Ainda sobre sucessão…

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sucessão

“Já vi muitas coisas acontecerem na Maçonaria. Rostos novos que partem, ideias jovens castigadas, opiniões petrificadas, projectos que nascem e morrem, Lojas que desaparecem…” [3].

Gratidão

Os textos do Irmão Rui Bandeira [1], realmente são atemporais.

A sua sagacidade permite que digamos que o Irmão Rui é daqueles que trazem benefícios tanto para o micro, quanto para o macroambiente maçónico. Micro, nós maçons, nos constantes ensinamentos que nos proporciona nos seus escritos; macro, a Instituição, pelas muitas contribuições para o seu progresso e evolução.

Dizendo isto, expresso a avidez que tenho de ler os seus escritos em qualquer oportunidade.

Testemunho

Faço parte do conjunto de obreiros da ARLS Palmeira da Paz nº 2121, Benfeitora da Ordem, do Oriente de Blumenau e jurisdicionada ao Grande Oriente do Brasil/Santa Catarina; recém completou 42 anos de, como qualquer outra Loja Maçónica, muita luta e trabalho, decepções e realizações, sucessos e frustrações.

Destes, compartilho quase trinta anos e, consuetudinariamente, sempre seguimos este caminho sucessório; se os conhecidos truques das nossas memórias não me desautorizarem, não recordo qualquer problema testemunhal significativo.

Não posso afirmar categoricamente que não tenha ouvido algum comentário desairoso sobre possíveis condutas beirando, como diz o Irmão Bandeira, a formação de “cliques” (ou grupos dominantes).

Confesso que no espectro enevoado das minhas lembranças, estes comentários costumam vir de “participantes anónimos”, ou seja, aqueles que comparecem pouco por uma crónica e sempre justificada falta de tempo devido a compromissos variados – familiares ou profissionais, que impedem alguma priorização pelas actividades em Loja e, por corolário, o convite para cargos mais trabalhosos que exigem dedicação presencial, encetando, destarte, um círculo vicioso difícil de romper.

Nesta trilha sucessória, não costumamos renunciar a um aspecto: a liberdade para que o Venerável Mestre eleito, após as conversas e consultas que encontrar apropriadas, faça o convite ao Irmão que, dentro de certas premissas, lhe pareça mais adequado para assumir o importante cargo de 2º Vigilante, buscando, desta forma, manter a necessária harmonia administrativa.

Esta escolha deve então, como dito, obedecer a algumas premissas básicas intrinsecamente arraigadas nos nossos “usos e costumes”:

  1. A hierarquia temporal: os mais antigos que, por alguma razão, não tenham podido exercer as funções no passado, devem ser consultados e contemplados, se assim o desejarem, com uma nova oportunidade.
  2. A participação do Irmão não deve ser somente presencial, mas fundamentalmente, demonstrar comprometimento efectivo com os Irmãos e com os objectivos da Loja; envolvimento não basta!
  3. Ter a previsão de disponibilidade para, num futuro bem próximo, seguir a “carreira” sucessória, galgando a Primeira Venerabilidade e, em sequência, a própria Venerabilidade.

Obviamente, imprevistos fazem parte da vida, mas não nos interessa apenas “um vigilante”.

É uma acção sucessória saudável, pois dá tempo à aprendizagem, à discussão e participação em decisões necessárias em momentos distintos e por motivos diferentes, além de permitir um planeamento conjunto a médio e longo prazo.

Discordância

Contudo, não é o testemunho acima que me induziu a escrever estas tortas linhas, pois este comportamento deve estar registado e espalhado em inúmeras lojas do mundo maçónico global, com poucas ou muitas diferenças, seja o processo autocrático ou consuetudinário.

Quanto mais respeitamos alguém, maior a tendência de desculparmo-nos das nossas discordâncias. Logo, exponho-me às críticas interpretativas.

Mas discordar é evoluir; discordar é, talvez, uma das acções que mais contribuíram para a evolução humana em quaisquer das suas infinitas actividades.

O que me motivou não foi tanto a preocupação expressa com o facto objectivo da possibilidade de concentração de poder em grupos – isto é quase uma tendência natural nas actividades sociopolíticas e económicas do ser humano; mesmo que, como cita o Irmão Rui, este poder, dentro de uma Loja Maçónica, seja apenas “ilusório[1]. Mas poder é poder e o “… perigo de formação de uma “clique” que se autoperpetue no “poder” da Loja[1] é um risco sempre presente.

Mas foi, indubitavelmente, o aconselhamento resolutivo expresso na abordagem deste risco que me trouxe preocupações.

Diz o Irmão Bandeira [1], que

“… se se instituísse uma “clique” de poder numa Loja, facilmente os que estavam fora desse “círculo” poderiam resolver o problema: basta juntar sete Mestres para peticionar a constituição de uma nova Loja e deixar os sedentos do poder a ficarem a “mandar” … neles próprios…”.

Angustiou-me, especialmente vindo de Irmão tão influente, o argumento de que a quaisquer interpretações, insatisfações individuais ou de “cliques” opositoras, tenhamos que resolver o imbróglio de forma tão drástica.

É convicção pessoal de que estas mesmas “cliques”, embora proclamando o contrário, terminarão por formar um novo núcleo de poder – ou “cliques – que, por argumentos vários, irão querer influenciar nos destinos da nova loja, possibilitando que, no futuro, se forme outro núcleo de oposição que, rompendo novamente o ciclo desenvolvimentista, buscará constituir uma nova loja e… isto não termina! É a concretização da quimera do moto-contínuo.

Embora, não directamente relacionado ao tema exposto, sempre me impressionou como a constituição de lojas é um aparente deleite para os que exercem os poderes centrais; dá a nítida impressão de que está havendo crescimento institucional na contabilização dos números, servindo, como sói acontecer, de mote para relatórios de sucesso administrativo; qualidade não é uma meta política em qualquer sector da actividade humana.

A divisão nunca será somatória; portanto, a conta não é de adição, é de subtracção, dependendo o critério de análise utilizado; ou seja, quando dividimos criamos dois números menores!

Todos sabemos das dificuldades de manter grupos unidos e harmónicos em torno de ideias ou objectivos filosóficos, filantrópicos e educativos; todos sabemos das dificuldades crescentes de uma Loja Maçónica Regular se manter e se afirmar, económica e institucionalmente. Não aceito, pois, muitos argumentos para as constantes divisões que assistimos; na minha visão, isto não fortalece a Instituição; deveríamos buscar com denodo ser gregários e lutar contra as dissidências internas; afinal somos irmãos, livres e de bons costumes e devemos lutar por nossas ideias e ideais até o último recurso existente dentro do que nos possibilita as nossas constituições, regulamentos e regimentos; ninguém e nenhum poder é eterno.

Convivemos com um símbolo que nos é exposto a cada entrada no Templo e que nos ensina a necessidade de aceitarmos as diferenças: o piso mosaico.

Mas ele não nos ensina aceitação e fuga!

Repetimos ao cansaço que somos “livres e de bons costumes”.

Mas isto não nos impede de sermos proactivos, e sim, nos desaconselha a simplicidade aparente da emocionalidade reactiva.

Dizemos que Maçonaria é “[…] um belo sistema de moralidade velado em alegoria e ilustrado por símbolos[2].

E isto deveria servir de base para que usássemos a nossa inteligência e a nossa razão para não renunciarmos ao nosso lugar em loja e na Instituição; luta e não fuga!

Orgulhamo-nos mais, ao afirmarmos que é “[…] é uma ordem fraternal de homens ligados por juramento[2].

É o argumento que apregoa união e não separação; costumo ver pessoas mudando uma insatisfação por outra, apesar de muitas vezes colocarem a mão sobre o Livro Sagrado, jurando fidelidade e outras coisas a mais.

Afinal e sem outros comentários, que a Instituição que devemos amar e praticar é

“(…) moderada, universal, e liberal quanto a permitir que cada indivíduo forme e expresse a sua própria opinião, mesmo sobre o que a Maçonaria é, ou deveria ser, e convida-o a melhorá-la, se puder[2].

E tantos outros bordões a mais!

Para qualquer empoderado, seja indivíduo ou grupo, é fácil vencer o envolvimento, mas muito difícil vencer o comprometimento.

“Talvez, em vez de mudar tudo ou deixar tudo na mesma, o que precisamos é de uma conversa honesta” [3].

Walter Roque Teixeira – CIM 184.372, ARBLS Palmeira da Paz nº 2121 – Oriente de Blumenau – GOB/SC – GOB

Referências

  1. Bandeira, Rui – A “linha de sucessão”:
    1. https://www.freemason.pt/a-linha-de-sucessao/
    2. https://a-partir-pedra.blogspot.com/2008/05/linha-de-sucesso.html
  2. Ismail, Kennyo – O que é a Maçonaria?
    1. https://www.noesquadro.com.br/conceitos/o-que-e-a-maconaria/
  3. Michel, Ivan Herrera – Maçons velhos e jovens: tradição e mudança ou “Masoneria em Tensión. El Reto de Reconciliar Generaciones”.
    1. Maçons velhos e jovens: tradição e mudança – Maçonaria e Maçon(s)
    2. https://ivanherreramichel.blogspot.com/2024/12/masones-veteranos-y-jovenes-tradicion-y.html

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