderar do que bem entender;
  • Aquilo que impulsiona o homem a ultrapassar ao outro na vida social, de onde afloram sentimentos de perdedor e vencedor;
  • Disposição que torna os homens iguais em força quando o fisicamente mais fraco adquire a capacidade de matar o fisicamente mais forte ao usar de estratagemas mais espertos.

Subjugar o outro é característica natural do homem enquanto selvagem ou enquanto não vence a si mesmo. A sua tendência natural é de sempre subjugar os da própria espécie, explorando e exaurindo a força de produção do outro, dando o mínimo ou nada em troca.

Segue a máxima: “estamos aqui para comer uns aos outros”.

Esta disposição mental violenta e agressiva pode ser moderada quando cada indivíduo ingressa de forma responsável na vida social: uma das fortes propostas da Maçonaria: pela igualdade, mesmo em presença das diferenças.

O estudo dos contrates do conceito Conatus proporciona o entendimento de como funciona a violência humana decorrentes do despotismo, da arrogância e da prepotência de indivíduos, pessoas e grupos.

Ao Maçom, a dicotomia do conceito Conatus aponta caminhos para:

  • Tornar-se bem sucedido e evitar ser presa daqueles que se acham com mais direitos.
  • Fomentar relacionamentos onde todos levam vantagens, não necessariamente igualitárias, mas justas.
  • Ajudar no entendimento das razões da existência da violência, traduzindo-a como característica natural do livre-arbítrio que pode ser superada pela transformação consciente.

Liberdade e Livre-arbítrio

A acção humana é livre na proporção em que o actor entende como funciona a sua determinação, o seu exercício de Conatus. O pensamento correcto de liberdade advém da análise das possibilidades, onde liberdade e possibilidade são ideias independentes. A liberdade consta de possibilidades de acções e ideias independentes.

Aprende-se na Maçonaria que o homem só se pode considerar livre se, na sua caminhada pelo mundo, tiver ao seu dispor a possibilidade de escolher racionalmente entre alternativas. É a razão da pugna da ordem maçónica em oferecer liberdade para toda a sociedade humana. Assim, ela desenvolve homens com conhecimento da liberdade que se manifesta àqueles que obtêm consciência da autodeterminação: do Conatus.

O Maçom constata esta liberdade quando descobre que nada existe fora dele mesmo que lhe imponha uma direcção: é o exercício do Conatus voltado ao esforço de atender a tendência de ser livre para persistir em existir e evoluir continuamente.

Com este entendimento, não se confunde liberdade com livre-arbítrio:

  • Liberdade – Livre-arbítrio
  • Autodeterminação: a decisão vem do depois de pensado e avaliado. – Agir sem motivos ou finalidades: em resultado de impulso natural e instintivo.
  • Limitada e racional. – Ilimitado: manifesta-se sem razão ou objectivo.
  • Racional; artificial, dissimulada. – Emocional, instintivo, natural, franco.

O autoconhecimento livra o homem do obscurantismo assim como a autodeterminação leva o homem a desfrutar da liberdade com coerência.

Gostar de alguma coisa, considerando que possa ser resultado de imposição de modismos ou propaganda da comunicação social, não implica em falta de liberdade, desde que a acção, ou gosto, seja resultado de desejo interno, particular. É liberdade desde que o gosto pertença à pessoa em resultado da sua autodeterminação.

Já o livre-arbítrio não passa de uma ilusão da imaginação, espécie de conhecimento inicial. Livre-arbítrio, na óptica de Baruch Espinoza, é um preconceito primordial, fonte de todos os outros preconceitos.

Conceito e Acção Conatus

Em diversas oportunidades da jornada, o adepto Maçom é levado explorar e reforçar a sua inclinação latente e congénita de existir com qualidade e de se aprimorar como pessoa humana na acção Conatus que lhe é inerente.

A melhoria pessoal ocorre na mente, no espírito, na psique e na matéria. Mudança que acontece em todas as dimensões humanas com vistas a produzir um ser humano melhorado em condições de persistir, de aplicar Conatus na sua jornada.

A exploração do conceito Conatus, nos seus aspectos positivos, evita a vaidade congénita que tende ao desejo de querer ser mais importante que o outro, daí constar na divisa da Maçonaria: a igualdade. Não existe igualdade sem fraternidade e liberdade. Assim sendo, a acção Conatus impulsiona ao equilíbrio: ocorre aporte de determinação e persistência quando se exercitam igualmente igualdade, liberdade e fraternidade.

Ao frequentar as sessões maçónicas, lentamente, em resultado de fraterna convivência, o Maçom se modifica e domina a inclinação de reinar sobre os demais, considera-se igual e, com isso, propicia a liberdade de si mesmo. Entender isto é iniciar-se em espírito: abraçar uma vibração energética que fica acima da realidade perceptível aos sentidos. Ao vencer a vaidade e a soberba torna-se irmão, inicia-se Maçom: é reconhecido Maçom. Assim, a sua regularidade como Maçom vai muito além dos sinais, toques e palavras. Demonstra que entendeu a mensagem da cerimónia de iniciação: a dramatização da iluminação maçónica. Entendeu que está no Universo para servir os seus irmãos e à sociedade: “a Maçonaria está nele!” —, dizem sem falsa retórica os mais adiantados.

Aprendeu bem e responde favoravelmente às provocações da Maçonaria nos seus rituais: faz o bem e modifica-se em resultado da prática do bem. Para um homem assim, os diplomas, as medalhas, os aventais, os colares e outros penduricalhos traduzem expressões de vaidades! Encontrou o poder e a riqueza que edifica o seu próprio templo vivo nas virtudes que estão no espírito! Desta forma a acção do Conatus faz o homem persistir em evoluir constantemente.

A jornada modificadora interna do Maçom segue em ascendência por uma senda que é semelhante a uma escada dupla que sobe de um lado e desce pelo outro. De um lado, enquanto o Maçom sobe, ele é servido pelos seus irmãos de conhecimentos e ciências, e de outro, enquanto desce pela escada, baseado em virtudes, ele serve os seus irmãos. É um exercício de humildade sem precedentes, haja vista a característica natural negativa do conceito Conatus aplicada ao ser humano leva o homem a se sentir naturalmente mais importante que o outro. Servir sem esperar nada em troca é o altruísmo mais elevado que o Maçom pode alcançar! Com isto ele serve qual construtor de templos vivos numa sociedade perdida, pervertida e alienada a um sistema terrível de usura e escravatura.

Livre da escravidão ao sistema florescem qualidades internas que edificam o carácter. O ritual maçónico instiga ao hábito das coisas a serem desenvolvidas no dia-a-dia em todos os lugares.

E do hábito amadurecem grandes maçons que vencem o teste do tempo!

Sem confundir liberdade com livre-arbítrio e longe de se afectar com a perda de liberdade com a evolução científica, o Maçom iniciado no espírito — que vive uma experiência espiritual — usa dos conhecimentos e criações científicas para servir a si e aos seus irmãos.

O conceito Conatus é entendido e utilizado nas suas dimensões positivas e de construção do desejo e da paixão para o bem: é essencial na manutenção da perseverança para realizar a caminhada da modificação em sentido lato do ser para o bem.

O Maçom iniciado no espírito — naquele onde a Maçonaria penetrou em resultado das reiteradas provocações — é o mestre servidor dos seus irmãos. A sua alma purificada pelo serviço prestado aos irmãos faz o seu corpo resplandecer! Este brilho, esta luz é resultado positivo da acção Conatus, do ensino e do apoio dado aos irmãos porque é com isto que se dá honra e glória ao Grande Arquitecto do Universo!

Charles Evaldo Boller

Bibliografia

  • PAES LEME, André, Spinoza: o Conatus e a Liberdade Humana.
  • LIMONGI, Maria Isabel, Hobbes e o Conatus: da Física à Teoria das Paixões.
  • PEREIRA, Rafael Rodrigues, o Conatus de Spinoza, Autoconservação ou Liberdade.

Artigos relacionados

Partilhe este Artigo:

One thought on “O conceito Conatus e a Maçonaria

  • Avatar

    Saudações fraternais Charles Boller,
    Lavra em prancha de excelência, arrazoado magistral em desiderato demonstrar que o MESTRE MAÇOM É HUMILÍSSIMO SERVIDOR DE SEUS IRMÃOS à exemplo do LAVAPÉS do EXCELSIOR MESTRE de todos os MESTRES, Jesus de Nazaré.

    Sou-lhe GRATO,

    DR JAIRO CORRÊA

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *